
Quando se avalia a qualidade individual, e a criatividade de um jogador, normalmente tem-se em conta tudo aquilo que o jogador pode oferecer sozinho, como se um jogo de duelos individuais se tratasse. São poucos os que esperam que a qualidade individual se revele nas relações que se estabelecem com os outros jogadores. E essa pequena diferença, é talvez a maior diferença entre os treinadores com um futebol ofensivo marcante, e os treinadores que no momento ofensivo dependem sobretudo da inspiração individual dos seus jogadores. As palavras de Jesus no final do jogo no Bessa, assinalando que faltou qualidade individual, para muitos consideradas como tentativa de "sacudir a água do capote", são nada mais que a demonstração cabal daquilo que Jesus espera que individualmente os seus jogadores acrescentem no momento ofensivo. Para mim, o que Jesus disse foi que espera sempre que os seus jogadores criem, sozinhos, dentro da organização ofensiva que ele desenha. Um treinador que desenha um plano em organização e espera que sozinhos os seus jogadores criem estará sempre mais dependente da inspiração momentânea de cada jogador, para que a qualidade de jogo ofensiva seja elevada. E é nisso que se reflectem as escolhas que Jorge Jesus tem feito para o seu onze inicial no Sporting, assim como as fazia no Benfica. Jesus, como muitos, não percebe jogadores que não se destaquem por aparecer nos momentos de decisão com um lance mágico, e está sempre a espera que os seus jogadores tirem um coelho da cartola. Nolito, por exemplo, era segunda escolha porque sendo criativo precisa de se envolver com outros companheiros para criar. O mesmo acontece agora com André Martins, Mané, e Montero. Quando Jesus lança Montero no onze inicial, lança-o por ter aparecido no golo do jogo com o Nacional. E não sendo criticável essa opção - aproveitar o bom momento do jogador, uma fase de maior confiança -, Jesus não o faz pela mais valia que Montero pode representar para o futebol ofensivo do Sporting, mas apenas pelo lance individual. Ora, o que Montero melhor pode oferecer ao jogo é precisamente o oposto do que o que Jesus quer. É colectivo. Jesus, por exemplo, não percebeu que Montero para aparecer contra o Nacional precisou de um Mané. E que sem um Mane, a perceber aquilo que Montero quer e a envolver-se com ele, Montero não teria aparecido. É nisto que Guardiola é diferente de quase todos, porque fica irritado consigo próprio quando um jogador descobre uma solução individual que o colectivo não conseguiu. E por isso, trabalha exaustivamente formas colectivas de desmontar o adversário, para que os seus jogadores nunca tenham de resolver sozinhos. Utopia, claro. Mas só dessa forma se consegue que a equipa renda regularmente, ainda que por diversas vezes as individualidades estejam menos inspiradas. É por aí que se percebe o porquê de valorizar como ninguém jogadores cuja principal competência seja a forma de se relacionar com os colegas. Só assim se explica que Guardiola continue a somar na regularidade e a ser campeão, ou estar mais próximos do que os outros disso. Reside nesse pormenor a diferença notória entre o futebol ofensivo que eu gosto, e um futebol ofensivo que não considero tão bom. Desse ponto de vista - daquilo que o treinador espera em termos de produção ofensiva dos seus jogadores - Jesus não é diferente de Mourinho, Allegri, Benitez, Pellegrini, Lopetegui, ou Rui Vitória. Tem o momento ofensivo melhor trabalhado que alguns destes. Mas todos eles esperam que em algum momento do jogo os seus jogadores tenham um lance individual genial. E por isso, ainda que em diferentes níveis (porque colectivamente uns trabalham mais do que outros), estão sempre mais dependentes da inspiração individual de cada jogador, do que se valorizassem de forma constante jogadores que procuram resolver problemas relacionando-se com os outros. Todos os Jonas para render precisam de partilhar o mesmo espaço com Gaitans, assim como Aimar no seu esplendor precisou de partilhar o mesmo espaço com Saviolas. Montero, para render, para além dos movimentos ofensivos que o treinador cria, para além das linhas de passe que o treinador oferece, precisa de outros Monteros a partilhar o mesmo espaço que ele.
PS: Não concordo com a ideia de que este ano o campeão vai somar muito menos pontos que no passado. Vamos com 6 jornadas, o futebol jogado não tem sido o melhor, mas também não o foi em anos anteriores. O número de pontos conseguidos até ao momento também não está abaixo da média conseguida pelos três grandes nos últimos anos.
PS1: Por Mourinho e Allegri serem treinadores que, na minha opinião, trabalham mal do ponto de vista colectivo o momento ofensivo e não são fantásticos do ponto de vista defensivo, não é de estranhar a irregularidade pontual que demonstram. Mourinho já foi um monstro, mas perdeu-se pelo caminho. Hoje é campeão como Allegri também o é, e é derrotado como Allegri sempre foi - exclusivamente pela grande qualidade dos jogadores que treinam. Assim como Rui Vitória poderá ser campeão se tiver sempre Gaitan e Jonas. Quando estão menos inspirados, como acontece agora, nada na equipa funciona que não seja um grande remate do Matic ou do Ramires.
PS3: Já aqui há muito se fala de Pochettino, e a forma como conseguiu a roubar a bola ao Manchester City e criar é o indicador de um treinador com uma ideia ofensiva grande, e completamente diferente do que mais se vê pelo mundo do futebol. É um treinador que com maior qualidade individual, seria totalmente diferente de Pellegrini que ainda não decidiu se quer que a sua equipa tenha ou não a bola. Pena ter chegado num momento em que os Spurs fecharam a torneira das Libras.
PS4: O início estonteante de Paulo Sousa na Serie A é um indicador que há ideias de qualidade para o jogo e para o treino, como havia quando andava dentro de campo. É olhar para a forma como a equipa quer e procura jogar (ainda que não o consiga sempre), e percebe-se uma ideia ofensiva grande. Ainda que não concorde com algumas coisas, o essencial está lá. Quer ter a bola, quer aproveitar os espaços entre sectores, quer criar situações de finalização simples. Não se deixe é enganar com o jogo em San Siro, porque tudo correu bem. Desde o erro do Handanovic aos três minutos que dá o penalti, ao remate de fora da área de Ilicic que Handanovic defende mas a bola vai para dentro da baliza, até à expulsão de Miranda ainda na primeira parte, mas já depois do terceiro golo num bom lance individual do Marcos Alonso.