Posse de bola no Facebook

Translate

sábado, outubro 21, 2017

Não te adaptes! As convicções são a diferença que te caracteriza...

O contexto tem sido o maior motivador para que se expliquem as maiores mudanças, e as diferenças mais evidentes entre o jogo que um e outro treinador idealiza. E a adaptação, a mudança da forma de jogar de equipas do mesmo treinador, tem sido a virtude mais elogiada nos treinadores actualmente. Defendo, naturalmente, que cada treinador deve optar por aquilo que sente, uma vez que só sentindo conseguirá convencer os seus jogadores a seguirem a sua ideologia. Porém, ficam sempre algumas questões pendentes. Será a adaptação ao contexto, seja lá o que contexto for, a melhor resposta para fazer evoluir uma equipa nos seus comportamentos, para que se torne mais eficiente na resolução dos problemas do jogo? Dever-se-à comprometer toda uma ideologia, e toda uma forma de jogar e de treinar, todos os grandes princípios, em função da especificidade de um jogo, de uma equipa, de um jogador adversário, de uma cultura? Se adaptação fosse a melhor resposta, como é que fenómenos como Sarri ou Pochettino vingam de forma tão estrondosa?

Num campeonato onde todos procuram por duelos, onde o jogo de primeiras e segundas bolas é disputado com a bola no ar, sempre com muita ferocidade, podemos optar por dois tipos de abordagem:  

- A adaptação. Colocar jogadores mais fortes nos duelos, retirar os menos aptos a vencer duelos e disputas de bola no ar. No fundo, abdicar do talento que é a bandeira habitual da equipa por outro tipo de talento do qual a equipa não faz uso regular. Recuar a equipa nos momentos de organização defensiva para atacar a bola de frente, colocar menos gente no processo ofensivo e mais em posições mais conservadoras (em posse). Ao fim ao cabo, retirar referências habituais em termos de posição, de espaços e de linhas de passe. Seguir um caminho que todos os outros seguem para não ficar em desvantagem.

- A alteração do contexto em nosso favor. Tentar ao máximo retirar os duelos, e a influência da nossa fragilidade nas disputas no ar, do jogo. Convencer os jogadores a fazerem um jogo ligado, de passe curto, onde a equipa chegue junta ao último terço. Um jogo onde a equipa procure caminhos que fogem ao choque, com a bola no chão, e onde é ela que se move rapidamente enquanto os jogadores caminham para as melhores posições para atacar a área adversária. Um jogo onde a equipa não despacha cada bola, tendo em conta que quanto mais rápido a bola for colocada no ar, na disputa, mais rapidamente o adversário terá possibilidade de expor as nossas fragilidades. No fundo, transformar toda uma dinâmica de jogo no lugar de sermos transformados por ela, e com isso obrigar o adversário a adaptar-se a um jogo que não estão habituados a jogar. Seguir um caminho distinto para conseguir ganhar vantagem.

Os meus maiores momentos de aprendizagem, no jogo têm sido com gente que me é mais próxima, e é com eles que vou cada vez mais solidificando as convicções e afinando as ideias. Foi perguntado a um treinador bi-campeão nacional e vencedor de duas taças de Portugal consecutivas, com quem trabalhei e privei de muito perto, o que mudaria se fosse ele o treinador da equipa que ficou no último lugar - "Nada. Eu também teria descido de divisão". Foi essa a resposta, uma vez que foi a qualidade da equipa, dos jogadores, a ditar a descida de divisão por melhor que fosse o treinador. Se a equipa vai descer de divisão, se vai ter dificuldade, resta-nos apenas escolher a forma de perder... Então, o que é afinal o contexto? O contexto não é nada mais do que as escolhas que nós fazemos para a nossa equipa, para o nosso jogo. O contexto é o caminho que indicamos aos nossos jogadores quando colocámos no onze inicial jogadores com determinadas virtudes em detrimento de outras, e são as respostas que encontramos para resolver os problemas que nos aparecem no jogo. O contexto é a diferença entre encontrar uma possível solução para o problema, ou alterar a problemática em questão. 

No futebol há várias certezas: Vamos marcar e sofrer golos, vamos ganhar, perder, e empatar jogos, e a única palavra que temos a dizer sobre isso é na forma como isso vai acontecer...pelo caminho que escolhemos percorrer com aquele grupo. Por isso, por ser só uma questão de escolhas, o meu maior elogio será sempre para quem consegue alterar todo um contexto, e convida quem joga e quem vê jogar a retirar sensações positivas de um jogo que vive na própria cabeça. E todos os anos, para a esmagadora maioria dos treinadores que alegam ser o contexto a principal razão para um jogo menos ligado, menos organizado, menos aprazível, aparecem fenómenos que nas mesmas condições, que em contexto semelhante, procuram por respostas diferentes e fazem escolhas que nos espantam. Tudo por uma questão de convicção, de conforto no treino, e de maior afinação num determinado tipo de ideologia.

2 comentários:

Guilherme disse...

Muito obrigado por este texto. Por vezes lendo o Lateral-Esquerdo, sobretudo certos textos encomiàsticos sobre a actual ideia de jogo do Mourinho pergunto-me se se esqueceram de que os contextos historico-culturais são plasticos e passiveis de serem moldados pelo individuo.
Se os contextos determinassem tudo, não teria havido Sacchi, por exemplo, e a cultura futebolistica italiana da época é incrivelmente rigida. O Sarri andou décadas a penar em equipas pequenas da Toscana mas tanto insistiu que conseguiu chegar ao topo. O Paulo Fonseca herdou uma equipa de um treinador que esteve là anos e tinha uma ideia de jogo diametralmente oposta à sua.

Quando os processos são bons o jogador acredita. Portanto tudo depende da vontade do treinador em inovar, correr riscos, e de como domina o treino.


P.S. Desculpas pela falta de acentos (teclado estrangeiro).

Blessing disse...

Guilherme, claro. Agora, obviamente que é mais difícil (daí não ser para todos) criares uma proposta que se atreva a tentar alterar o meio envolvente.