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Cada vez mais é aceite a importância da tomada de decisão, mesmo entre os adeptos da modalidade.
Todavia, aquele que é o traço mais importante do jogo na actualidade continua a ser de muito difícil compreensão. Naturalmente, até porque se fosse fácil surgiria como algo natural aos próprios atletas. E a verdade é que se uma percentagem avassaladora de jogadores não sabe sequer tomar uma boa decisão de forma consciente, dificilmente se pode esperar a sua compreensão da parte de quem nunca sequer pisou a relva."
" Ao contrário do que provavelmente muitos pensarão, a tomada de decisão não tem qualquer relação com sistemas tácticos, modelos de jogo, ou nomes dos adversários. Quando um jogador toma uma decisão, apenas uma coisa importa. A situação de jogo em que está envolvido. Isto é, quantos contra quantos, local e condição (enquadrado?) onde tem a bola e posicionamento dos jogadores presentes na situação. "
Isto, claro, se estivermos a falar em equipas com o mesmo nível/volume de treino, que joguem no mesmo contexto (competição), onde as diferenças técnicas e físicas não são fundamentais.
Nestes termos o contexto é que dita se a acção do jogador foi a mais adequada, por forma a aproximar a equipa do sucesso.
"Tende-se a confundir uma boa tomada de decisão com uma consequência positiva e uma má tomada de decisão com uma consequência negativa. Quando não estão directamente ligadas. Uma boa decisão faz aumentar as probabilidades de sucesso da equipa, mas pode em determinado momento, por uma má execução ter uma consequência negativa. Se com um colega preparado para se isolar decidir driblar cinco adversários e for bem sucedido e terminar com um golo fantástico, tal não significa que eu decidi bem."
Este parágrafo é fundamental para se perceber que a decisão deve ser avaliada na altura que o jogador a tomou. Não se pode por isso na maior parte das situações, avaliar a decisão pelo seu resultado final. Há obviamente situações em que avaliar a decisão pelo resultado é possível, pelo tamanho sucesso que o jogador tem no desafio das probabilidades. Mas quantos são esses, que conseguem jogar constantemente no totobola e ganhar?! Poucos, muito poucos.
"Demasiadas vezes a boa tomada de decisão, sobretudo em fases como a da construção e criação, chega até a afastar o jogador da notoriedade, porque este está apenas preocupado com o proporcionar à sua equipa uma boa situação de jogo (com menos oposição e bola mais enquadrada com a baliza). É, por exemplo o caso do post anterior. Um extremo que a um toque coloca um colega de frente apenas para a defensiva adversárias e bem enquadrado no corredor central. O passe de Ola John para Djuricic poderia ter saído mal, mas a decisão teria sido óptima. Já se tomasse a liberdade de arrancar pela linha e tirar um cruzamento, mesmo que tivesse dado golo, teria sido uma má decisão, porque as probabilidades de chegar ao golo dessa forma são incrivelmente mais reduzidas do que fazendo a bola chegar a um colega enquadrado no corredor central só com a linha defensiva adversária à sua frente."
Pensemos numa hipotética situação: Xavi está no corredor central a 20 metros da grande área, com um adversário pela frente sem cobertura. A melhor decisão, para a maioria dos jogadores, seria o 1x1. E é aqui que entra a qualidade do jogador. Xavi não tem 1x1, e não tem velocidade de deslocamento. Para ele, o melhor seria temporizar e aguardar a entrada de alguns colegas. Então, nunca se exigiria ao Xavi que naquela situação tentasse o 1x1 ali. O contexto é influenciado pela qualidade do jogador, como é natural. Contudo, no alto rendimento, estamos a falar de um universo onde a grande maioria dos jogadores tem capacidade para conduzir, passar, receber, rematar, e driblar. Logo, a maior parte dos jogadores tem as ferramentas necessárias para decidir bem, importando pouco o nome do adversário (jogador).
"Quando se fala em tomada de decisão, o nome do adversário conta zero. A menos que o adversário não seja um profissional do futebol..."
Aqui está mais uma vez o contexto. E o contexto é sobretudo influenciado por aquilo que o adversário e os colegas nos permitem. Por exemplo, na Taça das Confederações a Espanha jogava contra a selecção do Taiti e ao fim de 15 minutos eu pensei que o Navas deveria ter entrado de início. Isto porque a selecção do Taiti jogava com a equipa muito subida dando muito espaço nas costas da defesa. Notou-se na selecção espanhola alguma dificuldade em aproveitar esse espaço porque não tinha, em campo, jogadores para o fazer à toda largura. Nesse contexto específico o que se pedia da selecção espanhola, como se verificou depois da entrada de Navas, era uma maior aproveitamento desse espaço, independentemente do modelo de jogo que a equipa tem. E aqui, novamente, entra a qualidade do jogador, uma vez que não são todos que conseguem aproveitar esses espaços, tal é a distância que têm de percorrer e a velocidade a que o devem fazer. Mas quantas vezes se repete este contexto, num jogo contra qualquer outra equipa não amadora?! Muito poucas. Normalmente os espaços que os jogadores têm de percorrer em grande velocidade são curtos, e com muitas pernas pela frente. Pernas com semelhante capacidade física e técnica. Pedia-se, dessa forma, um futebol mais vertical, com menos passes, porque o adversário assim o permitiu. Quantas equipas mais a Espanha encontrou a defender daquela forma a profundidade, sem homens próximos entre a bola e a baliza? Nenhuma.
Daí a nossa generalização daquilo que possa ser uma boa ou má decisão, porque na maior parte do tempo o nível das equipas se defrontam é muito próximo.
"A boa tomada de decisão não depende sequer da dificuldade do jogo. O jogo pode ser extraordinariamente difícil e o nível de boas decisões mantém-se elevado, independentemente disso. Apenas, terá situações mais complicadas para resolver. Num jogo de extrema dificuldade, se calhar não foi possível enquadrar as 10 vezes que se recebeu, então entregou-se a bola novamente no lateral em todas essas vezes. A tomada de decisão continua elevadíssima. Fez sempre o que devia fazer. Não teve, porque o jogo foi de maior dificuldade, foi situações para resolver mais próximas da baliza adversária. Esteve, portanto, sempre longe da notoriedade. Mas isto porque o jogo não lhe permitiu mais."