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segunda-feira, agosto 17, 2015

Um jogador vai mais depressa. Dois jogadores vão mais longe.

Aproximar ou fugir do colega?

O futebol para mim sempre foi um jogo de associações. Com mais ou menos jogadores, sempre pensei que a melhor forma de resolver os problemas que o adversário nos coloca do ponto de vista defensivo é procurar um colega que dê seguimento ao nosso jogo. É por essa razão que me associei ao Ronaldinho, e é por essa razão que ainda hoje comandamos juntos a mesma equipa. É por pensar que dois chegarão mais longe e em melhores condições, apesar de um poder chegar mais depressa. Eu passava-lhe a bola, e esperava por ele. Ele passava-me a bola e esperava por mim. Se eu lhe desse, e me movimentasse, sabia que iria receber. Se ele me desse, e se movimentasse, também sabia que iria receber. E assim conseguíamos ultrapassar  linhas, e superar adversários superiores do ponto de vista individual e numérico. O movimento de aproximação levará a que mais um adversário tenha possibilidade de interferir no lance. Mas estando o colega abandonado contra a bola, o relvado, o adversário, o público, a pressão, a baliza, e contra si mesmo, o melhor será procurar associar-se a ele para dividir o problema, e sobretudo para lhe dar mais uma possibilidade de o resolver. O que mais se vê em Portugal é colegas a fugirem do portador da bola com o intuito de lhe dar espaço, não sobrecarregando a zona com mais jogadores adversários. No fundo, o que se está a promover é a fuga à solução colectiva. Parece-me uma opção contraditória para o jogo em questão.
Se há coisa que Guardiola nos ensinou é que Messi só é Messi porque os colegas procuram sempre oferecer-lhe mais uma linha de passe. Mais uma alternativa para se desembaraçar do adversário. E Messi, por ser Messi, não se nega a entregar porque percebe que de seguida receberá em melhores condições para dar seguimento ou finalizar. E dessa forma, a tabelar, dois jogadores, ainda que em inferioridade, estarão sempre mais perto de criar superioridade. Deixar tudo dependente da qualidade de um só elemento será sempre muito mais difícil, por mais forte que ele seja do ponto de vista individual. Aproximar do colega para dar seguimento. Associar, dividir, retirar complexidade. Ajudar o jogador a ser melhor. E se Messi é o melhor é por perceber melhor que ninguém o valor de uma associação, por mais pequena que ela seja - apesar de todo o potencial individual que ele tem.

Grande jogada de Messi. Não. Grande jogada de Messi e mais um.

Agradeço ao Mister Fernando Valente por estes dias de partilha e reflexão, e sobretudo pelo entusiasmo contagiante com que fala de futebol. Um abraço!

7 comentários:

Dennis Bergkamp disse...

Muito isto.

Ronaldinho disse...

Dois conseguem criar superioridade, mesmo que estejam em inferioridade!

Muito obrigado mister, foi um grande prazer!

André Rijo disse...

Muito muito bom malta. Parabéns

Blessing disse...

obrigado Andre.

Dennis, Gaucho :)

Celso Araujo Martucho disse...

Parabéns foi dos textos mais inteligentes que ja li.
E retenho isso na qual pensarei sempre
Um vai mais rapido, dois vão mais distante.

Artur Semedo disse...

pegando apenas nos cinco minutinhos que ouvi... como é que podemos ter equipas que se limitam a "tirar do lance", quando parece que os jogadores têm medo da bola? eles não a amam, não a acarinham, limitam-se a despachá-la, qual batata quente, e a obedecer aos ditames dos treinadores e dos lugares-comuns. julgo que disseste, ainda no estádio do mar, que tinhas a certeza de que um certo jogador sabia que não conseguiria fazer um certo passe e, no entanto, fê-lo na mesma. porquê? talvez porque, tendo inicialmente visto o movimento do colega, mesmo depois de ter perdido as condições ideais, bloqueou na necessidade de fazer X; medo da reprimenda do colega e/ou treinador? incapacidade de reanalisar contextos rapidamente? medo de continuar com a bola no pé e observar novamente e optar por outra coisa qualquer?
como é que se treina a agilidade de pensamento? talvez seja, realmente, necessário começar por tornar a bola num corpo entranhado e não estranho ao próprio corpo, para que ela deixe de criar uma tensão desnecessária que obnubila tudo o mais...

Artur Semedo disse...

http://www.slideshare.net/Kieran85uk/rondos-how-to-use-spains-secret-weapon