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segunda-feira, fevereiro 12, 2018

A Valorização da Vitória no Momento Defensivo de um Jogo Desligado

O futebol mudou muito nos últimos anos, e continuará a mudar enquanto os jogadores continuarem a evoluir, as regras continuarem a mudar e os melhores treinadores continuarem a inventar a sua evolução. E apesar de ser impossível dizer-se com exactidão quando é que cada mudança se tornou efectiva, é possível dizer-se que as mudanças ocorrem de forma gradual e que há fases onde essas mudanças se notam menos, e parecem até estagnar. É numa destas fases onde parece que o futebol está agora. Repare: houve uma altura em que o jogo parecia estar a mudar na procura das melhores soluções ofensivas para conseguir o golo, mas não. O foco hoje é novamente o momento defensivo e sobretudo aquele que acaba com vitórias notadas sobre adversários mediáticos. Em Inglaterra, por exemplo, o futebol tenta replicar Simeone e não Guardiola. Porquê? Porque é mais fácil ser Simeone do que ser Guardiola, e é isso que o público aplaude. E ainda que não se possa criticar quem aplaude por conveniência uma vitória que cai do céu, um jogo que se permite no futebol mas que não o representa em toda a sua abrangência e complexidade, o mínimo que se exige aos agentes que tanto amam este jogo é que não relevem a mediocridade ao mesmo nível da genialidade de quem joga futebol em toda sua plenitude. Sim, é permitido jogar um jogo de um só momento e totalmente desligado. Sim, esse jogo vai conseguir vitórias derrotas e empates. Sim, esse jogar vai conseguir feitos que se vão se fazer notar pelo resultado. Mas tal ideia nunca será uma obra de relevo.

O Momento Defensivo de um Jogo Desligado. Defender é mais fácil do que atacar e por isso a maioria escolhe focar-se nisso. E como o jogo é um todo e não se pode analisar um momento sem ter em conta o efeito que tem nos outros, escolhe-se partir o jogo para de forma simplista se explicar a superioridade de uns sobre outros. Por ser mais fácil de explicar o momento defensivo é também o mais discutido e o mais focado nas análises táctico-estratégicas. Mas qual é, afinal, o real valor desse momento tendo em conta o objectivo do jogo? Todo. Mas, nunca podemos valorizar o momento defensivo apenas pelo que ele permite na defesa da baliza, uma vez que é esse mesmo momento que vai permitir depois da recuperação da bola o início do momento ofensivo. Isto é, passa-se a vida a elogiar posicionamentos e estratégias para defender a baliza sem pensar que depois da recuperação da bola é aquele posicionamento que permite de forma melhor ou pior o início do ataque. Por exemplo: Não vejo dizer que defender com 10 homens nos últimos 30 metros vai causar dificuldade na transição ofensiva. Não vejo dizer que, os espaços super reduzidos em que a equipa se coloca quando defende por estratégia, ou por modelo, vão possibilitar ao adversário mais facilmente recuperar a bola e voltar a atacar do que a quem defende sair daquele espaço com condições para tentar marcar golo. Não tenho lido que quando vais HxH, e deixas que seja o adversário a ditar para onde vão os jogadores da tua equipa, recuperas a bola e os espaços que os teus jogadores ocupam não são uniformes e condizentes com aqueles que trabalhas para eles aparecerem no momento ofensivo. E que essa alteração, do tempo que o jogador tem para chegar à posição que pretendes, é benéfica para quem perdeu a bola voltar a recupera-la. Não tenho visto dizer que o momento defensivo não é apenas aquele em que a bola está próxima da baliza, e que as opções sobre onde ser agressivo sobre a bola têm peso na hora exultar a defesa. O momento defensivo tem sido analisado pela máscara de comportamentos que permitem determinadas coisas, e têm sido ignoradas as consequências negativas e os benefícios para o adversário. No fundo, tem sido elevado pela vitória. Se uma equipa altera a sua formação e no final vence vai daí que a vitória surgiu do trabalho defensivo e da preparação, ainda que o adversário tenha criado situações suficientes para trucidar. O jogo não é isto. O momento defensivo não pode ser apenas valorizado por aquilo que permite perto da baliza, e tão pouco pelo que permite na defesa da mesma. O futebol é um jogo onde atacas a defender e defendes a atacar. E custa-me cada vez mais perceber que o jogo está a ser desvalorizado ao jogar-se com apenas uma baliza, e num sentido oposto a sua própria lógica.

A Vitória. Apesar de todo o crescimento do jogo, do entendimento do jogo, a vitória continua e continuará por certo a ser o principal catalisador de opinião favorável ou desfavorável sobre uma determinada equipa, sobre a ideia que coloca em campo, e sobre o valor dos seus jogadores. Uma equipa que ganhe tenderá sempre a ser sobrevalorizada, e recairá sempre sobre ela a procura de respostas para o resultado daquele jogo. Nós já não vemos os jogos e usamos o resultado como princípio para explorar a nossa análise e formar a nossa opinião sobre o porquê do jogo ter seguido aquele rumo. Como o nosso ponto de partida já leva o pressuposto de que para ter ganho a equipa deve ter tido pontos de superioridade fundamentais para a outra a análise já começa viciada. Talvez por isso não seja hoje raro, mesmo nos mais badalados analistas, ver criticas e elogios a comportamentos semelhantes; ver mudanças de opinião radicais sobre o que era e sobre o que foi antes e depois de se olhar para o resultado final. O jogo é simples, de facto. E é no entendimento dessa simplicidade que está complexidade que lhe atribuem. Criar situações de golo, não permitir que o adversário crie. Neste sentido! Do ataque para a defesa. E digo neste sentido porque não há (salvo situações em que o empate serve para cumprir o objectivo) jogador, treinador, ou adepto que não queira ganhar o jogo. E se assim é, como é possível elogiar ou dar mérito à uma equipa que ganhou por ter marcado na única situação que criou e concedeu seis ocasiões de golo ao adversário? O que há afinal para elogiar aí? O de sempre, agora simulado pela sobrevalorização de certos comportamentos tácticos e individuais que no fundo não tiveram preponderância nenhuma. No dia em que todos percebermos que a maior parte dessas vitórias foram conseguidas com base no desacerto do adversário, um factor que ninguém controla, aí sim estaremos mais perto de dar o próximo salto evolutivo no jogo.