Posse de bola no Facebook

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segunda-feira, julho 18, 2016

Renato Sanches, um estudo sem qualquer significado. Contextos de exigência máxima.

Não sou da opinião que Renato é um jogador que se faz valer da condução como seu melhor atributo. Discordo, aliás, de forma veemente disso. Para mim, o que ele tem de verdadeiramente especial é o facto de olhar sempre para frente em primeiro lugar. Ou seja, a primeira coisa em que pensa é na baliza adversária. Não perde uma possibilidade para enquadrar, para jogar para a frente, para fazer a equipa ganhar metros. E pressionado, quando percebe que não dá para progredir, opta pela segurança. A forma como se mostra constantemente, e nunca se esconde é outro factor de destaque. A facilidade com que enquadra, bem como o numero reduzido bolas que perde quando pressionado nas costas, só é possível pela forma como observa sempre o espaço à sua volta antes de receber, para lá da agilidade que tem.  Também tabela, também procura o apoio frontal, e quebra linhas com passe vertical.  É um miúdo que tem erro, claro. Nem podia ser de outra forma. Tem erros de decisão, tem erros de execução. Mas também tem acerto, muito acerto, e também consegue com acções positivas em situações difíceis colocar colegas ou a si próprio em melhores condições. Não é o estilo de jogador que mais aprecio por não ser um grande criativo. Mas é impossível não perceber-lhe o potencial, mesmo que em contextos de grande exigência. Poderá crescer por forma a confirmar o seu potencial, ou não. Mas nunca se poderá dizer que não tinha nada de especial para lá da sua robustez. Longe dos melhores do mundo, mas com potencial para se afirmar no corredor central de um grande.

Renato em Munique, contra o Bayern de Guardiola.

1) Utiliza Gaitan para tirar o adversário do caminho em tabela. Depois, usa a desmarcação do mesmo para conduzir em direcção ao corredor central, tirando com isso a possibilidade de intervenção a dois adversários que se aproximavam. Bem a solicitar Jonas no apoio frontal, e a oferecer  de imediato uma óptima possibilidade de passe assim Jonas o entendesse.

2) Recebe de costas (para a baliza adversária), percebendo que não havia possibilidade de enquadrar joga no mais seguro. Poderia aqui ter optado por um passe para Fejsa ou Lindelof uma vez que Lewa já antecipava o passe para o GR.

3) Má recepção, e perda de bola. Não era uma situação fácil, porém.

4) Recebe enquadrado e solicita Mitro no espaço, obrigando a linha do Bayern a baixar alguns metros.

5) Recebe no corredor lateral, apertado com apenas uma possibilidade de passe. Opta por não utilizar essa solução, tentando livrar-se do adversário directo. Não consegue, joga em segurança.

6) Recebe enquadrado, joga no apoio frontal.

7) Após recuperação da bola numa bola parada, e sem soluções de passe, guarda e provoca o contacto. O adversário acaba por cortar para fora.

8) Recebe apertado nas costas, mas com a sua capacidade física consegue livrar-se do adversário, enquadrar e progredir. Depois, má decisão. Deveria ter utilizado Jonas para dar continuidade ao lance, tendo em conta o número de adversários que tinha atraído sobre si.

9) Recebe apertado, e mais uma vez a sua capacidade física permite-lhe proteger a bola, ganhando dessa forma tempo para tomar a melhor a decisão e decide em conformidade.

10) É solicitado desenquadrado, e percebendo a aproximação do adversário devolve de primeira.

11) De primeira enquadra Gaitan para a linha defensiva, ainda que estivesse pressionado.

12) Novamente de primeira, e novamente a colocar Gaitan numa situação muito favorável, mesmo com pressão à volta.

13) Recebe enquadrado, conduz um pouco para perceber soluções de passe adiantadas. Percebe que as possibilidades são poucas e toca no corredor lateral.

14) Recebe de Pizzi depois de uma recuperação de bola que se desmarca. Segura e devolve em Pizzi que fica numa situação muito vantajosa, com muitos jogadores batidos pela acção dele e de Renato. 

15) Recupera, protege utilizando o corpo, e ganha falta.

16) Recebe e quando se preparava para enquadrar escorrega. Perde a bola.

17) Recebe numa situação sem grande potencial no corredor lateral, e consegue descobrir Jonas dentro da área com um passe por alto.

18) Desenquadrado e pressionado, tenta jogar de primeira em Pizzi. Boa decisão, mau passe.

19) Recebe de Pizzi de costas, sem pressão percebe que pode enquadrar e joga em Jonas no apoio frontal.

20) A bola é-lhe endereçada em más condições, e mesmo assim e com a pressão consegue de primeira colocar jogavel em Gaitan.

21) Pressionado e de primeira, coloca em Jonas no apoio frontal.

22) Recebe pressionado, e devolve.

23) Recebe pressionado um passe pelo ar, tenta fazer-se valer da sua capacidade física para proteger a bola e perde o lance. Má decisão.

24) Recupera e de imediato inicia o contra-ataque, elimina um adversário em condução e sofre falta. Levanta-se e dá seguimento ao jogo.



Renato em Paris, na final do Campeonato da Europa.

1) Recupera a bola e jogar em João Mário, apesar de ter sido Ronaldo a ficar com a bola, era o colega melhor colocado para dar seguimento ao lance.

2) Má recepção, e perda de bola. Ainda que o lance não fosse fácil pela aproximação de Matuidi.

3) Recebe pressionado, e entrega em segurança.

4) Recebe novamente pressionado, não consegue proteger a bola e o defesa corta. Tenta de imediato aproveitar o movimento de Adrien e lança rapidamente a bola.

5) Recebe sem pressão e enquadra, poderia ter conduzido mas opta bem por não o fazer. A bola seguia e bem para Ronaldo no espaço dando início à transição ofensiva, no entanto Ronaldo que já estava limitado e trava o seu movimento dando a impressão que Renato erra o passe.

6) Recebe no corredor lateral, conduz de fora para dentro. Chama a si Matuidi e coloca em Adrien numa posição mais adiantada.

7) Má recepção e perda de bola.

8) Recupera e inicia a transição ofensiva em condução. Má decisão. Deveria ter colocado a bola nos colegas que se desmarcavam pela esquerda, e continuar a desmarcação sem bola. Quando percebe que já não consegue avançar roda e toca em Adrien atrás.

9) Má decisão. Recebe no corredor lateral e inicia o movimento interior. Deveria ter deixado em Nani e desmarcado em direcção à baliza. Opta por continuar a conduzir e acaba por jogar em Adrien.

10) Recebe no corredor central enquadrado, segura e joga em Raphael.

11) Recebe de Quaresma enquadrado, e tenta variar para Nani do lado contrário. Aqui, talvez pudesse ter aproveitado a posição de Adrien atrás dos médios franceses.

12) Recebe, enquadra, sem possibilidade de progressão prefere a segurança e joga e William.

13) Recebe de frente para o jogo, e jogo para Raphael no corredor lateral. Mostra-se como linha de passe e a bola lhe é devolvida. Roda e coloca em William em segurança.

14) Recebe de costas e devolve em segurança.

15) Recebe pressionado e devolve. Simula que vai e volta-se a mostrar, ganhando espaço para enquadrar. Recebe novamente, enquadra, e joga em William numa posição mais adiantada.

16) Recebe, enquadra, conduz e procura Nani no apoio frontal. Nani deixa-se antecipar.

17) Recupera e de imediato inicia a transição ofensiva solicitando Nani em apoio frontal.

18) Recebe de João Mário e joga em segurança.

19) Recebe de costas, enquadra, tira Pogba do caminho, e ainda Matuidi com o passe para Quaresma.

20) Enquadrado e com pouca pressão solicita Adrien de primeira, em apoio frontal.

21) Recebe de João Mário e com espaço conduz. Sem grande velocidade, e talvez a espera que Nani se mostrasse em apoio frontal. Tal não acontece, e Matuidi acaba por conseguir tirar-lhe a bola.

22) Mau passe. Tabela com João Mário, mas o passe foi mal executado.

23) Recebe de costas e pressionado, devolve.

24) Solicitado de costas e pressionado, devolve de primeira.

25) Recebe, enquadra, e solicita João Mário em apoio frontal.

26) Recebe com espaço e conduz sem grande velocidade equacionando soluções, opta por Quaresma que deixa passar para Cédric.

27) Recebe e toca para Adrien.

28) Toca de primeira de costas e pressionado.

29) Recebe, enquadra, ataca o espaço sem grande velocidade. Procura por soluções, simula que vai para trás e engana Griezmann conseguindo abrir uma linha de passe segura para William, mais adiantada.

30) De costas e pressionado toca de primeira para Cédric.

31) Recebe no meio da pressão e varia o centro de jogo para onde há mais espaço.

32) Recebe no corredor lateral em velocidade e tenta fazer-se valer da sua capacidade física para ultrapassar o adversário directo. Perde a bola.

33) Recebe de João Mário, roda e varia o centro de jogo.

34) Recebe pressionado e joga em segurança. Mostra-se novamente para receber, enquadra e solicita João Mário no apoio frontal.

59 comentários:

José Moreira disse...

Acho que lhe falta pausa. A primeira opção que tenta é acelerar o jogo, sendo que muitas vezes não me parece que seja isso que o jogo peça. A decisão é, para mim, o seu ponto mais fraco, mas não achas que é um aspecto que pode ser melhorado significativamente, mesmo que isso não implique, como é óbvio, que venha a ser dos melhores nesse aspecto?

Jose Castro disse...

Este post é uma respotsta ao post do Nuno no EntreDez? Ui!

DC disse...

Das 34 acções contra a França quantas é que o André André não fazia? Provavelmente só aquela recepção ridícula na linha lateral.

Blessing disse...

José Moreira, para mim o que ficou evidente e o que já desconfiava é que a primeira acção dele não é acelerar, é sim olhar pra frente.

Não creio que lhe falte pausa. Ele faz muitas, como se pode verificar. Creio que lhe falta quando conduz em velocidade (sobretudo aí) perceber melhor para onde e o tempo certo para soltar a bola. Depois tem outro tipo de erros, creio que por falta de concentração, ou mesmo tecnicamente. Mas, tem 18 anos, é Junior. Está a jogar acima do seu escalão, e vai para o Bayern. Ali, vai ter de aprender a ter esse critério que lhe falta, a estar sempre concentrado em todas as acções, e a refinar um pouco a tomada de decisão (quando em velocidade) se não vai ser difícil fazer-se notar e jogar. E ele quer jogar. Por isso tem muito que trabalhar. Outra coisa boa é que fisicamente vai encontrar muitos do mesmo nível que ele.

José Castro, não.

DC, acho engraçadas as tuas afirmações, sobretudo para quem diz que não tem acções positivas. O qie é afinal uma acção positiva?

Decidir bem não é uma acção positiva?

Por exemplo, nas 58194646 bolas que ele recebeu pressionado pelas costas e devolveu, na esmagadora maioria dos casos ainda antes do gajo da pressão lhe tocar, não é isso decidir bem em função do contexto? E isso não é positivo? Pois. E mais, quantas dessas vezes é que ele poderia ter feito diferente? Se fosse Busquets já era brilhante porque não errou uma decisão?

Passando à frente. Quantas vezes é que ele podia ter enquadrado e não o fez? Zero.

