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quinta-feira, dezembro 10, 2015

A estratégia, o mérito, e a esquizofrenia em que o futebol ainda vive

Se o futebol,  que adora ironia, tem premiado com a vitória e consequente passagem à fase seguinte a equipa do FC Porto, ficaria nas bocas do mundo o banho táctico e a genialidade de Lopetegui na estratégia que montou para Londres. O mundo do futebol é mesmo assim. Esquizofrénico. E teima em avaliar cada acção pelo resultado dela e não pela percepção do seu sentido, ainda que cada acção dependa de inúmeros imponderáveis que raramente são equacionados. No futebol, esquizofrénico, a equação é do mais simples que há: ganhou, génio ; perdeu, fraco. O mérito que o futebol continua a atribuir à todo tipo de estratégia, sem raciocinar sobre o aumentar ou reduzir da probabilidade de correr bem ou mal, é a maior prova de que há muito pouca gente a pensar verdadeiramente o jogo. A gente, a nossa gente do futebol, confunde a possibilidade de correr bem ou mal com a probabilidade. E é por isso, e isso só, que interessa apenas o resultado final, para que não se tenha que pensar muito sobre o que se passou, ou pode passar,  em campo. 

Ontem, a estratégia vulgar e bem conhecida no mundo do futebol,  que tantas vezes foi elevada à condição de génio, foi utilizada por Lopetegui e falhou. E também Lopetegui parece confundir possibilidade com probabilidade. Havia possibilidade de correr bem, mas tal não significa que a probabilidade de ganhar fosse maior que a de perder ou empatar. O Porto entrou num 5-3-2 que nunca havia tentado antes. Lopetegui justificou a estratégia pela surpresa que iria causar no Chelsea, para parar a sua transição ofensiva, e ser o Porto a sair em transição. O que Lopetegui não pensou foi que, se o Chelsea marca primeiro, toda a estratégia trabalhada durante a semana cai. E depois? Se sofre um golo no primeiro ou segundo minuto, por mérito ou não do adversário, ficam 89 minutos (ou pelo menos 44) onde a equipa fica perdida sobre a estratégia trabalhada e sem saber como se adaptar a essa mudança que o jogo pode trazer. O que vai na cabeça de um treinador quando desenha uma estratégia que pode morrer no primeiro minuto de jogo?  Nas suas palavras, e nas palavras dos jogadores, percebeu-se o falhanço de uma estratégia por o jogo ter seguido um rumo normal - golo sofrido. Que raio de pensamento estratégico é esse? Podemos ir mais além e dizer que, Lopetegui não pensou que colocar mais gente atrás para parar a transição ofensiva do Chelsea não lhe ia nunca conferir possibilidade de sair em transição como queria, porque o Chelsea não se expõe a isso. Está muito habituado a atacar sem riscos, e como tal, num jogo desta natureza e desta importância, muito dificilmente se deixaria surpreender e meter muitos à frente da linha da bola descurando os espaços atrás. Podíamos ainda pensar que, mesmo conseguindo sair, o Porto tinha tão poucos à frente que muito dificilmente conseguiria ter êxito na transição ofensiva. E por último, dizer que, Lopetegui achou que para ganhar ao Chelsea deveria jogar como o Chelsea joga há três anos, num sistema de jogo diferente do que utiliza ou utilizou até ontem, e não como o Porto tem jogado desde que ele é o comandante da equipa. E só por aí se percebe o pouco valor da estratégia, ao submeter os seus jogadores a um tipo de jogo, a um tipo de problema, a uma necessidade de dar respostas, que não conhecem. 

O Chelsea é uma equipa permeável em organização defensiva, que deixa muito espaço à frente da linha defensiva, e que é muito pouco agressiva sobre a bola. Como se viu ontem, o Porto recebeu e enquadrou sempre com facilidade atrás da linha média, e conseguiu o primeiro desequilíbrio individual. Faltou sempre gente na frente, à frente da linha da bola,  para dar continuidade aos desequilíbrios de Brahimi e Corona, e depois criar reais possibilidades de finalizar. E por aí, por ter mais gente atrás, e ainda menos à frente do que o habitual, se percebe que a estratégia foi desenhada para não sofrer, e não para marcar como o jogo o exigia. Lopetegui esperou pelo milagre que o futebol teima em premiar, que o público geral insiste em exaltar, mas o milagre não veio e caiu. E hoje se o público crítica é porque perdeu.

