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segunda-feira, dezembro 05, 2016

A falsa segurança do Chelsea no momento de Transição Defensiva

As expectativas são sempre um dos pormenores mais importantes na forma como os jogadores interpretam a estratégia e modelo de jogo trabalhado durante a semana. E gerir tal "pormaior" é uma tarefa tão difícil que foram muito poucas as equipas que me lembro de o terem conseguido. A forma como jogo está a decorrer - sucesso/insucesso nas acções individuais e colectivas -, a forma como o resultado vai de acordo com as incidências do jogo - finalização das situações que se criaram -, a forma como a arbitragem influencia o jogo - mais decisões erradas para um lado do que para o outro -, são coisas pouco faladas e demasiadas vezes esquecidas por aqui. Não por preguiça, mas com a intenção de não levar a discussão para o nível que se faz habitualmente: foco na arbitragem.

Os jogadores agem e reagem de forma distinta consoante o que se estiver a passar dentro de campo. Tuchel dizia que o mais difícil de conseguir numa equipa de futebol era a regularidade. Regularidade no sentido da equipa jogar, e manter o plano de jogo, independentemente de estar a vencer ou a perder, a golear ou a ser goleado. A ganhar ou a perder no último minuto de jogo. Se Guardiola alguma vez foi considerado o Deus do futebol, foi por ter conseguido não só uma equipa regular no Barcelona; que cumpria escrupulosamente com o plano de jogo, com o modelo trabalhado, independentemente do resultado e das incidências do jogo. Mas também uma equipa que foi sempre demasiado inteligente na gestão das expectativas do adversário. Foram mil jogos contra adversários a querer pressionar onde optaram por os cansar primeiro, e desmotiva-los não perdendo a bola, para depois sim com melhores condições procurarem o golo.

Em Manchester, onde dois dos melhores treinadores da actualidade se enfrentaram, foram mais uma vez as incidências do jogo a ditar um melhor comportamento, ou um pior cumprimento das tarefas que cada treinador trabalha no pormenor. Guardiola e Conte. Dois obcecados pelo treino e por ver em campo as regularidades que trabalham, ficam naturalmente frustrados quando as suas equipas não conseguem passar por cima das incidências do jogo, exibindo os comportamentos de excelência que tão bem idealizam. Na primeira parte, enquanto o Chelsea liderava nas expectativas, no resultado, não houve uma situação em que o City os conseguisse ultrapassar para finalizar em contra-ataque. Apenas em organização ofensiva, e num ou noutro momento de maior inspiração individual dos seus jogadores. Por isso, como estava "por cima" no resultado, a equipa de Conte cumpria o plano de jogo na perfeição. Atacava com ordem, e com os jogadores bem posicionados para defender em caso de perda. Com o golo do City tudo mudou. Não só a equipa de Guardiola, mas sobretudo a de Conte. Os jogadores do City,  a ganhar, ficaram mais confortáveis e mais seguros nas suas acções. Atacaram sempre com muita qualidade, e a conseguiram sair de situações de pressão com a bola controlada. Os de Conte, menos focados na ordem quando atacavam, e mais precipitados pela necessidade de procurar o golo. Nesta fase, era o City que liderava nas expectativas, e a segurança que Conte exibia até então em transição defensiva desaparece. O City cria em contra-ataque situações suficientes para devastar o adversário com uma goleada e terminar o jogo logo ali. A excelência defensiva do Chelsea foi exposta muito devido à mudança no resultado. O Chelsea, também por isso, não conseguiu chegar com perigo como algumas vezes na primeira parte porque sentia constantemente o City a chegar. E num lance onde o colectivo não está bem (em termos de comportamento da linha defensiva), e onde individualmente Otamendi está muito mal as incidências do jogo voltam a dar a volta ao texto, e o Chelsea torna-se novamente senhor de si mesmo. No final, as ocasiões do City foram esquecidas, e o fenómeno defensivo do Chelsea realçado. É assim o futebol.

5 comentários:

Barbosa disse...

Um outro exemplo disto mesmo é o segundo jogo com o Barça. Num momento em que toda a gente, dentro e fora de campo, adivinhava nova goleada dos espanhóis, o city consegue o golo, ainda por cima numa situação em que a equipa estava a fazer o que Guardiola pedia que fizessem - pressionar alto e ganhar a bola no último terço - e a partir desse momento completamente diferente o City.

Blessing disse...

Barbosa,

http://possedebolla.blogspot.pt/2016/11/nao-basta-dar-os-principios-e-preciso-o.html?m=1

Barbosa disse...

"Quando até aí a pressão vinha sendo relativamente ineficaz, e os jogadores descrentes de que aquela era a fórmula certa, surge o maior estímulo que poderia existir para validar perante os jogadores a estratégia do treinador: o golo. Não um golo qualquer! Mas um golo obtido da forma como o treinador apresentou aos seus jogadores."

É isto tudo. A estratégia não era pior antes do golo, nem melhor depois deste. A estratégia foi sempre boa, o que mudou foi a sua implementação por parte dos intérpretes. Quantas vezes isto não muda a história do jogo?! Tanto a "real" como a que sai nas capas do dia seguinte.

Nuno disse...

É isto tudo. O City, depois do 1-0, não só passou a atacar melhor como passou também a controlar melhor os ímpetos do Chelsea. E o Chelsea, pelo contrário, passou a ter menos rigor posicional e a sentir mais dificuldades em ligar os ataques. O City podia ter goleado facilmente, pelo que fez nesse período. E, de repente, em 2 lances, apanha-se a perder. O futebol é assim, mas as pessoas só olham para os resultados. E não lhes passa pela cabeça que uma equipa que ganha por 3-1 em casa de um rival possa não ter defendido tão bem assim.

Blessing disse...

Absolutamente de acordo, Nuno!