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quinta-feira, dezembro 22, 2016

Pizzi, o que foste tu fazer... Forçar a inferioridade, não está isso "proibido"?

Em dias passados fui um dos senhores que defendia com unhas e dentes que a qualidade poderia ser medida pela forma  mais ou menos regular que uma equipa, que um jogador, procurava cumprir com os princípios de jogo. Mas a medida que o tempo passa, cada vez mais me convenço do quão curta era tal suposição, do quão longe do jogo estava a minha linha de pensamento. O futebol, tem-me ensinado, cada vez melhor, a perceber que o problema não está naquilo que eu penso (porque eu não executo), mas sim naquilo que quem tem a responsabilidade de executar vê. Portanto, dizer que uma situação de 1x1 é melhor que outra de 4x6 é curto, muito curto. Porque aquilo que eu percebo do lance por o um contra um ser uma situação, supostamente, menos complexa é completamente distinto daquilo que o jogador entende. Não vale a pena categorizar, dizer que a complexidade é maior ou menor, dizer que no absoluto os jogadores devem procurar a superioridade, evitar a igualdade, e recusar a inferioridade. Não vale porque nunca seremos nós os executantes. Jogar com o tempo, e o espaço, hoje, é o melhor que se pode pedir. Ou seja, jogar com o tempo que o jogador e o adversário têm para agir/reagir; e jogar com o espaço que disponível para atacar/defender. Alguém já pensou, por exemplo, que é muito difícil para quem defende perceber quem deve sair em contenção quando há uma grande proximidade entre os seus elementos? E que jogar nos espaços reduzidos dá muito menos tempo a quem defende para conseguir agir e reagir? Afinal, por que é que uma situação de um contra um é melhor, e menos complexa, do que uma situação de quatro contra seis? Parece-me muito curta qualquer resposta que não contemple os executantes envolvidos, e a capacidade que cada um deles tem para jogar com situações de um tipo ou de outro. Pizzi, no lance que se segue, mostra-se contra os princípios de jogo e sobretudo contra soluções pré-concebidas. Contra receitas e prescrições, ele imagina e percebe o caminho, encontra os colegas, e passa por entre os labirintos de adversários que o rodeiam.

18 comentários:

Nuno disse...

É o exemplo perfeito para mostrar que uma boa decisão, muitas vezes, é contra-intuitiva. A ideia de que não há superioridade nem espaço depende do modo como se contabiliza essa superioridade e esse espaço. O Pizzi, ao fazer o que faz, força a inferioridade e, ao mesmo tempo, cria uma superioridade, porque o único jogador do Rio Ave que passa a interessar para as contas é aquele que é ultrapassado pela tabela. É por isso que os princípios de jogo não ajudam a perceber grande coisa do jogo. O jogo é muito mais complexo do que isso.

Blessing disse...

Excelente o comentário, Nuno. São as tais alterações que surgem em função do tempo. Um segundo depois, e um movimento depois, as coisas já não estão iguais. E por isso, é sempre muito difícil dizer o que há ou o que não há, porque em função de uma coisa tão insignificante como o passar de um segundo já o contexto se alterou. E sim, ao forçar, ele cria o 2x1, que resulta no 3x2.

Pensei até utilizar o mesmo para complementar o texto, mas deixo isso para a malta abrir a caixa de comentário e ler-te. Tenho dito, o melhor a escrever e a falar de futebol em Portugal é só um. A malta devia aproveitar-te para o que de melhor tens para nos oferecer: reflexão. É a isso que me obrigas constantemente.

Abraço!

Luis Martinho disse...

Bom dia. Excelente post mas discordo de algumas interpretações feitas, o que é natural neste fenómeno. Os ditos princípios são orientadores e não prescritivos. Qualquer equipa tem como objetivo procurar a superioridade numérica quer a defender quer a atacar, isso só sendo possível existir inferioridade noutras zonas. Penso que nenhum treinador prefere defender uma situação de 3x6+GR na grande área do que uma de 4x1+GR. Como prefere ter situações de 1x0+GR do que 5x7+GR. Uma situação de 1x0+GR sem qualquer defesa a perseguir será sempre menos complexa do que uma situação de 1x0+GR com defesa a perseguir, que por sua vez é menos complexa que uma situação de 1x1+GR, pelo simples facto de existir mais informação para analisar e maior número de possíveis decisões. A dificuldade da mesma já é outra coisa, porque está depende dos executantes. Para terminar, por acaso esta decisão até não vai contra nenhum princípio, pois cumpre o princípio específico da progressão e provoca a superioridade numérica. Como, numa situação de recuperação em bloco baixo e passe de rotura dum jogador da linha defensiva que isola o jogador mais adiantado que estava num 1x4 na linha do meio-campo cumpre com os princípios de jogo. Embora pareça forçar a inferioridade, procura a progressão e o que faz é provocar a superioridade transformando um 1x4+GR em 1x0+GR. E como pode ser uma excelente decisão provocar a mesma, se a linha defensiva for desorganizada e não souber interpretar esta situação. Continuação de excelente trabalho.