16 comentários:

Mike Portugal disse...

"O que vai na cabeça de um treinador quando desenha uma estratégia que pode morrer no primeiro minuto de jogo?"

Esta pergunta deveria ser feita a todos os treinadores da 1ª liga, pois é assim que a maioria funciona quando joga contra os grandes.

JON disse...

Excelente Blessing. É isso mesmo.

Estou farto de dizer isto... o futebol são as ideias e a organização, não os resultados.

Ricardo disse...

A chave não estará também no facto de esta ter sido uma tática (três centrais, sem ponta de lança fixo/verdadeiro na frente) nunca antes experimentada por Lopetegui? É que, de domingo a terça, não creio que se consigam criar dinâmicas suficientes para que a coisa resulte. E esse tem sido o grande defeito de Lopetegui: ele parece mudar de tática/estratégia como quem muda de camisa. Deste modo, é difícil criar os tão famosos "automatismos".
Não sei se é isto ou não. Se me puderem elucidar melhor, agradeço.

Honoris disse...

Mesmo que o Chelsea n tivesse feito o golo cedo, era o Porto que tinha que procurar marcar. O Lopetegui, ao apresentar aquele 11 deu a ideia que era o Chelsea que tinha que procurar ganhar o jogo

RS disse...

O porto não entrou em 5-3-2. Entrou com a mesma disposição de sempre, 4-3-3, com um central a fazer de lateral (Indi), um lateral a fazer de extremo (Layun) e um extremo a fazer de ponta de lança (Brahimi).

Se bem que há jogadores que andam ali, que coitados, nem se percebe bem o que andam a fazer (Herrera e Imbula andaram a apanhar papéis o jogo todo).

Blessing disse...

Honoris, sim. Como está no texto.

RS, não só vi no jogo, como depois Lopetegui o disse na conferência de imprensa. Layun foi lateral esquerdo na primeira parte, e lateral direito quando saiu Maxi. É só olhar para o Indi, e ver o que fez em termos de posicionamento o jogo inteiro. Igual à Maicon. Central.
Quanto ao Brahimi, também se viu no jogo, e também Lopetegui te desmente. Foi extremo, como é sempre. O objectivo, diz o espanhol era tirar referências aos centrais do Chelsea.

disse...

Corrijam-me se estiver errado, mas o FCP estava obrigado a vencer o jogo (contando que o Dynamo ganhava), certo?

Se sim, só torna tudo muito estranho...mudar quando precisa de ganhar?!?!

RS disse...

Desculpa insistir Blessing, mas ao ver o jogo não fiquei com essa impressão.
Agora fui ver o resumo e por exemplo no lance do primeiro golo do Chelsea, na recuperação defensiva do Porto vê-se uma linha de 4 com o Indi lá na esquerda, o Maxi do lado direito e os centrais no meio (screenshot aqui: http://imgur.com/VOG6Rnp). Contudo, no segundo golo do Chelsea já é o Layún que vai a correr atrás do Willian, com o Indi no meio. Por isso realmente não sei.

Isto é dinâmico e tal, mas não sei até que ponto o que o lopetegui disse que queria (o tal 5-3-2), não foi uma coisa que por vezes foi "esquecida", por falta de automatismos dos jogadores.

Martelo Pneumático disse...

Pelo menos em organização defensiva era 5-3-2 claro.
Mais que os números, para travar a transição ofensiva do Chelsea acho que era importante ter uma transição defensiva com processos bem consolidados. Não sei como se quer defender a transição ofensiva do adversário com um trio de médios que não reage à perda da bola e que falha repetidamente posicionamentos defensivos (se é que os há). Isto com Neves e Evandro no banco!
Está visto que a boa reacção à perda do ano passado devia muito à qualidade individual dos jogadores. Hoje em dia, a única coisa que o Porto faz bem colectivamente é trocar a bola na 1ª fase de construção. Para criar, é rezar a S. Brahimi e Corona (quando joga).

Edson Arantes do Nascimento disse...

