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terça-feira, fevereiro 23, 2016

Ibrahimovic e Luis Suarez - Aprendizagem e Sucesso

O divórcio entre Ibrahimovic e o futebol do Barcelona acontece pela personalidade e necessidade de mediatismo do extraordinário avançado sueco. Aquele que é para mim, há muitíssimos anos, o melhor do mundo na sua posição, aquele que eu sempre achei que cairia como uma luva em tudo o que Guardiola pensa sobre o jogo, acabou por ter uma relação muito duvidosa com o estilo de jogo que se praticava na Catalunha. Não pelo estilo de jogo em si, que assenta perfeitamente nas características individuais dele, mas pelas implicações que essa forma de jogar tem na notoriedade de uns sobre outros dentro da mesma equipa. Ibrahimovic é um tipo egocêntrico, que quer que a atenção esteja toda sobre ele. Gosta de protagonismo. Gosta de ser ele a marcar, a assistir. Vive da notoriedade. É por isso, dentro de um grupo, um jogador egoísta. Quer que sejam os outros a trabalhar para ele, inclusivamente o treinador, porque acha-se sempre a figura maior e dominante dentro do grupo. Não é, por isso, jogador de equipa. É um jogador para fazer uma equipa. E para ele a forma de poder ter mais sucesso no jogo é jogando como ele quer. Como sabe. Com liberdade total em todas as acções que realiza, com e sem bola. Liberdade total em todas as zonas do campo. No fundo, ele move-se como quer, a equipa ajusta como pode. E no Barcelona, onde podia catapultar o seu jogo para níveis mediáticos ridiculamente altos, com a conquista de troféus colectivos de relevância mundial, e com o aparecimento das suas qualidades nos momentos em que a equipa o permitisse, o futebol não é jogado dessa forma. É jogado como eu penso que o futebol deve ser, do jogador para a equipa. Não é que Ibra pense mais no sucesso dele que no sucesso colectivo. Não é essa a questão. Mais do que ninguém ele detesta perder. Mas, ganhando, quer ser ele sempre o protagonista de uma grande vitória. E não abdica disso por um segundo. A maior crítica que deixou sobre o Barcelona foi que todos os jogadores, aqueles que eram as estrelas mundiais do momento, acatavam tudo e baixavam a cabeça perante as ordens do treinador. Para ele é inconcebível jogadores tão bons quanto ele jogarem o jogo que o treinador quer, e não ser o treinador a fazer o jogo dos jogadores. O que Zlatan não percebeu é aquilo que milhares de jogadores não percebem: o benefício colectivo, e depois individual, que um estilo de jogo baseado na resolução colectiva das tarefas de jogo permite.

O casamento de Luis Suarez com o Barcelona é o exemplo oposto de tudo o que foi exposto acima. É um jogador cujas características individuais estavam muito distantes do que seria de exigir para o Barcelona. Tecnicamente, e na forma de decidir, a diferença de nível era notória. Era um jogador banal nos atributos que imperam nos executantes da Catalunha, apesar dos seus atributos físicos notáveis e da invejável técnica de remate. Ao olhar aqui de longe, sempre achei que muito dificilmente um jogador com aquele estilo pudesse vir a triunfar, e a inclusivamente ser muito admirado pelos colegas. Sempre foi um jogador habituado a acções simples, de pouca complexidade. E nisso sempre foi fortíssimo. A posicionar-se para o último passe, e para finalizar. E apesar da quantidade de golos que fez, nunca foi egoísta. Foi sempre muito comprometido com os objectivos colectivos, e foi sempre humilde o suficiente para retribuir como podia o que a equipa lhe dava. Era mais um para equipa. Nunca se achou a equipa. E por isso, com o propósito de conseguir grande sucesso ao nível colectivo, e de melhorar individualmente, mudou-se para Barcelona. Com a abertura para aprender, e com os colegas certos para lhe mostrar o caminho, está a melhorar muito mais do que aquilo que eu alguma vez achei possível. Nunca será um Iniesta a segurar e a meter redonda pressionado, a resolver situações de grande complexidade. Nunca será um Busquets a decidir em conformidade nos espaços reduzidos. Mas a sua evolução nesses aspectos é notória. A forma como se associa com os colegas e já os consegue perceber na maior parte do tempo, dando as linhas de passe adequadas. A forma como levanta a cabeça primeiro e decide depois. A forma como sem tocar na bola percebe que é fundamental para o desfecho dos lances. A forma como percebeu que os colegas querem que ele seja também notado, e entendem os seus limites. A forma como ele joga hoje com as suas limitações, permitem que o seu jogo tenha dado o salto qualitativo para que não seja nunca mais um elemento estranho na dinâmica que se quer na Catalunha. Do jogador para a equipa. Suarez percebeu que não tinha o mesmo nível dos colegas, e permitiu-se por isso aprender a ser mais como eles. Foi humilde o suficiente para pensar primeiro nos objectivos da equipa, e para se comprometer com treinador, e só depois pensar nele individualmente. E por isso, beneficia hoje da melhor escola do mundo para se aprender futebol. Suarez quis ser mais um na equipa e por isso triunfa. E um factor externo como a amizade que partilha com Messi e Neymar só vem reforçar ainda mais, dentro de campo, o estilo de jogo e o modelo de comportamento individual que se quer por lá. Notoriedade para todos, nos momentos em que é permitido ser notado.

