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terça-feira, junho 26, 2018

O alívio do Bernardo Silva

Portugal é o campeão da Europa e ficámos satisfeitos pela vitória no torneio, mas nunca nos enganamos quanto à superioridade portuguesa sobre os outros. As competições à eliminar têm muito disto: nunca se sabe muito bem para onde vão cair as fichas uma vez que, ao contrário das provas de regularidade, é muito difícil recuperar de um erro decisivo num jogo. São poucos os jogos. Assim, os campeões destas provas tanto o podem ser de forma inequívoca ou podem cair no equivoco de julgar que a vitória foi conseguida por uma grande ideologia de trabalho. É mais difícil gerir as vitórias do que as derrotas, uma vez que o resultado final é capaz de camuflar toda uma série de erros que foram cometidos e deixar-nos a pensar que estamos a caminhar na direcção certa. A vitória é o maior catalisador de vitórias, certo. Mas só o é se formos capazes de ser fidedignos na análise e nos méritos, ou falta deles, das nossas conquistas. Não se trata de ter um modelo de jogo mais aprazível, nem tão pouco de jogar bonito; trata-se, e só, de aproximar os comportamentos colectivos daquilo que são as mais valias individuais que temos. Porque se o jogo é dos jogadores, é para eles que devemos direccionar as ideias de jogo. No final das celebrações do Euro celebramos, mas lembramos que era a altura ideal para evoluir, alterar comportamentos, criar definitivamente um plano e um modelo que fosse de encontro ao que de melhor temos por cá: talento.

E que tipo de talento temos?!


Bernardo Silva é a personificação do talento que temos por cá. Num nível muito acima da maioria, claro, mas com o tipo de perfil técnico e fantasista que Portugal sempre exportou. E se há acções de jogo que não dizem grande coisa, há outras cujo o significado é imenso: quando olhamos para  o Bernardo Silva, que nunca deve ter dado um charuto na vida, que joga o seu primeiro jogo de uma grande competição por Portugal, com um nível de desnorte tal que se predispõe a tratar a bola desta forma, aí percebes para o que a selecção veio. Basicamente, estamos a dizer ao nosso jogador mais talentoso para abdicar do talento que tem em prol da equipa, quando deveria ser a equipa a aproveitar-se do talento que ele tem para sair beneficiada. E isto, senhores, significa que qualquer coisa de muito errada se passa com o nosso futebol. Alguém nos está a tentar convencer que para se jogar ao mais alto nível deve-se abdicar do talento para se sair vitorioso, e por isso as críticas às nossas unidades mais criativas têm sido mais que muitas. As críticas aos erros individuais que todos cometem em posse, também. Contra a selecção espanhola dizia-se que não podíamos competir porque são muito fortes individualmente e são eles os donos da bola, contra Marrocos disseram que a pressão forte que exerciam condicionava os jogadores aos erros que se cometeram, contra o Irão ainda não percebi muito bem, mas não deve andar longe da falta de qualidade para jogarmos em espaços reduzidos. Afinal, somos bons no quê?!

O modelo ofensivo de Fernando Santos pode ser resumido numa frase: fujam do portador da bola para o mais longe que conseguirem! E esse modelo, apesar de num ou noutro momento poder dar a impressão de ser bastante benéfico aos nossos jogadores, é-nos prejudicial na maior parte do tempo. A equipa, pela falta de hábito de trabalhar junta para resolver problemas, entra em ciclos de erros que se sucedem até um evento importante mudar a toada do jogo (normalmente um golo). E os golos não surgem, na sua esmagadora maioria, como consequência da competência que temos em interpretar essa ideia ofensiva, mas sim por detalhes e imponderáveis que teimam em cair para nós empatarmos mais um jogo. Como é que queremos que os nossos criativos apareçam se não lhes damos soluções para eles possam ser bem sucedidos? Estamos constantemente à espera que um jogador consiga desequilibrar o jogo sozinho, sem a ajuda dos colegas, para posteriormente ser ele a aproveitar esse mesmo desequilíbrio. Na nossa forma de jogar, para além do receio em apostar-se em combinações curtas, em zonas de construção e criação não se nota a intenção de aproximação ao colega para combinar, para criar dúvida, para dar uma solução de passe diferente (vertical) que permita baralhar o jogo defensivo do adversário, tirá-lo do conforto e dar um melhor seguimento ao jogo pelo maior ganho de tempo e espaço. Ainda não percebemos a vantagem que é usar um colega para ficarmos em melhores condições de definir o lance, e por isso as queixas sobre o rendimento dos nossos criativos se aguçam. Reparem, os criativos só o são pelo trabalho que os outros lhes fazem para que possam aparecer. Aliás, a grande virtude da melhor equipa da história era essa: o entendimento de que havia que criar condições para que os jogadores certos pudessem aparecer no momento certo.


Grande golo de Quaresma! Mas o que escapou à maior parte de nós foi a participação de Adrien no golo. Não se engane! O golo só aparece pela solução de passe que o Adrien oferece ao Quaresma, que em combinação lhe permite ficar em melhores condições para definir o lance. E enquanto não percebermos o valor destas pequenas sociedades, destes pequenos envolvimentos, vamos estar sempre muito longe de competir contra os donos da bola e muito mais longe de ganhar contra um Irão qualquer.

4 comentários:

LGS disse...

Mete dó esta seleção...

Apesar da vitória no europeu as exibições não foram muito diferentes do que estão ser agora. Mas se em 2016 havia a "desculpa" de que os jogadores que tínhamos não davam para muito mais, em 2018 o panorama mudou um pouco. Com jogadores como o Bernardo, Bruno Fernandes, João Mario, André Silva, William, Nelson Semedo (incrível como fica de fora e o titular é um mediano Cedric), Ruben Neves (outro que teria lugar neste campeonato), e de certeza que me estou a esquecer de alguns, podíamos jogar muito mais do que isto que se tem visto...

Abraço

Aires Santos disse...

O treinador é o elemento que está a mais na nossa selecção, incompetência total e não jogamos nada

Diogo Santos disse...

Excelente texto. Basicamente é isso, incrível como não ha jogadores próximos uns dos outros para que se possa jogar e criar condições favoráveis para a nossa seleção. Ainda para mais quando contamos com um Ronaldo na nossa equipa. Ele só tinha de esperar pela bola na área (não é muito diferente do que faz agora) mas se jogássemos juntos, como equipa, não seria tudo muito mais fácil? O empate com a Espanha ainda vá lá que não vá, afinal, é a Espanha. Mas as exibições contra Marrocos e irão são penosas de ver. Como é que alguém que está no futebol à tanto tempo, FS, não consegue pedir/montar uma equipa para que subam e desçam no terreno como um todo?

Unknown disse...

Saudades do chat, aliás, o movimento 'tático' no Brasil está aflorando, tem bastante site, podcast e fórums, muitos aliás analisando essa Copa e elogiando o CR7.

Bernardo Silva não pode NUNCA ficar fora desta seleção tuga, e como é complicado para esta equipe 'propor o jogo', construir e triangular, pode ser um perigo no 'mata-mata/knock'.