O contexto, em função das caraterísticas do jogador, oferece
possibilidade de ação - affordances, que emergem por força da relação sinérgica
entre jogador, opositor e, claro, cooperador. A literatura define, a partir
daqui, algo denominado como acoplamento perceção-ação, que passa pela ideia de
que percebemos para agir, e agimos para perceber. Dessa forma, perceção e ação
fazem parte da mesma coisa. Gibson foi autor desse pensamento, ainda que não
inspirado especificamente pelo desporto.
Por vezes, e sem pensar muito nisso, apresentamos tendência, quando
passamos por jardins, em pisar a relva. Quando pensamos sobre isso percebemos
que, sem solicitar os centros superiores de processamento, alteramos a nossa
trajetória porque tomar o caminho mais rápido passa exatamente por passar por
cima da relva. Bom, o que é acontece é que de forma eficiente, e portanto, sem
obrigar o córtex a grande dispêndio energético, percebemos informação sobre a
trajetória que nos coloca no caminho mais curto.
Ou seja, o contexto contém informações que especificam possibilidades
de ação. A informação que eu considero pertinente, a um nível não totalmente
consciente, e que me permite perceber uma possibilidade de ação, reforce-se, em
princípio, a um nível não totalmente consciente, essa, já estará dependente das
minhas características e, portanto, da forma como estou afinado para perceber
informação. Bom, na sequência dessa ideia, talvez seja condição necessária ao
treinador conhecer que informações suportam a ação de quem joga. Comenta-se, a
propósito, que o treinador não deve interferir, sistematicamente, sobre a
tomada de decisão do jogador, de forma explícita. Verdade, por vários motivos.
No entanto, de forma implícita, no treino, o treinador pode criar condições
para que o jogador perceba, dentro da não-linearidade do jogo, as informações
mais pertinentes que especifiquem as ações mais pertinentes. Qual é a
informação mais pertinente? Isso pertence a cada treinador. Mas antes, é
necessário conhecer a informação que suporta, de forma universal, a ação de
todos os jogadores. Não obstante o facto de aceitar que em situações
particulares poderá existir recurso a programas motores que efetivem a ação,
partindo de imagens representativas, tenho alguma dificuldade em aceitar a
perspetiva hierarquizada de que, superiormente, se deteta informação, se decide
sobre essa informação, para depois se executar. Muito analítico, parece-me
curto. Mais, além de pouco funcional, parece-me pouco económico, e parece-me,
igualmente, que o conceito de eficiência é um conceito algo mais interessante.
Mas tentado especificar, e tocando no mais simples, dizer que existe evidência
de que parâmetros como são a velocidade relativa e distância interpessoal
marcam valores para os quais emerge, em determinado momento, a affordance e,
por isso, o momento exato em que a emerge a oportunidade que possibilita ao
portador da bola ultrapassar o defesa, em situação de um contra um. E um contra
um é o mais descomplexo possível. Abaixo de contra um, não é nada. Não é jogo
desportivo coletivo, quanto mais futebol. Exatamente porque, nessa situação,
não há interações sinérgicas que forneçam informação de suporte à ação.
Como afinar? Parece-me que relacionar conceitos como estabilidade e
variabilidade poderá sustentar respostas a essa questão. Parece-me, igualmente,
que a pertinência atribuída a cada informação será ditada, não só, mas em
grande medida, pela experiência, pelo fator quantidade de prática, pela exploração
das possibilidades de ação, e daí por fatores posteriores como, por exemplo, a
informação de retorno consequente, seja intrínseca, ou extrínseca. Repare-se no
facto da mesma ação, nunca ser a mesma ação. Nós repetimos, sem repetir. E
fazemo-lo porque as circunstâncias renovam-se constantemente. A informação, de
forma esquemática, é a mesma. Agora, os parâmetros informacionais sofrem
oscilações porque um momento nunca é igual ao outro. Logo aí, há uma
variabilidade inerente à repetição. Positiva, por sinal. Ainda assim, não
deverá ser suficiente, e o papel do treinador será acentuar acertadamente essa
variabilidade natural. Até porque é a variabilidade que assegura um caráter
adaptativo às circunstâncias, sem perdas de identidade, pelo contrário. Se uma
situação não tem situação repetida, como é que os jogadores resolvem situações
que nunca experimentaram? Um facto é que resolvem. Consta que a interferência
contextual será a forma mais evidente de proporcionar prática variada. Agora,
qual a dose ótima de variabilidade que reduz o indeterminismo aparente e a
incerteza do meio, preservando a estabilidade? Pois.
Questão, simples: Não será demasiado constrangedor, e muitas vezes,
dentro da restrição temporal inerente ao jogo, colocar o jogador a pensar, a
decidir deliberadamente, sobre que ação coloca a bola numa zona onde a sua
equipa esteja em superioridade numérica, tal como seria se tivéssemos que,
constantemente, pensar sobre a escolha do trajeto mais curto até casa, ou sobre
qual a distância interpessoal adequada para andar ao lado de alguém na rua?
PS: Este texto foi enviado por um leitor, Matic, aluno da Faculdade de Motricidade Humana. Muito obrigado pelo teu contributo.
PS2: Fácil é comentar sobre se jogador X é bom ou jogador Y é mau, por todos julgarmos saber. Difícil é comentar sobre o conhecimento necessário para argumentar sobre a valia desse jogador. Assim, espero que as grandes polémicas voltem-se sobre este texto em forma dos mais do 100 comentários sobre Ola John, dos mais de 70 sobre Suarez, os mais de 60 sobre Varane, os mais de 100 sobre Mourinho, os mais de 100 sobre Wenger, os mais de 100 sobre Di Maria, ou os mais de 100 sobre Djuricic.