Posse de bola no Facebook

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quinta-feira, fevereiro 25, 2016

Tomada de decisão no seu esplendor

Acaba por ficar ligado ao segundo golo do Leverkusen, mas nem isso consegue manchar a forma como passeou hoje no país onde o futebol está há muito a trabalhar para a excelência. João Mário. Cérebro sempre ligado. Pode por vezes não executar de forma tão perfeita, e por isso ser preterido por outros que tudo conseguem com os pés, apesar de jogarem um jogo de grande aleatoriedade. Mas sem dúvida alguma que é dos jogadores mais inteligentes que temos por cá, e que esteve hoje em campo. A qualidade com que decide cada lance é especial, e não abunda nem por essa Europa fora. Que Fernando Santos não se equivoque e lhe entregue um dos nove lugares disponíveis, conquistado fruto de um trabalho extraordinário dentro de campo. 

Ps: Fica o registo de um grande jogo entre duas das melhores equipas europeias, colectivamente.

terça-feira, fevereiro 23, 2016

Ibrahimovic e Luis Suarez - Aprendizagem e Sucesso

O divórcio entre Ibrahimovic e o futebol do Barcelona acontece pela personalidade e necessidade de mediatismo do extraordinário avançado sueco. Aquele que é para mim, há muitíssimos anos, o melhor do mundo na sua posição, aquele que eu sempre achei que cairia como uma luva em tudo o que Guardiola pensa sobre o jogo, acabou por ter uma relação muito duvidosa com o estilo de jogo que se praticava na Catalunha. Não pelo estilo de jogo em si, que assenta perfeitamente nas características individuais dele, mas pelas implicações que essa forma de jogar tem na notoriedade de uns sobre outros dentro da mesma equipa. Ibrahimovic é um tipo egocêntrico, que quer que a atenção esteja toda sobre ele. Gosta de protagonismo. Gosta de ser ele a marcar, a assistir. Vive da notoriedade. É por isso, dentro de um grupo, um jogador egoísta. Quer que sejam os outros a trabalhar para ele, inclusivamente o treinador, porque acha-se sempre a figura maior e dominante dentro do grupo. Não é, por isso, jogador de equipa. É um jogador para fazer uma equipa. E para ele a forma de poder ter mais sucesso no jogo é jogando como ele quer. Como sabe. Com liberdade total em todas as acções que realiza, com e sem bola. Liberdade total em todas as zonas do campo. No fundo, ele move-se como quer, a equipa ajusta como pode. E no Barcelona, onde podia catapultar o seu jogo para níveis mediáticos ridiculamente altos, com a conquista de troféus colectivos de relevância mundial, e com o aparecimento das suas qualidades nos momentos em que a equipa o permitisse, o futebol não é jogado dessa forma. É jogado como eu penso que o futebol deve ser, do jogador para a equipa. Não é que Ibra pense mais no sucesso dele que no sucesso colectivo. Não é essa a questão. Mais do que ninguém ele detesta perder. Mas, ganhando, quer ser ele sempre o protagonista de uma grande vitória. E não abdica disso por um segundo. A maior crítica que deixou sobre o Barcelona foi que todos os jogadores, aqueles que eram as estrelas mundiais do momento, acatavam tudo e baixavam a cabeça perante as ordens do treinador. Para ele é inconcebível jogadores tão bons quanto ele jogarem o jogo que o treinador quer, e não ser o treinador a fazer o jogo dos jogadores. O que Zlatan não percebeu é aquilo que milhares de jogadores não percebem: o benefício colectivo, e depois individual, que um estilo de jogo baseado na resolução colectiva das tarefas de jogo permite.

O casamento de Luis Suarez com o Barcelona é o exemplo oposto de tudo o que foi exposto acima. É um jogador cujas características individuais estavam muito distantes do que seria de exigir para o Barcelona. Tecnicamente, e na forma de decidir, a diferença de nível era notória. Era um jogador banal nos atributos que imperam nos executantes da Catalunha, apesar dos seus atributos físicos notáveis e da invejável técnica de remate. Ao olhar aqui de longe, sempre achei que muito dificilmente um jogador com aquele estilo pudesse vir a triunfar, e a inclusivamente ser muito admirado pelos colegas. Sempre foi um jogador habituado a acções simples, de pouca complexidade. E nisso sempre foi fortíssimo. A posicionar-se para o último passe, e para finalizar. E apesar da quantidade de golos que fez, nunca foi egoísta. Foi sempre muito comprometido com os objectivos colectivos, e foi sempre humilde o suficiente para retribuir como podia o que a equipa lhe dava. Era mais um para equipa. Nunca se achou a equipa. E por isso, com o propósito de conseguir grande sucesso ao nível colectivo, e de melhorar individualmente, mudou-se para Barcelona. Com a abertura para aprender, e com os colegas certos para lhe mostrar o caminho, está a melhorar muito mais do que aquilo que eu alguma vez achei possível. Nunca será um Iniesta a segurar e a meter redonda pressionado, a resolver situações de grande complexidade. Nunca será um Busquets a decidir em conformidade nos espaços reduzidos. Mas a sua evolução nesses aspectos é notória. A forma como se associa com os colegas e já os consegue perceber na maior parte do tempo, dando as linhas de passe adequadas. A forma como levanta a cabeça primeiro e decide depois. A forma como sem tocar na bola percebe que é fundamental para o desfecho dos lances. A forma como percebeu que os colegas querem que ele seja também notado, e entendem os seus limites. A forma como ele joga hoje com as suas limitações, permitem que o seu jogo tenha dado o salto qualitativo para que não seja nunca mais um elemento estranho na dinâmica que se quer na Catalunha. Do jogador para a equipa. Suarez percebeu que não tinha o mesmo nível dos colegas, e permitiu-se por isso aprender a ser mais como eles. Foi humilde o suficiente para pensar primeiro nos objectivos da equipa, e para se comprometer com treinador, e só depois pensar nele individualmente. E por isso, beneficia hoje da melhor escola do mundo para se aprender futebol. Suarez quis ser mais um na equipa e por isso triunfa. E um factor externo como a amizade que partilha com Messi e Neymar só vem reforçar ainda mais, dentro de campo, o estilo de jogo e o modelo de comportamento individual que se quer por lá. Notoriedade para todos, nos momentos em que é permitido ser notado.

