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domingo, outubro 23, 2016

Criatividade, o que é isso?

- Ao receber de costas: Se estás apertado tocas de frente, se tens espaço enquadra.

A frase acima é bastante representativa da forma como é encarado o ensino. No futebol, como em muitas outras actividades, o ensino é encarado como uma forma de transformar os aprendizes em máquinas para resolver determinado tipo de problemas. O maior problema dessa forma de ensino-aprendizagem surge quando não existem problemas tipo.

"Estão em causa são dois métodos de ensino. A matemática, por exemplo, ensina-se nas escolas como estás a propor. Os alunos são incentivados a identificar o tipo de problema e a aplicar uma determinada fórmula (que decoraram previamente) para o resolver. Aqueles que são bons nas duas tarefas têm geralmente pontuações altas. Mas há muitos matemáticos que criticam este método de ensino. O prejuízo, para mim, é óbvio: preparam-se os alunos para um determinado conjunto de situações (e até conseguem que alguns alunos sejam bons a resolvê-las), mas limitam-lhes a capacidade de responder a situações imprevistas. E esses alunos, por melhores que sejam a resolver exercícios, nunca serão matemáticos de excelência. Os melhores são aqueles que aprenderam a resolver os problemas pensando neles, e não por estímulo-resposta. Os grandes génios da matemática são justamente aqueles que não desenvolveram as suas competências desta maneira, são os que, lidando com os problemas de forma mais livre, desenvolveram a criatividade pela necessidade de lhes responder de uma forma não-condicionada. Isto devia fazer reflectir as pessoas. No fundo, há 3 hipóteses: 1) ensinar os jogadores a agir segundo princípios, e ficar com jogadores com meia-dúzia de ideias teóricas na cabeça, 2) não fazer nada, deixá-los assimilar instintivamente o que houver para assimilar, e ter a sorte de ficar com dois ou três jogadores competentes, no máximo, ou 3) procurar oferecer os estímulos certos para que eles, pela própria diversidade e complexidade desses estímulos, aprendam a desenvencilhar-se, assimilando o que dificilmente assimilariam de outra maneira."

O maior entrave ao desenvolvimento da criatividade está na forma como fomos ensinados a aprender sem pensar naquilo que nos estavam a ensinar. Na verdade não aprendemos, decorámos. Porque nos disseram que apenas existe 
um conjunto de soluções para um determinado problema. Não nos deram o problema ensinado-nos a pensar sobre ele. Deram-nos o problema, a solução, e fomos assim aprovados no sistema tradicional de ensino.

Se quando a bola nos é endereçada e nós estamos desenquadrados para o jogo apenas existem duas soluções, de onde é que o Coutinho tirou isto?
Este lance, como a maior parte dos lances que acontecem no jogo, não tem paralelo a nenhum outro. Então, porquê a limitação no número de acções que se podem realizar? Porquê tipificar algo que não tem tipo, se as únicas limitações que existem são as impostas nas leis de jogo? Isto deveria fazer pensar, quem ensina, sobre o método de ensino. É difícil fugir à forma como nos foram ensinando a não pensar, e a dar como garantido que quem acima de nós nos ensina está sempre correcto; A não questionar, colocar em causa, e a não intuir. Mas o futebol como tarefa fundamentalmente cognitiva não vive disso. Nem pode viver! Quem ensina, deveria estar a pensar em ajudar os jogadores a perceber o que se passa à sua volta, no lugar de tentar dar-lhes respostas antecipadas para problemas que não vão surgir. Pensar em ajudar o jogador a perceber informação que o vai auxiliar na tomada de decisão. Quem é o colega, quantos adversários, onde estão os outros colegas, posição corporal, etc, etc, etc. No fundo dar a entender que cada acção deve ter uma intenção clara, seja ela qual for. Deixar a criança fazer o seu caminho, as suas escolhas; Entender as diferenças entre elas, não querendo fazer de todas iguais.

3 comentários:

Diogo Santos disse...

Fantástico. Um dos melhores textos sobre futebol que já li.
Obrigado por toda a partilha que tem feito, tanto aqui como no LE.

Blessing disse...

Obrigado!

Nuno Ferreira disse...

Nunca comentei, mas este texto é merecido.
Parabéns, fantástico