JON - Estás farto de dizer isto?? Sobre o Lopetegui?

É mentira. Tu defendeste sempre o Lopetegui e até dizias que as críticas que se iam fazendo ao seu modelo de jogo eram injustas. Sejamos sérios.

RS disse...

Martelo Pneumático: "Hoje em dia, a única coisa que o Porto faz bem colectivamente é trocar a bola na 1ª fase de construção. Para criar, é rezar a S. Brahimi e Corona (quando joga)."

E se trocarmos aí os dois nomes do fim por Pizzi e Gaitan dá igual

Manuel Nascimento disse...

Boa. Bom texto.

a pessoa disse...

Edson,

Eu disse que estou farto de dizer isto mas é relativamente a o que interessa serem as ideias e a organização, não os resultados em si, que podem depender de várias coisas.

Quanto a defender o Lopetegui, defendi com reservas mediante duas coisas: 1) contigo discuti, se bem me lembro, a seguir aos 0-2 do Benfica no Dragão, em que o Jesus foi um cagão e teve a sorte do jogo, e Lopetegui apresentou ideias limitadas mas muito diferentes das actuais; 2) esperava evolução das ideias, sobretudo na segunda época, e o que se vê hoje é atroz, e não é só por ter piores jogadores face ao ano passado (veja-se a transição defensiva, por exemplo).

Aliás, se há alguém que defendeu várias vezes o Lopetegui foi o Blessing, que inclusive dizia que na segunda época, com ideias mais maturadas, o futebol do FCP ia melhorar face ao ano passado. Eu, como portista, fui muito no wishful thinking... Mas houve uma clara regressão. Acho aliás que Lopetegui faz questão de contrariar qualquer lógica.

Btw, quem quiser que se divirta:

http://onzeviolinos.blogspot.pt/2015/12/chelsea-fc-2-0-fc-porto-um-filme-de.html#more

Zizou disse...

Desculpem o Off-Topic, mas achei extremamente interessante: https://www.youtube.com/watch?v=Rio7MaLeEn0

Nada do que aconteceu na carreira de JJ depois desta fase foi por acaso.

Por mais debilidades em termos de perfil que tenha, é um grande exemplo de superação e de muito trabalho.

Do ponto de vista técnico e tático chegou muito longe e com um nível de competência extraordinário. E no final do dia, mesmo que a maioria não perceba, isso é o mais importante.

Abraço.
Zizou

POdA disse...

Para responder ou criar aqui uma pequena ligação entre os comentários do RS e a publicação do Blessing vou tecer a minha primeira opinião no blog, apesar de já o acompanhar há bastante tempo.

Evidente a entrada do FC Porto em 5-3-2 que pretendia desdobrar num 3-5-2 com os alas em maior profundidade, no entanto, foi totalmente fraca a dinâmica apresentada pela equipa. Ideia fraca e patética.
Tão fraca, que a melhor forma que estes encontraram para progredir no terreno foi em condução de bola e nunca através do passe vertical (condução muitas vezes feita por Layún).

Esta falta de dinâmica e necessidade de condução de bola desde trás, originou muitas vezes que os laterais chegassem atrasados à sua função defensiva e dessa forma acontecia exactamente o que o RS diz ter visto, com o Indi a ter que cair em dobras constantes sobre o lado esquerdo da defesa.

Aliás, é numa das arrancadas de Layún que acaba por acontecer o 1º golo do Chelsea.

Má transição defensiva do FC Porto e a defesa aos papéis novamente, sem noção de encurtamento de espaços horizontais (no golo, Indi encontra-se quase colado a Willian em vez de fechar, e Layún está a fazer a função do PL em pressão).

FC Porto com no seu sistema táctico habitual poderia ter incomodado muito mais o Chelsea do que com esta ideia que mostra a incoerência de Lopetegui. Admite que a estratégia foi por água a baixo com o golo do Chelsea, mas não mudou nada durante 45 minutos.

A melhor parte da estratégia de Lopetegui? Conseguiu tirar as tais referências aos jogadores... Pena que tenha sido aos jogadores do FC Porto.

Cumprimentos a todos.

Blessing disse...

Ya. Eu é que o defendia. É verdade :)