Na aprendizagem, é fundamental que o jogador perceba que tem que melhorar. Onde melhorar, e que esteja aberto para que o treinador e os colegas lhe possam indiciar o como melhorar. Tem que ter uma certa dose de humildade para que se abram as portas para novos caminhos no seu jogo, que o vão beneficiar individualmente, e que o vão ajudar a cumprir ou superar às próprias expectativas. É fundamental que perceba, também, que é um processo que não tem um prazo estipulado, e por isso deve ser paciente. O meu cepticismo com mudanças abruptas no perfil de decisão dos jogadores tem muito a ver com isto. O contexto. E por contexto pode-se definir, mal e depressa, factores como a forma como o jogador lida com os estímulos, e os estímulos em si. E toda essa relação é demasiado complicada e muitas vezes são factores externos a determinar o caminho que o jogador segue, apesar de toda uma conjunção de factores favoráveis. Apesar de ainda não o achar um jogador fabuloso, de não me encher as medidas, Suarez veio-me mostrar que estava errado no que pensava sobre a sua ida para Barcelona. E tudo porque percebeu que uma mudança na sua forma de jogar, uma adopção de um estilo diferente do que tinha até então, o iria beneficiar e melhorar enquanto jogador. Percebeu que poderia ter sucesso de outra forma, mesmo tendo tido muito sucesso a jogar com outro estilo.

sábado, fevereiro 13, 2016

Benfica 1-2 Porto. Segunda Parte.

A segunda parte começa com um Porto a tentar ter mais bola, e gerir o jogo com ela. Conseguiu por diversas vezes entrar no meio campo do Benfica, ainda que não tenha criado grandes situações de finalização. O primeiro sinal do Benfica surge de um canto para o Porto, e nova transição. Desta vez 2x1. Não por mau posicionamento da equipa do porto, que coloca 4 homens na área, e porque o Benfica defende com todos 4 à entrada e um na linha de meio campo, mas por André André no momento em que a bola sobra para Herrera ter adoptado um movimento pouco conservador. Daí, o 2x1 do Benfica.











O segundo golo do Porto surge numa altura em que o Porto já estava bem melhor no jogo que o Benfica. Não concedia, e chegava ao último terço nas calmas. Uma recuperação quando o Benfica tentava sair rápido, sendo que se notou novamente aqui a falta de agressividade dos jogadores encarnados para recuperar posições, e para as ocupar rapidamente. O Porto calmamente criou a situação com Brahimi e André em combinação, e depois Aboubakar a descobrir espaço fugindo de Jardel para marcar.



A procura pelo jogo exterior por parte do Benfica a dar frutos. Pela fraca capacidade dos jogadores do Porto para ajustar posições consoante a saída dos colegas, bem como pela má leitura do lance de Layun.


Marega em 2x0.
O Porto tentou organizar primeiro para pressionar depois, e conseguiu por isso diminuir o número de chegadas com qualidade do Benfica ao último terço. Sofreu menos transições por ter reagido um pouco melhor à perda, e sobretudo por não ter perdido a bola em situações onde estava mais desorganizado. Melhorou o foco no processo defensivo. Com isso, passado o primeiro quarto de hora da segundo parte, o Benfica só conseguiu chegadas pelo jogo exterior seguido de cruzamento para a área. Depois do golo baixou a linhas e fechou o corredor central. Todas as tentativas do Benfica furar por dentro foram bloqueadas. Herrera fez um jogo francamente bom com bola, assim como Lindelof no Benfica. Marega não tem qualidade para um grande. Estranho continuar a ser opção regular para entrar no decorrer dos jogos.

A primeira parte AQUI!

Curtas do clássico de Casillas.

Fácil depois deste jogo perceber que os dois melhores colectivos nacionais estão na capital e no norte. Curiosamente, nenhum deles esteve presente na Luz. Zero controlo ou domínio do jogo por parte de qualquer equipa. Dezenas de ocasiões permitidas, num jogo propício a golos.

Um Benfica pouco concretizador, a permitir a Casillas aparecer como o melhor em campo. A facilidade com que a defesa do Porto se desposiciona, pelas referências dúbias que utiliza, é assustadora. Um jogo onde ganhou quem mereceu menos, acabando por cair a sorte do jogo para Peseiro.

Brahimi a mostrar a Lopetegui o que ele não entendeu em ano e meio no Dragão. Mais pernas da mesma cor perto, maior capacidade de desequilíbrio e imprevisibilidade.

Um Benfica como o Benfica tem aparecido nos últimos tempos. Muito incisivo no ataque, processos simples, e trabalhados individualmente pelos jogadores. Cria como costuma criar, não finalizou.

quinta-feira, fevereiro 11, 2016

Conversas informais

O jogo. Esse bicho de sete cabeças que leva a que exista tanta discussão à volta dele. Que leva a que as opiniões sejam tão diferentes que a discussão se torna inevitável. Discussão essa que me levou ao encontro destes quatro rapazes, que são no fundo quem mais me ensinou e continua a ensinar sobre futebol. É curioso que nenhum deles tem um reconhecimento por aí além no meio. O que nos uniu foi Messi e Guardiola. O jogador e o jogo. O que nos continua a separar é o jogador e o jogo. São hoje, eles, as minhas grandes referências para o jogo.

Algumas questões estão já "desactualizadas", ainda assim achei que não seria problemático colocar todas. 

Em tempos vi uma apresentação onde o formador dizia que o aquecimento era um mito. Para não termos medo de colocar os miúdos a jogar desde o primeiro minuto do treino, que eles se conseguem auto regular. Tendo em conta que o aquecimento tem como objectivos principais tentar preparar o máximo a estrutura muscular, e a cabeça, para o que vem de seguida, concordas com o que foi dito anteriormente?

