Falar de futebol hoje, é falar da Premier League onde o Leicester e o Tottenham passam um atestado de incompetência aos orçamentos milionários dos maiores clubes ingleses. Onde o primeiro classificado marca dezenas de golos em passe longo, a explorar a profundidade, e não parece haver fórmula para o parar. Falar de futebol hoje, é dar cartão vermelho às direcções, aos treinadores, e aos jogadores, do Manchester City, do Chelsea, do Manchester United, do Arsenal, e do Liverpool. É ainda assim falar do mérito dos jogadores do Leicester, por se superarem, e serem neste momento os melhores colocados para vencer o campeonato mais atípico dos últimos anos.
Falar de futebol hoje, é falar de
Pochettino. É falar de um treinador que me começou a apaixonar no Southampton com o seu futebol de passe curto. Com o seu futebol que se limita a seguir a lógica do jogo. Com o seu futebol corajoso que ataca e defende com a bola controlada. Falar de futebol hoje, é falar do Tottenham que me diverte em cada jogo, e me faz querer ver o seguinte. É falar da equipa mais jovem da Premier e terceira mais jovem da Europa. É falar do melhor ataque e da melhor defesa, porque tem a melhor organização defensiva do campeonato - tem a bola. É falar de um futebol que pode não ser premiado com o título de campeão, mas de um trabalho que não pode ser ignorado por ninguém. A melhor classificação do clube em 53 anos diz isso. Assim como, o menor investimento dos últimos anos. Falar de futebol hoje, é dizer que o treinador teve as piores condições, menos dinheiro, piores jogadores, e superou. Lutou contra a cultura vigente, contra os próprios jogadores, e hoje conquista a notoriedade que há dois anos se adivinhava. A melhor equipa do campeonato.
Falar de futebol hoje, é falar de
Eric Dier. Do cumprir de tudo o que se esperava dele, num campeonato muito mais exigente que o nosso. De pensar que por cá não era opção. Agora como médio defensivo. Não é a posição onde acho que poderá ser dos melhores do mundo, mas lá continua a dar mostras de tudo o que sempre foi fazendo de bom por aqui. No futebol "espanhol" de Pochettino realça a inteligência e qualidade técnica. Falar de futebol hoje, é tambem falar de Daley Blind. O jogador mais inteligente que o futebol holandês formou nos últimos anos. Diria que, o último jogador holandês da escola holandesa de Cruyff. Esquecido na equipa pouco notada de Van Gaal, é tudo aquilo que Cruyff sempre esperou de um jogador. Inteligente, dotado tecnicamente. Não joga a posição, joga o espaço. Incrível a forma como define cada vez que a bola chega aos seus pés, em condução, ou em combinação.
Falar de futebol hoje, é falar de Tuchel. Que monta uma equipa capaz de competir com Guardiola na regularidade, e que dá sinais de poder voltar a ser campeã nos próximos anos, com mais tempo de trabalho em cima, e sobretudo sem Guardiola na mesma liga. O futebol tão agradável de Tuchel, que mostra-se preocupado com a performance ofensiva e defensiva da sua equipa, não deriva só da qualidade individual que o Dortmund sempre foi tendo nos últimos anos. É fruto de um trabalho distinto do que aquele que Klopp preconizava, e de uma ideia de jogo fundamentalmente virada para os desequilíbrios ofensivos desde os defesas. Falar de futebol hoje, é falar de Guardiola que se prepara para dar o primeiro tetra da história do Bayern, para ganhar o seu segundo tri, e para mais uma vez mostrar aquilo em que o futebol que se defende por aqui é forte - na regularidade.
Falar de futebol hoje, é falar de Neymar. É dizer que aquilo que sempre se defendeu sobre as suas competências, e sobre o salto qualitativo que o seu futebol poderia dar na Europa se verificou. Que o estímulo no Brasil era demasiado baixo para o seu nível, e que agora é decididamente um dos três melhores jogadores do mundo. Conseguiu-o fruto do seu trabalho, e da humildade que teve para perceber que não era estrela maior na Europa (ainda não era), e que tinha muito que aprender (com os seus colegas de equipa, sobretudo) para dar o salto qualitativo que o seu futebol precisava. Neymar hoje é muito mais jogador do que aquilo que era quando chegou cá, e não mais é potencial. Falar de futebol hoje, é continuar a falar de Paco Jemez sempre preocupado com o seu futebol ofensivo, e que mais uma vez poderá cumprir com os objectivos a que se propõe. É dizer também que não obstante de todo o mérito, tendo em conta o fraco orçamento que sempre teve e o baixo nível dos jogadores, se não evoluir defensivamente sofrerá num clube com outro tipo de objectivos. Falar de futebol hoje, é falar dos Las Palmas de Valeron, e do Villareal de Marcelino Toral.
Falar de futebol hoje, é falar de André Villas-Boas. De mais uma vez ter-lhe sido dada a possibilidade num grande projecto e do resultado, tendo em conta que o futebol foi zero, não ter ido de encontro as expectativas. É falar de um Bernardo Silva que agora é indiscutível, mas que cada vez mais perde fulgor preso por um modelo que apenas lhe dá criatividade individual. É falar de Paulo Sousa que demonstrou, conforme o que se escreveu por aqui, não ser o treinador melhor preparado para todos os momentos do jogo em Itália, mas sobretudo que não tem qualidade individual para competir numa prova de resistência contra outros orçamentos. É falar de um Napoli de Sarri que é a melhor equipa transalpina colectivamente, mas que poderá não ser coroada no final. Falar de futebol hoje, é falar de mais uma fase final das provas da UEFA onde Alemanha e Espanha dominam.
Falar de futebol hoje, é falar de um Porto num nível que não me lembro de ver. E por isso, falar de um Vítor Pereira que em tom de desafio na altura em que se despedia dos dragões questionou sobre quantos campeonatos ganharia o Porto depois da sua saída. É falar de um Paulo Fonseca mais maduro, mais estável do ponto de vista emocional, e por isso com mais condições agora para entrar num grande do que quando assinou pelo Porto. Falar de futebol hoje, é falar de uma não estratégia de comunicação do Sporting, que acaba por ser morto como o peixe: pela boca. É dizer que ter o melhor treinador do País, ter a melhor organização em todos os momentos de jogo, ter João Mário e ter Ruiz, ajuda mas não garante nada. Falar de futebol hoje, é falar de um Benfica galvanizado pelos resultados, pela sua massa associativa, que fez um jogo tremendamente competente do ponto de vista defensivo em Munique, e que se encaminha para renovar o título de campeão. É falar de Rui Vitória muito criticado por todos há uns meses, e que por via dos números que a sua equipa consegue é hoje equiparado por todos aos grandes treinadores por essa Europa fora. Falar de futebol hoje, é falar de Jonas.