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sábado, junho 18, 2016

Somos muito fortes do ponto de vista táctico

Palavras que vêm sendo repetidas ao longo dos últimos tempos como forma de caracterizar o treinador e o jogador português. Que são de uma espécie que se adapta a qualquer tipo de dificuldade, a qualquer tipo de sistema, a qualquer tipo de modelo, seja qual for a exigência, o que é português e vem do futebol tem resposta de competência. E temos de facto competência, alguma, mas tão pouca que não servirá nunca para caracterizar de forma geral o futebol, o jogador, e o treinador em Portugal. O senhor da imagem é um exemplo.

Fortaleza táctica. O táctico é: Consoante a situação de jogo conseguir ajustar-se ofensiva e defensivamente, colectiva e individualmente. É saber que se o meu colega tem espaço a linha de passe não precisa de ser tão curta, que se o adversário o pressiona e eu estou longe, devo aproximar. É saber que, se o colega conduz sem oposição eu vou na profundidade dando possibilidades de passe que não existiam até então. Que se tenho espaço devo conduzir na direcção da baliza, abrindo aos colegas possibilidade de me garantir soluções de passe mais diversas. É também dar as linhas de passe onde possa receber sem oposição, para onde os meus colegas possam passar a bola. É o adversário fechar essa linha de passe e eu mover-me para onde possa receber, e para onde o colega tenha confiança para passar. É eu saber que o adversário está todo basculado de um lado, e eu aproveitar as zonas que ficaram livres. Repare-se os lançamentos de linha de lateral! É eu perceber que o adversário está a espera de uma bola na profundidade e que por isso não vou ter vantagem nenhuma em colocar lá a bola. É eu não pedir sempre no pé, nem pedir sempre no espaço. É perceber que os movimentos que eu faço nem sempre são para receber, e mesmo assim são fundamentais para criar desorganização ou dúvida no adversário, facilitando a tarefa dos meus colegas. É eu perceber como e onde pedir. É saber se a bola deve ser metida no pé ou no espaço. Táctico é eu perceber a posição da bola, saber onde estou em relação à minha baliza, onde estão os meus colegas, e posicionar-me de forma eficiente para evitar ao máximo que o adversário chegue perto com perigo. É eu saber que se um colega foi batido, devo ajustar-me consoante a situação numérica. É saber que se eu for batido devo recuperar rapidamente para uma determinada posição consoante a situação que ficou criada. Ser forte do ponto de vista táctico é perceber quais são os melhores onze para colocar em campo tendo em conta o momento que cada um atravessa. E também é, conseguir ser competente na distribuição dos jogadores, bem como em que tipo de acções que mais devem procurar, tendo em conta a maior exigência e complexidade do jogo do ponto de vista ofensivo.

Diz-se que somos/fomos muito competentes do ponto de vista táctico quando defrontamos selecções com maior potencial individual e conseguimos competir. Mas é esse mérito tão diferente do que conseguiram a Islândia e a Áustria, sabendo-se da abismal diferença de potencial individual que existe entre essas equipas e a nossa? E, sendo essa nossa competência tão gabada, como é que selecções tão medianas também o conseguem fazer? É tão nossa essa grande qualidade? E por que é que quando nos é exigido mais, jogos onde realmente se mostre a nossa mais valia táctica, somos tão pouco competentes? Vivemos na sombra de alguns treinadores realmente competentes e de altíssimo nível, de alguns jogadores que vão aparecendo sem um processo uniforme, fruto da competitividade que se consegue ainda assim ter, e achamos que são esses pequenos oásis no deserto que nos representam. Depois, quando é exigida a essa representatividade que se junte, que transforme o processo em comportamentos idênticos dentro de campo ninguém se entende. Uns jogam um jogo, outros jogo outro. Não há uma ideia comum ao qual todos os que se juntam consigam responder de forma idêntica. É triste aquilo em que o futebol português transformou a herança deixada por Carlos Queiroz.

Somos muito fortes no cada um por si, e no salve-se quem puder. A fazer coisas em conjunto, a associar-se para resolver problemas, zero. Infelizmente o futebol é um desporto desse tipo, colectivo. Infelizmente as competências para o jogar exigem utilizar um determinado tipo de capacidade que não está enraizada em nós. Cristiano Ronaldo é hoje, como nunca, o retrato de todo o futebol em Portugal.

10 comentários:

Gonçalo Matos disse...

Oasis num deserto é o resumo perfeito do que é o nosso país em muitos aspectos...
Tens toda a razão em tudo Blessing... Eu sinto me envergonhado

nuno disse...

Se calhar fui eu que não cheguei lá.. daí a pergunta.

A referência ao Ricardo Carvalho é um elogio ou uma ironia?

Não percebi mesmo.

Blessing disse...

Nuno, é um elogio!

nuno disse...

ah, bom. então concordamos. é que eu fico sempre com a mesma ideia, que o Ricardo Carvalho continua a ser do melhor que temos. parece-me que é dos poucos que entende realmente como se deve comportar em campo e, apesar do menor fulgor físico, continua com uma qualidade espantosa, precisamente porque entende o jogo.

DM disse...

Eu devo ser dos únicos que se ri à gargalhada quando se fala na "qualidade do treinador português". É que há em Portugal tanta mediocridade, a começar pelo selecionador...

The Beast OnFire disse...

Não é para isso que serve o ataque posicional? Para ter em conta a posição da bola e a posição dos adversários colocar-me o melhor possível? Obviamente tende estímulos e timings de quando acelerar,quando meter o passe ou temporizar,etc,mas foi para isso que o Guardiola criou aquele diagrama do "Juego de Posicion".
Falando em timings, como se deve ensinar a um jovem jogador como pedir no pé ou no espaço? Depende do jogo ou o treino,os exercicíos criados pelo treinador ajudam-no a compreender esses estímulos?

Dipeca disse...

Eu acho que há competência em Portugal. Talvez mais nas escolas do que na ribalta, onde a competência deixa de ser factor prioritário. A espanha, país com campeonato mais rico tacticamente, na minha opinião, tem imensos jovens a vir cá estudar ou pesquisarem artigos de Portugal. Os princípios de jogo de Queirós, as palestras de Frade e aulas de Garganta são mencionadas em muitos artigos. Eu penso que o campeonato espanhol evoluiu devido à crise e a Guardiola que obrigou equipas com poucos meios a elevar o nível para tentarem competir.
Excelente artigo Blessing

Andre Lopes disse...

Só assim dois exemplos faceis:

https://giphy.com/gifs/3o6gEg7HyGt7Ko128g

https://giphy.com/gifs/3o6gDZ9IpbzUCIaEWA

Helder Silva disse...

Será que nem à Hungria ganhamos...

Blessing disse...

Dipeca, eu acho que temos muita qualidade na teoria...