Concordo e discordo. Discordo da afirmação que o aquecimento é um mito. Se o propósito do formador foi refutar a ideia de que é necessário o aquecimento “tradicional” para se obter uma boa preparação para a atividade aí estou de acordo. Agora, se pensarmos no aquecimento como um processo biológico, que ocorre quer o tenhamos em conta ou não, e que tem influência direta nas capacidades dos atletas (sejam físicas, perceptivo-motores ou cognitivas), aí não faz sentido chamar-lhe de mito. Portanto, sabemos que o processo biológico existe e que influencia as capacidades de execução e aquisição dos atletas. A partir daqui, concordo que não devemos ter medo de colocar os miúdos a jogar desde que equacionemos os exercícios tendo em conta o processo pelo qual passam nos primeiros minutos de treino. Por exemplo, não faz sentido colocar um exercício com grande valor aquisitivo, com muita complexidade, logo como primeiro exercício porque não vão estar preparados, só vão fazer asneiras, e no final adquiriram nada ou muito pouco e perdemos tempo de treino.

Tens sido um grande crítico do Porto de Lopetegui. Queres desenvolver isso?

A minha crítica ao Lopetegui é, na realidade, uma crítica à moda que se instalou entre os treinadores de se prometer uma coisa e se fazer outra. Treinadores a prometer coisas não é novo, o normal sempre foi ver treinadores a prometerem, principalmente resultados. Isso nunca chateou porque no final são julgados por isso mesmo, resultados, quer prometam quer não prometam, daí não fazer diferença prometer resultados. Mas agora a moda é jurar um futebol espetacular, ter a iniciativa, dominar, marcar 20 golos por jogo e ficar na história do futebol. E isto pode acontecer por duas razões, ou mentem deliberadamente sabendo que não têm intenções de praticar o futebol que anunciam ou realmente gostariam de conseguir esse futebol mas não têm competência para o operacionalizar. Qualquer uma das razões é criticável, e é criticável pelo simples facto de que é precisamente isso que é o trabalho do treinador, controlar o futebol da equipa. Sim, ás vezes perde outras vezes ganha, às vezes joga bem outra vezes joga mal, mas a intenção tem que lá estar sempre porque a intenção é resultado daquilo que o treinador controla, resultado do treino. Falando especificamente do Porto de Lopetegui, embora tenha realmente tentado ter bola e ser uma equipa ofensiva, não gosto da forma como o fazem, demasiado jogo exterior, demasiado dependente de desequilíbrios individuais.

Desde que Jesus se mudou para o Sporting que projectamos um Sporting bem mais forte ao nível de jogo, e de pontos. Há 46 anos que não se conseguia um aproveitamento tão alto em Alvalade. Venceu todos os jogos grandes que jogou. Previas um início tão avassalador? A que se deve tanto sucesso contra os grandes?

Não previa um início tão forte mas esperava que fossem fortes e que nesta altura fossem a melhor equipa do nosso campeonato como o são. Esperava-o porque sei que em Portugal Jesus é o melhor com larga vantagem e isso significa um melhor coletivo. Isso também aliado ao facto de sempre ter julgado que a qualidade individual do Sporting não era tão má como diziam, isto porque procuro perceber sempre o que pode um jogador fazer enquadrado num modelo de jogo forte. Por exemplo, o Adrien, nunca fui seu fã, mas sempre lhe reconheci qualidades que aliadas a um modelo que o ajudasse no seu pior defeito (tomada de decisão) o tornariam num jogador muito melhor do que tem sido até aqui. O sucesso contra os grandes deve-se aquilo que referi antes, muito melhor coletivo.

Como explicar que o Benfica, sabendo-se que o processo ofensivo não é de qualidade excepcional, seja a equipa com mais goleadas até ao momento na Liga? Pensas que no final serão o melhor ataque?

É verdade que o processo ofensivo do Benfica não tem grande qualidade, mas é um processo mais direto e incisivo que quando enfrenta defesas mal organizadas e/ou com fraca qualidade individual acaba por dar algum rendimento porque está também aliado a uma boa qualidade individual. Portanto, acho que o rendimento do ataque se deve sobretudo ao adversário (contexto) e à qualidade individual do Benfica do que à qualidade do seu processo ofensivo. Desconfio que o Benfica terá sempre grandes dificuldades em jogos com equipas bem organizadas e com qualidade individual razoável.

Como treinador, qual é a maior dificuldade que sentes? Porquê?

Sou muito autocrítico, e por isso, raramente saio de um treino satisfeito com a minha prestação enquanto treinador. Acredito que tenho que melhorar em muita coisa, mas aquilo em que sinto mais dificuldade é o feedback. Não o feedback em toda a sua extensão mas em particular o timing do feedback. Às vezes dou por mim a pensar durante um exercício “dou mais tempo para se adaptarem ou interrompo já?”, “deixo a jogada correr e corrijo no final?”, “corrijo sem parar o exercício?” entre outros e por isso falho muitas vezes o timing. Repara que estamos a falar de um pormenor, o timing, porque sei exatamente que comportamentos quero que os jogadores tenham com aquele exercício, sei o que está mal e sei como corrigi-lo. Mas considero o feedback tão importante (mais importante até que a estrutura do exercício, embora lhe atribua importância obviamente) que, para mim, até um pormenor como o seu timing faz toda a diferença. Preciso ser mais rápido e determinado a identificar e a intervir nesses momentos. Já dizia o prof. Monge da Silva, ao alertar-nos para a necessidade de não dispersarmos a nossa atenção para aquilo que não é prioridade durante o treino, “mantenham-se lúcidos no treino...”.

Sabendo-se que num mundo ideal o que se quer é ter um modelo de jogo onde os jogadores jogam o que o jogo dá, concordas que essa visão é utópica? Desenvolve. Sendo utópica, quais são os princípios gerais que defendes no teu modelo de jogo?