Quantas vezes é que teve possibilidade de jogar para frente e não o fez? Zero.

Isso não é positivo? É.

Ainda mais positivo para um júnior que jogava contra a melhor equipa do mundo (Bayern) e que jogava também a final da prova mais importante de seleções da Europa.

Vou descontextualizar e dar o exemplo de João Mário, que roçou o miserável no Euro. É aquilo a qualidade dele? Então por que é que o João Mário da selecção é pior que o do clube? Não será o mesmo com o Renato? Ou com todos? Então, o porquê de tocar só nas acções do jogo contra a França?

Finalmente, coisas que o André não faria: 4,6,13,15,16,17,19,20,25,29,34.

Ah, mas isso são coisas fáceis. Pois. Mas então por que raio os outros não fazem? Porque é que não enquadram sempre que podem? Por que é que não jogam pra frente sempre que podem? Por que é que perdem dezenas de bolas quando recebem de costas? Por que é que não usam o passe vertical quando tal é possível? Por que é que não conduzem e depois aproveitam o espaço que se ganha com isso? Por que é que não conduzem só para ganhar metros? Pois.

Se Renato faz isso tudo sempre? Não. Como é lógico não. Não é o Iniesta, ou o Modric, ou o Oliver. Mas faz muito mais vezes, e acerta muito mais nessas acções que os outros. E o potencial está todo nisso, para quem quiser ver. Consigo perceber nessas características, e não obstante dos erros, o potencial que era um tipo passar a acertar sempre nessas acções, porque ele já as faz. É só afinar. Agora por isso é que se chama potencial, e não certeza! É ir ver o Messi aos 16/17/18 e 19 e perceber o festival de más decisões. Também aos 20 estava longe da perfeição que é hoje. Não significa que Renato tenha o potencial para ser Messi, longe disso. Mas tem mais do que potencial para ser bom jogador, e para se impor. Tendo em conta também a sua morfologia.

Edson Arantes do Nascimento disse...

O DC acha mesmo é que o Martins Indi é um granda jogador. Ah e o Paciência, o Gonçalo Paciência. Já sabemos como é.

Só vi o primeiro vídeo, porque esse jogo contra o Bayern foi uma coisa bem gira! E o Renato fez um grande jogo, com qualidade técnica (como demonstra o vídeo de forma evidente) e com características únicas.

Mantenho que não lhe reconheço uma relação com a bola ao nível dos maiores, longe disso, até, e que tem problemas a decidir a melhor opção, seja o passe, o ir para a frente, o remate. Também executa muitas vezes mal. Mas como só tem 18 anos... Pode ser que aprenda e evolua.

Daqui a 15 dias estará no contexto certo para isso: a treinar e a jogar todos os dias com doutorados do futebol.

No Benfica, tanto o Pedro Rodrigues como o João Carvalho são atletas mais do meu agrado. No entanto, reconheço que não têm nem a força mental, nem a força física do Renato. E nunca vão ter. Mas terão outras valências, que me agradam bastante.

Islander disse...

Muito interessante, obrigado pelo artigo!
Não deixa de me fascinar a polaridade de reacções que o miúdo desperta, é impressionante que não existe praticamente ninguém que tente avaliá-lo pelo que faz como aqui mas deixam-se levar por ódios despertados por gente que não faz falta nenhuma no futebol....

Blessing disse...

Edson, "Daqui a 15 dias estará no contexto certo para isso: a treinar e a jogar todos os dias com doutorados do futebol."

Já o disse inúmeras vezes: o primeiro passo está dado no caminho para evoluir de forma adequada. O segundo passo está na cabeça dele e na forma como os treinadores vão exigir que ele ultrapasse as dificuldades que vai encontra. Escolheu muito bem para onde ir. Melhor, só com Guardiola, ou Tuchel.

"No Benfica, tanto o Pedro Rodrigues como o João Carvalho são atletas mais do meu agrado. No entanto, reconheço que não têm nem a força mental, nem a força física do Renato. E nunca vão ter. Mas terão outras valências, que me agradam bastante."

Sim. Adoro os dois, sobretudo o Carvalho. Mas não desgosto do Guga, ainda que a um nível inferior. De qualquer forma, o meio campo tem muita qualidade! Da formação, são estes, o Ze Gomes e o JP (os que estão mais próximos de aparecer). Mas não se fica por aqui. Vem aí outra vaga com muita qualidade!

Islander, é como digo. Eu não gosto particularmente do estilo, mas isso não significa nada. Eu olho para o Renato e fico sempre dividido. Porque ele tem essas acções boas como as que ficaram aqui registadas, e também tem outras más como as que estão aqui e outras que não estão. Mas isso, aos 18, não me diz grande coisa. Diria aos 22,23,24... Já disse aqui, e ainda há tempos postei um vídeo disso no facebook: nunca pensei ver Messi conduzir para a bandeirola de canto. Assim o fez no Bernabéu, no primeiro ano de Guardiola onde eles golearam, e o Messi tomou más decisões atrás umas das outras. E decisões ridículas como essa condução. Estava longe de ser perfeito como o é agora, como o foi nos últimos anos. Cresceu, como crescem todos, e diminuiu o erro. Pode acontecer o mesmo com Renato. Se lhe tirarem o erro, pode-se impor como titular no meio campo de um grande. Se não, será uma carreira banal.

DC disse...

Portanto, o André não conseguiria sequer receber uma bola pressionado mas o Deus Renato que tem recepções em que a bola lhe sobe à cabeça conseguia. Realmente somos uns privilegiados por poder ver tão soberbo jogador.
Enfim, eu vou deixar passar uns meses e depois voltamos a falar. Com tanto hype à volta certas discussões tornam-se absurdas.
E sobre acções positivas ou que fazem alguma diferença no futebol profissional, o Nuno já fez uma excelente análise.

Paolo Maldini disse...

falam do miúdo como se nem para o nosso campeonato tivesse lugar

http://www.uefa.com/uefachampionsleague/news/newsid=2388504.html

Aos 18 anos nomeado para melhor da Europa com Pepe e CR. Foram os jornalistas portugueses que tinham mais votos, de certeza! (ainda q obviamente isto tenha o valor q tem... é certo q a maioria ou a totalidade dos nossos médios nc teria ou terá entrada numa lista destas)

Uma coisa é dizer que não é um Modric. Outra coisa é falarem como se fosse jogador p o Arouca... por amor de Deus...

Blessing disse...

DC, sim. Pois fez. Esta é outra. Para quem quiser ver. O André consegue sem dúvida receber uma bola pressionado. O que vem depois disso é que já tenho dúvidas. E não tenho a mínima dúvida que se o André tivesse 18 anos e jogasse o que joga hoje lhe visse igualmente potencial. Não por ser brilhante, como também neste caso de certeza. Agora não tenho dúvida que o acerto do Renato no corredor central é superior ao acerto no corredor lateral. Bem como João Mário, que já é mais maduro e mesmo assim colapsou.

Paolo Maldini disse...

"Deus Renato" "somos uns privilegiados por poder ver tão soberbo jogador."

LOL

q doença fodida esta... é que escrever estas coisas nem é não perceber ou perceber de futebol... é outra coisa... é por isso que os posts do Renato metem tanta graça

João Nogueira disse...

O will grigg também está nessa lista maldini...

Blessing disse...

Ps: eu não tenho hype nenhum com o Renato. Tem coisas boas e coisas más. Tem hype quem só vê as coisas boas e quem só vê as más. Nenhum dos casos é o meu. Já o de outros duvido. Se calhar ainda muitos não perceberam como é que ele mesmo em passe, com passe vertical consegue colocar tantas vezes os colegas em situações menos complexas deixando vários adversários para trás. Sim, com 9,8, atrás, ele também consegue jogar. Como ficou evidente! E não foi um, nem dois! Se calhar nesses dois jogos ligou mais vezes com os avançados do que o Kroos no Euro inteiro.

Blessing disse...

E o Kroos fez um euro fabuloso!

Paolo Maldini disse...

Joao, na minha lista o Renato tb n estaria (ainda, talvez)... Agora querem dizer que um miudo de 18 anos deste nível n é nada nem vai dar nada. Acordem... é q ele já é e já deu mais que todos os outros médios tugas q já têm 23,24, etc etc...

RodaBola disse...

"Mas é impossível não perceber-lhe o potencial, mesmo que em contextos de grande exigência. " o Nuno do Entredez não concorda minimamente com isto.

DC disse...

É o que eu digo, vou dar tempo ao tempo. Agora uma lista onde até está um gajo que não chegou a jogar no euro mas tem uma canção bonita passou a ser argumento. Quem diria...
Mas eu e os que acham que se tem exagerado muito é que temos uma doença.

Blessing, eu também não percebo como é que se pode arriscar tantas inferioridades numéricas num jogo e chegar ao fim e ser elogiado pela decisão. Ou como se pode fazer tantas recepções em que a bola só morre ao 3º toque e ser elogiado pela técnica. Neste momento, realmente, há muita coisa que não percebo. Mas até prefiro estar assim sem perceber.

PS: a minha doença é tão grande que quando o Nuno e outros disseram coisas parecidas sobre o Quaresma e André André concordei a 100% ou até reforcei.

João disse...

Uma coisa é dizer que não é um Modric. Outra coisa é falarem como se fosse jogador p o Arouca... por amor de Deus...


Mas o que corre por esse país fora é que ele é/vai ser um Modric ou que não é sequer jogador para o Arouca?

É que lendo essa afirmação até parece que a opinião geral e quase consensual nos media é a segunda.

João disse...

"Mas é impossível não perceber-lhe o potencial, mesmo que em contextos de grande exigência. " o Nuno do Entredez não concorda minimamente com isto.

Pessoas com opiniões diferentes, o drama, o horror, a tragédia...

DM disse...

As vezes a atitude competitiva conta muito, e o Renato com 18 anos é mais competitivo que a grande maioria dos jogadores. Continuo sem achar que tenha potencial para ser um médio de excelência ou para atingir patamares que outros jovens promissores podem chegar (como o Bernardo). Mas acho que se o deslocarem para um corredor lateral até poderá ter bastante sucesso, como sugeriu o Nuno no EntreDez

LyricalGhost disse...

Falam do rapaz como se nem na League One tivesse lugar.

http://www.uefa.com/uefachampionsleague/news/newsid=2388504.html

Aos 25 anos nomeado para melhor da Europa, tendo sido possivelmente o único jogador norte-irlandês da história a ter tal distinção. Foram os jornalistas norte-irlandeses que tinham mais votos, de certeza! (ainda que obviamente isto tenha o valor que tem... é certo que nunca outro jogador norte-irlandês teria ou terá entrada numa lista destas).

Uma coisa é dizer que não é um Benzema. Outra coisa é falarem como se fosse jogador para o Walsall... Por amor de Deus...

Blessing disse...

DM, no corredor lateral nem no Arouca.

DC, como quiseres. Já discordamos muitas vezes, sobre muitos jogadores, não é por aí. Cada um vê o que quer, onde quer.

João, exacto!

LyricalGhost disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Hélder disse...

O Renato é fantástico, pelo menos aos 18 anos causa esta discussao toda. Eu aos 18 anos se entrasse no Balneário do Ronaldo demaiava....

Enfim...

