Posse de bola no Facebook

Translate

segunda-feira, abril 03, 2017

A Circulação Vertical e a Utilização da Largura

A circulação horizontal (em largura) ainda é falada como uma das principais formas de desorganizar o adversário. Até bem pouco tempo onde as referências eram mais individuais do que zonais, tal fazia sentido. Qualquer passe, em qualquer direcção ou sentido, obrigava a um deslocamento e a uma investida na direcção da bola porque esta tinha chegado ao jogador que se estava a marcar. E se isso fosse feito com velocidade, como ainda se fala hoje, mais ainda seriam os efeitos dessa circulação. Com a evolução dos métodos defensivos, com a defesa zonal e com os últimos tempos da marcação individual como a conhecemos os conceitos mudam e as realidades evoluem. Deixa de ser suficiente para desorganizar a equipa adversária circular a bola fora do bloco, em largura, por mais velocidade que se meta nessa circulação.

Com as marcações mistas, e com as equipas a defenderem mais juntas, impõe-se um tipo de jogo mais vertical que obrigue o adversário a reagir e a investir sobre bola para se criarem espaços. Como o adversário está interessado em defender espaços mais do que defender o homem, para o desorganizar e cansar deve-se incentivar a que este saia da sua zona passiva e tenha uma atitude mais pressionante. Tal faz-se usando a bola como engodo. Não é que a circulação horizontal deixe de fazer sentido, e que não permita ultrapassar um ou outro elemento da organização defensiva contrária. Permite guardar a bola com segurança para descansar, permite tempo para que a equipa se (re)organize na sua estrutura posicional definida para começar o jogo ofensivo, e também permite que se encontrem outras possibilidades para se invadir o bloco adversário. Mas se o objectivo for criar espaço, então o melhor é desposicionar o adversário sem lhe dar hipótese ou aos colegas de reagir a tempo de fechar o espaço que foi criado. Atacar a profundidade, usar o apoio frontal para provocar a pressão, ou fazer uma variação de flanco em diagonal (largura e profundidade) para criar desequilíbrio na estrutura adversária. Mesmo em termos de desgaste normalmente diz-se que circular a bola muito rápido cansa o adversário, mas se a circulação for demasiado horizontal e fora do bloco, que não obrigue a saídas das posições definidas, a ajustes e compensações o desgaste será sempre muito pouco. Não há nada que desgaste mais do que uma obrigação de investir rapidamente sobre a bola, e a consequente obrigação de fechar o espaço que ficou livre pela saída do colega da sua zona; pela aproximação da bola e do adversário do bloco defensivo, da linha defensiva, da baliza. As constantes acelerações e travagens no sentido de uma baliza e de outra (para trás e para frente - sair na bola e voltar para uma posição que pode não ter nada a ver com a posição inicial em relação aos colegas) são do mais exigente do ponto de vista físico e mental que pode existir.

A circulação em "U", que utiliza a largura como referência para fazer o adversário bascular de um lado para outro (mesmo que com uma variação horizontal longa de corredor para o lado contrário) tem hoje face às novas organizações defensivas poucos efeitos práticos. A largura deve ser utilizada, sim. Mas de forma circunstancial, apenas como referência para encontrar espaços centrais, ou em situações de ataque à última linha do adversário. Uma equipa que faça da circulação vertical o seu ponto forte (que utilize apenas a largura pontualmente para retirar de pressão, para encontrar outros ângulos para atacar o corredor central, e para para causar constrangimento à última linha do adversário), que saiba exactamente os efeitos da circulação vertical e esteja trabalhada para aproveitar os espaços que daí se criam será sempre a equipa contra a qual o adversário sentirá maior desgaste. O Nápoles talvez seja, hoje em dia, a equipa que melhor faz uso dessa circulação para criar espaço, e que está melhor preparada para o aproveitar.

6 comentários:

omeiocampo disse...

Muito bom post, como sempre.

Sarri é, para mim, um exemplo a seguir. Adoro quase todos, se não todos, os aspectos do jogo dele. Fico só um pouco de pé atrás no facto de ele projectar muito pouco os seus laterais. Mas tem feito um trabalho fantástico no Nápoles, tal como já tinha feito no Empoli, por exemplo, elevando o nível da equipa muitíssimo, bem como projectando e evoluindo jogadores. É um treinador apaixonante para mim. Veremos quanto tempo demorará até surgiram "seguidores" de Sarri, como apareceram e aparecem de Bielsa e Guardiola.

Quanto ao tema do post em concreto. Concordo que a circulação em U já não é suficiente para desmontar as equipas. Aliás, quando vejo uma equipa fazer isto constantemente chega a aborrecer-me, como me aborrecia o Porto de Lopetegui. Parece quase que estou a ver um jogo de andebol (apesar do meu crescente interesse pela modalidade), onde a penetração no bloco adversário é quase deixada exclusivamente à criatividade dos jogadores. Esta circulação vertical de que falas parece-me, efectivamente, um interessante método de contrariar a previsibilidade da circulação habitual em U.

Achas que o facto de o Nápoles ter tido algumas dificuldades com equipas que tenham um sistema de marcação mais direccionado para a referencia individual como foram os jogos com o Atalanta, por exemplo, pode ter alguma coisa a ver com isto?