Isso dava horas de discussão mas sim, concordo que é utópica. Primeiro porque para mim, partimos logo de uma premissa errada que é jogar o que o jogo dá. Não será antes, o jogo dá aquilo que jogamos? Por exemplo, uma equipa que defenda mais atrás terá (em princípio) mais espaço nas costas do adversário quando recupera a bola, quando estamos a ver o jogo dessa equipa faz sentido dizer que o contexto de jogo lhe está a dar esse espaço ou o modo como se comporta é que lhe dá esse espaço? Portanto, para mim, se os comportamentos que promoves na tua equipa influenciam o jogo, então o que tu queres é influenciar o jogo a teu favor e isso significa que tens de ter bem definido para ti, quais as situações que te favorecem mais e as que te favorecem menos. Fazendo isso, começas a perceber que vais eliminando algumas situações de jogo que queres evitar que a tua equipa jogue indo contra a visão de ser forte em qualquer situação.
Em segundo lugar, e para mim a razão mais óbvia, são os jogadores. Como queres ser forte a aproveitar o espaço com ataques rápidos se tens jogadores lentos e que não são extraordinários no 1x1 por exemplo? Mais, cada jogador percepciona o contexto de forma diferente e de acordo com as suas capacidades, numa mesma situação, um jogador com boa capacidade de passe longo percepciona uma oportunidade de aproveitar o espaço nas costas do adversário isolando um colega enquanto que outro jogador percepciona a falta de espaço no centro de jogo e de linhas de passe próximas e joga para trás. Afinal o que é que o jogo dava? Aproveitar o espaço nas costas ou conservar a posse de bola por não haver linhas de passe? Ambas as decisões foram as mais acertadas e estamos a falar da mesma situação. O jogo não dá só uma coisa a cada momento, dá uma infinidade de coisas pelo que é impossível preparar a equipa para essa infinidade de coisas em todos os momentos.
Por último, parece-me extremamente improvável conseguir criar hábito em coisas contraditórias e existem princípios que não sendo contraditórios transmitem ideias contraditórias.
No meu modelo de jogo procuro privilegiar a posse de bola, querendo criar as situações de finalização mais simples possível para que sejam também as mais eficazes. Ter linhas de passe próximas para garantir soluções ao portador e uma transição defensiva forte, quero que o adversário tenha a bola o menor tempo possível e isso significa que lhe quero tirar o máximo de tempo e espaço para jogar. Estamos a falar de um modelo em que a equipa ataca preferencialmente de forma curta e apoiada, defende com referências zonais e com o bloco alto de forma a retirar espaço ao adversário nas zonas próximas do centro de jogo, é agressiva na recuperação da bola, especialmente na transição defensiva.

Até que ponto estamos realmente a ajudar os jogadores para o futuro, na formação, tendo em conta a falta evidente de uma cultura de jogo?

Não estamos, basta olhar para os exemplos da Espanha e Alemanha, foi quando decidiram criar uma cultura de jogo que se tornaram no que são hoje no futebol. É que ter uma cultura dá uma orientação, objetivos, sabemos aquilo que jogamos, por isso sabemos que jogadores queremos e daí sabemos que jogadores formar e como formar. Tão simples quanto isto. Claro que existem outros problemas como a aposta no jogador português, a formação de treinadores e outros mas penso que tudo começa numa ideia, numa cultura e o resto ganha congruência com essa ideia.

Ronaldinho, Posse de Bola.

O Lateral Esquerdo tem sido um grande crítico do treino, e da formação de jogadores em Portugal. Para contextualizar, o blogue defende que não se deve treinar a técnica pela técnica, o físico pelo físico, táctico pelo táctico. Tenho notado que a mensagem passa, mas passa de forma fundamentalista. Ou seja, o que se tenta passar é que a situação X leva a que se priorize a situação Y. E há quem não entenda esse priorizar. Se tivesses numa realidade onde o jogador (bem no início da formação) tinha uma hora e meia de prática orientada durante sete dias, faria sentido exercícios com o foco mais técnico (com ou sem oposição), com um número de repetições elevado, para dar a conhecer o gesto técnico e obrigar à repetição do mesmo? Compensaria este tipo de trabalho? Porquê? E relativamente às capacidades condicionais?

É verdade que por vezes passa uma mensagem fundamentalista sobre os mais diversos assuntos quando não é de todo esse o meu entendimento sobre as coisas. Sejam elas quais forem. E claro, é tudo uma questão de prioridades. E uma questão de cumprimento de objectivos de aprendizagem pré definidos. Se já domino o que é mais importante naturalmente que há espaço para crescer no que é menos importante. Tudo pode fazer sentido dependendo do momento, do contexto. Esta semana não fizemos um 3x0 meio padronizado? E que digo eu sobre isso…? E naquele momento achei que faria sentido. Mesmo sabendo que não estaríamos ali a crescer no nosso modelo de jogo. Com as capacidades condicionais o mesmo. Se os jogadores são profissionais, não vejo porque não podem fazer esse tipo de trabalho desde que não retirando tempo ao treino principal. Se treinamos há tarde, acho óptimo que se faça trabalho funcional de manhã ou vice-versa. Agora, por treino das capacidades condicionais não quer dizer que seja treinar hipertrofia! Que é o que as pessoas associam logo ao treino físico.

Adrien, que mudança hein! Seguramente dos jogadores mais criticados do blogue nos últimos tempos, assim como o Sporting das equipas mais criticadas. Qual é o critério que afinal faz com que as avaliações oscilem tendo em conta a proximidade temporal?

Tu sabes que nunca fui o maior crítico dele. Nunca achei que o nível dele estivesse tão distante do do William quanto o que todos diziam. Hiperbolizou-se muito sobre o Adrien, mas a verdade é que ele tinha e terá defeitos que o impediam de ser bastante melhor jogador. Tem qualidade técnica, é inteligentemente agressivo nos momentos defensivos. E já o era. Creio que o seu principal problema era o principal problema de tantos outros jogadores. Não perceber o seu limite e querer sempre dar um pouco mais do que o que as suas capacidades o permitem. Queria ser sempre ele o foco quando na verdade não tem a qualidade que pensava que tinha. E isso naturalmente que prejudicava a sua tomada de decisão. Quando te disse que ao contrário de muita gente nunca centrei tanta critica sobre ele, lembraste-me que disse que o Enzo o matou. E matou precisamente porque pensando ser bastante superior ao que é, o Adrien nunca se resguardou nesse jogo com o Benfica e acabou por isso por permitir dezenas de desequilíbrios ao adversário.
Se está bastante melhor? Creio que sim. O modelo ofensivo do Jorge Jesus tem algumas características com as quais não concordo, nomeadamente uma certa padronização. Rotinas levadas ao limite. Combinações e posicionamentos sempre iguais. Todavia, reconheço que esse modelo é uma ajuda preciosa a muitas individualidades. Hoje o Adrien tem menos espaço para decidir livremente. Tem menos espaço para impor o seu jogo e está mais condicionado a tomar determinadas decisões em função de um modelo ofensivo que é muito rigoroso nesse aspecto. Isso acaba por o beneficiar. Não tem por onde inventar. A menos que queira deixar de ser opção para o seu treinador…

Há dias, vi o duelo dos Burussias. E foi notável a forma como O Dortmund de Tuchel, conhecido pelo futebol apoiado desde trás que muito nos agrada, não conseguiu sair a jogar. Todos os treinadores têm uma ideia inicial, mas não é garantido que essa tenha sucesso sempre. O que fazer quando a ideia não entra, tendo em conta o objectivo do jogo? Quando o teu modelo de jogo tem saída de bola, e o adversário não permite, ou a equipa não consegue, o que fazer?

