O treinador está agradado
com o rendimento do médio, de 20 anos, razão pela qual pretende que o jogador
ganhe massa muscular. Tudo indica que João Teixeira continuará no plantel
principal nas próximas semanas.”
Hoje, li isto no jornal “A
Bola” e não pude deixar de me lembrar de uma das melhores entrevistas que já
tive o prazer de ler. Á conversa estavam o Nuno Amieiro e o Prof. Vitor Frade e
entre outras coisas falavam sobre “engrossar” o jogador. Fica aqui um excerto:
"Nuno Amieiro (NA): Professor, até que ponto faz sentido pensar-se em
alterar a «configuração física» a um jogador para que este venha a ser algo
mais do que aquilo que é? Isto é, no sentido de, por exemplo, o «engrossar»
para ser mais resistente ao choque ou para ir ao encontro de um qualquer
estereótipo corporal de defesa, médio ou avançado?
Vítor Frade (VF): Antes de
mais, é necessário reflectir sobre a designação que está a utilizar, a
expressão
«configuração física». Por
exemplo, diz-se muitas vezes o seguinte: “Aquele jogador não vai jogar porque
tem um problema físico”. Será que quem diz isto está a querer dizer que lhe
falta resistência ou qualquer outra coisa relacionada com o físico? Não. Por
isso, para mim, o que o jogador tem é um problema clínico. É preciso algum
cuidado com a terminologia para que o entendimento das coisas seja um determinado.
Em relação à sua pergunta, parece-me mais ajustado falar em morfotipo do
jogador e, no meu entender, pensar-se em o alterar é uma asneira de todo o
tamanho. As exigências que regularmente o indivíduo vai enfrentando vão
tornando-o mais resistente e mais capaz e não devemos querer ir mais longe do
que isso, pois na tentativa de ganhar determinadas coisas, iremos perder uma
série de outras coisas.
Não me custa nada reconhecer
que, para certas posições e funções, o morfotipo e a estatura são relevantes, em
termos de média. Mas, por exemplo, no caso do ponta-de-lança até menos do que
no caso do defesa central. E mesmo aí todos nós conhecemos defesas centrais de
top que são relativamente baixos, onde aquilo que os identifica como
característico tem normalmente pouco a ver com o lado externo do morfotipo,
aquilo que designou por «configuração física», e muito mais com a articulação e
ostimings de utilização de uma série de outras coisas. Veja, por exemplo,
o caso do Liedson... Ele é «felino» e para ser «felino» e eficaz, tem de ser
inteligente, tem de ser capaz de decifrar, de se antecipar... Mas vou-lhe dar
outro exemplo. O Pepe tem uma entrevista recente, num jornal espanhol, onde diz
que presentemente também está a fazer musculação para o trem superior, para o
tronco, porque, refere-o ele, joga-se muito disputadamente, os pontas-de-lança
são grandalhões, o tipo de jogo proporciona muitas disputas e, nesse sentido,
ele sente a necessidade de ser espadaúdo para poder enfrentar essas
circunstâncias. Mas também diz que se sente à nora quando lhe aparece um
ponta-de-lança pequenino...
NA: Deixe-me pegar agora no exemplo
do Cristiano Ronaldo... A generalidade das pessoas está claramente convencida
de que o que ele é hoje enquanto jogador se deve em grande parte ao trabalho de
ginásio que desenvolveu e provavelmente continua a desenvolver...
VF: Isso rebate-se com facilidade. O Cristiano
tem um morfotipo e joga numa posição que pode permitir que o lado atlético seja
um acrescento. Mas eu penso que a juventude dele e o facto de estar a jogar em
Inglaterra ainda não o fez dar-se conta do desperdício que é o não uso tão
regular da capacidade de drible, de simulação e de engano que ele tinha. E o
jogo assente neste padrão atlético em que ele se está a viciar e do qual
beneficiam os abdominais e o porte que ele tem, tirou-lhe algo que ele também
tinha potencialmente, que era aquele poder de «ginga», que é mais o registo,
por exemplo, do Messi. E eu pergunto, alguém no seu perfeito juízo é capaz de
dizer que o Cristiano Ronaldo é melhor do que o Messi? Na melhor das hipóteses
dirão que um é tão bom quanto o outro. E o Messi é exactamente o oposto em
termos de morfotipo: é pequeno, enfezado,... E é doente, pois tem problemas
metabólicos.
Acho que o que é fundamental
é que o jogador tenha a capacidade de resistir e de ter força... Mas é
importante que se perceba o que eu quero dizer com isto, pois não tem nada a
ver com o entendimento comum...
NA: Para acabar, uma pergunta muito directa: porque é
que o facto de eu ir fazer musculação vai alterar aquela que é a minha história
de relação com o corpo?
VF: De um modo muito
simples, porque altera a relação do corpo com o corpo, ou seja,... Há dois
tipos de timing. O timing coordenativo dos músculos entre si,
que é a co-contractividade, portanto, vão existir cadeias que passam a
degladiar-se, que se passam a estorvar umas às outras. Porque é uma coordenação
que se coloca contrária à fluidez que sugere e solicita a espontaneidade do
jogo de futebol. Para além disso, há outro tipo de timing, que tem a ver
com o ajustamento muscular à alteração sistemática regular que o envolvimento
coloca. Ao fazer musculação vai estar a bulir com isso, vai estar a enganar o
sistema nervoso. Portanto, vai obstruir o leque de possibilidades de
manifestação que o corpo tinha a jogar futebol. E se o fizer quando em
desenvolvimento vai inclusivamente bloquear o crescimento, por exemplo, dos
ossos e de outras estruturas. Vai hipertrofiar uma zona que é muscular quando
nós sabemos que os tendões não se desenvolvem da mesma forma... Porque não é
natural! É como aqueles indivíduos que tinham uns carrinhos pequeninos e lhes
rebaixavam a colaça, colocavam umas jantes largas, uma suspensão mais dura,
etc, para se armarem em corredores... Só que depois partiam os carros por outro
lado...”
A
entrevista completa pode ler-se aqui:
http://falemosfutebol.blogspot.pt/2009/03/conversa-com-vitor-frade_30.html