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quarta-feira, maio 24, 2017

O Bem jogado e o mal jogado. Forçar ou recomeçar.

O futebol é um jogo onde em defesa de cada modo de idealizar o jogo se diz por demasiadas vezes que existe uma grande subjectividade naquilo que é a noção de bom ou mau futebol. Ou seja, fala-se do futebol como se fosse um jogo sem regras e sem constrangimentos que nos indiquem quais são os caminhos a percorrer que maior probabilidade de sucesso nos dão em relação a outros. Quando se assume uma posição, em relação a muitos assuntos ligados ao jogo, de: "esta é a minha opinião, a minha forma de pensar e sentir o jogo, e a minha ideia em relação a esta situação", fala-se como se essa assumpção garantisse a maior, ou igual, validade da ideia em relação a outras. Isto é, como é óbvio todos temos formas diferentes de ver, sentir, e interpretar. E todos temos o direito à opinião. Porém, tal não implica que essa opinião, essa forma de sentir e interpretar, tenha maior, menor, ou igual valor em relação a outras. Desengane-se quem pensa isso do futebol, porque o futebol é um jogo que tem regras, que tem constrangimentos criados pelas regras, e que por isso tem formas de jogar melhores do que outras. Claro que, por ser um jogo dominado por imponderáveis como nenhum outro todas as ideias podem resultar em vitórias. Veja-se o Leicester do ano anterior. Nenhuma forma garante a vitória, mas há que entender que existem formas que mais se aproximam dela. Formas que nos dão indicadores de uma maior probabilidade de sucesso tendo em conta a qualidade dos jogadores e do adversário.

Veja-se o exemplo do vídeo que se segue.

Ao início fica a sensação de que a equipa teve vários momentos para acelerar sobre a baliza e tentar a finalização, e que apenas não o fez por capricho. Ou seja, que foi mal jogado. Que a equipa fez uma posse sem grande objectividade, que chegou perto da área adversária por várias vezes mas nunca a invadiu. E que era absolutamente desnecessário, tento conquistado um espaço tão importante próximo da baliza adversária e por isso longe da própria, recuar tanto e jogar inclusivamente com o Guarda-redes, trazendo mais risco à posse pela proximidade da própria baliza. Mas, analisando o lance ao pormenor as sensações são bem diferentes.


A primeira possibilidade de forçar o ataque, e tentar uma situação de finalização aparece aqui. O portador da bola, tendo em conta o espaço que tem disponível, tem a possibilidade de continuar a progredir, atacar o espaço, e orientando a bola no sentido certo atacar um dos defesas na última linha e forçar o 2x2. Porém, talvez por perceber a chegada de outros dois elementos da defesa, percebe que mesmo atacando um dos dois últimos defesas as suas possibilidades de tirar partido do lance ficariam bastante reduzidas. Ficaria numa situação de 1x3 (no espaço próximo da bola), e com um colega que se deslocava longe dele. Optou por travar, virar-se para a equipa e atrasar para alguém que se aproximava em apoio.


São dois passes para trás que permitem a quem defende repor um número importante de jogadores atrás da linha da bola, tendo em conta a situação inicial. Mas, sendo que não existia vantagem temporal, sequer espacial ou numérica na primeira imagem (a não ser que fosse forçada, com um grande risco de insucesso), são dois passes que permitem a possibilidade da equipa criar uma situação de ataque melhor.


Este é o início do segundo momento onde a equipa poderia ter forçado a entrada na área, onde o portador da bola decide forma fantástica aproveitar o movimento de ruptura do seu colega, que arrasta um adversário, para enquadrar outro colega de frente para a linha defensiva e com possibilidade de remate. A possibilidade de remate só existe realmente se ele o fizer de primeira, uma vez que a aproximação dos defesas à bola foi até bastante rápida.


No seguimento do lance a bola é jogada para o jogador que aparecia na largura do lado contrário, que parece ter a possibilidade de invadir a área forçando o 1x1. Há espaço e as coberturas até estão relativamente longe, sendo que dentro a área a abordagem do defesa tende a ser mais conservadora para tentar evitar um penalti. Todavia, no 1x1, a única solução seria tentar vir por dentro uma vez que por fora a finalização ficaria comprometida (pelo pouco ângulo, pela abordagem do defesa) e a possibilidade de sucesso na finalização do cruzamento também era muito escassa tendo em conta a posição onde se encontravam os colegas, e o adversário. Não existia vantagem nas zonas de finalização.


Um segundo depois percebe-se que mesmo o 1x1, caso a opção fosse atacar por dentro deixaria de ser um 1x1 pela rápida aproximação da cobertura. E o cruzamento continuava a ser uma opção cuja probabilidade de sucesso era baixa. Mais uma vez o portador da bola decide bem em jogar na cobertura. Em vez de forçar, recomeça o ataque. Por curiosidade, repare no comentário do comentador quando o passe é feito.

Por esta altura, e se avançou o vídeo, já começa a ficar evidente um indicador que vai ser fundamental para o desfecho do lance: a diferença de postura defensiva em cada zona. Isto é, quando a equipa defende no seu meio campo defensivo a postura sobre a bola é muito mais conservadora e menos agressiva. Mais de contenção e de espera do erro. 


À medida que a bola vai recuando e entrando dentro do meio campo defensivo da equipa em posse, parece que se activam marcadores de pressão e que a agressividade sobre a bola e linhas de passe aumenta.


Com a sucessão de passes, com os passes para trás, com o atraso ao Guarda-redes e sobretudo por não ter perdido a bola, a equipa consegue criar passado um minuto e meio uma situação bem mais interessante do que a primeira, curiosamente no mesmo corredor. Desta vez, o portador da bola já tem soluções próximas e interessantes, não está muito pressionado e tem até algum espaço. Ainda assim não houve movimentos que permitissem soluções para forçar a penetração em condução ou com uma ruptura. Mais uma vez o passe escolhido foi para o apoio (neste caso, lateral).


Poderia aqui, o portador da bola, ter forçado o 2x2 com uma tabela e uma desmarcação de ruptura. Não teria sido uma má decisão, e daria a possibilidade de aproveitar a desmarcação do jogador que aparecia do lado contrário para receber em condições de finalizar. E ainda assim, a opção foi por continuar a procurar uma solução mais interessante e que garantisse maior probabilidade de sucesso do que esta.


Mais uma vez a bola entra no meio campo defensivo da equipa em posse, o adversário activa a pressão, aumenta a agressividade, e fica encontrada a situação ideal para acelerar. Aquela vantagem numérica (3x1) é o que impede uma abordagem mais agressiva do único defesa naquele espaço, e é o que permite a vantagem, o explorar da vantagem espacial no momento seguinte. Depois é um 3x2, e a finalização surge em 1x0+Gr. 

Para que o lance tivesse este desfecho tão favorável (a criação de uma situação de finalização de 1x0+Gr, onde o portador da bola tinha tempo e espaço) houve um factor chave: a entrada da bola no meio campo defensivo da equipa em posse. Foi isso que permitiu, em larga medida, que o adversário se desorganizasse com a pressão que tentava exercer e com a agressividade que colocava na tentativa de recuperação nesse espaço. Sem os passes para trás, sem os múltiplos recomeços, dificilmente se conseguiria prever uma situação de tão provável finalização quanto a que se criou. Por isso, neste caso particular, contra este adversário, neste contexto específico, fazer posse no meio campo defensivo era a garantia de um ataque mais promissor caso essa pressão fosse ultrapassada, e era melhor jogado do que fazer posse no meio campo ofensivo.

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