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sábado, julho 04, 2015

Treinos de início de época

Entre muitas questões que surgem sobre o treino, o início dos trabalhos assume especial relevância pelas circunstâncias em que permite preparar melhor a competição, havendo muito espaço para o erro. Muita coisa é dita, feita, copiada. Muita coisa é criticada, novas teorias lançadas, teorias recicladas discutidas. Uns surgem em oposição aos outros, e poucos a pensar no realmente é melhor para si. Isto é, quase tudo do que se fala é para o alto rendimento. Para quem vive exclusivamente do, e, para o futebol. E para a realidade da esmagadora maioria dos treinadores nacionais, que treinam sem as mesmas condições dos profissionais? O que fazer com o limite de espaço que nos é imposto? Com o número de jogadores que nos é permitido ter? Com a falta de continuidade que o número de treinos provoca? Com o reduzido volume que o número total de sessões até ao início da competição tem? Com o tempo que nos é permitido treinar? Com o facto de lidarmos com jovens amadores cujo o futebol não é a principal actividade, e por isso que chegam ao início dos trabalhos num estado físico miserável? Eu trabalho nessa realidade... E em todas as épocas sem excepção - e esta é mais uma delas - um desafio novo ao nível da operacionalização surge.

Como é que vou trabalhar naquele espaço, com aquele número de jogadores?

Qual é o número de jogadores ideal para trabalhar naquele espaço, com aquele material, em determinado escalão?

Com aqueles jogadores, que ideias de jogo lhes vou tentar passar, e de que forma, para que melhorem rapidamente o seu rendimento - para que evoluam e se desenvolvam mais?

Dessas ideias, o que treinar em primeiro lugar?

Com o tempo que tenho disponível em cada treino, como organizar cada sessão?

Em termos de progressão, qual o melhor seguimento a dar?

Que estímulos devem estar presentes no ano inteiro ao nível de treino, e que estímulos devem aparecer, desaparecer, e voltar a aparecer?

Mais do que as respostas importa reflectir sobre as perguntas na realidade de cada um. A nossa abordagem tem ido no sentido de tentar melhorar primeiro as condições que os jogadores têm para aguentar o treino, para que possam adquirir melhor - com o discernimento necessário - os comportamentos que lhes vamos passar. Ou seja, nos primeiros 5 treinos os exercícios são muito gerais, e solicitam sobretudo as capacidades físicas. Exercícios em situação de jogo, é certo. Mas quase sem especificidade do modelo de jogo. Isto porque nesta fase, tendo em conta as experiências que tivemos, os jogadores não nos chegam em condições de aguentar um exercício de treino, quanto mais um treino inteiro aquisitivo. Se fisicamente não existir uma base que lhes permita resistir, ao treino, não a vale a pena lhes tentar ensinar nada que eles não vão ter a frescura mental para tal. Nos treinos que se seguem é sempre o mesmo: treino aquisitivo, treino aquisitivo, treino aquisitivo, jogo, treino correctivo, treino aquisitivo e/ou correctivo, treino aquisitivo e/ou correctivo, jogo...

8 comentários:

Blog de Portugal disse...

Boas perguntas. Muito poucos refletem como vocês, e é um luxo partilharem essas reflexões.

Contudo, é fácil de ver que 5 treinos não resolvem o problema. 5 treinos é melhor que 0 a solicitar as capacidades físicas. Mas é só um pouco de remédio para solucionar o problema. Lá está, é o que é possível fazer, sem tirar prioridade ao que é realmente importante.

Jorge disse...

Questoes muito relevantes.
Sendo um treinador amador de um grupo algo heterogeneo de jogadores nao sei bem como e quando incorporar aspectos puramente fisicos ou tecnicos no treino.
Concordo com a enfase em treino com bola em contexto de jogo, mas noto que os jogadores mais fracos quer tecnica quer fisicamente tendem a nao se envolverem intensamente talvez por se sentirem um pouco intimidados ou simplesmente por preferirem deixar os outros trabalharem, contentando-se por darem uns toques aqui e ali. Isso por vezes leva a situacoes em que esses jogadores perdem qualidades fisicas, tecnicas e de percepcao de jogo (em vez de ganhar) levando-os a envolverem-se ainda menos, numa espiral que os podera levar a abandonar a modalidade.
Talvez esta pre-epoca (duas semanas em Agosto com 2 ou 3 treinos por semana e muito calor), dependendo da condicao fisica dos jogadores, comece os treinos com exercicios puramente fisicos seguidos de jogos 3v3, 4v4. Eu gostaria de fazer somente jogos com bola, mas e mesmo dificil por alguns dos jogadores a mexerem-se o necessario para que evoluam nos varios aspectos do jogo.

Filipe Martins disse...

Acho que era importante referir a idade dos jogadores em questão, pois muitos jovens até aos 14 15 anos passam o verão inteiro a jogar a bola, chegando aos treinos, fisicamente igual ou melhor do que terminaram.

Em relação ao modelo de jogo, se assentar em principios, não vejo necessidade de na primeira semana carregar fisicamente, (e com isto estou a pensar em exercicios de 1x1 2x2 3x2 etc e por ai fora com muito espaço ou talvez não) e nas próximas semanas pensar em treino aquisitivo e correctivo até porque não consigo dissociar o aquisitivo e o correctivo numa sessão de treino. Acho que em relação ás questões o post foca algumas dificuldades que os treinadores passam, mas em relação á sugestão não estou de acordo até porque são necessários 30 dias para que se possa verificar alguma diferença na forma fisica dos jogadores, (acho que todos concordamos neste ponto fisiologicamente falando) e dessa forma o que foi dito deixa de fazer sentido. "Aguentar um treino aquisitivo"? o que é isso? Treino correctivo? Gosto do Blog mas este post parece um bocado ao lado do que se tem aqui falado.