Blessing disse...

Bom dia,

"Os ditos princípios são orientadores e não prescritivos."

Explique-me a diferença, exemplificando com os ditos princípios.

"Qualquer equipa tem como objetivo procurar a superioridade numérica quer a defender quer a atacar"

Não. Há equipas cujo objectivo é procurar marcar e não sofrer. E há equipas que procuram constantemente situações de inferioridade a atacar, para o exemplo ser mais simples, nomeadamente na forma como se organizam defensivamente e partem rápido para o ataque. Procuram situações de inferioridade, mas com muito espaço, por exemplo. São as denominadas equipas que jogam em contra ataque. Quer explicar-me isso? Há equipas, portanto, que procuram por coisas diferentes, tendo em conta as características dos jogadores à disposição. Por fim, há equipas que não procuram por nada.

"Penso que nenhum treinador prefere defender uma situação de 3x6+GR na grande área do que uma de 4x1+GR."

Não dependerá isso da forma como os jogadores estiverem orientados?!

"Uma situação de 1x0+GR sem qualquer defesa a perseguir será sempre menos complexa do que uma situação de 1x0+GR com defesa a perseguir, que por sua vez é menos complexa que uma situação de 1x1+GR, pelo simples facto de existir mais informação para analisar e maior número de possíveis decisões."

Isso é o que nós vemos cá de fora, mas não somos nós que cumprimos a tarefa. E a complexidade, que tem a ver com a dificuldade em resolver a situação, deriva da maior ou menor capacidade do executante em resolver o problema. Ou seja, o que para mim pode ser muito complexo, para outro pode ser extremamente simples. Para uns fazer um passe é de uma complexidade enorme pelos constrangimentos que tem, para outros não tem complexidade nenhuma. Portanto, a complexidade não é da situação em si, mas sim da competência que eu tenho para resolver o problema.

"por acaso esta decisão até não vai contra nenhum princípio, pois cumpre o princípio específico da progressão e provoca a superioridade numérica."

Que provoca superioridade é a evidência da forma como o lance resulta. Mas, se Pizzi perde a bola, o que diriam todos? E, talvez, eu esteja incluido nesses todos... Era só meter a bola no Cervi... Não é? Mas porquê? É que é muito fácil dizer que tudo foi cumprido depois do resultado final. Mas se por algum motivo ele é desarmado, é porque era fusso, e tinha-se metido na toca do lobo, forçando um caminho tapado por onde não tinha superioridade, tempo e sequer espaço.

Nuno Costa disse...

Obrigado pela excelente reflexão... :D

Ja agora saliento tbm a forma como Pizzi percebe a vantagem de receber 2metros mais à frente, 2metros que lhe permitem que quando recebe ja ha menos um jogador do Rio Ave por ultrapassar

Hélder disse...

Decisão e execução top. Por isso considero Pizzi o melhor médio da liga.

Luis Martinho disse...

Infelizmente tenho que dar razão ao que se diz por ai relativamente ao blog e à parte prática no campo. Uma situação de contra-ataque procura a inferioridade? Claro que não. O que o Blessing fala falei eu no meu comentário também. Não é por estar em inferioridade momentânea que o objetivo da situação é procurar inferioridade numérica. Cumpre é o princípio da progressão, e procura transformar uma situação de inferioridade numérica em superioridade numérica provocando a mesma, graças ao fator espaço e tempo favoráveis. Como um remate de 30 metros numa situação de 6x8+GR cumpre com os princípios de jogo, e se for o Lampard de há 10 anos atrás até pode ser uma boa decisão. No meu comentário, diferencio complexidade de dificuldade, conceitos que o Blessing está a considerar como idênticos. Como o faz com "orientadores" e "prescritivos". Para além disso, referi no meu comentário que a dificuldade de cada situação está dependente dos executantes. Que é o que o amigo confunde quando escreve "Não dependerá isso da forma como os jogadores estiverem orientados?!". Claro que depende. Da forma como são orientados e da qualidade individual deles. A dificuldade de cada situação depende disso e da complexidade da mesma. É pacífico para mim. Não concordo é que 7x10+GR seja menos complexo do que 1x0+GR. Pode ser mais simples, mais complexo nunca. Claro que as soluções que um Messi arranja não são as mesmas que um Herrera. Daí ao que é escrito no texto vai uma grande distância. Mas possivelmente melhor do que escrever sobre princípios de jogo por interpretação individual, poderia procurar quem procurou sistematizar o jogo dessa forma e perguntar o que ele pensa disso. De certeza que teria surpresas e que perceberia que está a fazer a interpretação errada.