Na aprendizagem, é fundamental que o jogador perceba que tem que melhorar. Onde melhorar, e que esteja aberto para que o treinador e os colegas lhe possam indiciar o como melhorar. Tem que ter uma certa dose de humildade para que se abram as portas para novos caminhos no seu jogo, que o vão beneficiar individualmente, e que o vão ajudar a cumprir ou superar às próprias expectativas. É fundamental que perceba, também, que é um processo que não tem um prazo estipulado, e por isso deve ser paciente. O meu cepticismo com mudanças abruptas no perfil de decisão dos jogadores tem muito a ver com isto. O contexto. E por contexto pode-se definir, mal e depressa, factores como a forma como o jogador lida com os estímulos, e os estímulos em si. E toda essa relação é demasiado complicada e muitas vezes são factores externos a determinar o caminho que o jogador segue, apesar de toda uma conjunção de factores favoráveis. Apesar de ainda não o achar um jogador fabuloso, de não me encher as medidas, Suarez veio-me mostrar que estava errado no que pensava sobre a sua ida para Barcelona. E tudo porque percebeu que uma mudança na sua forma de jogar, uma adopção de um estilo diferente do que tinha até então, o iria beneficiar e melhorar enquanto jogador. Percebeu que poderia ter sucesso de outra forma, mesmo tendo tido muito sucesso a jogar com outro estilo.

26 comentários:

Honoris disse...

Excelente excelente excelente!

Penso que na idade do Neymar para Barcelona também aconteceu um pouco isso que referes.

Pedro disse...

Muito bom texto, muito bom.

Acho que Suarez é mais do que aquilo que vocês o definiam mas o texto é certeiro.

Gonçalo Matos disse...

Muito bom texto blessing!
Quando tu falas no tipo de acções que ele tinha e tem hoje, acho que também não podemos dissociar dos modelos de jogo por onde ele passou e eram francamente pouco complexos. Nunca me parece que lhe tenham exigido muito em termos de complexidade de decisão assim como não me lembro de muitos colegas dele que lhe pudessem mostrar o caminho.
Outra questão que acho relevante é que ele, apesar de ser muito pior que Messi e neymar, tem um estato que fez com que jogasse e jogue sempre. Pensa no caso do Alexis com o Pep a competir com Pedrito vs se Pedrito não lá estivesse.. Se calhar, sem o Pedrito o Alexis teria sido fundamental e teria evoluído onde agora evolui o Suárez.
De qualquer forma, também estou surpreendido porque associava o Suárez a um jogador muito mais emocional que racional. Mas achava o mesmo do Neymar e ele ta a absorver o conhecimento dos outros todos.

João Ferreira disse...

Spot on. A humildade de reconhecer onde e quando erra e a vontade de o melhorar fizeram (quase) toda a diferença. O resto advêm de jogar ao lado dos melhores. A comparação com o Ibra é bem sacada.

DC disse...

