Vou aproveitar este espaço para um desabafo.
Este ano fiz parte de uma equipa universitária.
A nossa equipa é comporta por jogadores da minha
universidade (entre os 18 e 26 anos), alguns com uma carreira desportiva
interessante durante a formação e primeiros anos de senior, mas muitos apenas
com experiência de distrital e com treinadores banais.
Nós treinávamos 2 vezes por semana, treinos de 1 hora e meia, depois de um dia
de aulas.
A época correu bastante bem, ao nível de resultados, tendo culminado com uma subida
de divisão e vitória no campeonato.
O nosso modelo de jogo assentava sobretudo na nossa capacidade
de sair em transições, após recuperarmos a bola. Ao nível das transições
(ofensiva e defensiva), eramos provavelmente a equipa mais forte e em
organização defensiva eramos claramente a melhor equipa. Na minha opinião,
organização ofensiva era o nosso momento menos forte, muitas vezes por erros
individuais (nos quais me incluo), a nível técnico mas fundamentalmente na
capacidade de decisão. Na minha maneira de ver as coisas, organização ofensiva
é o momento do jogo em que o treinador menos tem responsabilidades, ou pelo
menos, menor é a sua capacidade de intervir, pelo que eu diria que o momento em
que eramos mais fracos se devia à capacidade individual e não tanto à organização
colectiva.
Mas o que me interessa mesmo destacar, eram alguns dos nossos princípios de jogo.
Convêm referir que o nosso sistema de jogo era o 4-4-2 em losango.
1. Qualquer jogador desta equipa tinha perfeita noção do que
é uma contenção e cobertura. Em vários jogos tivemos de adaptar avançados a
laterais e a organização e transição defensivas da equipa nunca foram comprometidas.
Os resultados até confirmam esta análise.
2. Os nossos centrais tinham a perfeita noção de como,
quando e onde controlar a profundidade.
3. Os nossos laterais sempre jogaram bastante abertos,
quando em organização e transição ofensivas, garantindo largura e profundidade.
Fosse contra a pior ou melhor equipa do campeonato.
4. A nossa saída de bola no pontapé de baliza sempre se
assentou num toque curto para os centrais ou laterais. Apenas quando
pressionados se apostava no pontapé longo.
5. O portador de bola tinha, pelo menos, 3 linhas de passe.
Uma no apoio frontal, uma na cobertura e pelo menos uma ou à esquerda, ou à
direita. Raramente a equipa sentia necessidade de despachar a bola ou partir em
acções individuais quando em construção porque os jogadores estavam sempre
bastante próximos.
6. Os jogadores sabiam quão importante era o espaço entre
linhas do adversário. Era frequente os avançados saírem da linha dos centrais
para aparecer entre médios e defesas no apoio frontal. O mesmo se verificava
com os interiores e laterais.
7. Os médios tinham capacidade de fazer movimentos de
ruptura, nas costas da defesa adversária, principalmente quando os avançados
recuavam no terreno.
8. Quando perdíamos a bola, a reacção à perda era rápida,
frequentemente com 2 ou 3 jogadores a caírem na zona onde a bola era perdida e
com toda a equipa a bascular para a zona da bola, independetemente da posição
do adversário.
Sem grande surpresa, pelo menos minha, subimos de divisão. A
chave para este sucesso foi o nosso treinador.
O nosso treinador tem 3 anos de experiencia nesta função. O
nosso treinador não ganhou a Champions, não treinou nenhuma equipa
profissional, não é ex-jogador profissional, nem usa um farto bigode. O nosso
treinador não tem nível que lhe sequer permita treinar uma equipa nas competições
europeias, muito menos uma profissional.
O que o nosso treinador tinha e têm é cabeça. Sabe pensar,
sabe ser crítico, sabe perceber o que a equipa necessita e como trabalhar os
seus pontos fortes. Sabe ver onde estão as mais-valias individualmente,
potenciá-las em favorecimento do colectivo e camuflar os defeitos com uma excelente
organização colectiva.
Alguém quer tentar adivinhar o nome do nosso treinador?