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segunda-feira, fevereiro 16, 2015

Treino. Tomada de decisão. Enganar o adversário. Percepção do contexto.

Muito tem sido escrito aqui e no Lateral Esquerdo, sobre a importância, no futebol jovem, de serem os jogadores a seleccionar o caminho, sem que o treinador intervenha no processo de decisão dos mesmos. Poderá isto parecer que se está a dizer que no treino o treinador não têm qualquer tipo de relevância para a evolução do atleta, e que se pode deixar os jogadores treinarem livremente sem qualquer tipo de intervenção. Não é bem isso o que se pretende passar. O conceito é difícil de entender, eu sei, mas muito importante que seja entendido por qualquer treinador de jovens jogadores.

É importante que se perceba que a tarefa fundamental de um treinador de jovens é desenvolver qualidades técnicas e físicas, e ajudar o jogador a descobrir o caminho. Isso pressupõe que não sejam os treinadores a fazer o mapa, mas sim que ditem as regras de acção - constrangimentos - para que o jogador descubra determinado tipo de comportamentos. Depois, na dificuldade, caso as regras não cheguem, ajudar o jogador a perceber a informação que o contexto lhe dá, e com isso esperar que a seu tempo ele descubra o seu caminho. O exemplo no vídeo de Nasri é bastante esclarecedor, vejam. Imaginemos que o objectivo seria fazer o jogador descobrir formas para criar situações de finalização em superioridade 1x0, 2x1, 2x0, etc. Cria-se o exercício em superioridade para facilitar a aquisição do comportamento, e o volume de acções do tipo que se quer, uma forma jogada em espaço reduzido, e deixa-se os jogadores jogar.
Imaginem que o treinador dita: Em superioridade temos de conduzir para cima do adversário, ou do espaço, fixar um ou mais elementos e soltar nos colegas que ficaram livres. Não estará o treinador desta forma, a dar a resposta antes de fazer a pergunta? E o que é que os jogadores aprendem dessa forma? Imagine-se um aluno de Matemática, o professor chama-o e diz-lhe 1+1=2. De seguida vem outro professor e pergunta-lhe quanto é 1+1? E ele responde. De imediato surge outra questão, por que é que 1+1 são 2? E ele responde, porque o professor disse... Com o treino, no futebol, é o mesmo. Para que exista aprendizagem não se podem procurar atalhos, é preciso obrigar os jogadores a pensar, e tornar a tarefa rica e complexa, para o nível dos jogadores em questão.

Num exercício deste tipo, para que se estimule a criatividade e a multiplicidade de soluções, procuro em primeiro lugar deixar os jogadores criarem livremente. E assim que existam lances que considero erros, interromper e ajudar os jogadores todos dentro do exercício a perceber o que falhou, na análise do contexto:

- O adversário estava fixo, com os apoios mal orientados?
- Havia espaço nas costas da defesa passível de explorar sem que o GR intervenha?
- Havia espaço para conduzir?
- O adversário saiu na bola, ou fechou as linhas de passe?
- No 1x1, como estava orientado o corpo, apoios, do adversário?
- Se fosses para ali o que achas que acontecia?
- Se passasses para lá, o colega ficava melhor que tu?
- Onde é que era preciso dar linha de passe? Porquê?

São estas algumas das pequenas questões que costumo utilizar - uma de cada vez - para guiar os jogadores durante o seu processo de aprendizagem. E Nasri, como criativo que é, percebeu perfeitamente e fez uma leitura fantástica do comportamento do adversário antes de tomar a sua decisão. No momento em que o adversário tenta adivinhar o passe, e vira o apoios para cair em D.Silva, Nasri fica com o caminho livre para o remate, e assim o faz.

11 comentários:

Dennis Bergkamp disse...

O verdadeiro desafio é tentar ser um catalizador de aprendizagem, mas sempre no sentido de lhes ajudar a construir uma cana para que eles pesquem sozinhos.

Temos é de os ajudar a perceber quais são os melhores materiais, qual o isco e por ai fora.

Deixa-lo fazer a cana a vontade, e depois de partir 2 ou 3.. que materiais já experimentaste? Qual a diferença entre eles?

E os iscos? Com minhoca apanhas o que? Olha ali o zé carioca, está a usar cabeças de sargo (nem faço ideia do que estou a dizer), já viste como ele está a conseguir apanhar mt mais do que tu?

VÊ, pensa sobre as coisas e experimenta.

E depois arranjar mil e uma situações iguais mas diferentes para que eles consigam explorar isso tudo.

Roberto Baggio disse...

Situações iguais, mas diferentes... dá trabalho pensar nelas, de facto.

Tiago Franco disse...

Sempre que paro um exercício tenho (tento) o cuidado de questionar os atletas relativamente às suas ações!

Fizes-te isso porque?
O que é que podias ter feito de diferente?
Qual a melhor solução para o problema?
Há mais soluções ou esta é única?

Ao mesmo tempo procuro sempre através dessas questões enquadrar todos os que estão a realizar o exercício de forma a que todos percebam o contexto em que estão e todas as imensas variantes que podem existir para solucionar problemas que lhes apareçam pela frente.

Se estiverem com muitas dificuldades procuro tentar fazê-los perceber através de questões já com umas dicas de varias respostas de forma a obriga-los a pensar um bocado.

Noto que em muitos lados procura-se trabalhar os miúdos muito taticamente e tecnicamente mas sem faze-los perceber o jogo e o contexto em que estão inseridos ou os diferentes contextos/problemas com que podem deparar-se!

Dipeca disse...

Bom texto.

Quando param, falam para 1 ou para o grupo? Como gerem isso?

Roberto Baggio disse...

Dipeca, depende... Gere-se de acordo com o contexto...

Dennis Bergkamp disse...

Várias vezes falas para todos..... os pais armados em treinadores de bancada.

Quantas e quantas vezes paro o treino quando um jogador tem uma decisão tipicamente de "bancada" para questionar em voz (demasiado) alta, para que os pais oiçam e possam também ser educados.

Dipeca disse...

Pois, percebo. Mas é complicado gerir o momento de parar, sobretudo se estamos a falar de parar um exercício para interrogar um jogador sobre um decisão. Pode parece trivial, mas fica-se com todos os miúdos parados enquanto explicamos a um...

Roberto Baggio disse...

Dipeca, não é tempo perdido... é tempo ganho... tempo de qualidade :)
mas entendo onde queres chegar, e é por esse motivo, principalmente, que detesto parar sempre os exercícios.

Dennis Bergkamp disse...

Sim, mas ao mesmo tempo, se falares para todos, as coisas vão entrando na cabeça deles.

Até podes perguntar a um gajo qualquer fora daquela acção o que é que ele achou da decisão do colega, que alternativas é que o colega tinha e se fosse ele estar ali, o que é que decidia.

Envolves todagente na "discussão", e até podes utilizar isso para gerir a intensidade.

Ainda ontem fui obrigado a parar o exercício varias vezes, porque eles não estavam a aguentar a intensidade e a qualidade das decisões e das acções começou a baixar. Parava e perguntava coisas básicas, mesmo para lhes dar 10/15 segundos para respirar antes de voltar a intensidade máxima.

Dipeca disse...

Percebo, essa da intensidade é mto bem visto!

Pois Baggio, sinto que estou a "impedi-los" de participar, às vezes...

Anónimo disse...

Boas,

Relativamente a este tema temos o melhor exemplo do que não devem fazer ao minuto 8:27, do jogo Barça-Rayo.

Abraço, continuação de um excelente trabalho