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segunda-feira, maio 22, 2017

A vitória de Pochettino e Guardiola numa liga onde Conte é campeão

Este texto não pretende beliscar a incontestável vitória do Chelsea na liga. Conte foi o treinador que mais mereceu vencer o campeonato porque conseguiu traduzir as regularidades do seu jogo em pontos. Muitos pontos! É uma equipa do treinador, onde se percebe em cada momento que há uma ideia pela qual os jogadores procuram. E mais do que isso, é uma ideia que foge do idealismo de que em Inglaterra deves ser inglês. De que te deves adaptar ao futebol que se joga, em vez de impores o teu estilo adaptado ao que os jogadores conseguem fazer. Conte ganhou porque decidiu ser ele próprio, e nada inglês.

Guardiola triunfou. De forma menos evidente do que noutros anos, mas conseguiu uma pequena, pequeníssima vitória, que poderá ser o fundamental para conseguir traduzir a sua forma de jogar em títulos. É uma vitória tão importante que poderá dar a estabilidade emocional que os seus jogadores necessitam, que a sua ideia de jogo exige, para que sejam mais regulares na exibição das matrizes do seu jogo. Conquistou o público.
O aplauso ao passe para trás, ao atraso para o guarda-redes, mostra uma mudança que não é fácil conseguir em tão pouco tempo, ainda para mais sem títulos associados. Ou seja, sem o sucesso de uma vitória massiva Guardiola conseguiu que o seu público abrisse os seus horizontes e se juntasse à equipa naquilo que é um dos pilares fundamentais do seu jogo: cada passe para trás é a possibilidade de se começar um novo ataque. E é, sobretudo, a possibilidade de se começar um novo ataque em melhores condições do que as anteriores. E se é difícil para quem trabalha diariamente o entender, um reforço do público, do ambiente que os envolve, poderá dar à equipa o impulso necessário para nas situações de maior tensão continuarem a fazer o jogo que estão habituados. O jogo que treinam e que os distingue. Um jogo menos inglês, menos partido. O jogo que procura pelas melhores situações de ataque, e o jogo que permite que sejam a equipa que mais vezes consegue entrar dentro da área adversária e criar situações de golo, ainda que não concretizem.

A vitória de Pochettino é um pouco mais notável que a de Guardiola, porque consegue em dois anos consecutivos competir contra equipas de valor individual e poder financeiro bem superior. É, mais uma vez, o segundo classificado, o melhor ataque e a melhor defesa. E tudo isto assente num fundamento que se limita a seguir a lógica do jogo: se temos a bola temos mais possibilidades de marcar e menos possibilidades de sofrer. É por não ser inglês, nada inglês, que Pochettino triunfa consecutivamente sem os argumentos dos maiores clubes ingleses. É a melhor defesa porque não dá a bola por nada, e é o melhor ataque porque procura seleccionar melhor que o adversário os caminhos para finalizar. Não acredita no jogo das divididas e das segundas bolas; Joga em passe, em muitos passes. Se fizermos um exercício injusto* de um campeonato com duas épocas seria ele o campeão. Quando se fala de sucesso à longo prazo, e de formas de jogar o jogo melhores do que outras por garantirem melhores resultados ao longo do tempo, é muito isto. Mais pontos, mais golos marcados e menos golos sofridos, na regularidade.


* (Injusto porque Conte, Guardiola, Klopp e Mourinho não estão há dois anos nos respectivos clubes)

7 comentários:

zorg disse...

Só um detalhe: o Pochettino não ficou dois anos consecutivos em segundo. No ano passado, foi passado pelo Arsenal mesmo em cima da linha de chegada.

Isto não retira mérito ao que o Pochettino tem conseguido fazer no Tottenham, nem é muito relevante para o tema do post em si.

Guilherme disse...

Espero que tenhas razão Blessing, e que os apoiantes do City reconheçam aquilo que o trabalho do Guardiola trouxe de novo a Inglaterra.

