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domingo, fevereiro 26, 2017

Jorge Jesus e o que separa os bons dos melhores: A Soberba.

Já todos conhecem a minha opinião sobre Jorge Jesus: é um fantástico treinador. As equipas por onde passa tendem a personalizar a sua ideia de jogo em campo, e a cumprir com as directrizes a que os obriga quase ao milímetro. Assim o é, fantástico, porque tem o conhecimento que separa os melhores dos bons: o técnico, ou se quiserem, o táctico. Ninguém tem mais conhecimento táctico que o treinador leonino, passe o exagero. São muito poucos os que conseguem operacionalizar de forma tão fiel o que lhes vai na cabeça. Porque o jogo não depende dele, depende do entendimento e posterior reprodução de outros elementos daquilo que o treinador lhes tenta passar: aprendizagem. É isto que Jesus oferece. Ainda hoje, na conferência de imprensa no final do jogo na Amoreira, Jorge Jesus voltou a dar mais uma prova cabal do seu conhecimento táctico da modalidade e da ideologia que ele quer transmitir, ao admitir que o Sporting tem sido uma equipa pouco rigorosa nos posicionamentos defensivos. Desde a linha defensiva, aos médios e avançados, que têm adoptado posições muito fora daquelas que são as consideradas como ideais. Por isso, nunca concordei quando foram dizendo, e ainda dizem, que a Jesus faltam skills na comunicação. Não concordo porque percebo que ele consegue transmitir exactamente o que quer com maior ou menor dificuldade na linguagem. Os jogadores entendem, a equipa técnica e todo o staff do clube entende, os jornalistas entendem, e o público que o ouve e dele faz chacota (pelo mau português) também entende. Nunca ficam dúvidas do que ele quer, quis, ou quererá dizer; e isso, amigos, é comunicar bem. A mensagem passa. Porém, em mais uma conferência de imprensa deliciosa pelo conhecimento que transmite das situações de jogo, e da influência que os golos marcados ou falhados têm na estabilidade emocional e táctica da equipa, deixa uma vez mais uma mancha naquilo que são as competências relacionais que qualquer um dos melhores treinadores deve ter. São demasiadas as vezes em que chama a si o protagonismo e relega para segundo plano aqueles que o público paga bilhete para ver: os jogadores. Parece esquecer-se consecutivamente que ao fim do dia é deles que depende. Ser treinador é na maior parte do tempo perceber que o nosso papel tem relevo mas é secundário, e que a ribalta é sempre, mas mesmo sempre, para os jogadores. Porque quando Jorge Jesus ensina e eles têm sucesso o mérito é conjunto (jogador e treinador), mas se tivesse falhado o jogador ficaria abandonado num coro de críticas muitas vezes iniciado por quem o "ensinou".

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No fundo, o conhecimento táctico é o que separa os bons dos melhores. Mas nenhum poderá pertencer ao grupo dos melhores sem as competências relacionais que permitem gerir um grupo sobre o qual um treinador tem responsabilidade.

sexta-feira, fevereiro 24, 2017

O gradual desaparecimento de Óliver

Têm sido muitas as reacções no sentido do mau investimento que foi a compra de Óliver Torres, e ainda que possa chocar concordo absolutamente com essas apreciações. Óliver Torres tem piorado ao longo do tempo, e a sua influência no futebol da equipa, o seu rendimento, não é o mesmo. Não tem aparecido com o fulgor que nos habituou, e com a  superior qualidade da construção à criação. Por isso, reitero, foi uma compra despropositada.

"Lá fora perguntam-me constantemente como é que se vai buscar jogadores ao futebol português se as equipas não nos permitem perceber as qualidades deles de forma consistente, por estarem maioritariamente envolvidos em tarefas defensivas ou em duelos"
A frase é de José Boto, uma das minhas actuais referências.

Em Portugal é difícil encontrar uma equipa que permita aos seus jogadores mostrar qualidades ofensivas distintas, e há jogadores que não se conseguem expressar em campo, mostrar o que de melhor têm, porque o jogo que se joga não os favorece. O exemplo máximo é Xavi. O jogador mais incrível que passou pelo futebol ao nível da tomada de decisão, sem intensidade para recuperar defensivamente e força que vença duelos, para vergar o mundo à sua superior qualidade necessitou que o jogo desse uma volta no sentido de o beneficiar. E tendo-o beneficiado, não houve ninguém melhor do que ele. Passou a ser o jogador que corria mais, porque corria para ser uma linha de passe constante; passou a ser o jogador que mais recebia a bola, por consequência de ser sempre uma linha de passe e dos colegas reconhecerem a influência que tinha para todo o jogo da equipa. No fundo, Xavi sempre foi aquilo que o ambiente onde esteve inserido quis fazer dele.