Isto pode parecer que estou a querer provocar, mas é apenas porque estou a provocar: Gostava de ver o que muitas pessoas achavam do perfil de decisao do Renato se ele se chamasse Henrique e tivesse nascido em Cascais. E do potencial...

Enfim...

Já agora, todas a gente que escrutiniza e julga ao pormenor decisoes um puto de 18 anos, tem esse mesmo rigor na sua própria vida? É que eu tenho mais de uma década em cima e faco tanta merdinha as vezes...

Paolo Maldini disse...

Blessing, não tinha visto o jogo do Benfica em Munique. Vim agora ver o video pq ontem me "mandaste". FDX que qualidade impressionante num contexto destes! Dá para perceber agora o pq de ter sido o Bayern a chegar-se logo à frente! O que dá com bola é de facto extraordinário! Aos 18 anos é normal não o dar consecutivamente. O que não é normal é dar isto tudo! E tem agora um local apropriado para crescer, porque agora para ter sucesso (jogar) vai precisar de cumprir mais posicionalmente do que antes, porque se não... não calça!

Concordo com a do no corredor lateral nem no Arouca. No Euro qd foi deslocado para ai perdeu tudo o que ofensivamente dá. Nem a saída em progressão, nem os constantes passes a queimar linhas e a tornar a situação menos complexa... deixou de arriscar completamente, parecia um nado morto ali!

Nuno disse...

Blessing, o teu argumento acerca do valor do Renato é diferente do da maioria das pessoas, e é diferente, portanto, daquele que eu ataco no texto que escrevi a semana passada no Entre Dez. Para ti, o Renato não é diferente de muitos jogadores por conseguir conduzir em espaços reduzidos ou por conseguir provocar desequilíbrios em condunção, mas essencialmente por não perder “uma oportunidade para enquadrar, para jogar para a frente, para fazer a equipa ganhar metros”. O que eu pergunto é: por que é que isso é um valor em si mesmo? Que eu saiba, tu defendes que são as circunstâncias que determinam aquilo que um jogador deve fazer. Eu concordo totalmente com isso. Mas, se são as circunstâncias que o determinam, não perder uma oportunidade para enquadrar ou para jogar na frente e fazer a equipa ganhar metros não é um bem. Muito pelo contrário, aliás. Se um jogador enquadra sempre ou joga sempre na frente, o seu critério de decisão não são as circunstâncias, mas esse comportamento predefinido. Não consigo perceber de que modo isso pode ser uma coisa louvável. E nem sequer se aplica ao Renato. Há inúmeros casos em que não enquadra ou joga na frente. Um bom exemplo é o lance 23 contra a França. Ao contrário do que dizes, não estava de maneira alguma pressionado, e poderia perfeitamente ter-se enquadrado e não o fez. De resto, como qualquer jogador, quando sente as costas quentes, tende a jogar no apoio frontal. Aliás, não consigo sequer perceber o que há de tão especial no facto de o Renato se enquadrar quando não tem um adversário à ilharga. Há algum jogador que, por norma, não enquadre, quando tem espaço? Não. O Renato não se distingue de ninguém por não perder uma oportunidade para enquadrar. Qualquer jogador profissional, mesmo o mais descoordenado dos jogadores, enquadra nessas condições. É, aliás, a tendência natural de qualquer pessoa que jogue à bola. O que aceito que distinga o Renato é o que faz depois de enquadrar. Há muitos jogadores que, depois de se enquadrarem, optam por pausar, jogar para o lado, conduzir lentamente. O Renato opta invariavelmente por outras coisas, depois do enquadramento. E aí sim, aceito que ele é diferente. Mas essa diferença não é necessariamente para melhor. Utilizas o critério do “jogar sempre para a frente” como se fosse um bem em si mesmo, e não é. E é esse o meu problema com o Renato. Eu não valorizo o futebol dele porque acredito, como tu, que ele se distingue por ser um jogador que não perde uma oportunidade para avançar, para comer metros, para enfrentar as linhas adversárias, para fazer a equipa ganhar terreno. Mas, ao contrário de ti, não acho que isso seja sempre uma coisa boa.

Nuno disse...

Concordo que o Renato não se esconde, que é desinibido e corajoso, concordo que consegue proteger a bola quando pressionado, concordo que é ágil e que observa rapidamente o espaço à sua volta, concordo que procura apoios frontais ou tabelas (em ocasiões especiais), e até concordo que é rápido a decidir. Mas tem um defeito enorme, na decisão. Raramente aguarda para perceber se a primeira opção que lhe surge é a melhor que pode surgir. Desse ponto de vista, não é diferente do Rúben Micael. Quando o Rúben Micael apareceu, toda a gente lhe gabava a simplicidade. Recebia, enquadrava e soltava assim que podia. Para quase toda a gente, mesmo sem ser especialmente criativo, o Rúben Micael era um jogador útil. Era prático, jogava simples e, sobretudo, não perdia tempo. O que as pessoas não percebem é que perder tempo é, muitas vezes, o melhor que o portador da bola pode fazer. E não é perder tempo a levar a bola no pé. É perder tempo, se possível, sem sair do mesmo sítio. As pessoas não percebem que, apesar de o portador da bola não se mexer, o jogo à sua volta mexe-se e modifica-se a todo o instante. Muitas vezes, a melhor decisão a tomar é ficar quieto, à espera que os colegas dêem uma linha de passe ou à espera que o adversário, com a ânsia de recuperar a bola, abra um espaço favorável. O Rúben Micael não jogava simples por saber que era limitado. Jogava simples porque lhe ensinaram que devia soltar a bola assim que possível. A sua pouca criatividade é resultado directo do ímpeto de jogar sempre rápido, de jogar sempre para a frente. A falta de criatividade do Renato advém do mesmo. Um jogador criativo não tem nada de especial que o Renato não tenha, a não ser a capacidade de contemplar várias opções e a de ponderar acerca da melhor delas. O Renato não é criativo porque não se dá ao trabalho de esperar, de contemplar mais do que uma opção. O Renato enquadra e, assim que contempla uma opção, seja ela a de conduzir porque tem algum espaço, seja antes a de passar a um colega no qual reconhece condições suficientes de passe, toma essa decisão. A sua falta de criatividade é indissociável da forma precipitada como decide sempre com base no mesmo critério: acelerar o jogo. E é esse o problema. Aquilo que para ti parece ser um valor absoluto, o de não perder uma oportunidade para jogar para a frente ou para fazer a equipa ganhar metros, é justamente aquilo que obsta a que seja um jogador criativo. O perfil de decisão do Renato, de resto, só é diferente do do Rúben Micael porque o Renato tem muito mais força e protege muito melhor a bola. De resto, é muito parecido. São os dois demasiado objectivos; o principal critério de decisão é a objectividade.

Nuno disse...

Dito isto, os exemplos dos jogos que dás não me parecem justos. Não há um lance de ataque organizado, no jogo com o Bayern, em que o Renato tenha decidido bem. Eu reconheço que, num bloco baixo, o Renato tem utilidade no corredor central. Sai rápido, consegue proteger a bola quando pressionado, decide rápido, tem força. E, num jogo com as características do jogo contra o Bayern, reconheço que o Renato pode ser útil, sobretudo a sair da primeira zona de pressão. Mas concordamos os dois que uma equipa grande enfrenta poucos jogos com essas características por época. Em ataque organizado, que é o momento do jogo em que uma equipa grande passa a maior parte de época, é que é preciso avaliar aquilo que o Renato pode dar. Apresentas o exemplo do jogo do Bayern como um caso de sucesso porque partes do princípio que o contexto era o mais exigente possível. Afinal, tratava-se do Bayern do Guardiola. Mas, pelo contrário, era o contexto ideal para as características do Renato. Nesse tipo de jogos, concordo que o Renato pode dar coisas interessantes à equipa, especialmente na superação da primeira zona de pressão e na transição. Tanto por ser rápido a chegar à frente, como por conseguir sair de zonas de pressão, como por ter como critério de decisão jogar sempre na frente, o mais rapidamente possível, o Renato é útil. Mas e em ataque organizado? É verdade que o jogo que utilizei para lhe avaliar as competências em ataque organizado (contra o País de Gales) pode não ser o mais justo, por ter sido utilizado numa faixa (embora tenha tido liberdade para vir para o meio). Mas é bem mais justo do que este, dado que teve muito mais situações de ataque organizado. Contra a França, devo dizer que até gostei dos últimos 10 minutos do Renato em campo. Provavelmente por estar desgastado.

No jogo contra o Bayern, o lance 4 é uma decisão errada, e ilustra bem aquilo que nos separa, na avaliação das qualidades do Renato. Tu sugeres que ele “recebe enquadrado e solicita Mitro no espaço, obrigando a linha do Bayern a baixar alguns metros”, e dás a entender que isto é uma virtude. Eu vejo uma precipitação. O Benfica tinha a posse, o Renato tem opções curtas perto de si, e decide esticar o jogo, solicitando um colega que ficaria isolado do resto da equipa, com vários adversários por perto, e sem grande capacidade para progredir. O que é que interessa que essa opção tenha feito o Bayern baixar as linhas? O que é que a equipa do Benfica ganhou com essa decisão do Renato? Não sei como a jogada terminou, mas o mais certo é o Mitroglou ter perdido a bola ou ter sido obrigado a protegê-la e a recuar, facilitando a arrumação defensiva e o pressing do Bayern. Este é um bom exemplo de que jogar para a frente não é necessariamente um bem em si mesmo.

No lance 17 dizes: “Recebe numa situação sem grande potencial no corredor lateral, e consegue descobrir Jonas dentro da área com um passe por alto.” É verdade que situação não tinha grande potencial à partida, e é verdade que termina com uma oportunidade de golo. Não consigo aceitar é que isso tenha alguma coisa a ver com a decisão do Renato. Ali, impunha-se ou que jogasse para trás, saindo de uma zona de pressão claramente desfavorável, ou que de algum modo transformasse a inferioridade numérica numa superioridade qualquer. Ao colocar a bola em Jonas, deixou o brasileiro numa situação deficiente, rodeado de adversários, sem apoio frontal de ninguém (Gaitán ainda tenta ir dar esse apoio), e com a necessidade de dominar uma bola por alto. Que o Jonas tenha conseguido dominar essa bola, que tenha conseguido rodar (em função do seu talento e dos maus apoios do Alaba) não pode contar a favor da decisão do Renato. Ele não pode decidir em função de algo tão improvável. A decisão é má, e mais uma vez mostra que o critério de jogar para a frente não pode ser sempre o melhor. Um jogador de outro tipo, tomaria uma decisão mais razoável, e provavelmente seria criticado por não arriscar. O Renato arrisca, é quase sempre inconsequente por causa disso, e quando esse risco traz dividendos as pessoas esquecem o resto.

Nuno disse...

No lance 18 dizes: “Desenquadrado e pressionado, tenta jogar de primeira em Pizzi. Boa decisão, mau passe.” Não quero embirrar muito com isto, mas o mau passe também tem a ver com a decisão de querer jogar de primeira. O Renato tinha tempo e espaço para dominar e entregar de seguida no espaço, para o Pizzi progredir. Lá está, é a pressa de ter que ser sempre o mais rápido possível a decidir.