Ele mudou muito mesmo. Mudou porque é humilde, sabe que tem génios ao lado. Mudou mais do que o Neymar até que ainda tem a febre do protagonismo muitas vezes.
O Barça é uma escola de futebol.

José Moreira disse...

Este foi, sem duvida alguma, o melhor texto sobre as razões para o insucesso de Ibra no Barça. Sem tirar nem por. Excelente, mais uma vez. Parabéns.

Logo depois de ler o post, leio isto na edição online do jornal "a bola":

"Não tens de ser amigo dos teus companheiros de trabalho, mas isso ajuda. A amizade entre mim, Messi e Neymar é genuína. Estou seguro de que a nossa relação fora de campo ajuda no nosso entendimento e comunicação no relvado. Estamos sempre a melhorar e podemos ainda alcançar um nível maior" - Suarez.

Luis Santos disse...

Não concordo nada com a comparação do texto.
Penso que se confunde em demasia a personalidade de uma pessoa e o jogador em si.
O Ibra gosta do protagonismo, da notoriedade, da atenção? parece me claro que sim.
Mas em jogo, o mais importante é a inteligência. E também me parece claro que o ibra é inteligente.
O ibra não vai deixar de fazer uma assistência porque é egoísta. aliás, a maior prova disso são os números dele... por onde passa, é com regularidade o melhor marcador e assistente do campeonato (não só da sua equipa) ou está entre os melhores.
Se o ibra deu-se mal em barcelona, parece me a mim que, foi pelo choque de personalidade dele e do Pep, e novamente, isso nada tem a ver com futebol.

Quanto ao suarez, também estou surpreso com o bem que se está a dar... mas parece me ingénuo demais da vossa parte achar que ele foi para o barcelona "para melhorar individualmente". ele foi porque foi receber mais e porque o clube é dos que ganha mais no mundo actualmente, praticamente qualquer jogador aceita uma proposta do barcelona.


Não concordar com o texto, não implica que nao goste do blogue. Adoro o vosso trabalho, e desejo que continuem ;)

SL.

Blessing disse...

Honoris, sim. Se bem que o banho de realidade de Neymar começa muito na goleada que leva do barça, com um monumental banho de bola. Como é tese do Nuno do Entredez.

Pedro, obrigado. Estou a aprender também com estas coisas.

Gonçalo, as questões que colocas estão todas implícitas no texto. Ou pelo menos eu acho que sim. Quando falas do modelo de jogo, é a parte onde o catacterizo como jogador de acções simples, por exemplo.

Quanto à questão do Alexis concordo. Suarez foi contratado para jogar. Diferente por exemplo de Alexis e Fabregas, que vinham para rodar com os outros. E isso é um ponto muito importante também. Como é óbvio não basta só ter vontade. É preciso também por outro lado sentir que é imprescindível.

DC, se calhar mudou mais porque era mais diferente, não?

José Moreira, obrigado.

Blessing disse...

Luis Santos, tu achas que o jogador, por exemplo, entra para o campo e deixa a personalidade fora dele? Eu acho que é impossível dissociar a personalidade do jogador daquilo que ele faz em campo.

Concordo que o fundamental é a inteligência. Mas Ibrahimovic usa a inteligência para se beneficiar a ele próprio. E não, em última análise, para beneficiar a equipa. E nisto que reside o egoísmo dele. Está sempre a procura de criar para ele. E quando combina é para ele receber em melhores condições. É mais ou menos essa a hipérbole.

Curioso que o teu argumento de ter sido sempre melhor marcador e assistente pode ser interpretado de acordo com o que escrevi. Ou seja, que ele quer ser sempre o protagonista. Que nas equipas onde ele esteve, excepção feita ao Barcelona, ele foi sempre rei. Tudo montado para ele poder aparecer. Atenção, não estou a dizer que isso é mau. Até porque se há alguns jogadores no mundo que merecem um modelo a girar à sua volta acho que este é um deles. Mas é esse o maior problema que o levou a sair de Barcelona. Ali, era só mais um. Não era o tal!

Gonçalo Matos disse...