Roberto Baggio disse...

"até porque não consigo dissociar o aquisitivo e o correctivo numa sessão de treino."

Cada um é como cada qual.

" mas em relação á sugestão não estou de acordo até porque são necessários 30 dias para que se possa verificar alguma diferença na forma fisica dos jogadores, (acho que todos concordamos neste ponto fisiologicamente falando)"

Não. Nessa estamos completamente em desacordo.

""Aguentar um treino aquisitivo"? o que é isso?"

é qualquer coisa como não estar sempre em esforço, por forma a que se tenha frescura suficiente para evoluir nos comportamentos pretendidos. que são mentais. Sem oxigenação tal não é possível.

"Treino correctivo?"

O nome diz tudo. correcção de comportamentos que não saíram no jogo como tinham sido idealizados.

Filipe Martins disse...

"Cada um é como cada qual"
Concordo.

"Não. Nessa estamos completamente em desacordo"
-Preciso de um argumento que explique o porquê do desacordo, qualquer coisa estudada, um fundamento ou é conhecimento empirico?

"é qualquer coisa como não estar sempre em esforço, por forma a que se tenha frescura suficiente para evoluir nos comportamentos pretendidos. que são mentais. Sem oxigenação tal não é possível"
- Ou seja estar cansado nas pernas não permite decidir melhor na cabeça? Se o meu coração bater a 160 bpm vou decidir melhor do que a 180bpm? é isso?

"O nome diz tudo. correcção de comportamentos que não saíram no jogo como tinham sido idealizados."
-Percebo o que queres dizer. Apesar de continuar a discordar. Pois se em jogo os comportamentos não surgem é porque não foram adquiridos e dessa forma o treino correctivo deixa de fazer sentido, no fundo é outra vez aquisição, ou não?

Como trabalhamos de forma diferente, e o conceito aquisição para mim é fazer algo que não fazia. Um treino aquisitivo na minha forma de pensar é um treino onde eu vou fazer mudar comportamentos, imediatamente. Não concordo com isso pois para adquirir algo é necessário aprender, desenvolver, consolidar e esquecer. Gostava de um exemplo mais prático, ou uma descrição de um treino aquisitivo, outro correctivo, e outro físico, com exercicios e descrição, para tentar perceber do que falas, e assim poder continuar a trocar ideias aqui no blog.

Cumprimentos Sr Baggio

Roberto Baggio disse...

1- Argumentos científicos é com os gajos académicos, consagrados. Por exemplo, não preciso de nenhuma ciência para perceber se os jogadores estão felizes ou tristes. Assim como não preciso dela para saber se estão mais ou menos cansados. Portanto se estás a procura de estudos, estás a estudar no sítio errado.

2- Ou seja, estar muito cansado das pernas não permite utilizar o cérebro de forma adequada. Não permite, no fundo, concentração. E também não é preciso ciência, e estudos para perceber isso. Uma observação dos jogadores nessa situação basta.

3- correcto. Mas há aí uma subtileza que se chama o que eu escrevi. Se reparar, não escrevi que não surgiram. Escrevi qualquer coisa como, não surgiram como foram idealizados. Há uma pequena diferença entre os dois.

4- E não tenho mais nada que fazer, se não fazer exercícios de treino para ti?
As coisas são simples, cada um tem os seus conceitos. Cada um tem o seu entendimento. Eu tenho o meu, e você o seu. E por isso, eu posso chamar batatas fritas à defender zona que a nomenclatura é minha, e o blogue é meu. Por isso, não entendo que alguém chegue a dizer "isto é fora do que se faz", mostrando que não leu 20% do que aqui foi escrito.

Abraço caro Filipe Martins

Filipe Martins disse...

"E não tenho mais nada que fazer, se não fazer exercícios de treino para ti?"
- Acho que para tirar duvidas bastava um exemplo, uma situção. Ou então um novo post que falaria sobre o que é o treino aquisitivo e o correctivo. Mas és livre de escrever o que quiseres, e eu não tenho que exigir o que quer que seja de ti. Quem sou eu para te obrigar a escrever sobre um tema numa coisa que é tua?

"E por isso, eu posso chamar batatas fritas à defender zona que a nomenclatura é minha, e o blogue é meu."
-Poder podes, mas depois ninguém sabe do que estás a falar e torna-se confuso para quem lê, e se o objectivo é partilhar ideias e mudar comportamentos fica mais dificil, eu estar a falar em "ovos" e ter respostas sobre "automoveis".

""isto é fora do que se faz""
-Correcção:"Gosto do Blog mas este post parece um bocado ao lado do que se tem aqui falado"

- Talvez por ser a 1ª vez que leio no blog sobre treino aquisitivo e correctivo tive (e tenho) algumas duvidas e procuro saber mais da tua forma de pensar. Não penses que estou a escrever para retirar qualquer mérito ao que fazes, mas sim tentar perceber o que fazes e o que te leva a acreditar nesses conceitos. Nada mais, cumprimentos

Ps:li mais que 20% ;)

Roberto Baggio disse...

Está tudo escrito, e bem escrito. No artigo, e nos comentários.