No jogo contra a França, no lance 4, dizes: “recebe novamente pressionado, não consegue proteger a bola e o defesa corta. Tenta de imediato aproveitar o movimento de Adrien e lança rapidamente a bola.” Como é que não concluis, deste lance, a precipitação dele? Para que é que foi lançar rápido, para o Adrien, estando este apertado? A razão é simples: porque é esse o critério de decisão do Renato. Vê um colega a dar uma opção de passe à sua frente e não pondera acerca das condições de recepção, dos apoios desse colega, da organização defensiva do adversário. Qual era a necessidade de lançar depressa, naquela situação?

No lance 5, dizes: “Recebe sem pressão e enquadra, poderia ter conduzido mas opta bem por não o fazer. A bola seguia e bem para Ronaldo no espaço dando início à transição ofensiva, no entanto Ronaldo que já estava limitado e trava o seu movimento dando a impressão que Renato erra o passe.” Isto é a sério? Achas mesmo que foi uma boa decisão? Eu acho este um exemplo perfeito para justificar que ele não conduz quando deve e que o faz quando não deve. Ao contrário de ti, acho que ele devia ter conduzido. Tem mais do que espaço para isso e não tem nenhum dos atacantes em posição privilegiada que justificasse o passe logo dali. O Ronaldo não estava numa posição favorável. Quando muito, iria apanhar a bola junto à linha, e com defesas franceses por perto, sem qualquer apoio. E o Renato deveria ter percebido, pelo próprio movimento do Ronaldo, que ele não lhe solicitava o passe na profundidade. Ele viu ali espaço e não pensou em mais nada: meteu lá a bola. É isto que ele faz frequentemente. De resto, se não quisesse progredir em condução, como acho que devia ter feito, tinha uma solução de passe bem melhor: o Adrien. Eu acho que este lance define muito do que é o perfil de decisão do Renato: enquadra, olha para a frente, vê algum espaço e um colega numa posição razoável, e não pondera mais nada.

No lance 11, dizes: “Recebe de Quaresma enquadrado, e tenta variar para Nani do lado contrário. Aqui, talvez pudesse ter aproveitado a posição de Adrien atrás dos médios franceses.” Este é mais um óptimo exemplo. Para aproveitar a posição do Adrien, só tinha que esperar que o Adrien lhe desse a opção de passe. E, se esperasse, provavelmente aconteceriam mais coisas. Ele recebeu enquadrado, olhou para a frente, e meteu a bola no primeiro sítio em que ponderou metê-la. É uma má decisão, mas não apenas por ter metido a bola onde meteu. É uma má decisão, acima de tudo, por não ter sabido aguardar por possibilidades de decisão melhores.

Nuno disse...

No lance 16 dizes: “Recebe, enquadra, conduz e procura Nani no apoio frontal. Nani deixa-se antecipar.” Isto não é bem assim. O Nani faz o movimento para a linha, para ganhar espaço para receber, mas a bola é-lhe colocada para trás, para o seu pé esquerdo. Repara que o Nani tem que travar o movimento, e ainda se estica para tentar ficar com o pé à frente do defesa francês que se antecipa. O passe do Renato, uma vez mais, não é perfeito. E não o é porque não respeita o movimento do Nani. A bola, a entrar ali, tem que entrar 2 ou 3 metros mais para fora e para o pé direito do Nani, para precaver a antecipação. O Nani preocupa-se em solicitar esse espaço, e o Renato não respeita isso, metendo-lhe a bola tensa, é verdade, mas sem considerar o espaço de protecção que o Nani tinha procurado.

No lance 19 dizes: “Recebe de costas, enquadra, tira Pogba do caminho, e ainda Matuidi com o passe para Quaresma.” O passe é mal feito. A bola tem que entrar na frente do Adrien, para o Adrien conduzir, não no Quaresma. Assim, obrigou o Quaresma a ganhar a dividida. Para quê? É mais uma vez uma precipitação motivada pelo critério de decisão dele: a primeira coisa que vê é a primeira que decide fazer.

No lance 21 dizes: “Recebe de João Mário e com espaço conduz. Sem grande velocidade, e talvez a espera que Nani se mostrasse em apoio frontal. Tal não acontece, e Matuidi acaba por conseguir tirar-lhe a bola.” Ele vai claramente enfrentar o Matuidi. Convida-o a um duelo. A intenção, desde o início, é só uma: conduzir para cima do Matuidi, tentar passar por ele e depois logo se vê. Mais uma vez, é o critério da pressa e do jogar para a frente. Impunha-se que soltasse logo no Nani, ou então que conduzisse, sim, mas na diagonal, na direcção do flanco contrário.

Os exemplos que comentei, nos dois jogos, são quase todos bons para concluir aquilo que me parece ser o perfil de decisão do Renato. De resto, são pouquíssimos os casos em que o Renato, dentro do bloco adversário e em ataque organizado, decide bem. As boas decisões são quase todas em acções fora do bloco, ou em acções de transição. Não contesto que ele seja rápido a enquadrar e a decidir. Mas contesto que isso seja uma virtude. Em lances de ataque organizado, não vejo qual seja o ganho de haver quem o faça sistematicamente (e o faça sem respeito por outros critérios de decisão), e não encontro praticamente exemplos, nestes dois jogos, que demonstrem o contrário (excepção feita, talvez, ao passe vertical para o Adrien, no lance 6, ou o passe vertical para o João Mário, no lance 25). Pelo contrário, há vários exemplos, sobretudo no jogo contra a França, porque nesse houve mais momentos de ataque organizado, em que esse tipo rapidez de decisão foi pernicioso. Concedo que, quando o adversário não está equilibrado defensivamente, o tipo de futebol incisivo do Renato permite à equipa criar alguns problemas ao adversário. Em ataque organizado, é geralmente prejudicial. E é em ataque organizado que tenho problemas com o tipo de futebol do Renato.

Blessing disse...

Nuno,

"O que eu pergunto é: por que é que isso é um valor em si mesmo?"

É um valor porque difere de jogador para jogador. Ou seja, tem a ver com a tomada de decisão. E mais do que isso, tem a ver com a observação do espaço antes de receber a bola. Portanto, se avalio jogadores consoante a tomada de decisão, avalio também por isso. chateia-me imenso (estou a falar dos meus, porque tenho a bola muito mais tempo do que 90% dos meus adversários), do que ter uma possibilidade para se virar para frente e não o fazer, do que ter uma possibilidade de jogar para frente (de nos aproximar da baliza adversária) e passar para trás ou para o lado. E isso acontece com um número elevadíssimo de médios (a comparar a mesma posição do Renato) no alto rendimento, e nas grandes equipas do mundo.

"Que eu saiba, tu defendes que são as circunstâncias que determinam aquilo que um jogador deve fazer. Eu concordo totalmente com isso. Mas, se são as circunstâncias que o determinam, não perder uma oportunidade para enquadrar ou para jogar na frente e fazer a equipa ganhar metros não é um bem. Muito pelo contrário, aliás. Se um jogador enquadra sempre ou joga sempre na frente, o seu critério de decisão não são as circunstâncias, mas esse comportamento predefinido."

Exacto. Quando eu digo "não perde uma oportunidade de" significa que quando a situação se dá, quando há possibilidade de, independentemente de receber de frente ou de costas, ele aproveita. E isso é jogar de acordo com as circunstâncias, e por isso acertar na tomada de decisão.

"E nem sequer se aplica ao Renato. Há inúmeros casos em que não enquadra ou joga na frente. Um bom exemplo é o lance 23 contra a França. Ao contrário do que dizes, não estava de maneira alguma pressionado, e poderia perfeitamente ter-se enquadrado e não o fez."

Bem, nos vídeos que coloquei, e nos jogos que vi, não há inúmeros lances. Sim, tens razão quanto ao lance 23. Poderia ter enquadrado, de facto e é portanto um erro meu. Que em nada, como podes perceber pelos restantes lances, belisca o meu argumento.

"Aliás, não consigo sequer perceber o que há de tão especial no facto de o Renato se enquadrar quando não tem um adversário à ilharga. Há algum jogador que, por norma, não enquadre, quando tem espaço? Não."

Há, e não são poucos. E não só há desses, como ainda há de outro grupo que disfarça esse factor um bocadinho melhor, é o 50/50.

"O Renato não se distingue de ninguém por não perder uma oportunidade para enquadrar. Qualquer jogador profissional, mesmo o mais descoordenado dos jogadores, enquadra nessas condições. É, aliás, a tendência natural de qualquer pessoa que jogue à bola."

O Renato distingue-se por jogar "sempre" positivo. Ou seja, pode jogar na direcção da baliza dos outros e assim o faz. Queira isso dizer que enquadre, que conduza, que passe, ou que remate. E isso, é um grande valor por si só pela dúvida que cria no adversário. E não, não está ao alcance de todos os profissionais que jogam futebol, porque se assim fosse todos os do Arouca poderiam jogar no Benfica. Se me permites a comparação. É uma característica que não é de todos os jogadores, creio que lhe chamam, hoje em dia, verticalidade. E podia até ser um defeito, se ele o fosse sempre, mas não o é.

"Mas, ao contrário de ti, não acho que isso seja sempre uma coisa boa."

Eu acho que sempre que um jogador toma uma decisão com a qual eu concordo, e que eu acho adequada, é sempre uma coisa boa. E acho que quando ele o faz consecutivamente, como demonstrei com os lances, demonstra um padrão positivo no aspecto em causa. Por isso, não há como não valorizar.

Blessing disse...

"Mas tem um defeito enorme, na decisão. Raramente aguarda para perceber se a primeira opção que lhe surge é a melhor que pode surgir."

Não concordo com isso. Acho que ele aguarda, como se percebe muitas vezes nos vídeos. Vê-se perfeitamente ele a travar, a esperar, e a ver. Não implica que não decida mal por isso. Decide mal as vezes, mesmo olhando para o jogo quando já tem a bola. Lê mal o jogo, por vezes. Agora onde concordo é: Quando ele vai em velocidade tem grande dificuldade em equacionar as soluções.

"A falta de criatividade do Renato advém do mesmo. Um jogador criativo não tem nada de especial que o Renato não tenha, a não ser a capacidade de contemplar várias opções e a de ponderar acerca da melhor delas. O Renato não é criativo porque não se dá ao trabalho de esperar, de contemplar mais do que uma opção. O Renato enquadra e, assim que contempla uma opção, seja ela a de conduzir porque tem algum espaço, seja antes a de passar a um colega no qual reconhece condições suficientes de passe, toma essa decisão."

Como digo no texto, não é o estilo de jogador que me encante por não ser criativo. Agora a falta de criatividade do Renato dever-se ao não esperar, tenho que discordar. Como o disse, e os vídeos mostram-no. Esperar pode por vezes ser estar parado, outras pode ser travar, outras pode ser conduzir devagar. Ele espera, mas o resultado dessa espera é que não é necessariamente sempre positivo. Ele não é criativo porque foi habituado a ter sucesso com um determinado estilo de jogo. Não é por não esperar. É por ter tido sucesso massivo usando outras características (as suas capacidades condicionas); E pelo estilo de jogo a que ele se associou enquanto miúdo e no qual se inspirava para tentar copiar em campo (ídolos Coentrão e Enzo).

"O Renato enquadra e, assim que contempla uma opção, seja ela a de conduzir porque tem algum espaço, seja antes a de passar a um colega no qual reconhece condições suficientes de passe, toma essa decisão."