O mesmo se passa com Óliver, Rúben Neves, e até com Diogo Jota. Talento não lhes falta, e já se mostraram capazes de o expressar. O problema é que a medida que o tempo passa o jogo da equipa vai mudando, a equipa vai ficando cada vez mais parecida com o que o treinador quer, e o efeito de jogar com outros talentosos em campo vai-se esfumando. A escolha do onze, que continua a ser fundamental para fazer um futebol grande (como foi aparecendo quando os talentos andavam soltos) perde a influência que tinha porque o jogo é outro. Não é num jogo de duelos, de procura constante da profundidade, que se podem notabilizar estes talentos. Tão pouco é num futebol que se quer jogar sem bola. Para o rendimento de Óliver voltar a ser constante, e não apenas de momentos, a equipa precisa de em primeiro lugar de querer mandar no jogo. Querer ter bola, e ter uma ideia diferente da forma de a utilizar para chegar ao golo. Para que Óliver tenha mais tempo a bola, esteja mais envolvido no que de melhor pode dar ao jogo. Para que os colegas comecem a perceber que o jogo da equipa será tanto melhor quanto mais vezes a bola passar por ele. Depois o treinador precisa de ter a coragem para deixar que sejam os jogadores os protagonistas. Soltar os talentos em campo, os inteligentes e de qualidade técnica assinalável. Para que cada vez mais, e cada vez melhor, joguem uns com os outros. Que sejam eles a criar os melhores princípios da equipa, e a gerir o jogo, por terem percebido onde e quando é que o colega vai aparecer e em que condições gosta de receber a bola. No fundo, treinar para que os talentosos joguem em função uns dos outros e comecem a intuir as intenções do colega antes dela acontecer. Porque é isso que dá velocidade ao jogo e surpreende o adversário. Ver antes é muito isto. Para Rúben Neves, Diogo Jota, e Óliver Torres voltarem a ser inquestionáveis, o jogo é que tem de se adaptar a eles e não o contrário. Comprar Óliver, pedir Jota e ter formado Rúben Neves são opções irresponsáveis se o futebol da equipa não "chamar" pelas suas melhores qualidades. E que qualidade têm eles.

quarta-feira, fevereiro 22, 2017

A efusiva celebração de Guardiola

Enquanto Guardiola festejava efusivamente, eu pensava sobre as coisas fantásticas que este treinador fez pelo jogo, e sobre que coisas estaria ele a festejar efectivamente. Claro que será impossível dissociar tal celebração do momento que a equipa vive na Premier, muito longe do primeiro classificado; quando a expectativa inicial, reforçada pelos primeiros jogos ao serviço do City, seria a de estar a lutar ponto à ponto pelo título. Percebendo também que a equipa atravessa uma fase de dúvidas, e que o próprio Guardiola se está ainda a adaptar aos jogadores e à mentalidade britânica, é um momento particularmente marcante tendo em conta as incidências do jogo.


Guardiola celebrou uma primeira parte cheia de azares. Onde foi melhor, criou situações para se colocar numa situação confortável e saiu a perder. Dominou o jogo como gosta, teve bola, e encontrou as situações certas para acelerar. Geriu bem a transição defensiva, mas teve alguma falta de rigor na defesa da profundidade. É sempre um risco que ele corre ao atacar em espaços reduzidos, e defender em espaços grandes. Viu-lhe ainda ser negado um penalti, e um Mónaco muito mais eficaz nas situações que criou do que o City.

Guardiola celebrou uma segunda parte cheia de sorte. Viu Falcão falhar um penalti num momento importante, marcou em situações de bola parada, e viu o Mónaco em cima do marcador a desperdiçar situações de igualdade e superioridade com muito espaço por erros de decisão já dentro da área. Viu Yaya Touré, nesse momento (2-3), mentalmente pouco disposto a dar-se ao jogo defensivamente mas a ganhar nova energia e novo foco depois de novo empate (3-3). No final, Yaya já recuperava novamente para perto da linha defensiva reduzindo o tempo para os jogadores do Mónaco a atacarem.