Blog de Portugal disse...

Blessing, achas que cada vez mais se vai assistir à entrada no espaço entrelinhas do adv. como uma forma não direta, mas indireta de criar uma situação de finalização?

Dando um exemplo.

Em vez de um passe para um médio entre as linhas média e defensiva do adv., com este médio a enquadrar e a assistir um colega para o golo (uma forma mais direta de chegar ao golo),

as equipas entrarão nesse espaço para jogar num colega de frente, que rapidamente vai jogar para um colega no espaço livre noutra zona, procurando acelerar o jogo e criar uma situação de finalização.


Digo isto porque também se torna cada vez mais difícil receber nesses importantes espaços entrelinhas, enquadrar e jogar com qualidade, devido aos blocos compactos e ao facto de cada vez mais as equipas terem noção de que esses espaços entre as linhas podem matá-las.

Daí que quando se consiga entrar nesse espaço, o propósito será de obrigar o adv. a intervir na bola, a ajustar para fechar os espaços que abriram, para rapidamente jogar num colega de frente e explorar outros espaços que entretanto se abriram.


Pode parecer um pouco confuso, mas gostaria muito de debater isto.

Blessing disse...

Omeiocampo, obrigado.

Acho que pode ter a ver mais com falta de mobilidade na procura das linhas de passe, do que com o tipo de circulação em si. Como os jogadores estão habituados a procurar por espaços para receber entre as linhas adversárias (entre sectores e intra sectores) dão pouca importância ao espaço nas costas ou não. E aí, por serem vítimas de marcação mais forte nas costas podem perder sucesso nestas acções e não conseguir enquadrar-se para o jogo. Mas, um passe vertical num jogador apertado que devolve de primeira para o gajo que lhe passou e se movimentou para receber à frente é das melhores formas de ultrapassar a marcação individual. É uma tabela. O gajo que passa move-se sem bola e ganha ali tempo e espaço e possibilidade de criar superioridade numérica orientado para o jogo. Por isso digo que pode nem tanto ter a ver com o tipo de circulação, que desorganiza também a marcação individual, e mais com a falta de mobilidade. É isto que penso.

Blog, não sei. Mas é uma possibilidade. Eu não o faria dessa forma, por exemplo. Mesmo com eles compactos, e sim é difícil de entrar por dentro quando eles estão assim, mas é na minha opinião mais difícil penetrar com perigo por fora. Com as linhas juntas, ainda faz mais sentido colocar vários apoios frontais e insistir neles, nas tabelas, etc. Obrigar pelas trocas de bola mais curtas a mais ajustes do adversário na zona de bola e procurar pelos espaços que ficam livres de forma momentânea.

Blog de Portugal disse...

OK, Blessing, entendo a tua ideia, mas não achas que aí já requere um nível de qualidade individual muito alto?

Estamos a falar de jogadores que consigam em espaços extremamente reduzidos, com pressão a vir de todos os lados, jogar com qualidade a um, dois toques.


Mas sou a favor da tua ideia também, se bem que com reservas relativamente à insistência que faria nos apoios frontais. Contudo, era precisamente isso que estava a referir-me quando dei o exemplo: "Obrigar pelas trocas de bola mais curtas a mais ajustes do adversário na zona de bola e procurar pelos espaços que ficam livres de forma momentânea."

Claro que se o adversário for bom, à partida os espaços que ficam livres momentaneamente serão mais exteriores, mas quantos golos não são marcados mesmo assim.
Por exemplo, o lateral contrário é obrigado a ajustar dentro porque o seu central saiu, e a bola sai rapidamente no espaço, na sua zona, e não consegue chegar a tempo, sai cruzamento rasteiro e um gajo encosta.

Além disso, e já que se mencionou o Nápoles, vi o jogo 1-1 com a Juve e para além dos apoios frontais, ameaçou algumas vezes a bola nas costas, e muito bem na minha opinião.
Se o espaço entrelinhas é muito reduzido, é possível o portador da bola, fora do bloco, meter um bom passe nas costas. E mesmo que não crie grande perigo, põe os defesas em sentido, e se calhar no lance seguinte já não apertam tanto com o gajo que está entrelinhas.

Qual a tua opinião sobre isto?

Blessing disse...

Blog, é difícil, sem dúvida. Mas, para mim, exige hábito. É uma questão de, e só de, hábitos.

Quanto à tua questão, parece-me bem. Ameaçar a profundidade para criar espaço entre sectores era a melhor arma ofensiva do Barcelona de Guardiola. Faziam uma coisa mesmo top, dentro disso: Os jogadores conduziam de propósito, no corredor lateral para a linha de fundo para obrigar a baixar a última linha. Como é óbvio o meio campo demora sempre mais tempo a chegar, e era nesse espaço e com os médios a chegarem que eles metiam a bola para depois sim atacar a linha defensiva pelo corredor central.

Blog de Portugal disse...

Muito bem pensado, de facto.

Aliás, acho que no futuro se vai começar a dar mais valor àqueles passes que vão para o corredor lateral, mas que superam a linha média do adversário, pois também são uma boa forma de entrar no espaço entrelinhas.