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sábado, março 17, 2018

Herança Futebolística


A complexidade do jogo assenta na dinâmica incerta que o futuro lhe confere, e é isso que impede que duas acções, que dois jogos sejam iguais. E como se trata de um jogo colectivo, ainda que o individual impere, a equipa fica um pouco mais segura se adoptar comportamentos comuns. Isto é, se for uma equipa. E para ser uma equipa o treinador deve "empurrar" os jogadores para a adopção de uma linguagem colectiva reconhecida por todos os seus elementos. Essa linguagem comum são as regularidades que as equipas treinam, sem saber como elas vão aparecer no jogo. Porém, alguns treinadores são tão capazes de modelar a natureza incerta do jogo que conseguem inclinar o campo para que o jogo seja mais próximo daquele que os seus jogadores conhecem e reconhecem do que daquele que o adversário conhece. Através da sua competência esses treinadores conseguem que o jogo tenha mais a sua identidade do que a identidade do adversário. Mas como o fazem? Direccionando, fundamentalmente, o treino para a tal linguagem colectiva que se identifica na dinâmica do jogo como consequência da dinâmica da equipa. Por exemplo, numa equipa de posse o treino deve dirigir-se para que os jogadores entendam que para ter a bola o portador necessita de apoios orientados de determinada forma, de condições para entregar e receber, e de saber que os apoios estão ali para o ajudar a resolver o problema que ele enfrenta da mesma forma que ele os ajudará quando estiverem em posse. Mas estes parâmetros de base devem estar sempre presentes uma vez que são eles que vão garantir que a linguagem comum é a posse! A melhor Herança Futebolística que um treinador pode dar aos seus jogadores é essa: garantir-lhes que estão todos a trabalhar no mesmo "idioma" para resolver os desafios que se avizinham.

Hoje em dia está muito na moda falar-se na estratégia como grande factor de desequilíbrio dos jogos, mas esquece-se que esse só será um factor tão relevante quando os jogadores forem todos equiparados e quando os modelos de jogo estiverem esgotados. Ou seja, quando as equipas estiverem tão viradas para si mesmas que consigam de forma acentuada (na esmagadora maioria dos jogos) criar condições para que o jogo que se joga seja o seu e não o do adversário. Há treinadores, mais pobres ou mais ricos nas regularidades que trabalham, que conseguem esse ascendente sobre os outros; mas só o conseguem porque não abdicam dos grandes princípios que trabalham. Fazem ajustes nas suas formas de atacar e de defender que não descaracterizam o trabalho, as dinâmicas, o idioma com que tentam durante o tempo de trabalho convencer os seus jogadores a segui-los. E sabem que só podem/devem esticar os ajustes para determinado adversário até aí porque a coerência é um princípio fundamental quando se quer transmitir uma determinada ideologia, uma forma de ver, de estar, de analisar comum. Quando a mensagem é incoerente os jogadores perdem-se a ficam sem perceber como se devem colocar, como devem reagir, quando confrontados com situações semelhantes. E aí, quando o jogador fica exposto é muito fácil culpa-lo sem perceber que não foi o mesmo que criou a confusão na própria cabeça. Quem não se lembra, por exemplo, do lance de Kovacic no clássico espanhol, onde a marcação individual que lhe foi pedida fez com que se esquecesse da bola? Foi muito fácil falar desse erro como individual, mas muito poucos disseram que aquela confusão (sair na bola ou continuar com a marcação individual) foi criada por uma instrução que lhe foi dada pelo seu treinador. Instrução essa que não era coerente e por isso abria espaço à esse tipo de erro de análise.

Os detalhes, como por exemplo a marcação individual, que alterem a linguagem colectiva de tal forma que ela se descaracterize são nocivos ao desenvolvimento e entendimento da ideologia que o treinador trabalha; mas mais nocivos do que a alteração dos detalhes é uma equipa que vive de e para os detalhes. Nessas equipas não há linguagem comum porque cada jogo, cada treino, é amplamente direccionado para aquilo que o adversário faz e não em transformar o jogo naquilo que os jogadores mais trabalham. As equipas de Mourinho têm sido isto. O treinador modela a equipa de forma diferente, com princípios diferentes, com ideias diferentes todas as semanas. E assim, é natural que os jogadores não se entendam. Se num jogo devem fechar a baliza e proteger zonas de referência e noutro devem andar atrás do adversário ainda que isso comprometa o fechar da baliza, é natural que a equipa não se entenda e que os jogadores não se convençam. Assim, é muito fácil que eles tenham sempre dúvidas. É natural que os jogadores não conheçam, nem consigam prever as incidências de cada lance, e é normal que não saibam como agir/reagir à acção de cada colega porque nenhuma acção ou reacção foi treinada de forma consistente. Nenhum princípio de jogo foi mantido do início ao fim como base pela qual a  equipa se deve nortear. No fundo a equipa de Mourinho está sempre em improviso. A única grande regularidade que tem, o único grande princípio que resiste, é a bola pelo ar no Lukaku, Pogba ou Fellaini e o consequente ataque à segunda bola. Para um jogo tão complexo e tão rico é muito pouco. E por isso, por ser uma equipa de improviso e de detalhes ditados pelo adversário, por não deixar que os jogadores se desenvolvam como equipa e que conheçam à fundo as suas forças e fragilidades dentro de determinado tipo de jogo, por não permitir que os jogadores se tornem competentes a resolver problemas de forma coerente, Mourinho deixou de ser o treinador que (estando em equipas com a responsabilidade de disputar o título) em nove anos ganhava seis "important things", para ser o treinador que nos oito anos seguintes ganhou duas, e ainda exalta as "some things" para se defender de algo que outrora criticou.

3 comentários:

Edson Arantes do Nascimento disse...

Tanta coisa para se dizer que é, simplesmente, uma merda. E qualquer pessoa consegue ver que é uma merda, mesmo aquelas que dizem que não é uma merda.

Unknown disse...

Saudades dos textos, continue postando por favor.

Miguel Pinto disse...

Se o Leicester foi campeão a jogar dessa forma, porque é que eu (Mourinho) não o poderei ser? Ainda por cima com melhores jogadores...
Só que ainda não chega.

Excelente post!