Guardiola celebrou a reacção dos seus jogadores. Por terem recuperado num jogo desta importância das contínuas dificuldades que o Mónaco colocou, tanto no marcador, como nas situações de jogo que criou e na forma como foi defendendo.

Guardiola celebrou com os adeptos. Porque não vai ser fácil tê-los do seu lado sem que eles compreendam o que ele se propõe a fazer por lá. E se há coisa que pode marcar a viragem no clube, na cultura do clube, é a união dos adeptos à equipa e ao treinador. Muitas vezes sozinho esta época, com o público a abandonar o estádio mais cedo, ele continua a enviar-lhes mensagens da importância que tem eles estarem com a equipa.

Guardiola celebrou Aguero. Pelos golos que marcou, mas sobretudo pela importância que teve nos que não marcou. Neste jogo, ganhou a possibilidade de lhe mostrar em dois lances (que se sucederam) o melhor e o pior de Aguero, comparando-o à ele mesmo. Sendo que o melhor teve o melhor reforço que poderia ter: uma jogada de envolvimento com os colegas onde serve de apoio frontal, e no final entrega a notoriedade para Sané fazer o golo; e o pior, bem, foi mesmo o pior. Curiosamente, ou não, era a Sané a quem deveria ter entregue a notoriedade poucos segundos antes.


Guardiola celebrou a vitória de um modelo e de uma ideia de jogo. Porque em vários lances conseguiu colocar tudo aquilo que tanto trabalha do ponto de vista ofensivo em jogo. Conseguiu expor a linha defensiva de Leonardo Jardim, e ataca-la com qualidade. Mas conseguiu sobretudo dois pontos fundamentais daquela que é a sua maior herança para o futebol: 1) Encontrar o homem livre, o melhor jogador para dar seguimento ao lance, o jogador em condições ideais para acelerar o jogo e colocar um colega na cara do golo. Foi dessa forma que conseguiu criar as melhores ocasiões para finalizar. 2) Com isto, fica reforçada a importância do apoio frontal (mesmo com pressão) para colocar-se jogadores de frente para o jogo, sabendo-se que de outra forma as linhas se fechariam e as condições seriam diferentes. Se Yaya de uma qualquer forma coloca logo em Silva os médios do Mónaco estariam mais dentro do lance e mais rapidamente em contenção e dessa forma o foco da linha defensiva já não seria tanto na bola e mais no controlo da profundidade. É uma diferença importantíssima.

Guardiola celebrou o resultado da procura das melhores ocasiões de golo. Porque num lance, em vários lances, em todo o jogo, procura pelo melhor. Não é suficiente o 1x0+Gr, quer 2x0+Gr; e chega ao absurdo de criar 3x0+Gr, coisa que se pensava já não existir nas melhores provas europeias. Mais uma vez fica a evidência de que quem tem a bola tem a vantagem, porque não são precisos muitos para atacar bem. É preciso apenas estar nas posições certas, e percorrer os melhores caminhos vezes suficientes para que a fortuna possa advir mais do nosso trabalho do que do demérito do adversário ou de outro género de imponderáveis.

Guardiola celebrou o talento que se expressou no relvado. Uma barbaridade as exibições de David Silva, Falcão, Bernardo Silva e Yaya Touré. Touré a demonstrar, com bola, como deve jogar um "6" no futebol moderno, e como gerir o passe (a procura e a espera pelo melhor passe). Falcão com mil golos, e com confiança para fazer aquelas brincadeiras num jogo de pressão máxima. O génio dos "Silvas" absolutamente assombroso a cada toque na bola. Delicioso perceber o que David rende agora no corredor central, com liberdade para criar de uma posição onde vê tudo, com o campo sempre aberto. Pernicioso que muitos reconheçam a fantástica evolução de Bernardo, o quão forte e empenhado esteve nos momentos defensivos, na reacção à perda, mas que tal como Silva há tempos atrás continuam a achar que deve jogar encostado à linha. O que Silva (o David) tentou mostrar ao mundo é que Silva (o Bernardo) será sempre muito melhor como médio ofensivo do que como extremo, ou médio ala. Seja como for, a cabeça e o pé esquerdo de Bernardo são incríveis por isso ele seria sempre notado mesmo que como Lateral Esquerdo.

Guardiola celebrou a vitória. Porque ao final das contas é ela que melhor defende um grupo de trabalho que ele tanto estima. Tem sido incansável na defesa da sua equipa, e já chegou ao ponto de questionar quem coloca dúvidas sobre os seus jogadores se alguma vez lhes tinha passado pela cabeça que podia ser ele a não ser o melhor treinador para aqueles jogadores, e não o contrário. Como sempre, Brilhante!

domingo, fevereiro 05, 2017

Yaya Touré comanda a linha ofensiva de Guardiola.