Blessing disse...

Nuno Costa, sim. A tal tabela! Ele tinha o lance todo desenhado para receber atrás daquele gajo.

Blessing disse...

Caro Luís Martinho, como não me respondeu a nada do que perguntei, como não me conseguiu explicar absolutamente nada da sua visão sobre as dúvidas que lhe atirei, infelizmente vou ter de encerrar isto por aqui.

Luis Martinho disse...

Caro Blessing, repondi-lhe a todas as questões que colocou, apesar de grande parte já estarem no meu 1º comentário, tendo o Blessing repetido algumas das coisas que eu escrevi, chegando ao ponto de contradizer-se como lhe fiz referência no último comentário. Entendo agora o porquê de ter tanta dificuldade em ganhar jogos. Antes de escrever, aconselho-o a contactar os treinadores que sistematizaram o jogo através destes princípios de jogo, que foi feito muito antes do Prof. Jorge Castelo.

DF disse...

"Infelizmente tenho que dar razão ao que se diz por ai relativamente ao blog e à parte prática no campo."

conta, conta, que eu também quero saber

B Cool disse...

E quantas vezes estas decisões do Pizzi provocam as ditas perdas de bola?
Penso que a questão é analisar se a decisão em regra geral aproxima mais a equipa do sucesso mais do que se um lance tem sucesso apesar de ter sido resolvido de uma forma que em condições habituais leva à perda de bola. Como se costuma dizer, há más decisões que dão golo e boas decisões que não o dão.

Catedrático disse...

Boas! A mim parece-me que neste lance podem dissipar-se as dúvidas que existiam quanto ao facto do Pizzi não saber jogar em espaços curtos. Pura treta! Para além de saber jogar bem em espaços curtos, é um super criativo, como se viu nesta jogada. Consegue criar e encontrar novas soluções inimagináveis, como tu dizes, e bem, fora daquilo que tu e eu vislumbramos e entendemos que seria o melhor, mediante os princípios de jogo, naquela situação, a procura da tal situação de superior e não de inferioridade.. Mas é graças à grande criatividade do Pizzi que tal se transforma e rapidamente a procura pela inferioridade transforma-se em superioridade aos olhos do Pizzi.. que já está a pensar no início do lance no apoio do Rafa à frente, pois quem joga futebol apercebe-se disto! Bom post!

Blessing disse...

Caro Luís Martinho, senhor médico de treinadores, na medida que me prescreveu, você é um dos ganhadores nato que devo consultar? Ou é só mais um papagaio? Vá, saque lá dos seus méritos, porque saber ler já vimos que não é. Mande lá vir outro.

João Nogueira disse...

B Cool mas desde quando é que perda de bola equivale a uma má decisão?

bio disse...

Viva blessing,

Por estas e por outras é que acho que o futebol, cada vez mais, é levar a menina até à entrada da área e agora os artistas que decidam.

Um abraço,
Gonçalo Mano

Blessing disse...

Bcool o problema não é a perda de bola.

Catedrático, isso mesmo.

Gonçalo, não sei se é bem assim. E até poderá ser. Mas tudo o que se trabalha em fases anteriores tem reflexos na fase seguinte.

Abraço

RMSCP disse...

Discordo.

Para mim é sempre uma má decisão. Tenha sucesso ou não. Isto só resultou porque:
- O Pizzi executou bem e rápido aquilo que pretendia;
- A defesa foi muito pouco agressiva na reacção ao movimento de Pizzi;
- Rafa faz um bom passe em condições desfavoráveis (pode parecer um passe fácil mas não é).

Em 100 lances destes, quantas vezes esta decisão resultaria em sucesso? Muito poucas.

Cumps