Posse de bola no Facebook

Translate

quinta-feira, dezembro 08, 2016

O trabalho das crianças é brincar

"Antes de começar a praticar judo, fiz atletismo, joguei futebol, brinquei muito na rua, subi árvores, saltei muros. Não tive uma experiência desportiva muito alargada num contexto competitivo, mas apesar de ter entrado tarde no judo, já tinha um grande desenvolvimento motor. Portanto, para mim acabou por ser fácil a aprendizagem de coisas supostamente tão complexas. Acredito que o ideal é as crianças brincarem muito e de uma forma livre. Devem até praticar mais do que um desporto. No fundo, devem é ter a paixão pelo desporto. Isso é mais importante do que terem uma especialização cedo"

O excerto da Telma Monteiro pode parecer inicialmente desadequado. Sobretudo se pensarmos que quando existe a necessidade de manipular um objecto dentro da modalidade o exemplo do desenvolvimento motor se torna pouco relevante para a prática do futebol. Mas não! O transfer que pode ter um vasto repertório motor para uma modalidade específica é de valor inestimável. Não só pelos motivos que a Telma aponta; uma maior facilidade em realizar várias tarefas, pela maior versatilidade do corpo. Mas também pelo transfer que menos se percebe (talvez o mais importante) na realização de cada tarefa. Por exemplo, as velocidades de reacção e de percepção, e também a capacidade de adaptação a tarefas distintas. São capacidades cognitivas demasiado importantes no futebol de hoje para que se possa ignorar a influência das experiências nos primeiros anos de vida. No desporto, como no futebol, a função do treinador nos primeiros escalões de formação é fazer a criança brincar dentro da modalidade. É fundamental que a criança goste da tarefa, e que tenha a liberdade para conseguir por si resolver os problemas que são propostos. Claro que, quando necessário, ajudar. Mas as tarefas devem ser de tal forma abertas que quem vê de fora as possa confundir com muitas outras propostas de outras modalidades. O gosto da modalidade, o que os faz com entusiasmo recusar tudo para ir treinar é também da responsabilidade de quem dirige o treino.

Há dias, alguém colocou a hipótese de num cenário de treino (por ser o único treinador da equipa) formar uma fila de 2/3 elementos e fazer correr dois exercícios de 1x1 para que pudesse melhor controlar a acção dos mais pequenos. Ao que eu respondi que o fundamental nessas idades é que pratiquem, ainda que o treinador não esteja a ver. E tantas vezes o melhor acontece fora da órbita da pratica orientada. As melhores aprendizagens, os maiores ganhos, as maiores mudanças. Por isso, que se façam 7,8,9 campos de 1x1 ainda que o treinador não consiga atender a todos de forma eficiente. Os miúdos são muito mais felizes a praticar do que quando esperam, e se o tempo é pouco temos a responsabilidade de o maximizar. Até porque não podemos passar a vida a dizer que o futebol de rua nos faz muita falta, e depois quando nos aparece a possibilidade de trazer o que a rua tinha para o treino não abraçarmos essa possibilidade.

3 comentários:

Edson Arantes do Nascimento disse...

Ya... Brincar e fazer actividades ligadas àquilo que chamamos "artes": música, dança, teatro, etc, etc. Há quem defenda que o sistema de ensino até aos 15-16 anos deveria ser apenas brincar e divertir e aprender a ler e a escrever e a fazer contas básicas. Nada mais. A especialização viria depois. Cada vez estou mais de acordo.

Blessing disse...

Sim! Porque há actividades que a partida podem não parecer ter qualquer relação umas com as outras e que depois nos apercebemos que para os miúdos teve o condão de abrir a cabeça para determinado tipo de situações que se passam em jogo. Isto tudo por associação. Por isso mesmo, não privar os putos de fazer o máximo de actividades possível. De experimentar tudo e mais alguma coisa.

R.B. NorTør disse...

Há países onde na primária não se chumba, por exemplo.

Na Holanda por exemplo, faz parte do programa da escola praticarem vários desportos e os clubes organizam-se para darem essa variedade aos putos. O Davids tem uma entrevista há uns anos em que diz que aprendeu mais futebol nas pracetas de Amsterdão do que na academia do Ajax.

No judo o brincar a sério então é fundamental. Tentei encontrar uma entrevista do Teddy Riner, dos maiores se não o maior judoka de sempre, em que ele diz que a actividade que melhor o preparou para a prática do judo foram as danças de salão a que a mãe o obrigava a ir.