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terça-feira, abril 26, 2016

Tens espaço, progride.


O Barcelona de Guardiola é conhecido por ter quebrado com muitos conceitos e preconceitos sobre o jogo de futebol. Passo a citar o Nuno, num maravilhoso post do EntreDez: Nunca tinha visto uma equipa a destruir tantos preconceitos acerca do jogo como esta (o de que não se pode sair a jogar quando se é pressionado; o de que não se deve arriscar atrás; o de que se deve cruzar a bola para a área quando se chega à linha de fundo; o de que se deve aproveitar sempre o espaço em transição; o de que se deve ter, pelo menos, alguns jogadores altos e fortes em campo; o de que não se deve ter mais do que um médio criativo em campo ao mesmo tempo; o de que se deve adaptar pelo menos parte do modo de jogar ao adversário que se enfrenta; o de que se deve jogar pelas alas quando o meio está fechado; o de que uma equipa se deve compor de jogadores para defender e de jogadores para atacar; o de que cada jogador deve ter uma função específica em campo; o de que o ponta-de-lança deve servir essencialmente para marcar golos; o de que coisas inconsequentes, como tabelas sem progressão ou passes para jogadores rodeados de adversários, devem ser evitadas; o de que se deve rematar à baliza sempre que se tem possibilidade; o de que se deve variar entre o passe curto e o passe longo; o de que o futebol moderno tornou utópico jogar apenas com 3 defesas; o de que o portador da bola deve respeitar sempre a desmarcação do colega, passando-lhe a bola; o de que a vaidade é um atributo a eliminar numa equipa de futebol; o de que a força ofensiva de uma equipa depende da soma da competência individual dos seus atacantes; o de que, com bola, a equipa deve fazer campo grande, espalhando os seus jogadores o melhor possível pelo terreno de jogo; o de que se deve jogar sempre com a máxima intensidade possível; o de que os extremos devem estar o mais abertos possíveis; etc.), nem nunca tinha visto uma equipa forçar a que os teóricos do jogo reformulassem tanto as suas teorias acerca do mesmo. 

De facto, os jogadores de Guardiola pela forma como o treinador os obrigou a relacionarem-se revolucionaram o jogo. E de muitas revoluções que operaram, de muitas formas como foram sendo categorizados, há uma que acho fundamental e que marca a grande diferença para todas as outras equipas do mundo: A pausa. Não no sentido que foi falado antes, de temporizar, mas no sentido da resistência que tinham ao primeiro princípio específico do ataque: a progressão. São milhares os lances em que os jogadores não se precipitavam em atacar o espaço assim que o viam. São milhares as situações que vão contra o princípio de ataque mais utilizado por todas as equipas, e por todos os treinadores do mundo. Não porque não é importante conquistar espaços e os aproveitar, mas porque há mais para conquistar.


Alguém reparou? Um dos exemplos das coisas que se podem conquistar ao não atacar o espaço, foi o que Xavi conseguiu nesse lance. A autonomia, o tempo. No momento em que recebe a bola e enquadra Xavi tem espaço para progredir, e tem colegas colocados para receber numa zona mais adiantada, mas opta por não o fazer. Podia ter acelerado o jogo, e ter-se lançado sobre esse espaço, comendo alguns metros em condução, colocando a bola uns metros mais a frente. E não o fez porque percebeu que o fazendo teria um adversário a precipitar a sua decisão. Seria pressionado nas costas por Benzema, e possivelmente pela frente por outro jogador, e com isso não teria tanto tempo para decidir que rumo dar ao lance. A decisão seria dele, mas não totalmente porque estava a ser pressionado pela ampulheta do adversário. E Xavi recusou esse contexto e procurou outro que lhe fosse mais favorável. Procurou por um contexto onde ele, ou um colega, decidisse estando livre, onde a autonomia fosse total (ou quase), e onde o tempo não fosse um constrangimento à tomada de decisão. Xavi quis mais do que conquistar espaços, quis ser autónomo e não depender do adversário, quis que os seus colegas o fossem, e para isso sabia que precisava de conquistar tempo: encontrar o homem livre. Para além disto há outras coisas que se conquistam não atacando o espaço, como a organização estrutural, a proximidade entre os sectores, a superioridade numérica, a melhoria das condições para executar, etc. E é por isso que, para mim, o Bayern da primeira época de Guardiola é o mais forte dos três anos que passou em Munique. Porque era uma equipa mais capaz de ceder à tentação do espaço, e por isso mais capaz de manter a bola em seu poder escondendo-a do adversário. Era, no fundo, mais próxima do Barcelona de Xavi do que do Bayern de Heynckes. O Barcelona foi a melhor equipa da história muito por isto. Porque não cedia a tentação dos espaços, não se desgastava em todas as situações que pudessem para muitos ter potencial ofensivo. Desgastava-se com algumas, com as que queria, e só. E por isso esteve sempre fresco e preparado para pressionar sem bola, por serem eles a ditar o contexto em que perdiam.

