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sábado, novembro 26, 2016

Quando o jogador procura por respostas não é de respostas que precisa

Um dos maiores problemas do treino, hoje em dia, é a necessidade em se perceberem resultados no imediato. O treinador planeia cada exercício no detalhe para que possa ter como consequência daquele trabalho de exercitação resposta imediata dos jogadores, conforme o objectivo que traçou. Em cada condicionante, em cada tempo de exercitação, em cada pausa, todas as respostas estão calculadas. O jogador vai fazer isto nesta situação, aquilo naquela, e outra coisa qualquer noutra. Tudo está prescrito; e por isso, limitado. Não há espaço para a criação, para a liberdade, para a improvisação.

Dennis Bergkamp
Quando o jogador procura por respostas não é de respostas que precisa. Responder às questões que os jogadores vão tendo durante o jogo, durante o treino, limita a cabeça dos pequenos. Eles precisam é de informação! Informação que os ajude a perceber o contexto, e dentro das suas capacidades usarem isso para resolver o lance. Começarem a antecipar e imaginar o que se pode fazer para que consigam atingir ou evitar o golo. A coisa mais simples, o colocar dificuldade ao jogador acaba por ser a mais difícil de se colocar em prática no treino. Dificuldade que o ajude a evoluir nos aspectos em que ainda é pouco desenvolvido; dando-lhe a liberdade para escolher não entre A e B, mas sim entre A e outra coisa qualquer que lhes surja. A diferença está aqui. Porque não há situações iguais, a melhor resposta é o "depende". Depende da situação, e é nisso que eles se devem especializar. Na leitura da situação para que possam depois decidir em conformidade.

Ao ver um treino entre juniores e seniores lembrei-me novamente do quão bom é treinar sem castrar. Um jogador que vai ao choque no primeiro lance contra um jogador mais velho e perde, cai, e depois disso tenta arranjar estratégias dele para evitar o choque sempre que recebe. Já não pisa e espera pelo adversário, já não encosta para proteger a bola. Solta mais depressa, antes de receber já viu para onde deve seguir, procura colocar-se por forma a receber com espaço, movimenta-se para desequilibrar sem bola e também usa os colegas para tal efeito. Como não recebe a bola dos mais velhos, por estes não terem confiança na sua capacidade de dar o melhor seguimento ao lance, cuida de cada bola que recebe como se fosse a última. Porque se falhar é bem provável que seja mesmo, e que passe o jogo todo sem tocar nela. E quais foram as condicionantes desse exercício de treino? Quais eram as regras?

6 comentários:

Honoris disse...

É muito pelo que dizes no post que será sempre melhor um jovem jogador ter minutos de jogo do que estar apenas a treinar, por muito bom que o treinador possa ser.

Nuno disse...

É isso. O fenómeno Mourinho convenceu muita gente da ideia de que um treinador é responsável por tudo o que acontece dentro do relvado. E os treinadores começaram a formar-se a julgar que o seu trabalho consiste em conseguir que os jogadores repliquem as suas ideias. Há muita gente que ainda não percebeu que ser treinador não é nada disso. O principal objectivo de um treinador não é dar respostas; é criar dúvidas. Os jogadores não precisam de decorar comportamentos; precisam de alargar os horizontes cognitivos e de desenvolver o espírito crítico.

Blessing disse...

Honoris, é sempre melhor jogar! Não há outra forma melhor de evoluir e crescer.

Nuno, excelente! Como sempre.

omeiocampo disse...

Grande comentário do Nuno e bom post Blessing.
Faz-me lembrar aquela frase: Se deres um peixe a um homem faminto, vais alimentá-lo por um dia. Se o ensinares a pescar, vais alimentá-lo toda a vida.


Com algumas diferenças, a ideia acaba por ser a mesma. Temos de fazer com que os jogadores tenham autonomia. O trabalho do treinador é facilitar a vida aos jogadores, mas em ultima estância os jogadores é que jogam e por isso devem ser capazes de conseguir discernir o que será melhor para a equipa e consecutivamente para eles

Blessing disse...

O meio campo, sim. É uma boa comparação.

Bother Yenot disse...

post genial! o ensinar um princípio teórico nunca poderá ser substituído pelo enunciar das principais aplicações práticas desse mesmo princípio