Os princípios gerais dos desportos colectivos
defendem que em cada momento do jogo a equipa deve recusar a
inferioridade numérica, evitar a igualdade numérica e criar superioridade
numérica. Sendo que para mim, o aspecto fulcral desta definição é precisamente
a ideia de que a mesma se aplica a todos os momentos do jogo, ofensivos ou
defensivos.
Nos momentos sem bola - transição e
organização defensiva - a maioria compreende a necessidade de seguir os mesmos
princípios gerais. Isto é, ninguém se sente confortável a ver a sua equipa
constantemente em situações defensivas de 1x2, 2x3 ou até 3x3 na sua área.
Estas situações são tão perigosas que é lógico que sejam evitadas a todo o
custo (ex: recorrendo a uma falta numa "zona estratégica"). A ideia
de que se deve evitar inferioridade quando se está a defender está tão
enraizada que dificilmente se dirá que uma equipa pode ser bem sucedida sem a
cumprir. Talvez daí tenha surgido a expressão de que "são as(os) defesas
que ganham campeonatos" ou a ideia de que defender com muitos é defender
bem. Afinal, um treinador que não saiba defender não é bom treinador, certo?
Por outro lado, não é tão comum encontrar quem
defenda que os mesmos princípios gerais devam ser seguidos quando a equipa
tem a bola. Recorrentemente, um treinador que meta muitos jogadores no
processo ofensivo é visto como um lírico/romantico pouco cauteloso por expor em
demasia a defesa da sua equipa. Existe uma leve sensação de medo por ver muitos
dos nossos jogadores à frente da linha da bola. Por outro lado qualquer um dirá
que uma situação de 3x1, 2x1, 2x0 na área adversária é uma oportunidade clara
de golo, reconhecendo obviamente que uma situação de superioridade numérica
aumenta a probabilidade de marcar golo. Isto acontece porque a criação de
superioridade numérica torna a equipa menos dependente da qualidade individual
por poder resolver os problemas de forma colectiva (ex: contorno o guarda-redes
ou toco no colega ao lado isolado?). Se a criação de superioridade numérica no
ataque aumenta a probabilidade de marcar golos e o golo é condição "sine
qua non" para se ganhar, porquê tanto receio em atacar com muitos? É para
mim estranho que se reconheça que um 3x1 é melhor que um 3x8 mas depois se tenha
medo do processo que leva a que surjam, recorrentemente, vários 3x1 no jogo. É
estranho observar que há quem prefira refutar criar superioridade no ataque que
criar superioridade no ataque. Afinal, podemos dizer que um treinador é bom
se não sabe atacar?
E se é certo que não sofrer golos garante
pontos, ter a bola o tempo inteiro é garantia de que o adversário não os marca.
É por isto que para mim é muito estranho que se goste de quem ataca raramente e
com poucos, independentemente do resultado no final do jogo. É com base nisto
tudo que defino que um bom treinador é aquele que cria condições para que a
sua equipa tenha superioridade numérica na zona da bola mais vezes que o
adversário, nos vários momentos do jogo.