Dentro de um modelo, há que ter sempre um plano B, que contemple possíveis dificuldades para impor o que é prioritário. Para mim é melhor quem para além de ter aquela saída em construção bem treinada e pensada, tem também uma alternativa para quando tal não é possível, do que quem bate apenas numa única tecla. Se eu vou com o Feirense a Camp Nou, eu vou continuar a tentar jogar, mas se o meu adversário começa a ter sucesso na forma como me impede de o fazer é sempre preferível ter uma ideia alternativa do que deixar os jogadores expostos a um jogo mais aleatório. Falas desse jogo do Dortmund. O Tuchel quer sempre sair com bola no chão, nesse jogo a sua equipa foi incapaz de o fazer. Não foi porque ele não o quisesse! O que é melhor para quando essas situações acontecem, ter preparado um local de queda da primeira bola para aproximar a equipa, criar superioridade na zona da bola e começar a jogar já na segunda fase, ou chutar sem critério? O que achas que fez o Dortmund nesse dia, em que não saiu a jogar desde trás uma única vez…?

PB, Lateral Esquerdo. 

Tenho ouvido dizer que o futebol nacional tem mais qualidade hoje, ao nível colectivo, do que quando começaste com blogue. Dizem que tal se deve a uma maior competência do treinador português. Concordas? 

Concordo. E acho que era inevitável que assim fosse. O fenómeno “Mourinho” mudou completamente aquilo que se achava que era o trabalho de um treinador de futebol, e isso fez com que muita gente começasse a pensar a sério sobre o jogo. Ainda que continue a haver muita gente incompetente com cargos importantes, e ainda que esse fenómeno tenha feito aparecer muitos treinadores com mais vocação para sapateiros, acho que, de uma maneira geral, há mais treinadores competentes em Portugal do que havia nessa altura.

O que é que os três grandes precisam para melhorar o seu jogo? 

O Sporting está hoje num nível muito bom. É difícil apontar algo que pudesse melhorar. Além de todas as virtudes do modelo de jogo do Jesus, há a vantagem de ter muitos jogadores criativos a jogar no meio, e isso potencia a imprevisibilidade com que a equipa joga em espaços reduzidos. Quanto ao Porto, gostava de ver os extremos a explorar sistematicamente os espaços interiores, entre linhas, deixando a largura para os laterais, e os médios a insistir no passe vertical para essas zonas. Quanto ao Benfica, acho que era preciso mudar muita coisa. A qualidade individual de alguns jogadores vai conseguindo resolver os problemas que o colectivo não consegue resolver, mas isso não chega. Já não era mau, por exemplo, que o Rui Vitória abdicasse do 442 clássico.

Sempre acompanhei o teu seguimento de Mourinho. E a tua ruptura com o que ele fazia se deveu, sobretudo, à segunda época em Itália. Por mais que tenha mudado a concepção de jogo, previas uma época atípica destas?

Não. Acho sempre difícil prever coisas atípicas, e, não obstante achar que as ideias de jogo actuais do Mourinho o afastam do sucesso a longo prazo, não podia prever a total banalidade do futebol do Chelsea esta época. É, de resto, difícil enumerar causas e explicar exactamente o que se passou. Por exemplo, muito do que aconteceu ao Klopp a época passada se explica pela onda de lesões que assolou a equipa na primeira metade da época. O Mourinho não tem essa desculpa. Houve decerto várias coisas (e coisas de natureza muito diferente) a contribuir para aquilo que se passou, e nem todas elas serão da responsabilidade de Mourinho. Mas há uma que é. O facto de insistir num modelo de jogo completamente esgotado, sobretudo depois de ter acabado de ganhar o campeonato, fez com que os jogadores iniciassem a época sem qualquer espécie de motivação adicional. Como é óbvio, não era fatal que isso desencadeasse o que desencadeou, mas os primeiros maus resultados, a forma como Mourinho responsabilizou os jogadores por eles e a descrença gradual dos jogadores em relação às suas próprias competências assim o ditaram. O que quero dizer com isto é que, apesar de não me passar pela cabeça que isto pudesse acontecer a Mourinho, faz sentido que aconteça a alguém cujo modelo de jogo não estimula, por si mesmo, os jogadores.

Como explicar um Barcelona bipolar? Luís Enrique recentemente deu uma entrevista dizendo que teve que evoluir o jogo do Barcelona no sentido de surpreender o adversário com diferentes tipos de lance. Sair mais rápido e com um passe mais longo, ou sair curto e apoiado. Crês que seria possível ter ganho o que ganhou, pensando por exemplo nos jogos com o Bayern, sem perder o domínio de jogo (bola no pé) para jogar mais no espaço? 

A eliminatória com o Bayern era desequilibrada desde o princípio, dado que os alemães tinham muitos jogadores lesionados, e o único fruto que essa estratégia trouxe foi obrigar o Guardiola a rectificar a defesa a três com que começou o jogo. Podendo trazer dividendos a curto prazo, num ou noutro jogo em concreto, a bipolaridade de que falas modifica necessariamente o modo de jogar da equipa a longo prazo. A ideia de que se pode continuar a ser a equipa que se era, exímia a fazer uma determinada coisa, quando se abdica de fazê-lo em várias circunstâncias, não faz sentido. Quando se acusava o Barcelona do Guardiola de só saber jogar de uma maneira, não se percebia que só podiam ser assim tão bons a jogar dessa maneira por não abdicarem dela à mínima dificuldade. Essa bipolaridade é semelhante, a meu ver, àquela velha estratégia de meter um ponta-de-lança alto quando se está a perder e de passar a chutar para a área sem critério. Às vezes dá resultado, mas a longo prazo a equipa perde identidade.

