Os treinadores transmitem as suas ideias nos treinos, escolhem
os seus atletas para o jogo, mas durante 90 minutos são os jogadores quem manda
na equipa. Mandam pois são eles que tomam as decisões em campo, são eles os
responsáveis pelos erros e acertos individuais e colectivos e são eles que em última
análise marcam o golo. Obviamente, o que farão em campo é não só um reflexo do
que treinaram mas também das suas características individuais.
Quer em Paris, quer em Barcelona o PSG jogou com um duplo-pivot. Em Paris
jogaram a titular Matuidi e Beckham enquanto em Barcelona jogaram Thiago Motta
e Verratti. Foram 4 lugares e 4 jogadores diferentes em 2 jogos.
Analisando os jogadores, Matuidi tem 1,75m e 70 kg, Beckham tem 1,83m e 75kg,
Motta 1,87m e 83kg e Verratti 1,65m e 60kg. Logo aqui percebemos que estes
jogadores têm características diferentes e só pelo seu físico ofereceriam
diferentes soluções à equipa (bolas paradas, por exemplo). Embora por vezes
importante, estes atributos físicos neste caso não me parecem muito
importantes; observemos outros.
Matuidi é fundamentalmente um médio recuperador de bolas que
consegue pela sua capacidade física pressionar os adversários em todo o campo e
durante todo o jogo, apoiando também o ataque; é contudo limitado tecnicamente,
joga fundamentalmente curto, é pouco criativo e é impetuoso. Beckham é um ala
adaptado a médio, tem grande capacidade de passe (curto e longo), muita
técnica, inclusive nas bolas paradas, boa visão de jogo e é muitíssimo
experiente; no entanto é pouco agressivo, é lento e não está numa boa forma
física. Motta é de todos o melhor tacticamente e nesta posição o mais
experiente, tem boa técnica de passe, boa visão de jogo, o que permite
equilibrar bem a equipa; porém é lento sem bola. Verratti é dos quatro o que
melhor gere os ritmos de jogo, o mais criativo, o que tem melhor visão de jogo
e melhor técnica individual; contudo é o mais fraco fisicamente e o mais inexperiente.
Dos 4 Matuidi é o que oferece soluções mais diferentes e Motta parece ser o
mais completo.
Em Paris, em função dos jogadores escolhidos, o duplo pivot não funcionou
particularmente bem, na minha opinião. Matuidi tentou pressionar, mas
pressionava sozinho, Beckham sem ritmo tentava fechar os espaços mas não
conseguia fechar o seu e o de Matuidi, que corria sempre atrás da bola. A
equipa ficou desequilibrada a meio campo e tornou-se mais fácil ao Barcelona
controlar o meio-campo e por conseguinte o jogo. A construção de jogo era menos
eficaz porque Matuidi não oferecia grande versatilidade.
Em Barcelona, com o Motta e Verratti o PSG controlou bastante melhor o jogo. Ambos
preocuparam-se pouco em correr atrás da bola (na recuperação da mesma) e focaram-se
mais em fechar o meio do campo, pressionando no seu meio campo defensivo (sem
arriscar o desarme) e acabaram por conseguir conter os médios do Barça. Em vez
de roubarem a bola, roubaram o espaço e tornaram o jogo mais difícil. Quando
com a posse de bola a equipa funcionou melhor também, os dois pivots ofereciam
boa qualidade de passe, fundamentalmente longo e vertical, sendo que Verratti
arriscou várias vezes sair em posse de bola. Com mais controlo e mais posse de
bola, foi mais fácil para os quatro jogadores da frente de ataque criar perigo
e a equipa foi mais perigosa.
Convém referir que Matuidi estava suspenso neste jogo, pelo que a escolha deste
duplo-pivot pode ter sido forçada por tal e não uma opção “real” do Ancelotti.
De qualquer forma pareceu-me que a escolha acertada é a de Barcelona.
Os 4 jogadores acima referidos treinam juntos todos os dias, trabalham os
mesmos princípios de jogo, as mesmas movimentações e recebem os mesmos
estímulos. O que os torna diferente é a maneira como agem e decidem em função
dos estímulos recebidos. O segredo do treinador é assim, o de perceber quais os
jogadores certos para interpretar o que deseja para a sua equipa e para
determinado jogo.