Blessing,
Uma coisa é tu estares num modelo que só te exige coisas simples. Outra coisa é tu estares num modelo simples mas teres capacidade de jogar em modelo mais complexos.
O que eu tava a dizer é que os modelos onde ele esteve não permitiam perceber até que ponto ele conseguia decidir bem porque lhe pediam sempre o mesmo, correr, rematar, pressionar que nem cão..
Isto é puramente especulativo e teórico...
Mas metes busquets no modelo de jogo do stoke City a bater na frente e se calhar parece que o gajo não percebe nada do jogo.

Luis Santos disse...

Blessing, claro que não deixa a personalidade de fora quando se entra em jogo, só não acho que tenha o impacto que lhe dás no texto.

compreendo e concordo completamente quando dizes que ele no barça era mais um enquanto em todas as outras equipas ele era claramente o jogador chave (excepção, talvez, no milan com o pirlo, mas aqui foi lhe benéfico, portanto não houve crise haha).

o que nao entendo ("não concordo" talvez seja errado) é como é que um jogador inteligente é com regularidade também egoísta. Porque um jogador inteligente sabe que o seu sucesso passa pelo sucesso da equipa.

dizes que "quando cria é pra receber em melhor condições". Então mas não devia ser este o objectivo de qq jogador? conseguir receber em melhor condições do que está? (claro, entregar num colega em melhores condições também, mas são 2 coisas dependentes uma da outra)

e ainda "usa a inteligência para beneficiar ele próprio e não a sua equipa" ... fazendo ele parte de uma equipa, o beneficio dele não é também beneficio da equipa?

talvez esteja a ser um pouco picuinhas, (sou grande fã do ibra) mas são duvidas honestas com que realmente fiquei com o texto.

SL

Blessing disse...

Não se houver soluções melhores que ele. E no jogo, garantidamente que há muito mais vezes soluções melhores do que ele, que ele ser a solução. Lógico que das vezes em que ele cria para ele em algumas há de sair a equipa beneficiada.

Blessing disse...

Gonçalo, sim.

Nuno disse...

Concordo com muito do que dizes do Ibra, embora me pareça que, no limite, o principal problema na Catalunha foi a incompatibilidade com um modelo de jogo que não lhe permitia a liberdade de que sempre gozou. Não sei se o Ibra precisa sempre de ser o protagonista. Mas precisa de ser ele a descobrir a solução mais difícil, a resolver o problema mais bicudo. E ali teve de conviver com um treinador que queria que fosse a equipa, enquanto equipa, a solucionar esse tipo de problemas.

De qualquer modo, não concordo é com a distinção que estabeleces entre ele e o Suarez. O principal problema do Ibra foi não o deixarem ser o que sempre tinha sido, o ter de pisar terrenos nos quais se sentia menos confortável, o ser forçado a não fazer sempre o último passe ou a criar sempre a situação de desequilíbrio ideal, a ter de misturar lances de génio com intervenções banais, etc.. O sucesso de Suarez no modelo do Luis Enrique advém precisamente da liberdade que lhe é dada para só fazer aquilo em que é realmente bom. O Suarez não é mais humilde. Se o Guardiola tivesse abdicado daquela ideia que começou a ganhar forma precisamente no ano do Ibra, a de que o Messi devia jogar no meio, ficando as alas a cargo de outros jogadores, que abrissem bem o flanco e dessem profundidade, o Ibra ter-se-ia compatibilizado com aquilo e hoje dir-se-ia que tinha respondido ao desafio com humildade. O Suarez foi humilde nos primeiros meses, quando o Luis Enrique o punha na direita, mantendo o Messi no meio. E decerto que te lembras os problemas que o Luis Enrique teve, não com o Suarez, mas com o Messi, no momento em que decidiu meter o Suarez ao meio e o Messi na linha. No fim, acabou por beneficiar os dois e acabou por beneficiar o colectivo, e foi uma boa decisão. Mas por pouco não perdeu a mão no balneário, porque tirou protagonismo ao seu melhor jogador para o dar a um recém-chegado. Se o Guardiola tivesse feito o mesmo, o Ibra sentir-se-ia tão acarinhado como o Suarez, e as coisas teriam sido diferentes. É por isso que não me parece que seja uma questão de humildade.