Discordo, mais uma vez. Como já disse, ele contempla várias vezes outras soluções e algumas vezes espera. Isso não lhe confere criatividade porém, como aliás não confere a nenhum jogador do mundo. Há aliás muitos jogadores que quanto mais soluções lhe dão, quanto mais tempo para as equacionar lhe exigem mais se perdem. Precisam de ser amarrados, e Renato parece-me um desses casos. Tenho ideia, hoje, que pode vir a ser um óptimo médio defensivo para um qualquer grande. Por isso, o esperar a mim não diz grande coisa em termos absolutos.

"A sua falta de criatividade é indissociável da forma precipitada como decide sempre com base no mesmo critério: acelerar o jogo. E é esse o problema. Aquilo que para ti parece ser um valor absoluto, o de não perder uma oportunidade para jogar para a frente ou para fazer a equipa ganhar metros, é justamente aquilo que obsta a que seja um jogador criativo."

Primeiro dizer que não concordo que ele acelere sempre o jogo. Como já disse atrás, o que ele faz é jogar a bola para frente quando as condições são as indicadas. Depois dizer que refuto completo a tua conclusão. Para um jogador ser criativo não precisa de pausa, assim como não precisa de acelerar. Basta-lhe perceber o jogo (os adversários, os colegas, o objectivo circunstancial por forma a atingir o objectivo geral), e ter qualidade técnica para executar. Por exemplo, Muller. Percebe o jogo e não é precipitado, mas está muito, muitíssimo, longe de ser um criativo (ainda que se esteja a falar de jogadores de posições diferentes). Há outros exemplos, como o Moutinho, etc. por isso, não é a pausa, ou a aceleração que confere ou retira criativa. É todo um conjunto de factores. E nisso, para fazer uma comparação, Renato é até bem mais comedido do que o Enzo. Enzo, esse sim, estava sempre a acelerar. Também porque tinha outra capacidade técnica e outro sucesso no 1x1. E Enzo também não era, para mim, um criativo.

Blessing disse...

Antes disso dizer que em transição estou totalmente de acordo, mas não só. Acho que também tem boas decisões em organização.

"Não há um lance de ataque organizado no jogo com o Bayern, em que o Renato tenha decidido bem"

Posso dizer que não há, e posso dizer que por haver poucos ou nenhum foi o caso. Mas há lances em que, na minha opinião, decidiu bem. Ie, quando está de frente para o jogo com pelo médios a linha média e a linha defensiva compostas.

O Lance 4, o lance 6, o lance 11, o lance 13, o lance 17, o lance 21.

A minha opinião é a de que o Renato tem qualidade na construção, mas que não tem criatividade. E somando a qualidade às características físicas que tem isso lhe confere um potencial brutal.

"É verdade que o jogo que utilizei para lhe avaliar as competências em ataque organizado (contra o País de Gales) pode não ser o mais justo, por ter sido utilizado numa faixa (embora tenha tido liberdade para vir para o meio)."

Acho que o perfil de jogo dele muda completamente quando está num corredor. E, para mim, muda tanto que nem para o Arouca servia para ala. Mas concordo quando dizes que o perfil do jogo com Bayern o favoreceu. Já não consigo concordar quanto ao jogo com a França.

Blessing disse...

"No jogo contra o Bayern, o lance 4 é uma decisão errada, e ilustra bem aquilo que nos separa, na avaliação das qualidades do Renato. Tu sugeres que ele “recebe enquadrado e solicita Mitro no espaço, obrigando a linha do Bayern a baixar alguns metros”, e dás a entender que isto é uma virtude. Eu vejo uma precipitação(...)Este é um bom exemplo de que jogar para a frente não é necessariamente um bem em si mesmo."

Discordamos por completo. Também não sei o final da jogada porque não fui que fiz o vídeo. Mas, o fazer a equipa do Bayern baixar e colocar a bola num colega numa zona contrária a da pressão pressupõe algumas coisas: 1) A equipa do Benfica subir e acompanhar a bola, ficando mais longe da sua baliza e mais perto da do Bayern de forma segura.

2) Que o Mitro perceba que tem proteger, se necessário conduzir e dar a entender que vai acelerar, quando a única coisa que quer é ganhar tempo para que os colegas se aproximem.

Se isto não é bom não sei o que será. É das melhores formas de progredir quando o adversário nos fecha em pressão o lado da bola. Ganha tempo para a equipa subir com a acção de apenas dois jogadores, ganha o espaço que se quer conquistar para depois atacar. Obviamente que Mitro poderia ter outro posicionamento que lhe permitisse inclusivamente ir pra cima do lateral, mas não era o caso.

"Não consigo aceitar é que isso tenha alguma coisa a ver com a decisão do Renato. Ali, impunha-se ou que jogasse para trás, saindo de uma zona de pressão claramente desfavorável, ou que de algum modo transformasse a inferioridade numérica numa superioridade qualquer."

Mais uma vez não concordo. Ali, eu pedia sempre para de uma forma qualquer a bola entrar no apoio frontal do Jonas. Não dava pelo chão, deu pelo ar.

"Ao colocar a bola em Jonas, deixou o brasileiro numa situação deficiente, rodeado de adversários, sem apoio frontal de ninguém (Gaitán ainda tenta ir dar esse apoio), e com a necessidade de dominar uma bola por alto. Que o Jonas tenha conseguido dominar essa bola, que tenha conseguido rodar (em função do seu talento e dos maus apoios do Alaba) não pode contar a favor da decisão do Renato. Ele não pode decidir em função de algo tão improvável."

Não é bem assim. Como tu dizes e bem, acima, as situações mudam em segundos mesmo que por vezes ninguém se mexa. Mas se alguma coisa se move a situação é logo necessariamente diferente. Com isto quero dizer duas coisas: 1) Concordo que o passe pelo ar torna a situação bem mais complicada. Mas por que é que o Renato não pode contar com o talento do Jonas? Afinal ele treina e joga com ele e contra ele sempre! Conhece-o muito, muito, bem. Sabe se ele ali consegue ou não segurar a bola. E se segurando, se consegue ou não decidir em conformidade.
2) Se a bola se move, ou seja, do Jonas para o Renato, pelo ar ou pelo chão Gaitan e Mitro são apoios imediatos para ele porque se vão orientar para a bola. E a proximidade entre ele é bem evidente. Mitro não faz nada, não faz movimento nenhum, mas Gaitan faz e ajuda Jonas a resolver o lance por deixar o central na dúvida.

Daí eu dizer que queria sempre que a bola entrasse em Jonas, para Jonas tentar combinar com Mitro ou Gaitan (porque estavam evidentemente próximos, e podiam sempre servir como linhas de passe ao mesmo). O facto do passe ter sido feito pelo ar torna-o muito mais arriscado, mas não o torna de todo "impossível", ou improvável. Imaginando que Jonas recebe, e toca em Gaitan que fica de frente com Jonas depois a ir embora? Ou que Mitro vai em profundidade pela esquerda Jonas segura toca em Gaitan e Gaitan em Mitro, ou o próprio Jonas em Mitro? Pelo Jonas ter inventado a jogada sozinho, não sai daí que o lance não era bom.

Por isso, como podes ver, não acho que a decisão tenha sido má.

Blessing disse...

Volto mais tarde para comentar os teus outros comentários, porque agora tenho de ir para o treino. E peço por isso, se conseguires, que aguardes até que o faça mais logo para depois responderes a tudo e ficar tudo ordenado.

bio disse...

Grande grande debate e quero dar-vos os parabéns.

Blessing, só um aparte, penso que tinhas um artigo sobre o Xavi, em que referem, e bem, que nem sempre conduzir e enfrentar a minha defensiva é positivo (usaste um exemplo dum jogo contra o Real, assim de memória)...

Sem deixar de te dar os parabéns, mas não estarás a entrar um pouco em contradição?

Um abraço e mais uma vez parabéns,
Gonçalo Mano

Pedro Carmo disse...

Uma análise mais justa, sem dúvida.

Não percebo, sinceramente não percebo, como é que um jogador como Renato pode ser alvo de tanta crítica e desconfiança. A qualidade que mostrou é fabulosa e, com apenas 18 anos, o potencial que tem é enorme.

Se vai ser craque? O futuro o dirá mas tem TUDO mas mesmo TUDO para o ser.

Blessing disse...

Gonçalo, "só um aparte, penso que tinhas um artigo sobre o Xavi, em que referem, e bem, que nem sempre conduzir e enfrentar a minha defensiva é positivo (usaste um exemplo dum jogo contra o Real, assim de memória)...

Sem deixar de te dar os parabéns, mas não estarás a entrar um pouco em contradição? "

Não precisas de dar os parabéns. Olha, se calhar me expliquei mal. O que queria dizer é, se as circunstâncias para avançar estão criadas ele avança. Era isto. O Xavi, na situação que citei ia enfrentar uma situação muito desfavorável, e sem colegas por perto. como tal não estavam criadas as condições para avançar.

Blessing disse...

Nuno,

"No lance 18(...)Não quero embirrar muito com isto, mas o mau passe também tem a ver com a decisão de querer jogar de primeira. O Renato tinha tempo e espaço para dominar e entregar de seguida no espaço, para o Pizzi progredir. Lá está, é a pressa de ter que ser sempre o mais rápido possível a decidir."

Continuo a achar que foi uma boa decisão, que não teve grande precipitação. Eu, por exemplo, na mesma situação, teria tido uma decisão igual. Teria tentado jogar de primeira no Pizzi.

"No jogo contra a França, no lance 4(...)Como é que não concluis, deste lance, a precipitação dele? Para que é que foi lançar rápido, para o Adrien, estando este apertado? A razão é simples: porque é esse o critério de decisão do Renato. Vê um colega a dar uma opção de passe à sua frente e não pondera acerca das condições de recepção, dos apoios desse colega, da organização defensiva do adversário. Qual era a necessidade de lançar depressa, naquela situação?"

A necessidade era a de aproveitar o posicionamento deficiente do adversário nesse momento, e o facto de terem ficado 3 franceses ultrapassados desde logo. No limite, a precipitação levou a que tivesse falhado o lançamento. A decisão de lançar é óptima! Fora do lance já tinham ficado o defesa esquerdo, o médio defensivo responsável pela cobertura desse lado, e o extremo desse lado. Se Adrien recebe esse bola, estava em condições de fazer um 2x1 com o Nani no corredor com larga vantagem e entrar fácil na área. Não consigo é perceber como é que não vês a vantagem em lançar e aproveitar o movimento do Adrien logo ali.

"No lance 5(...)Isto é a sério? Achas mesmo que foi uma boa decisão?"

Tens o jogo gravado, ou como ver apenas esse lance? Lembro-me perfeitamente enquanto via o jogo, e vê-se perfeitamente o Ronaldo a acelerar, a perceber que não consegue e a parar. Nisto tudo o Renato já tinha decidido fazer o passe. O passe é para ali, porque é o Ronaldo que o vai receber. Se fosse o William ou o Adrien já não era bom. Porque não chegariam à bola em condições de atacar a defesa, e seriam pressionados. Ronaldo, pelas capacidade atlética que tem, e tendo mantido a aceleração, ganhava a bola mais que em condições de ir pra cima dos três defesas que sobravam, em movimento interior. Parece-me aqui, também, uma situação padronizada em treino. Por isso, não, não acho que deveria ter conduzido porque se o fizesse esse espaço para o Ronaldo aproveitar o melhor que tem desaparecia.