Porque para os jornalistas ingleses a maior desilusão da época foi mesmo o Pep! Apenas em Inglaterra poderia o Pep ser considerado um flop! Absolutamente incrivel, porque apesar de todos os problemas que teve, bastariam certos golos quase certos terem entrado e a historia seria outra.

https://www.theguardian.com/football/blog/2017/may/22/premier-league-2016-17-season-review-our-writers-best-and-worst

Quanto ao Conte, apesar da qualidade indiscutivel, vamos ver como se aguenta na proxima época a ter que jogar a CL também. Creio que esta época provou que unica dificuldade extra do campeonato inglês comparado com o espanhol ou o alemão é apenas a absoluta irracionalidade do calendario e pouco tempo de pausa entre jogos.

Blessing disse...

Guilherme, e os árbitros!

Blessing disse...

Zorg, obrigado pela correcção.

Don Lewisten disse...

A minha curiosidade para essa próxima temporada europeia são: Lille de Bielsa e o "novo Milan", com o dinheiro dos chineses e Montella, que já se mostrou promissor.

Edson Arantes do Nascimento disse...

Eu percebo a ideia e não estou nada em desacordo.

Há algum tempo que me parece que a cultura futebolística, em Inglaterra, está a mudar: e digo isto porque hoje há equipas em escalões inferiores com ideias fixes, há jovens treinadores com ideias fixes, há uma série de miúdos baixinhos, franzinos, cheios de habilidade em surgir em vários escalões e divisões. E ainda temos o Wenger há 20 e tal anos com aquelas ideias de futebol atacante e o Guardiola e o GRANDE Pochettino.

Então isto que escreves tem o seu tempo, que não é apenas o tempo do futebol, é a mudança a acontecer debaixo dos nossos olhos.

No entanto, estes elogios tão fortes acabam por retirar espaço à crítica. O Guardiola ou o Pochettino são seres tão imperfeitos quanto os outros todos. Provavelmente, fazem a diferença pelas convicções que desenvolveram e pela forma como conseguem levar as pessoas que os rodeiam a acreditar, mais cedo ou mais tarde, que o caminho para todos evoluírem é mesmo aquele. E com certeza que o método é parte essencial do sucesso deles - que também me faz feliz.

Em relação ao Guardiola e ao City não consigo esquecer os maus comportamentos que apresentam em transição e organização defensiva. Há coisas neste City (como havia no Bayern ou no Barça) que não são boas, são más: referências individualizadas, enormes espaços entre sectores, defesas a caírem constantemente em arrastamentos, espaço à frente da baliza muitas vezes descoberto...

Podemos dizer: ah ok mas o homem está lá há pouco tempo e como se dedica sobretudo a dominar adversários e a pensar no mais difícil (atacar bem e com qualidade) é normal que isto aconteça.

Recentemente, ficámos a saber pelo Lahm que o Guardiola teve de lutar com os jogadores para impor, no bom sentido, as suas ideias no Bayern. Será que aconteceu o mesmo no City?

Eu diria que algures, no meio, estará uma parte da realidade. Sendo assim, e acreditando que a conquista dos atletas está consagrada ou a caminho disso, desejo fortemente que o Guardiola nunca esqueça que no futebol há que atacar, certamente e eu gosto muito disto, mas também é importante ser coerente. A coerência é árdua mas vale a pena.

Dentro das ideias que ele defende, há muito trabalho para fazer.

Blessing disse...

Edson, "Dentro das ideias que ele defende, há muito trabalho para fazer."

Sem dúvida! E, atenção, concordo com a maior parte das críticas que fazes aos comportamentos defensivos que apresenta. São consequência, também do que disseste, do pensar sobretudo no ataque, e dos jogadores vivenciarem mais esses momentos do que outros; portanto, da forma dele de olhar para o jogo. Há que melhorar, mesmo dentro daquele estilo, e há como melhorar! Não se pode fugir disso. Mas, olhando para a diferença pontual e mesmo até para a forma como foram eliminados na champions, não consigo deixar de pensar que: Se eles têm estado com os níveis de eficácia como estão estiveram neste últimos jogos, tendo em conta o número absurdo de situações de golo que criaram na grande maioria dos jogos, teriam, no mínimo, disputado o título até a última jornada, e teriam também tido a possibilidade de disputar pelo menos mais uma eliminatória da champions. Isto, claro, com todos os problemas defensivos que foi tendo e que ainda tem.