10 comentários:

Paolo Maldini disse...

se ele progride ai seria bem parvo. ia meter-se na toca do lobo. só se vê branco à frente

Dennis Bergkamp disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Dennis Bergkamp disse...

Poças. Que maravilha de post.

Diogo Vasconcelos disse...

Esta jogada permite também perceber outras duas coisas:
1- Porque é que o di maria será apenas um rodapé da historia (no inicio da jogada, com um posicionamento patético, deixa o benzema e o ozil a dançarem e ainda abre a cratera por onde o messi recebe a vontade (que por sua vez faz saltar o xabi a que se pode ainda somar a incapacidade do ronaldo de perceber o perigo e não ajudar a cortar o espaço do passe chave do lance messi>iniesta)
2- Porque é que o pepe vai acabar a vida a lamentar não ter ido para o atletismo.

Pedrooo317 disse...

Do melhor que já se escreveu aqui. Talvez o que mais gostei de ler. Simples.

Bernardo Ferrão disse...

Como se explica isso a um jogador? Que sugestao das a alguem para o fazer.

Dennis Bergkamp disse...

Bernardo,

Alguem so aprende isto com tempo e com experiencias. E quando se diz tempo, diz-se anos.

E, se educares 30 gajos da mesma maneira, com as mesmas experiencias.. as respostas deles, sendo parecidas, vao ser diferentes.

Logo, nao consegues reproduzir este tipo de comportamentos porque sao unicos.

Mesmo o Xavi, em 10 situacoes daquelas, provavelmente so decidiu daquela vez fazer aquilo. Das outras xs ia ser diferente.

E se calhar, esta so aconteceu porque as outras todas foram diferentes, o que permitiu aos defesas pensar que ia ser mais uma vez da mesma maneira.

Blessing disse...

Não explicas loool

Marco Correia disse...

Perguntar como explicas isto a alguém ou como explicas a alguém como ser o Xavi é a mesma coisa.

A malta acaba por não perceber, por alguma razão, que as competências de decisão sobre determinado contexto são limitadas. Tão ou mais limitadas que o potencial técnico, mas aí já não se coloca em questão. Ninguém duvida que é impossível ensinar as competências técnicas do Messi ao Marega, mas depois acreditam que é possível ensinar alguém a decidir como o Xavi.

O que é possível fazer é limitar ou predefinir determinados comportamentos do jogador face ao comportamento da equipa. Agora decidir sobre o contexto do jogo, entendê-lo dentro de campo em milésimos de segundo os posicionamentos de quem o rodeia e o contexto mais favorável para progredir, manter a posse, passar a bola, tentar o drible? Isso é outra história completamente diferente.

É por isso que não se atribuiu ao Xavi, mesmo no pico da sua carreira, o nível de um dos melhores do mundo como mereceu, porque se acreditava que é possível aprender "aquilo tudo".

Blessing disse...

Excelente Marco!