Klopp é um treinador que eu gosto muito. E que tu gostas de algumas coisas, só. Conhecemos bem o que ele quer do jogo. Agressividade para recuperar a bola em zonas que o permitam atacar melhor. Depois, atacar com qualidade pelos três corredores, mas sempre rápido. E sempre com a velha ideia de que quando vê baliza remata. O que achas então que se pode esperar dele no Liverpool? O que é que o torna diferente de outros? 

O Klopp tem várias qualidades. A forma compacta como a sua equipa tende a pressionar, por exemplo. Uma coisa de que eu gostava muito no seu Dortmund era o facto de privilegiar a qualidade técnica dos seus jogadores acima de qualquer outra coisa. Da defesa ao ataque, era importante para o que ele pretendia que os jogadores soubessem exactamente o que fazer com a bola. Isso, em Inglaterra, já era uma diferença importante. E estou muito curioso para perceber exactamente o que ele vai fazer, sobretudo a partir da próxima época.

Há cerca de dez anos jogava-se o Euro em Portugal. Quais são as principais diferenças entre o jogo que se jogava aí, e o jogo que se vai jogar em França? 

Em 2004, foi possível que uma equipa cujo modelo de jogo assentava unicamente na organização defensiva fosse campeã da Europa. Assim foi, principalmente, porque não havia adversários cuja qualidade colectiva fosse suficiente para pôr a nu as fragilidades dos gregos. Em termos colectivos, a única equipa decente do Euro 2004 era a República Checa, que acabou por ter azar contra os gregos. E não era propriamente a selecção com mais argumentos individuais. Em 10 anos, muita coisa mudou. E uma delas foi o aparecimento de Guardiola. A importância que se passou a dar à organização ofensiva é capaz de ser suficiente para que não se repita a graça. Ainda que seja uma competição que se decide por eliminatórias, o que aumenta a imprevisibilidade da mesma, e ainda que seja uma competição em que as equipas participantes não têm um trabalho de fundo, realizado dia após dia, ao longo de semanas, como acontece nos clubes, acredito que o Euro 2016 seja colectivamente mais bem jogado do que o de 2004.

O que esperar da selecção nacional, tendo em conta as diferenças entre a equipa de hoje e a equipa de 2004? 

Depende de muitas coisas: de como os jogadores chegarem à competição, dos adversários que se apanharem na parte das eliminatórias, do que as principais selecções forem fazendo, etc.. A obrigação é passar a fase de grupos em primeiro. O resto é difícil de prever. De resto, a equipa de 2004 que acabou por fazer a maior parte dos jogos em 2004 era muito diferente da equipa que jogou com a Grécia no primeiro jogo, e há quem diga que a derrota no primeiro desafio foi decisiva para a boa campanha de Portugal nesse torneio. Uma coisa tão simples como um mau resultado inicial pode alterar completamente as probabilidades de êxito de uma selecção. 

Como explicar o declínio francês, italiano, e holandês, e a supremacia espanhola e alemã.

Em duas palavras: política desportiva. Essa supremacia faz-se sentir agora, mas começou há muitos anos. Antes de a Espanha ganhar o que ganhou, com a selecção principal, já há muitos anos que era a grande referência mundial ao nível de selecções jovens. 

Os ingleses não aprendem mesmo, não é? Será que por fazerem sempre excelentes fazes de qualificação, ficam com a sensação de que estão melhores do que na competição anterior?

Talvez. Mas a selecção é o reflexo do futebol inglês: treinador desactualizado, jogadores poderosíssimos do ponto de vista atlético mas pouco criativos, sistema táctico pré-histórico, etc.. Se calhar, o melhor que lhes poderia acontecer era serem humilhados, como os alemães em 2000. Embora não acredite que isso provocasse a mesma mudança de fundo que terá provocado no futebol alemão. Uma eventual mudança de paradigma desportivo, em Inglaterra, enfrentaria um obstáculo demasiado grande, que é a própria cultura desportiva do país (ou das ilhas britânicas). Isso é de tal modo importante para a identidade do futebol britânico que esse futebol se torna insusceptível de mudanças de fundo. E a selecção inglesa continuará a ser um dos reflexos dessa insusceptibilidade. 

Nuno, Entredez.

Lembro-me que quando comecei nisto do treino discutirmos numa qualquer caixa de comentários do Posse de Bola sobre um exercício de treino simples. Era um exercício gr+AxB+gr onde as duas equipas tinham a obrigatoriedade de circular pelos três corredores antes de finalizar. Naquela altura não percebi o porquê de te mostrares "contra" esse tipo de treino, onde o exercício dá o problema e a solução. E mais do que isso, retira uma série de possibilidades de ataque. No fundo, é um exercício que leva os jogadores a optarem pelo que o treinador quer, e não pelo que é certo. Ensina, portanto, princípios errados. Hoje isso parece-me mais claro. E lembro que foi nesse momento que comecei a mudar muito a minha forma de olhar para o treino. Esta introdução serve para te colocar algumas questões:
Limitar a criatividade dos jogadores, ou seja, o número de caminhos que podem escolher por imposição de uma regra (seja o número de toques, as zonas onde se podem finalizar, forma de finalizar, número de passes obrigatório, o tempo do ataque, zonas de circulação obrigatória) é assim tão mau? Lembro que quando era miúdo e jogava na rua, por exemplo, usavam-se algumas regras deste tipo. "Não valem altas".

