
Enquanto Guardiola festejava efusivamente, eu pensava sobre as coisas fantásticas que este treinador fez pelo jogo, e sobre que coisas estaria ele a festejar efectivamente. Claro que será impossível dissociar tal celebração do momento que a equipa vive na Premier, muito longe do primeiro classificado; quando a expectativa inicial, reforçada pelos primeiros jogos ao serviço do City, seria a de estar a lutar ponto à ponto pelo título. Percebendo também que a equipa atravessa uma fase de dúvidas, e que o próprio Guardiola se está ainda a adaptar aos jogadores e à mentalidade britânica, é um momento particularmente marcante tendo em conta as incidências do jogo.
Guardiola celebrou uma primeira parte cheia de azares. Onde foi melhor, criou situações para se colocar numa situação confortável e saiu a perder. Dominou o jogo como gosta, teve bola, e encontrou as situações certas para acelerar. Geriu bem a transição defensiva, mas teve alguma falta de rigor na defesa da profundidade. É sempre um risco que ele corre ao atacar em espaços reduzidos, e defender em espaços grandes. Viu-lhe ainda ser negado um penalti, e um Mónaco muito mais eficaz nas situações que criou do que o City.
Guardiola celebrou uma segunda parte cheia de sorte. Viu Falcão falhar um penalti num momento importante, marcou em situações de bola parada, e viu o Mónaco em cima do marcador a desperdiçar situações de igualdade e superioridade com muito espaço por erros de decisão já dentro da área. Viu Yaya Touré, nesse momento (2-3), mentalmente pouco disposto a dar-se ao jogo defensivamente mas a ganhar nova energia e novo foco depois de novo empate (3-3). No final, Yaya já recuperava novamente para perto da linha defensiva reduzindo o tempo para os jogadores do Mónaco a atacarem.
Guardiola celebrou a reacção dos seus jogadores. Por terem recuperado num jogo desta importância das contínuas dificuldades que o Mónaco colocou, tanto no marcador, como nas situações de jogo que criou e na forma como foi defendendo.
Guardiola celebrou com os adeptos. Porque não vai ser fácil tê-los do seu lado sem que eles compreendam o que ele se propõe a fazer por lá. E se há coisa que pode marcar a viragem no clube, na cultura do clube, é a união dos adeptos à equipa e ao treinador. Muitas vezes sozinho esta época, com o público a abandonar o estádio mais cedo, ele continua a enviar-lhes mensagens da importância que tem eles estarem com a equipa.
Guardiola celebrou Aguero. Pelos golos que marcou, mas sobretudo pela importância que teve nos que não marcou. Neste jogo, ganhou a possibilidade de lhe mostrar em dois lances (que se sucederam) o melhor e o pior de Aguero, comparando-o à ele mesmo. Sendo que o melhor teve o melhor reforço que poderia ter: uma jogada de envolvimento com os colegas onde serve de apoio frontal, e no final entrega a notoriedade para Sané fazer o golo; e o pior, bem, foi mesmo o pior. Curiosamente, ou não, era a Sané a quem deveria ter entregue a notoriedade poucos segundos antes.
Guardiola celebrou a vitória de um modelo e de uma ideia de jogo. Porque em vários lances conseguiu colocar tudo aquilo que tanto trabalha do ponto de vista ofensivo em jogo. Conseguiu expor a linha defensiva de Leonardo Jardim, e ataca-la com qualidade. Mas conseguiu sobretudo dois pontos fundamentais daquela que é a sua maior herança para o futebol: 1) Encontrar o homem livre, o melhor jogador para dar seguimento ao lance, o jogador em condições ideais para acelerar o jogo e colocar um colega na cara do golo. Foi dessa forma que conseguiu criar as melhores ocasiões para finalizar. 2) Com isto, fica reforçada a importância do apoio frontal (mesmo com pressão) para colocar-se jogadores de frente para o jogo, sabendo-se que de outra forma as linhas se fechariam e as condições seriam diferentes. Se Yaya de uma qualquer forma coloca logo em Silva os médios do Mónaco estariam mais dentro do lance e mais rapidamente em contenção e dessa forma o foco da linha defensiva já não seria tanto na bola e mais no controlo da profundidade. É uma diferença importantíssima.
Guardiola celebrou o resultado da procura das melhores ocasiões de golo. Porque num lance, em vários lances, em todo o jogo, procura pelo melhor. Não é suficiente o 1x0+Gr, quer 2x0+Gr; e chega ao absurdo de criar 3x0+Gr, coisa que se pensava já não existir nas melhores provas europeias. Mais uma vez fica a evidência de que quem tem a bola tem a vantagem, porque não são precisos muitos para atacar bem. É preciso apenas estar nas posições certas, e percorrer os melhores caminhos vezes suficientes para que a fortuna possa advir mais do nosso trabalho do que do demérito do adversário ou de outro género de imponderáveis.
Guardiola celebrou o talento que se expressou no relvado. Uma barbaridade as exibições de David Silva, Falcão, Bernardo Silva e Yaya Touré. Touré a demonstrar, com bola, como deve jogar um "6" no futebol moderno, e como gerir o passe (a procura e a espera pelo melhor passe). Falcão com mil golos, e com confiança para fazer aquelas brincadeiras num jogo de pressão máxima. O génio dos "Silvas" absolutamente assombroso a cada toque na bola. Delicioso perceber o que David rende agora no corredor central, com liberdade para criar de uma posição onde vê tudo, com o campo sempre aberto. Pernicioso que muitos reconheçam a fantástica evolução de Bernardo, o quão forte e empenhado esteve nos momentos defensivos, na reacção à perda, mas que tal como Silva há tempos atrás continuam a achar que deve jogar encostado à linha. O que Silva (o David) tentou mostrar ao mundo é que Silva (o Bernardo) será sempre muito melhor como médio ofensivo do que como extremo, ou médio ala. Seja como for, a cabeça e o pé esquerdo de Bernardo são incríveis por isso ele seria sempre notado mesmo que como Lateral Esquerdo.
Guardiola celebrou a vitória. Porque ao final das contas é ela que melhor defende um grupo de trabalho que ele tanto estima. Tem sido incansável na defesa da sua equipa, e já chegou ao ponto de questionar quem coloca dúvidas sobre os seus jogadores se alguma vez lhes tinha passado pela cabeça que podia ser ele a não ser o melhor treinador para aqueles jogadores, e não o contrário. Como sempre, Brilhante!