Quanto ao lance 11, completamente de acordo.

Blessing disse...

"No lance 16 dizes(...)Isto não é bem assim. O Nani faz o movimento para a linha, para ganhar espaço para receber, mas a bola é-lhe colocada para trás, para o seu pé esquerdo. Repara que o Nani tem que travar o movimento, e ainda se estica para tentar ficar com o pé à frente do defesa francês que se antecipa. O passe do Renato, uma vez mais, não é perfeito. E não o é porque não respeita o movimento do Nani. A bola, a entrar ali, tem que entrar 2 ou 3 metros mais para fora e para o pé direito do Nani, para precaver a antecipação. O Nani preocupa-se em solicitar esse espaço, e o Renato não respeita isso, metendo-lhe a bola tensa, é verdade, mas sem considerar o espaço de protecção que o Nani tinha procurado."

Pode um passe certo ser um passe errado? E um errado ser um certo? Acho que é o caso. Tudo bem, o Renato é que tem a bola e ele é que tem a responsabilidade do lado dele. Mas, convém que os colegas se preocupem minimamente em dar as melhores condições para que o portador da bola dê seguimento ao lance. Okay, tendo em conta o movimento do Nani, tendo em conta o facto de ele ainda estar em movimento, a bola deveria ter entrado exactamente para onde indicas. Mas na minha opinião Nani decide mal procurar esse espaço. Deveria ter optado por receber de costas, sabendo que iria ter pressão nas costas. Como o fez aliás imensas vezes, também solicitado pelo Renato. No fundo, o que estou a dizer é que a bola seguiu para onde deveria ter seguido caso Nani tivesse também acertado na posição a escolher. Como disse ao início, a responsabilidade está do lado do Renato, ele é que tem a bola. Mas, neste lance específico, eu treinador, ia ter primeiro com o Nani, e depois dava um toque ao Renato. Não obstante disso, não consigo dizer que aqui não tens razão, ou que discorde de ti.

"No lance 19 (...)O passe é mal feito"

Este lance entra dentro do que já tinha dito anteriormente, quando em velocidade aqui sim concordo que ela erra e muito.

"No lance 21(...)Ele vai claramente enfrentar o Matuidi. Convida-o a um duelo. A intenção, desde o início, é só uma: conduzir para cima do Matuidi, tentar passar por ele e depois logo se vê."

Se dizes isso deste lance, tens de dizer o mesmo sobre o lance 19. E no 19, ele curiosamente solta a bola. Se dizes que ele quer ir para cima nos dois, então fica por terra a ideia de que ele só equaciona uma solução e é com ela que vai até ao final. Se dizes que o 19 é diferente, tens de explicar onde. São dois lances "iguais" em que ele vê o adversário, conduz para cima dele, e tem intenção de soltar. Num teve opções de passe, noutro não. E neste lance, até tinha mais probabilidade de ir no 1x1 porque Matuiri estava sem cobertura com imenso espaço para ele aproveitar, e vê como ele trava, dança à frente dele e não aparece ninguém para o ajudar a resolver o lance. Tal como numa outra situação já falada, Nani deveria ter-se mostrado como apoio frontal.

Blessing disse...

No fundo, entre os erros que admito ter cometido, e os erros sobre os quais não há qualquer questão, a percentagem continua a ser baixa. Para um puto de 18 anos, muito baixa. O Renato, para mim, embora com características diferentes tem um estilo muito semelhante ao do Adrien. E o Adrien jogou esta época toda como médio ofensivo (a maior parte) no Sporting. Curiosidade, tenho a mesma opinião quanto às posições em que os dois poderiam dar mais. Isto diz-me que:

1) O Sporting joga em posse. Tem um modelo de jogo predominantemente ofensivo.

2) O Adrien no modelo de jogo do Jorge Jesus, esta época, como médio ofensivo teve grande sucesso. Teve erros em posse? Teve. Comprometeu com a sua tomada decisão, e por vezes qualidade técnica, alguns lances? Sim. Mas no global, a época foi muito positiva dentro de um modelo de jogo de qualidade, vincadamente ofensivo. Onde passou sempre maior tempo em organização.

3) Se eu subestimei a capacidade de aprendizagem do Adrien, tendo em conta a minha crença sobre o assunto? Sem dúvida.

4) Então, com um treinador que lhe ensine o que fazer como o Jesus faz com os seus, com o padrão de jogo perfeitamente definido e rígido, com movimentos ofensivos e defensivos todos trabalhados, com a repetição exaustiva dos mesmos, não me é difícil imaginar Renato vingar mesmo como médio ofensivo. A jogar contra jogadores melhores, e a treinar com jogadores bem melhores ainda mais fácil fica imaginar isso.

5) Agora, isso depende tanto dele como do ambiente que vai realmente encontrar. E não dependendo só dele, é difícil fazer uma previsão sobre o seu futuro.

Curiosamente, devo ter sido a única pessoa do mundo que não gostando do estilo do Adrien e do Renato ter defendido desde o primeiro jogo que deveriam os dois jogar na selecção. Não por serem globalmente melhores jogadores que os outros, mas por terem características distintas, que a forma de jogar da selecção precisava. E por isso também ficavam os dois beneficiados com isso, Renato apenas quando jogou no meio. E os outros estavam num nível ridiculamente baixo, inclusivamente o João Mário que para mim era o melhor deles.

"Em ataque organizado, é geralmente prejudicial. E é em ataque organizado que tenho problemas com o tipo de futebol do Renato."

Também eu. O problema é que não concordo, como percebes, que ele erre assim tanto. E acho que tem qualidades que bem afinadas dão para vingar. Nunca vai ser da escola de Modric, ou de Oliver, porque não tem a criatividade, ou a execução. Mas há mais que duas grandes equipas no mundo, que joguem de forma atacante permanentemente. E estou convencido que melhorando ao longo dos próximos anos ainda te vai surpreender como Adrien, por exemplo, a mim. Renato não tem tudo, faltam-lhe coisas. Mas tem virtudes importantes que, afinadas e a complementar com o que dá do ponto de vista físico e da forma abnegada como se dá ao jogo, podem torna-lo no futuro bem maior do que é hoje. Podem levar a que se imponha num grande Europeu que não jogue no campeonato português. E é disso, creio eu, que estamos a falar.

Paolo Maldini disse...

epa, n tenho tempo / paciência para ver tao minuciosamente cada lance como voces fizeram, mas não quero deixar de dizer que ler-vos (nuno e blessing) é realmente uma lufada de ar fresco (concorde ou discorde umas vezes com um, com outro ou com ambos).

Espero que a carneirada tente aprender cenas e n fique a bater palmas a um lado ou ao outro pq é o Nuno, pq é o Blessing ou pq é sobre o Renato! As minhas palmas vão para os 3, naturalmente, mesmo que aqui a minha visão esteja mt mais próxima do que o Blessing defende!

P.S. - E nuno, concederes as virtudes que já concedeste no Renato, já é mais do que o que esperava! E acabas por concordar com mta coisa dita "eu reconheço que, num bloco baixo, o Renato tem utilidade no corredor central. Sai rápido, consegue proteger a bola quando pressionado, decide rápido, tem força. E, num jogo com as características do jogo contra o Bayern, reconheço que o Renato pode ser útil, sobretudo a sair da primeira zona de pressão". Apenas achas que isso é insuficiente para jogar na selecção portuguesa. Eu acho que não! (pq a qualidade é baixa e pelo q tu próprio disseste na parte que citei)

Cão sem mancha disse...

Conclusão do Blessing: o Renato é bom porque (só) tem 18 anos.
Argumento: se o Adrien evoluiu e o surpreendeu (nota: o Adrien não mudou assim tanto, mudou sim o contexto em que estava inserido), o Renato também vai evoluir. Porquê? Porque vai treinar com o Alaba. Neste caso, por que não simplesmente promover um junior do Bayern e poupar aquele dinheirão todo?

Quando o Blessing defende decisões do Renato com base nas características dos outros jogadores (p.e. como o Ronaldo salta até 3 m, um passe feito a 3 m de altura no sítio onde estiver será um bom passe) não dá para o levar a sério.

Finalmente, quero só partilhar o contentamento por ter visto o Nuno vir aqui discutir e mostrar que tem razão, quando o Blessing tem andado a tentar desautorizar no LE e aqui o texto do Nuno, mostrando que queria discordar dele sem discutir com ele. Pois o Nuno veio cá discutir e e mostrou que tem razão sobre o Renato.

Blessing disse...

Grande comentário cão. Adorei perceber qual era a tua opinião, e quais são os teus argumentos. Não do Nuno, que essa conheço bem, e ao contrário do que pensas já debati com ele noutros espaços onde tu não podes ver. Interessante era mesmo saber a tua! É muito fácil dizer o Nuno tem razão. Qualquer criança o pode fazer, sem perceber nada do que aqui vai. O comentário do Maldini acaba por servir exactamente para ti, para os do costume.

DC disse...

A discussão está óptima. Acho que o Nuno foi mais ao pormenor na análise dos lances, considerando mais os colegas que o rodeavam e os seus comportamentos do que o Blessing. Concordo com o Nuno de que o facto de enquadrar quando pode não é, na minha opinião, algo raro. Como disse, para mim, o André André teria feito a mesma coisa na maioria dos lances.

Além disso, chamou-me a atenção uma coisa:

"Como digo no texto, não é o estilo de jogador que me encante por não ser criativo. Agora a falta de criatividade do Renato dever-se ao não esperar, tenho que discordar. Como o disse, e os vídeos mostram-no. Esperar pode por vezes ser estar parado, outras pode ser travar, outras pode ser conduzir devagar. Ele espera, mas o resultado dessa espera é que não é necessariamente sempre positivo. Ele não é criativo porque foi habituado a ter sucesso com um determinado estilo de jogo. Não é por não esperar. É por ter tido sucesso massivo usando outras características (as suas capacidades condicionas); E pelo estilo de jogo a que ele se associou enquanto miúdo e no qual se inspirava para tentar copiar em campo (ídolos Coentrão e Enzo)."

Isto não será um defeito ainda maior? Ele mesmo temporizando decide mal? Ou seja, com espaço, com tempo, toma a decisão errada. Eu diria que isto é muito mais preocupante do que decidir mal quando não tem tempo para esperar e temporizar, não?

Quanto à questão da utilidade do jogador para jogos em bloco baixo, transições rápidas, não são atributos também que se elogiam, por exemplo, num Ramires? O Renato tem mais força mas sempre os achei jogadores com um perfil parecido. E não gosto nada do Ramires...

Cão sem mancha disse...

Aplaudo o lado que tem os melhores argumentos. Neste caso, é o Nuno. Repara que não é por ser o Nuno, mas simplesmente porque os argumentos dele vencem os teus. O meu contentamento resulta de ver esta discussão, que o Nuno procurou, não vocês (que podiam ter comentado o post do Nuno mas preferiram não o fazer a não ser no LE e aqui).

Tentei fazer um resumo dos teus argumentos e realmente a unica coisa boa do Renato é ter 18 anos. E isto nao é absolutamente mau. Podia ser por ter tranças esvoaçantes. O Renato foi uma nulidade na seleção.