Depende muito das idades. Em idades tenras não concordo com nada disso (mesmo nas outras não concordo, mas as vezes o passado prático de um jogador obriga-te a muita ginástica!). Ou seja, deveria ser jogo. orientando apenas os espaços e a relação numérica, pois isso por si só dará "pistas" aos jogadores de como se relacionarem nelas. Á medida que o nível/idade e o esclarecimento sobre o jogo vai aumentando não tens como fugir a isso para aprimorar. Aprimorar não é obrigar, é dar uma bagagem de estímulos tão grande em que nada é proibido e tudo passa a ser possível dentro da liberdade da equipa (essa escolha é muitas vezes do jogador, que começa a perceber onde precisa ou não de melhorar). Isto torna tudo muito subjectivo, assim como o jogo. Assim como a forma como o treinador e o jogador olham para ele. Essa linha de entendimento vai surgindo com o tempo. Por vezes (provavelmente na maioria dos casos) é o miúdo que mostra ao treinador o que tem de fazer, depois existe também a capacidade ou a consciência do treinador para perceber o que poderá melhorar (aqui, voltamos de novo à relação entre os espaços e a oposição). Contudo, esta é a minha forma de ver, não implica que seja a mais correcta. Era assim que conseguia passar a minha “mensagem”. Repara, no momento, em que por exemplo, obrigas a jogar a um toque sem que o jogador “domine o jogo” e ele não consegue ter sucesso alguma coisa estará mal, e, pela experiencia, nunca é ele. Isto não implica que não digas: “ Neste caso, se for de primeira a bola chega lá, e sei que és capaz porque já te vi fazer isso”. Para mim, tudo é o momento, e é isso que quero que os jogadores percebam. Não que entendam todos os momentos mas que os sintam.

Eu nunca tinha trabalhado com futebol 7 até ao ano passado. E aconteceu uma coisa extraordinária: um miúdo que nunca tinha jogado (que não na rua) chegou ao clube e era melhor do que todos os outros que tinham três e quatro anos de prática orientada. Não sei se já te aconteceu. O que me leva a questionar o que é que se está a fazer, ou não fazer, no treino para que existam miúdos a aparecer melhor treinados do que aqueles que tentamos orientar? Qual é afinal o caminho a seguir para a formação? Liberdade total? Que liberdade?

Os miúdos não aparecem melhor treinados. Aparecem melhores, simplesmente isso. Na rua, a prática dele também é orientada, só que pela sua criatividade, pelos amigos, pelos mais velhos, pelos melhores e pelos piores. E quem joga percebe isso, e ao longo do tempo irá sempre percebê-lo. Depois, há quem o perceba de forma mais rápida ou não, e isso nenhum treinador controla.
Liberdade total sem dúvida. Como disse, e com o tempo, essa liberdade tende a ser compreendida. Começam a aparecer compromissos entre os jogadores que o treinador não consegue nem nunca conseguirá decifrar na sua plenitude. Depois há outra questão. A liberdade deve ter a ver com a forma como a equipa quer jogar. Se tens uma equipa de "toque e desmarcacao" e a liberdade de um correr com bola para onde está virado interfere com a dos outros, e se ele não o percebe através do treino ou através dos colegas, alguma coisa está a correr mal. Claro que aqui a ideia do treinador prevalece. Da forma que eu vejo o jogo, e isto é uma ideia pessoal, onde o contrário é perfeitamente admissível, esse jogador deve perceber porque é que por vezes ele tem espaço (porque os outros andam no “toque e demarca”), ou pelo menos deves passar-lhe isso! É porque os outros dão toques e se desmarcam, isto ao ponto de ele também querer ser participativo dessas condições.  É dessa ligação e compromisso que falava. Às vezes não é o exercício que dita evolução, mas sim a ”educação” e o “respeito” pelas liberdades comuns. Como sabes a ideia do futebol de rua, em minha opinião está desvirtuada, até porque senão toda a gente que passa apenas pela rua poderia dar jogador, e todos sabemos que assim não o é. Criou-se o mito de que o Futebol de Rua era o 1 x todos, mas isso, pelo menos para mim, é enganador. Ou, pelo menos, na minha rua não era assim. Á medida que vais crescendo vais percebendo quando podes ou não fazer determinadas coisas. Depende de quem joga contigo, contra ti, o que envolve o jogo e todos esses estímulos sociais e emocionais foram-se perdendo com o tempo. Na rua também há medo de errar, nem que seja porque estás a jogar com mais velhos e tens de jogar de acordo com o que eles pedem (caso contrário sais!). Aprendes é a lidar com isso, mas isto levaria muito tempo a ser falado.

Há um ano falava contigo sobre um colega que tinha ido para um clube no primeiro ano de sénior, lavar o carro do treinador. E em metáfora disseste que não era mau para os miúdos aturarem os "velhos do Restelo" durante uma época. Na altura confesso que fiquei confuso. Hoje, percebo exactamente o que queres dizer. Não só em jogo, mas sobretudo no crescimento pessoal. Cada caso é um caso. E há quem defenda que os estímulos devam ser "iguais" de juvenis a seniores. Defendes que de forma geral, por forma a tornar a formação e aprendizagem mais rica, os jogadores não precisam de, para ter sucesso no ano seguinte, ter um estímulo ao máximo parecido no ano corrente? Ao nível de jogo, e de conforto.

Defendo que os estímulos tenham pontos comuns, mas também que quem os passa sejam pessoas diferentes. Por isso mesmo, por uma questão de perspectiva, porque nem sempre estamos certos e nem sempre errados. Ideias sempre as teremos, certezas das mesmas, nunca. Para mim, a forma de não arriscar nisso é tão simples como existirem personalidades diferentes (com uma linha de entendimento parecida) a lidar com os mais variados problemas. Dissecar tudo isto é tarefa impossível. Cada um terá sempre o seu 11. Mas, acima de tudo, defendo que o treinador deva ser alguém inteligente, que perceba não só o jogo, como a forma de o passar, assim como, e mais importante que tudo, a forma como essa mensagem está ou não a ser recebida.

Tenho para mim que isto no futebol não há fórmulas. Não há nada totalmente certo ou errado. Concordas que muitos dos "maus tratos" a que os miúdos são sujeitos no treino se devem ao sentimento de omnipotência por parte dos treinadores? Quando eras treinador, e não conseguias numa época fazer evoluir os jogadores tendo em conta uma qualquer dificuldade que eles tivessem, como te sentias?

Enquanto treinava, nunca consegui dizer que não tivessem evoluído. Até pelo que disse antes, com mais ou menos tempo, se os melhores estiverem a jogar a equipa evolui, as relações vão-se criando e o entendimento do “meu jogo conjugado com o teu” há-de aparecer (agora, a percepção “dos melhores” é que é já subjectiva, para mim pode ser um e para ti outro). Eu não era propriamente um treinador pouco exigente, dava tudo, mas também exigia muito. Penso, e quero acreditar nisso, é que não pedia nada que eles não pudessem dar. Por vezes, pedia até menos! E quando digo pedir refiro-me a tentar encontrar estratégias de desenvolvimento individual que se manifestassem no todo (na equipa). Volto a repetir, tudo é momentâneo, mas deve ser sentido não decorado.