8 comentários:
Beckham, Verratti, Motta, Pastore , Lucas e Ibra seriam às minhas escolhas.
442...
Quanto ao Matuidi não percebi muito bem o que achas dele. Eu acho que com esse leque de opções, comigo jogava muito pouco.
Não gostam do Matuidi?
Se eu fosse o Ancelotti, resgatava a táctica que ele usou no Milan há uns anos, com Pirlo, Gattuso e Ambrosini no meio campo. Jogaria com o Verrati a "trinco"(construtor de jogo), o Motta a fazer de Ambrosini e provavelmente o Matuidi a fazer de Gattuso. Mesmo assim, sobram o Beckham (talvez a trinco) e o Clement. Gostava de falar sobre este assunto num futuro artigo...
Há uns anos o meu pai disse que o Tinga, na altura do Sporting era "um gajo que recuperava a bola, pra depois a perder uns metros a frente". O Matuidi lembra-me um bocado esse tipo de jogadores. Muita correria, muita luta, muita entrega, mas depois acaba por perder clareza. Deste tipo de jogadores, pra mim há o Ramires como referência e poucos chegam ao seu nível. Imagino-o a entrar na segunda parte, pra causar desequilibrios e a recuperar bolas, quando os adversarios nao estao tao bem.
Boas José.
Falando por mim, e tendo os outros 3, prefiro qualquer um deles. Por exemplo ao contrário do Gonçalo acho que Beckham foi mvp em Paris.
Agora, dentro de uma dinâmica de rotação e de jogadores com perfil diferente, dependendo da estratégia, iria sempre contar com ele. Eu não desgosto dele, acho que é um jogador útil e tem muitas características interessantes.
Eu não jogaria assim , Blessing...
Provavelmente conseguiriam ter mais posse de bola que a que tiveram mas menos capacidade de romper a defesa.
Lavezzi apareceu pouco ontem mas a ideia era boa e Lucas desequilibrou bastante individualmente na 1ºparte com Ibra a segurar os 2 defesas. Pastore fez um jogo de sacrifício que me parece ter fugido um pouco aquilo que são as características dele. Fechou muito as laterais e apareceu em apoio no ataque ficando pouco a cargo dele a construção do jogo. Mesmo assim entre ele e Menez se calhar priveligiava alguem que tivesse alguma cultura de posse daí Pastore.
Dito isto, a equipa nao fugiria daquilo que foi.
Algo preocupante tem sido ver o Barcelona a jogar, se algum de vós quiser escrever um pouco sobre o Barça atual, parece-me uma equipa cujo seu estilo de jogo sem velocidade de pensamento e acção está mais controlado pelos seus adversários.
Sim, já tinha aqui escrito no início da época. Vou tentar fazê-lo Postiga.
Quanto a capacidade de romper a defesa, ia depender da criatividade dos jogadores com bola. Que pelas suas características individuais, não iria ser problemático.
Abraço
Gonçalo então metias o Matuidi quando o adversário não está bem. Ou seja, penso que queiras dizer num momento de menor qualidade do adversário no jogo, o que implica que o seu jogo seja menos difícil de anular.Não sei onde te baseias para considerar que nas segundas partes o adversário está menos bem. Mas que seja assim. No entanto, sugeres que o jogador "que acaba por perder a clareza". Percebo então que colocarias o Matuidi num momento de fragilidade adversária, para acrescentar menos clareza ao teu jogo.
Parece-me que o mais lógico seria colocar algum jogador com mais "clareza". Maior capacidade de ter bola, de desequilibrar, de criar.
Zandonaide, só vi o comentário hoje, peço desculpa pela resposta tardia.
Nunca jogaria de inicio numa equipa minha. Numa fase mais avançada os jogadores perdem mais clareza, com o acumular do cansaço (queria dizer não estão tão bem fisicamente) se me desses a optar entre Matuidi e um dos outros 3 o Matuidi não entraria. Mas imagina que a tua equipa não está a conseguir controlar o meio campo e não consegues recuperar bolas, tens um unico médio no banco que é o Matuidi e os teus médios não conseguem cumprir o que pretendes? preferes jogar com os mesmos, ou tentar ganhar a luta do meio campo? Eu percebo o que dizes, numa equipa de posse, nao tem sentido colocares um jogador que não interpreta bem os teus principios. posso-te arranjar cenários onde ele teria de jogar, no entanto seria opção de recurso
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