Nuno disse...

Quanto à opinião acerca das melhorias do Luis Suarez, francamente, não vejo nenhumas. Ele já era bom no que é bom, e continua horrível no que era horrível. É verdade que se nota um esforço para fazer certas coisas que não fazia, sobretudo movimentos de aproximação para tabelas e devoluções de primeira. Mas são raras as que saem bem feitas, por isso não vejo grandes melhorias. O Suarez sempre foi fortíssimo em três ou quatro pormenores do jogo (na forma como se alheia do processo ofensivo, em ataque organizado, pensando exclusivamente no momento de aproximação às zonas de finalização, como no lance ontem em que finaliza de cabeça ao lado, em que está dois metros à frente da linha de defesa aquando do passe para o Dani Alves precisamente para depois poder corresponder ao cruzamento deste; na forma como protege a bola, dobrando-se sobre ela e ganhando faltas e ressaltos que muitos avançados não conseguem ganhar; nas diagonais curtas e na profundidade que oferece à equipa; e em momentos de contra-ataque puro, quando há poucas opções a considerar) e sempre foi fraquíssimo naquilo que, para mim, é mais importante num avançado de uma equipa que queira sempre ter a bola (a jogar em espaços curtos, tem dificuldades técnicas muito grandes e decide invariavelmente mal). O seu futebol na Catalunha não me parece em nada diferente disto. Por isso não vejo quaisquer melhorias. O que me surpreendeu, no sucesso do Suarez, não foi o Suarez; foi a capacidade que o Luis Enrique teve para modificar o modelo de jogo de maneira a extrair o máximo do Suarez sem, no entanto, perder muito com isso. Isso surpreendeu-me, embora consiga explicar por que razão tem sido bem sucedido. Se reparares, o avançado no modelo de jogo do Barça praticamente deixou de colaborar com o colectivo em quase todas as fases do ataque organizado. É um elemento estranho, que anda enfiado entre os defesas a maior parte do tempo, mais preocupado em oferecer profundidade do que em oferecer apoios verticais entre linhas. O avançado só conta como referência para bolas em profundidade ou, então, quando a bola entra no extremo, nos últimos 30 metros, e este conduz para o meio e lhe solicita a tabela. O Suarez participa muito menos no jogo ofensivo da equipa do que quem quer que jogasse na posição de avançado (normalmente era o Messi, mas também foi o Ibra, o Fabregas, o Eto'o, o Larsson, às vezes o Villa, o Alexis) nos 6 anos anteriores. E isto é o modelo de jogo do Luis Enrique a proteger o Suarez e a proteger-se do Suarez.

Nuno disse...

A meu ver, um avançado que só colabore com o colectivo nestes casos, de modo tão específico e em situações tão diminutas, não faz o que é ideal que seja feito, para quem joga na sua posição, numa equipa que passa a maior parte do tempo com bola. E, portanto, era natural que o ataque organizado deste Barça se ressentisse disso. De facto, ressente-se. Em muitos momentos, a equipa é inoperante precisamente porque é incapaz de fazer a bola entrar nos espaços que esse avançado deixa de pisar. Mas esse défice é compensado com a vinda sistemática de Neymar e Messi para o meio, principalmente nos últimos 20 metros, para o espaço interior que o avançado deixou de pisar. Repara: são só os dois melhores jogadores do mundo (e dos melhores de sempre) a jogar em espaços curtos ao mesmo tempo. De novo, é o modelo a proteger o Suarez e a proteger-se do Suarez. O Barça já não consegue ser a equipa dominadora pela posse que era, a meu ver, porque o avançado já não colabora nessa posse e, não o fazendo, deixa de haver quem pise os seus terrenos (a meio do meio-campo ofensivo, Neymar e Messi mantém-se geralmente abertos). Mas continua a ser uma equipa com um jogo interior fortíssimo nos últimos 20 metros porque, nessa altura, consegue povoar esse espaço com dois jogadores que, de facto, são muito bons a jogar por dentro, em espaços curtos. Não concordo, por isso, quando dizes que "a forma como ele joga hoje com as suas limitações, permitem que o seu jogo tenha dado o salto qualitativo para que não seja nunca mais um elemento estranho na dinâmica que se quer na Catalunha." Sinceramente, parece-me que é o modelo que o protege das suas limitações. A quantidade de disparates que comete continua proporcional ao que sempre foi. O que acontece é que está menos exposto a eles. Isso advém, por um lado, do mérito do Luis Enrique, que construiu um modelo que sempre me pareceu que haveria de ser mais prejudicial do que benéfico, e advém, por outro lado, do facto de o Neymar e o Messi resolverem uma série de problemas a esse modelo que, com jogadores diferentes, ficariam por resolver.