Quanto ao Maldini, o Nuno não reconheceu nada a não ser que o 'estilo' do Renato só é bom acidentalmente, isto é: sem intenção dele, caso o jogo peça esse estilo. Por isso é que o Renato parece jogar bem quando entra aos 70 minutos e está 70 minutos mais fresco que os outros. O problema é que o Renato só sabe fazer uma coisa, aliás, duas: correr com bola e perder a bola.

Blessing disse...

Sim. Acho que fazes muito bem em limitares-te aplaudir. Não se pode pedir outra coisa a quem não sabe fazer mais.

Blessing disse...

"Isto não será um defeito ainda maior? Ele mesmo temporizando decide mal? Ou seja, com espaço, com tempo, toma a decisão errada. Eu diria que isto é muito mais preocupante do que decidir mal quando não tem tempo para esperar e temporizar, não?"

É um defeito maior se considerares que o Renato decide mal a maior parte do tempo. Coisa que, nos vídeos, ficou mais do que demonstrado que não. Ele decide muito mais vezes bem do que mal. Porque se não, não estávamos aqui a discutir o Renato em organização ofensiva para um grande, nas sim o Renato para bola de ouro. Óbvio que ele falha decisões, como todos. Mas não falha num número absurdo, ou na maioria, nem sequer em metade do tempo, para que se possa considerar um grande defeito. E é isso que a maior parte de quem defende que o Renato decide mal não vê. O Oliver também decide mal por vezes, e até o Iniesta. É normal. O que não é normal é achar-se que o Renato, por não ser criativo, decide sempre mal. Longe disso.

O Nuno tocou aí num aspecto muito importante, que é o facto de ele não ser particularmente forte dentro do bloco. Okay. Quantos médios nas 4 melhores equipas de cada campeonato (Português, Inglês, Alemão, Espanhol, Italiano) são melhores que o Renato ali? Fica a questão. Acho que, com isto, vão todos acabar por perceber que afinal até pode haver espaço para ele.

DC disse...

Eh pah mas não estamos a sequer comparar a % de acerto na decisão do Oliver e do Iniesta com a do Renato, ou estamos? O Renato tem decisões facílimas que erra. Ainda no outro dia o Honoris mostrou um gif dele num 3x3 contra o Boavista, salvo erro, a decidir pior que um iniciado.

Médios melhores dentro do bloco? Mesmo num ano muito mau em Portugal Herrera, João Mário e Josué, assim de repente. E eu detesto Herrera, como sabes.

Blessing disse...

Pois não. Mas vocês parece que estão. Quantos lances ridículos queres ver de jogadores top em 3x3? Piores que infantis? E depois não esquecer que aqueles há muito que são seniores e que o Renato vai para o primeiro ano? Para mim o Porto só tem/tinha o Josué (médios), o Benfica só tem/tinha o Pizzi, o Sporting só tem/tinha o João Mário. É muito isto. Um em cada. E vamos ao maiores, e para mim continua a ser mais ou menos o mesmo, tirando uma ou outra excepção. Isto leva-me a dizer que, se calhar, tendo em conta o número de médios de cada equipa grande, ele até tem espaço. E não sendo o melhor, se calhar...

João Rosado disse...

http://videos.sapo.pt/c2kbPthKrq37uvNpG4JC

Pergunto se ao 45´´, se o Óliver em vez de ter dominado a bola na direcção da linha de fundo se desse de primeira enquanto ainda havia espaço entre o gr e o defesa do Benfica o que teria acontecido...? Isto de ver lances avulsos um a um...! Fui buscar esse resumo e nem 1min foi preciso para encontrar um lance em que 1 decisão diferente de um homem que se fala ai para cima e q é bom nesse campo poderia dar logo um golo!

rinusmichels disse...

Apenas uma palavra para, de certa forma, secundar aquilo que disse o Maldini - bem como alguns outros comentadores: uma discussão demasiado rica, esta do Blessing e do Nuno, para que seja abordada numa lógica de lados e de trincheiras. Comportem-se pois, meus senhores (e canídeos...). Aproveito também para saudar um outro aspeto revelado pelo post do Blessing que desencadeou o debate; aliás, um aspeto que transparece de forma evidente não só deste post como de outros recentemente publicados aqui e no Lateral Esquerdo, assinados não só pelo Blessing mas também pelo Maldini e restantes colaboradores. É difícil nomeá-lo numa só palavra; é algo que tem que ver com curiosidade, inquietude de espírito, um sentido de auto-crítica tão aguçado como o de hetero-crítica, a disponibilidade e a abertura para rever aquilo que se tem como adquirido. Vou chamar-lhe "abertura".

É manifesto que as ideias futebolísticas que animam o Blessing, o Maldini e os restantes colegas são sólidas e fundamentadas como um tronco. Mas isso não os impede, antes pelo contrário, de as questionarem em permanência. Contrariamente ao que antecipavam, foi o SLB e não o SCP que triunfou na última época; porque é que foi assim? O ano foi marcado pela vitória duma série de equipas cujas ideias de jogo não são aquelas que eles preconizam; porque é que isto sucedeu? Há um qualquer jogador que, tendo as características que eles valorizam, não tem tido a carreira que auguravam; o que está a falhar? O Renato, não sendo um médio que possui a priori o perfil que mais lhes agrada, impôs-se - pelo menos, para já - com relativa facilidade a alto nível, para mais numa idade precoce; o que é que está a correr melhor do que parecia possível à primeira vista?

Pode-se concordar ou não com as suas ideias de base, pode-se concordar ou não com as conclusões a que chegam quando tentam enfrentar os "desvios" ou "fracassos" que verificam/reconhecem face às suas ideias, o que não se pode negar é a tal "abertura" que revelam na matéria, e a riqueza que esta "abertura" confere ao seu trabalho. Não só enfrentam serenamente estas questões como quase nunca se refugiam em explicações meramente fortuitas ou casuais - aconteceu porque "correu bem de fio a pavio" ou "foi apenas e só uma barrigada de sorte". Claro que reconhecem e aludem à influência que o fortuito e a sorte têm no jogo; mas quase nunca é essa a explicação única, a explicação suficiente. E isto é algo de raro, devo notar; raro no nosso futebol, raro até na blogosfera que se debruça acerca do nosso futebol (não querendo ser crítico ou lançar uma discussão que pouco interessa, o Nuno, p.ex., tem a este respeito uma postura completamente diferente, muito mais "fechada"), raro aliás no país extra-futebol (houvesse este tipo de "abertura" no país político e no país económico - e aqui falo, não gostando de o admitir, com algum conhecimento de causa - e provavelmente os últimos anos da nação teriam sido bem diferentes). Também por isto, e independentemente da discussão em causa ser acerca do Renato ou outra coisa qualquer, me parecem tão deslocados os comentários que encarnam a tal lógica de lados ou trincheiras; assim como aqueles que acusam os autores de estarem em contradição ou traírem as suas ideias na tentativa de explicar a, b ou c. Na minha opinião, ir por aí é não perceber sequer, muito menos valorizar, o que está realmente em causa.

Nuno disse...

“Quando eu digo "não perde uma oportunidade de" significa que quando a situação se dá, quando há possibilidade de, independentemente de receber de frente ou de costas, ele aproveita. E isso é jogar de acordo com as circunstâncias, e por isso acertar na tomada de decisão.”

Percebi mal. Nesse caso, estás a dizer que aproveita todas as circunstâncias favoráveis para acelerar o jogo. No fundo, estás a dizer que ele não só não decide mal como decide melhor que os outros, que não aproveitavam essas circunstâncias para o fazer. Acho isto exagerado e, como disse, não me parece que o mais banal dos jogadores, tendo espaço e proporcionando-se as circunstâncias certas, não enquadre e não faça a equipa ganhar metros. De qualquer modo, queria perguntar: e quando as circunstâncias não são favoráveis? Será que aí se refreia e não acelera o jogo? O meu ponto é que o Renato só não o faz quando não se sente confortável para enquadrar. Assim que enquadra, olha para a frente e decide em conformidade com esse ímpeto inicial de dar verticalidade ao jogo. E não é sempre isso que o jogo pede.

“Há, e não são poucos. E não só há desses, como ainda há de outro grupo que disfarça esse factor um bocadinho melhor, é o 50/50.”

Pois, não consigo sequer perceber bem isto. Quando não há pressão, a tendência natural é o jogador virar-se para a baliza adversária e procurar aproximar a equipa dessa baliza. Há quem o faça de forma mais expedita, como é o caso do Renato, mas não estou a ver que haja quem renuncie a isso. Claro está que há muitos jogadores que preferem jogar sistematicamente em segurança, e não arrisquem como o Renato arrisca. Mas enquadram-se, olham para a frente, e, com muito espaço, metem lá a bola.

“O Renato distingue-se por jogar "sempre" positivo. Ou seja, pode jogar na direcção da baliza dos outros e assim o faz. Queira isso dizer que enquadre, que conduza, que passe, ou que remate. E isso, é um grande valor por si só pela dúvida que cria no adversário.”

Para mim, isso é excessivamente padronizado. Não estou a ver como é que pensar sempre da mesma maneira pode criar mais dúvida no adversário do que pensar às vezes de uma maneira e às vezes de outra. O que eu critico no Renato é exactamente o excesso de verticalidade. E isso advém, parece-me a mim, precisamente do que tu exaltas no futebol dele.

“Não concordo com isso. Acho que ele aguarda, como se percebe muitas vezes nos vídeos. Vê-se perfeitamente ele a travar, a esperar, e a ver.”

Fora do bloco, concordo que o faça. Contemporiza, conduz devagar, trava, atrai. Mas dentro do bloco não o faz. É excessivamente rápido a decidir, não aguarda de modo a que se criem possibilidades de decisão melhores do que as iniciais, e não sabe contemporizar. Pressentindo que tem muita gente por perto, e que tem de decidir rápido, toma invariavelmente uma decisão com base na primeira observação que faz. Isso é, para mim, a definição de falta de criatividade. Não é fora do bloco, com espaço, tempo e os adversários bem sinalizados no campo de visão que se pode averiguar a criatividade de um jogador.

Nuno disse...

“Por exemplo, Muller. Percebe o jogo e não é precipitado, mas está muito, muitíssimo, longe de ser um criativo (ainda que se esteja a falar de jogadores de posições diferentes).”

Pois, mas a posição faz diferença. Eu acho que o Muller não tem criatividade, embora seja inteligentíssimo, porque não tem qualidade técnica para que se sinta à vontade para perder tempo à procura da melhor decisão. Como sabe isso, decide em conformidade, procurando ler rapidamente a jogada e simplificando o mais possível. As suas decisões são simples, e também não perde muito tempo a executar, acelerando invariavelmente o jogo. E é também por isso que não me passaria pela cabeça que pudesse ser médio.