Há uns meses tive uma discussão super interessante com outros treinadores. A questão era ao nível da intervenção e feedback do treinador. Tu pensas que devem ser sempre os jogadores a descobrir o caminho, certo? Mas, a aprendizagem não se faz só dessa forma. E não conseguimos, na minha opinião, dizer que um determinado tipo de aprendizagem é melhor e mais determinante do que outra. A questão foi, tu estás a jogar contra uma equipa que tem um guarda redes pequeno. Os teus jogadores não percebem que podem fazer golo fácil rematando a bola para cima. Tu avisas os jogadores, ou deixas que sejam eles a descobrir?

Sim os jogadores devem descobrir o caminho, ou melhor, devem interagir com ele. Em todos os grupos há sempre um mais inteligente e mais perspicaz. Esse vai perceber que o "GR é anão". Caso não aconteça podes fazer a conversa de forma a que ele se exprima, de forma a que seja ele a passar a mensagem e a que o compromisso seja deles e não somente contigo. Contudo, e principalmente na formação, tudo o que é em exagero, não é formar. Uma vez aconteceu-me isso. Num jogo, um livre a entrada da área, onde o GR adversário era pequeno. Todos queriam marcar e todos pediram (isso por si só deixou-me satisfeito), mas naquela altura se deixasse nas mãos deles (senti eu, não sei se bem se mal) poderia prejudicar o grupo (se falhassem culpar-se-iam uns aos outros). Então tive de intervir. Disse a um deles que a escolha era dele (curiosamente era o mais perspicaz, mais inteligente e com melhores decisões momentâneas, mas também o mais pequeno e aquele que menos força tinha, apesar de ter precisão). Ele, como é claro, escolheu-se a si. Na altura, o meu adjunto perguntou o porque de ser ele, se nem era o que marcava melhor. Respondi que o golo, na cabeça deles (porque já os conhecia bem) iria transmitir calma e confiança para abordar o resto do jogo. Também porque era esse o tipo de compromisso que pretendia que eles tivessem. Sorte a da equipa, pois apesar da precisão aquele era o único que não tinha força para falhar a baliza... “E o GR era anão!”. Isto não foi o golo a todo o custo. Mas, na verdade, alguém tinha que marcar o livre. Quanto ao feedback do treinador gosto que seja “sugestivo”. Prefiro que um jogador entenda os “porquês” do que apenas os consiga executar. Cheguei a errar de propósito. Fazer exercícios que não resultariam nunca, e como tinham liberdade para isso seriam eles a dizer que não percebiam ou não conseguiam. Quando acontecia isso era sinal que o jogo estava a ser sentido e não decorado. E eu dizia: “ Sim, o erro foi meu, não vosso. Ajudem-me então a mudar o exercício”. Pensa na quantidade de sentimentos e estímulos que estás a passar com esta frase. A questão é que os treinadores querem tudo para ontem, gostam das coisas feitas na hora, e no futebol, como sabemos, nem sempre é assim.

terça-feira, fevereiro 09, 2016

Uma só ideia ofensiva pela falta criatividade de quem joga

O maior problema é o ataque. O Sporting cria e não marca, muito por não ter a qualidade dos rivais. Muito pelas combinações ofensivas (decoradas) que o seu treinador trabalha, e sobretudo pela escolha dos interpretes para esse momento. Com Jesus, na frente, os melhores a interpretar o momento ofensivo não jogam sempre, e não jogam juntos. E essa escolha há anos que Jesus a entende da mesma forma. É preciso privilegiar jogadores com capacidade (física) para cumprir com os movimentos ofensivos, e as exigências defensivas, em detrimento de quem lhe pode oferecer maior qualidade no último terço pela criatividade. Por isso, Jesus perde. Ontem, mais uma vez de notar a falta de ideias quando a equipa passa por momentos onde o tempo escasseia. Individualmente os jogadores não se libertam da busca incessante por Slimani. Muito pelo sucesso que foram obtendo noutros jogos de contexto semelhante com essa mesma fórmula, e pela pouca criatividade que individualmente emprestam ao jogo. Seria de prever um crescimento do Sporting ao nível ofensivo, pela maior identificação dos jogadores com aquilo que o treinador pede. Com um maior conhecimento dos jogadores do que o colega consegue ou não fazer dentro das condicionantes que se treinam. Mas, pela força do vício, e pelo perfil do jogador que se escolhe, o lance acaba sempre na procura da cabeça milagrosa. Para tal não acontecer é preciso juntar no onze os melhores intérpretes para o momento ofensivo, onde a equipa tem a bola. As melhorias do Sporting acontecem quando Teo e Slimani deixam de jogar juntos. Quando Ruiz é colocado no corredor central. Quando Matheus,  Bruno César, ou Mane combinam com João Mário. Sendo que Slimani não tem discussão, a melhoria surgirá de quem joga mais próximo dele.

Alan, dá para dares um toque ao Jesus? 




sexta-feira, fevereiro 05, 2016

Pensamentos matinais

Futebol é um jogo...

Em que ganha a equipa que marca mais golos.
Para marcar golos, a bola tem de passar a linha de baliza.
Para marcar golos, eu TENHO de ter a bola (quase sempre).
Se eu não tiver a bola nunca, nunca vou marcar...

Da mesma forma que quando não tenho a bola, não marco, se o adversário nunca tiver a bola, nunca vai marcar um golo.
Então, eu QUERO ter sempre a bola.
Por um lado, porque só assim marco golos.
Por outro, porque assim não sofro golos.

O jogo de futebol passa sempre por ter a bola.
Por tratá-la bem, por gostar de estar com ela, por correr com ela, por dá-la aos meus amigos.
Como é que, se a bola é tão importante, há quem imagine o jogo a tocar o menos possível na mesma?

Se calhar jogaram sempre com uma bola de picos...


PS: Não vi o Real do Zidane com muita atenção. Mas queria agradecer ao Zizou, porque dos poucos momentos que vi a equipa, o Isco estava em campo. E se há jogadores que refletem a maneira de pensar do blog, o Isco é um deles.