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quarta-feira, agosto 19, 2015

Modelo de jogo. Hierarquização dos princípios de jogo. Jorge Jesus.

Cada treinador tem a sua forma de operacionalizar a sua ideia de jogo, e com isso de escolher os princípios que treina em primeiro lugar e mais vezes - os mais importantes -, e os que treina em segundo lugar e não tantas vezes - os menos importantes. O treinador exige mais daqui e menos dali. Pede mais foco para determinadas situações e desliga mais de outras. Passa mais feedback para a acção X e menos para a acção Y. E dentro disso vai evoluindo mais a sua organização colectiva num sentido e menos noutros. O que mais se exige aparece mais depressa, o resto vai aparecendo de forma gradual. Jorge Jesus, como treinador de grande nível que é, tem bem definido o que quer, quando quer, e como quer. Para o ataque e para a defesa. Para cada uma das onze posições em campo. Sabe do que quer abdicar, e sabe o que é realmente importante para ele. E por isso, na hora de escolher o seu plantel, de escolher o seu onze inicial, coloca os jogadores a competir dentro daquilo que é a exigência dele. E o que Jesus mais exige aos seus jogadores é a velocidade a que se cumprem os movimentos ofensivos e defensivos. É uma exigência mental primeiro, mas depois da percepção do estímulo sobretudo física. Com ele, os mais rápidos a ocupar os espaços, os mais agressivos a atacar as linhas de passe que ele quer, vão jogar mais vezes. Os mais fortes a atacar a primeira bola, os mais agressivos no 1x1 (ofensivo ou defensivo), os que jogam constantemente em alta rotação, serão quase sempre os escolhidos. As primeiras escolhas dele, assim possa escolher, estarão sempre dentro destes parâmetros. Dessa forma, Jesus vai desenvolvendo o seu jogar de qualidade onde a exigência física é fundamental para a concretização da sua ideia de jogo.

Porém, cada convicção, cada exigência, tem também o seu lado negativo. A maior exigência física, a maior agressividade, que se pede por exemplo para os dois avançados, tem estado a resultar num futebol de menor qualidade no corredor central. A ligação com o apoio frontal, na construção e sobretudo na criação, com Teo e Slimani deixa muito a desejar. Os envolvimentos ofensivos, as tentativas de tabelar, o jogar ao primeiro toque, o segurar e depois tocar ou deixar o colega levar, o entregar para o sítio certo e da forma correcta, são coisas que dificilmente passam da intenção.  Os jogadores bem o procuram, mas os lances dificilmente têm seguimento. A bola nunca chega redonda, e resulta muitas vezes na perda da mesma, e mais trabalho em transição defensiva. Quando a recepção e o passe não entram, em conjunção com uma tomada de decisão não muito acertada, torna-se difícil ter qualidade no último terço. Jesus prefere a agressividade ofensiva e defensiva de Teo e Slimani, e por isso perde qualidade na ligação com os avançados. Hierarquizar é isto. Colocar os jogadores a competir naquilo que se acha o mais importante. Assim sendo, terá de trabalhar muito mais para criar lances de finalização, e para recuperar as bolas que se perdem. Isto porque, por mais que o seu modelo permita aos seus jogadores crescerem, na qualidade técnica e na criatividade não os conseguirá melhorar em nada.

6 comentários:

hra disse...

Acho que abriste a caixa de pandora para os que não compreendem estas opções.

Blessing disse...

para os outros lá chegarem, têm de competir no que o treinador considera mais importante... otherwise, não vão nunca passar de segundas opções. Vamos ver se Montero consegue lá chegar.

DM disse...

Por isso é que o Teo chegou e passou à frente do Montero. Só que muita gente ainda não percebeu o óbvio que está comentado neste post.

Miguel Pinto disse...

Estou de acordo com o post. A prova disso mesmo foi o jogo contra o cska em que alguns jogadores mostraram, frente a uma equipa mais rotinada que slb e tondela, dificuldades em jogar de acordo com essa ideia de jogo do jj. A partir dos 25 minutos assistimos a muitos erros não forçados por parte dos jogadores do scp o que demonstra a meu ver algum desgaste mental. Como dizes no post, é preciso estar bem preparado para responder positivamente à exigencia de jj. A velocidade do passe já não era a mesma, o posicionamento também estava a ficar um pouco anárquico e o jogo passou a ser um pouco mais repartido. O cska apenas aproveitava a falta de clarividência da organização ofensiva do scp. Continuo a pensar que será uma questão de tempo até os 3 que entraram jogarem de início. Têm mostrado (menos o aquilani que só agora se estreou e bem) que conseguem estar ao nível dos outros e serem muito mais difíceis de controlar por parte do adversário. A sua mobilidade poderá ser um factor decisivo para a sua integração no modelo de jogo que jj preconiza. Montero também entrará neste grupo se o tal jogo frontal tiver outros intérpretes porque jogando ruiz e téo, dificilmente jj abdicará de slimani.

Abraço

scape disse...

bem escrito, mas parece que qualquer treinador prefere os mais aptos a esses niveis todos. Jogador alto, rápido (deslocamento e decisão), agressivo com e sem bola...etc quando tem jogadores que têm mais valias num sentido e perdem noutro, é que acaba por adaptar parte da sua organização aos mesmos (cardozo - Lima diferente de Lima - Rodrigo).

parece-me que em termos ofensivos não perde por falta só de qualidade, perde sim por falta de tempo de treino e evolução da equipa em termos coletivos, fruto do tempo de treino que exige o Processo Ofensivo.

JVB disse...

Sem dúvida, este é o problema do scp. A qualidade técnica de slimani e, por ex, de adrien, têm criado perdas de bola que expõem a equipa. Espero bem que o montero consiga la chegar.