No clube onde trabalho há um juvenil incrível, daqueles que
não se põe em causa se vai ser profissional, só resta saber onde. A sua
qualidade é tal, que apesar de estar num plantel de nacional de juvenis, tem
demasiada qualidade para o nível em que está inserido e resolve a maioria dos estímulos
que enfrenta no treino com muita facilidade.
É um jogador fortíssimo em tudo o que seja gesto técnico,
especialmente no drible, é criativo, é rápido, é extremamente agressivo (na
ocupação dos espaços).
Este fim-de-semana tive o prazer de mais uma vez falar com
ele. Estávamos a falar sobre a perceção que os jogadores devem ter das suas
qualidades a partir de certa idade. Eu explicava-lhe que é importante que um
jogador tenha noção das suas mais-valias e perceba o contexto do jogo, para que
consiga exponenciar ao máximo as suas qualidades. Na maioria das conversas que
tive com jogadores desta idade, a conversa foi um monólogo… Mas o jogador em
questão respondeu-me:
“Quando estou em 1
contra 1, normalmente procuro enfrentar qualquer adversário. Mas quando apanho
o Gui, aí chuto a bola para as costas dele, ele é muito mais agressivo no 1
contra 1. Não quero procurar o choque com um jogador tão poderoso fisicamente,
ele ganha muitos lances com o corpo”.
É bastante interessante perceber que este jogador,
fortíssimo tecnicamente ao ponto de driblar qualquer jogador do seu escalão,
consegue perceber o contexto em que está inserido e em função disso, tomar decisões
diferentes que o aproximem mais facilmente do sucesso da sua acção.
Especialmente no drible, algo que muitas vezes está associado ao “instinto” do
jogador.
Por coincidência, o irmão mais novo desse jogador é treinado
por mim. É um jogador completamente diferente do mais velho. É muito frágil
fisicamente, não tem drible. Foge ao contacto, evita situações de 1 contra 1. É
um pouco menos criativo que o irmão e não joga na mesma posição. Curiosamente,
é o jogador com melhor tomada de decisão do plantel e provavelmente do
campeonato. Simplifica o jogo a cada toque, deixa sempre os colegas em boas
situações e faz com que a equipa melhore, na maioria das vezes que toca na
bola. Vê e faz coisas que nós, seus treinadores, não conseguimos imaginar,
estando do lado de fora do treino, observando todos os detalhes do jogo.