Sobre a discussão dos lances concretos, a nossa leitura é realmente distinta, na maioria dos casos. E acho que basta olhar para o lance 4, e para o que os dois pensamos sobre a decisão do Renato, para justificar tudo aquilo que distingue a nossa apreciação das qualidades do Renato. Eu acho que aquilo é mal jogado. Assim que recebe a bola e enquadra, tem várias opções. A melhor, a meu ver, era conduzir até fixar um defesa. Tinha vários colegas por perto e, no momento em que o primeiro defesa lhe saísse ao encalço, poderia facilmente jogar curto. É verdade que o Jonas lhe faz sinal para meter no flanco contrário, mas se o queria fazer, acho que a melhor opção era lateralizar, jogando rasteiro no lateral e permitindo assim à equipa progredir por um lado aberto, e de frente para a defesa contrária. Jogar longo no Mitroglou, além de mais arriscado, obriga o grego a parar, a proteger a bola e a voltar atrás, o que dá tempo à defesa do Bayern para se organizer e ao meio-campo para fazer a basculação. O ganho territorial, de curto prazo, que o Benfica obtém, com a decisão do Renato, não me parece de modo algum compensador. Para o Renato, todas as decisões são em função dos ganhos de curto prazo, como o ganho territorial que advém desse passe longo para o Mitroglou. E é um pouco esse o meu problema com o seu futebol.

Maldini diz: “Espero que a carneirada tente aprender cenas e n fique a bater palmas a um lado ou ao outro pq é o Nuno, pq é o Blessing ou pq é sobre o Renato! As minhas palmas vão para os 3, naturalmente, mesmo que aqui a minha visão esteja mt mais próxima do que o Blessing defende!”

As pessoas têm muita dificuldade em perceber que, numa discussão, o que interessa é discutir. As pessoas têm opiniões diferentes e, se souberem argumentar em função delas e tiverem estômago para aguentar argumentos contrários, não têm que ficar melindradas por os outros não concordarem com eles. O que lhes compete é justificar o melhor possível as suas convicções e argumentar contra as convicções que se lhe opõem.

LyricalGhost disse...

João Rosado, "isto de ver lances avulsos um a um" é, de facto, giro, mas melhor ainda é fazê-lo... bem, com os olhos abertos. Isso provavelmente seria suficiente para que percebesse que, no momento a que se refere, o Óliver está a uns bons 30 metros da bola, e que quem a domina em direção do corredor lateral é o Herrera. Mas boa tentativa!

Miguel Pinto disse...

1-Qualidade técnica: não se pode dizer que se assemelha a um Modric ou a um João Mário mas também não é um Gravesen.
2-Inteligência: penso que seja a característica que poderá obstar ao progresso ou afirmação do seu potencial porque demonstra nas suas acções alguma falta de versatilidade, isto é, toma invariavelmente a opção mais lógica ou mais simples sem pensar nas dinâmicas subsequentes à decisão tomada. Fora da sua zona de conforto fica também algo desconfortável, principalmente no processo defensivo.
3-Criatividade: como já foi dito aqui também é uma qualidade que não existe em doses apreciáveis.
4-Atitude competitiva: por aquilo que vejo nos jogos imagino o que será nos treinos! Penso que foi precisamente a sua postura nos treinos que fez pender o prato da balança a seu favor. Serão muito poucos aqueles que conseguem demonstrar nos jogos aquilo que fazem nos treinos ao nível da exigência que uma equipa como o SLB está sujeita todas as semanas. Recordo, a título de comparação, Marco Caneira que detinha(talvez ainda tenha) o maior número de internacionalizações pela selecção portuguesa nos escalões de formação e cujo comportamento nos treinos, no início do seu percurso nos seniores, era absolutamente irrepreensível assim como nos jogos. E jogadores dessa estirpe, apesar de não serem dotados daquilo que normalmente gosto de ver num jogo de futebol, são extremamente importantes no seio de uma equipa, obrigam os colegas a dar o máximo, não deixam 'morrer' o treino ou o exercício e motivam os colegas a tentar superar-se.
5-Velocidade: Aqui não sei se está relacionada com a execução ou com a capacidade física do jogador mas penso que em ambas ela poderá ser melhorada, principalmente a velocidade de execução. O Renato Sanches é muito bom na transição ofensiva, no seu início, mas depois falta-lhe por vezes dar a melhor sequência ao desequilíbrio causado ao adversário. Se, contra equipas do nosso campeonato há uma aparente facilidade em dar um bom seguimento à jogada, o mesmo já não se dirá quando as equipas apresentam soluções defensivas condizentes com a qualidade existente.

Com 18 anos, apesar de tudo, mostra a outros mais velhos que a vontade vence muitos obstáculos.

Uma palavra para os autores do blog e alguns dos intervenientes desta discussão: fantástico!
Isto por vezes atinge o nível da champion league!

Blessing disse...

Nuno,

"De qualquer modo, queria perguntar: e quando as circunstâncias não são favoráveis? Será que aí se refreia e não acelera o jogo? O meu ponto é que o Renato só não o faz quando não se sente confortável para enquadrar. Assim que enquadra, olha para a frente e decide em conformidade com esse ímpeto inicial de dar verticalidade ao jogo. E não é sempre isso que o jogo pede."

Nem sempre. Mas não acho que exista aí um padrão para que se possa dizer, por exemplo, que ele sempre que não deve acelera. Acho que não há, nesse aspecto do jogo dele, uma norma. É uma dificuldade, de facto. E concordo contigo que é um problema o facto de ele não ler bem a maior parte das situações de jogo. Mas é um problema que, para mim, consegue-se afinar. Quer pelo posicionamento dele em campo que pode ou não pedir coisas mais ou menos complexas dele, e coisas que o vão beneficiar mais ou menos, quer pela "robotização" dos movimentos, dos passes, das situações de jogo que o treinador entenda do ponto de vista da organização ofensiva. Como disse, parece-me que Renato é do tipo de Pogba. Com menos qualidade técnica, e por isso com mais erro. Mas que evidentemente melhorará quanto menor for a sua liberdade para escolher.

"Claro está que há muitos jogadores que preferem jogar sistematicamente em segurança, e não arrisquem como o Renato arrisca. Mas enquadram-se, olham para a frente, e, com muito espaço, metem lá a bola."

A minha questão aqui é de um erro que os jogadores cometem de forma sistemática, e que é depois difícil de os habituar a fazer, que o observar do espaço à sua volta antes de receber. E por isso, Renato ganha relativamente aos outros segundos preciosos. Neste aspecto, como os melhores. Outros por não observarem antes, ou por só o fazerem depois da bola lhes ter sido endereçada, perdem a oportunidade de enquadrar porque entretanto a pressão já chegou. Essa dificuldade deriva fundamentalmente do pouco conforto de muitos por jogarem de costas, e servirem como apoio frontal. Falta hábito. Também há o problema dos jogadores que jogam sistematicamente em segurança, mas o mais grave parece-me ser o que disse acima.

"Para mim, isso é excessivamente padronizado. Não estou a ver como é que pensar sempre da mesma maneira pode criar mais dúvida no adversário do que pensar às vezes de uma maneira e às vezes de outra. O que eu critico no Renato é exactamente o excesso de verticalidade. E isso advém, parece-me a mim, precisamente do que tu exaltas no futebol dele."

Aqui acho que estamos mais ou menos em linha. É exactamente pela padronização que acho que não é particularmente criativo. E é por isso que não é o meu médio de eleição. Mas não deixa de ser por isso que as suas características não possam ser exploradas, melhoradas, e potenciadas no futebol de um grande. Isto porque, como o Van Basten escreveu em tempos, não temos Iniestas e Silvas em número suficiente para dizer que Renato não tem lugar num grande.

"Mas dentro do bloco não o faz. É excessivamente rápido a decidir, não aguarda de modo a que se criem possibilidades de decisão melhores do que as iniciais, e não sabe contemporizar. Pressentindo que tem muita gente por perto, e que tem de decidir rápido, toma invariavelmente uma decisão com base na primeira observação que faz. Isso é, para mim, a definição de falta de criatividade."

De acordo.

Blessing disse...

"Sobre a discussão dos lances concretos, a nossa leitura é realmente distinta, na maioria dos casos. E acho que basta olhar para o lance 4, e para o que os dois pensamos sobre a decisão do Renato, para justificar tudo aquilo que distingue a nossa apreciação das qualidades do Renato. Eu acho que aquilo é mal jogado. Assim que recebe a bola e enquadra, tem várias opções. A melhor, a meu ver, era conduzir até fixar um defesa. Tinha vários colegas por perto e, no momento em que o primeiro defesa lhe saísse ao encalço, poderia facilmente jogar curto.

É verdade que o Jonas lhe faz sinal para meter no flanco contrário, mas se o queria fazer, acho que a melhor opção era lateralizar, jogando rasteiro no lateral e permitindo assim à equipa progredir por um lado aberto, e de frente para a defesa contrária. Jogar longo no Mitroglou, além de mais arriscado, obriga o grego a parar, a proteger a bola e a voltar atrás, o que dá tempo à defesa do Bayern para se organizer e ao meio-campo para fazer a basculação. O ganho territorial, de curto prazo, que o Benfica obtém, com a decisão do Renato, não me parece de modo algum compensador. Para o Renato, todas as decisões são em função dos ganhos de curto prazo, como o ganho territorial que advém desse passe longo para o Mitroglou. E é um pouco esse o meu problema com o seu futebol."

Concordo que jogar a bola para o lateral era a melhor opção para a equipa subir de forma sustentada, e com menos risco. Não concordo que o ganho em usar Mitro, para fazer mais ou menos a mesma coisa seja uma má decisão. Não era a melhor, mas também era boa. Porque a questão não é o permitir ou não a reorganização do Bayern, sendo que a intenção não é desorganizar ou aproveitar o desequilíbrio. É ganhar metros, ou seja, começar a construir numa zona bem mais próxima da baliza do Bayern ainda que com pressão a chegar. Era um passe mais arriscado do que colocar em Eliseu, mas cumpre ainda assim com um objectivo circunstancial que me parece bom. É para mim melhor construir mais perto da baliza adversária com pressão do que perto da minha baliza com pressão. Por motivos que certamente entendes.

Mas sim, fica bem vincada a diferença da nossa leitura dos lances, e do que nos separa dentro das ideias semelhantes que nos unem. É sempre o pormenor.

Miguel Pinto, são todas as velocidades resumidas num único item. Como dizes e bem o Renato consegue criar o primeiro desequilíbrio depois falta-lhe perceber como aproveitar ou não isso melhor. Quando vai em velocidade, parece-me ser aí a maior dificuldade dele.

ricnog disse...

Penso que existe, como é lógico, razão das duas partes. Mas a verdade é que o senso comum, fez com que o Renato fosse o melhor jogador do mundo e o Nuno prova que não é. E o blessing também demonstra que não é o pior. Certo é que o rapaz no seu primeiro ano de senior foi campeao nacional e europeu. Se quiser e conseguir, pode evoluir muito, pois já tem bases muito grandes para o sucesso, aliás, aos 18 anos já está no meio deles e nada melhor que treinar com os melhores para se tornar ainda melhor.

Acho que sabemos todos que Renato ainda comete muitos erros. Mas também sabemos todos que Renato tem coisas boas. E pode ser um acaso, mas o que é certo é que o Benfica jogava de forma triste e com ele, começou a galvanizar-se. Na selecção também aconteceu isso. Jogava-se de forma triste e houve ali um clique. tanto no benfica como na seleção logo nos primeiros jogos, marcou um golo importante e isso eleva a moral de um jogador e equipa. E podemos estar aqui todos, todos os dias, a batalhar coisas muito importantes no futebol, mas o que seria se não houver motivação? E isso o Renato parece que encheu a seleção e o benfica.....