Aos 33 anos de idade o médio do City parece ter finalmente percebido que a displicência e a procura pela notoriedade que tanto o caracterizavam são inimigas da notabilidade. E o melhor de tudo é que o treinador que agora o acompanha o tem reconhecido, e tem dado ênfase ao quão notáveis têm sido as suas exibições recentes. Se há coisa que a suspensão de Fernandinho trouxe foi um maior valor para o futebol que Guardiola gosta na posição mais recuada do meio campo. O azar de Fernandinho permitiu a Guardiola perceber, principalmente nos últimos jogos, a diferença que é jogar com Touré atrás de Silva e De Bruyne. Se é certo que a equipa perde alguma agressividade na altura de recuperar posições, nos duelos, e na recuperação de bolas, o que Yaya acrescenta em organização ofensiva tem compensado tudo isso. Quando em posse, é Yaya o grande responsável pela gestão dos tempos de ataque. Define se a bola fica com a linha defensiva, ou se há condições para avançar e procurar jogadores em linhas mais adiantadas. Gere as saídas para contra-ataque, ou temporiza para que a equipa se organize e procure um ataque mais posicional. É o jogador mais capaz de ficar com a bola mesmo que pressionado em zonas recuadas, e essa segurança que ele permite ao jogo de posse tem um valor inestimável para a construção de Guardiola. Não treme com ela nos pés, e tenta procurar sempre pela melhor solução para a equipa sair. Acrescenta criatividade, qualidade técnica e pausa em relação a Fernandinho. A sua presença em campo dá mais descanso e estabilidade ao futebol de Silva e De Bruyne, uma vez que estes não precisam de se preocupar tanto em baixar para pegar em zonas mais recuadas, entrando em jogo em posições adiantadas na maior parte do tempo. Touré permite-lhes que descansem, que se foquem mais na criação, no desequilíbrio e no jogo de ataque à baliza, por ser capaz de gerir e guiar todo o processo de construção. Encontra os melhores passes, os melhores jogadores entre sectores, espera para perceber se a situação muda com uma simples pausa e se os espaço continuar fechado varia o centro de jogo com muitíssima qualidade. E mesmo quando não toca na bola, como se percebeu no jogo de hoje, principalmente na segunda parte onde Llorente parece ter recebido ordens para não o deixar jogar, guia os seus colegas para aproveitarem o espaço que fica pelo arrastamento que ele faz do seu marcador individual.

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No jogo de toque que Guardiola pede, de paciência, e de aceleração nos momentos que trabalha, Yaya tem sido o jogador mais notável do City. Parece ter as ideias todas de Guardiola na cabeça, e parece finalmente estabilizado do ponto de vista emocional por não procurar constantemente zonas adiantadas para ganhar notoriedade. É ali, na construção, e a permitir que os pequenos criem, que Yaya é rei. O Manchester City tem jogado o que Yaya os faz jogar, e quando ele não aparece como na segunda parte de hoje de imediato o futebol da sua equipa se ressente. A qualidade e o potencial de cada ataque diminui, e a equipa tende a partir nos momentos de tensão por não ter o seu toque a pisar e, e a fazer refrear os ímpetos do jogo, dos colegas, do adversário.

sábado, fevereiro 04, 2017

Uma questão de compromisso

Ao olhar para a linguagem corporal de muitos jogadores do Arsenal no momento defensivo, e rapidamente percebo que um lance absolutamente normal se pode transformar numa situação de grande potencial. Do início, ao final, foram poucos os que tiveram vontade de defender a baliza assim que o Chelsea ficou em posse. São jogadores que gozam e regozijam quando a bola lhes chega aos pés, capazes de nos por a sonhar. Mas, sem bola, absolutamente pálidos, sem reacção e resignados ao que o adversário poderá apresentar. De nada vale falar em sistemas de jogo, em dinâmicas, em posicionamentos adequados, se os jogadores não tiverem um compromisso vincado para com a equipa, para com o jogo. E isso implica agressividade e acerto nos momentos em que o jogo assim o exige. Não era preciso fazer muito para dificultar cem vezes mais o lance de ataque ao Chelsea, apenas um pouco mais de vivacidade sem bola. Um pouco mais de Bellerin!