Blessing disse...

Nuno,

Sobre o Ibra estamos de acordo. Com Guardiola nunca poderia ter a liberdade a que sempre esteve habituado. E ele, sendo quem é, nunca poderia viver sem isso.

Quanto ao Suarez, concordo em parte. Concordo que o treinador o beneficiou. Mas, tenho sérias dúvidas que o treinador o fosse beneficiar sem que ele tenha dado algo primeiro. Sem que, em último caso, tivesse convencido também a maior parte dos colegas com o seu trabalho, e sem que isso ficasse bem evidente aos olhos de todos. Coisa que duvido que Ibra fosse aturar. Para Ibra, ele é bom e todos o sabem, ou se não sabem deviam saber. E sendo que o sabem, têm que lhe dar o que ele gosta. Para Suarez não é bem assim. A parte onde concordo contigo é que, talvez, o treinador lhe tenha dito exactamente o que se ia passar. Lhe tenha explicado o contexto. E lhe tenha mostrado que ia ser mais fácil de convencer todos os outros seguindo determinado caminho. E que depois disso, sim, o poderia libertar. Mas, também para essa situação é preciso humildade. Agora, se eu concordo que se Ibra tivesse sido beneficiado as coisas teriam sido diferentes, isso é evidente. Mas para tal, ele se calhar não teve a mesma paciência e humildade necessárias. E sim, lembro bem dos problemas com Messi por isso. Mas remendou bem com uma solução que beneficia todos, e com essa solução obriga Suarez a sair da sua zona de conforto na maior parte do tempo. Continua a ter espaço para aparecer a finalizar como gosta. Continua a ter situações de pouca complexidade pela forma como o Barcelona agora opta por jogar mais vezes directo. Mas, é chamado a combinar, e a jogar de costas, mais vezes num jogo do que se calhar em épocas inteiras anteriores. Suarez, se não fosse humilde, e se não estivesse predisposto a mudar, a aceitar a mudança, simplesmente continuaria a fugir quando os colegas o solocitavam perto. Para beneficiar ele, e porque de certeza que tem consciência que é naquilo que é bom. Mas não. Dá-se ao erro, e à equipa. E errando, erra porque tentou fazer bem. Isso, para mim, é humildade.

Blessing disse...

De resto, nos últimos trinta, vês os movimentos interiores de Messi e Neymar, e também vês Suarez a compensar isso com movimentos exteriores. Mas não só. São muitas as situações em que Suarez finge que vai e mostra-se. Mesmo quando a bola ainda está bem longe do último terço. Ontem, por exemplo, foi visível o espaço entre linhas que o Arsenal dá. Muito por consequência do que dizes. Dos movimentos de profundidade do Suarez, a segurar toda uma linha defensiva. Mas, também foi fácil notar que quando Suarez, ou outro qualquer vinha da linha avançada para receber nesse espaço os defesas do Arsenal acompanhavam individualmente. Por esse motivo, talvez, a bola acabou por entrar menos nesse espaço, e por isso essa dinâmica em construção ter sido pouco explorada. Mas aí, se calhar entra o que o treinador quer. Ou melhor, o que não quer. Arriscar perdas nessa fase, no jogo interior. Arriscar a jogar no apoio frontal demasiado pressionado, para não sofrer contra ataques de maior potencial. Neymar e Messi, assim como Suarez, receberam muito pouco ali. Estando à esquerda, à direita, ou no meio.

Por fim, dizer que, nunca se disse que agora acertava tudo o que fazia. Longe disso. Digo que, está aberto à mudança. Pelo menos, é o que me tem parecido. Como disse acima, errando, erra para a equipa. Não é um prodígio técnico e isso nunca vai ser. Mas a forma como se movimenta mudou imenso.

Pedro disse...

"Para Ibra, ele é bom e todos o sabem, ou se não sabem deviam saber."

Zlatan Facts!! :)

Muito bom!

Nuno disse...

"Mas remendou bem com uma solução que beneficia todos, e com essa solução obriga Suarez a sair da sua zona de conforto na maior parte do tempo. Continua a ter espaço para aparecer a finalizar como gosta. Continua a ter situações de pouca complexidade pela forma como o Barcelona agora opta por jogar mais vezes directo. Mas, é chamado a combinar, e a jogar de costas, mais vezes num jogo do que se calhar em épocas inteiras anteriores. Suarez, se não fosse humilde, e se não estivesse predisposto a mudar, a aceitar a mudança, simplesmente continuaria a fugir quando os colegas o solocitavam perto."

Pois, eu não sei se é chamado a combinar assim tantas vezes. É-o em situações muito específicas, quando o Neymar ou o Messi conduzem para o meio e ele baixa para oferecer o apoio para a tabela. E fá-lo com frequência, a meu ver, porque vai com a decisão preparada de antemão: a bola é-lhe endossada e ele só tem que fazer o passe de primeira, por baixo ou por cima. Como não tem que pensar em mais nada, sente-se relativamente confortável a fazê-lo. Quando a situação não é tão específica, o Suarez ou não se mostra ou fá-lo e mete-se em apuros. Ou solicita poucos passes verticais dos médios que o façam ficar com a bola de costas para a baliza, entre vários adversários, ou fá-lo e depois não é capaz de dar continuidade à jogada. Acho até que não o solicita mais vezes precisamente porque o Neymar e o Messi invadem esse espaço e tornam desnecessário que ele o faça. E é assim que fica protegido.

"De resto, nos últimos trinta, vês os movimentos interiores de Messi e Neymar, e também vês Suarez a compensar isso com movimentos exteriores. "

É verdade. Não só o Suarez, mas também o Rakitic, por exemplo.

"Por fim, dizer que, nunca se disse que agora acertava tudo o que fazia. Longe disso. Digo que, está aberto à mudança."

Eu concordo que ele se tenha entregado a certas coisas do modelo do Barça. Só acho é que foi precisamente àquelas que mais facilmente se entregaria. Assim como acho que o modelo se adaptou mais às suas debilidades do que ele se adaptou às exigências do modelo.

Vasco disse...

Excelente texto, Baggio!

Eu propunha que fizesses uma comparação entre 2 pontas de lança de topo, que até já jogaram juntos: Benzema & Higuaín.

Gostava mesmo de saber o q pensas.

Abração

Pedro disse...

Excelente texto!!

Acho que este aspecto da personalidade dos jogadores passa demasiado ao lado de muitas analises, sendo crucial para qualquer equipa que tenha um sistema implementado, como e o caso do Barcelona.

Ha uns dias saiu uma entrevista a um dos melhores treinadores da historia do basketball. O que ele disse sobre os jogadores que escolhia foi isto:

"For us, it's easy. We're looking for character, but what the hell does that mean? We're looking for people — and I've said it many times — [who] have gotten over themselves, and you can tell that pretty quickly. You can talk to somebody for four or five minutes, and you can tell if it's about them, or if they understand that they're just a piece of the puzzle. So we look for that. A sense of humor is a huge thing with us. You've got to be able to laugh. You've got to be able to take a dig, give a dig — that sort of thing. And [you have to] feel comfortable in your own skin that you don't have all the answers. [We want] people who are participatory. The guys in the film room can tell me what they think of how we played last night if they want to."

Para construir uma equipa de um sistema, e preferível por vezes abdicar de um jogador superior tecnicamente, para garantir que quem joga, joga no modelo que achamos ter mais probabilidade de sucesso.

Vasco disse...

Responde-me lá pah

Blessing disse...

Não gosto do Higuain

Vasco disse...

O qeq lhe falta? a teu ver

Blessing disse...

Relação com os colegas no último terço