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terça-feira, janeiro 27, 2015

Jornal de Coxos - Exigência, quando é que é demais?

É um dos maiores desafios que encontro no dia a dia, e permanece seja qual for o nível.

Esta lá quando estamos a trabalhar com alguém que tem 4 anos e com alguém com 34. Para haver crescimento, evolução, aprendizagem, tem de haver exigência. Tem de haver uma permanente insatisfação para que haja melhoria.

Ainda ha pouco tempo vi um fantástico filme - Whiplash que toca um pouco sobre esta materia.

A pouco tempo também, esteve em Lisboa o autor de um dos livros mais interessantes dos ultimos tempos - The Gold Mine Effect , que, quando fala sobre o trabalho dos sprinters Jamaicanos conta que o conforto é inimigo da evolução. Que é como quem diz "é na adversidade que crescemos. Sair do conforto, provocar adversidade, exigir e exigir e exigir é então o caminho para a excelência.

Mas até quando? Qual é o limite da exigência?

Depois de esgotadas as opções de "não estão a ter sucesso porque o exercício não é adequado", "a instrução não foi clara", "a tarefa é demasiado diferente do habitual" e coisinhas assim, como é que percebemos que "esta malta não consegue dar mais do que isto" ?

- Porque é que depois de tantas horas de treino, e quando mais de 80% do grupo já "percebeu", ainda há alguem que se esconde atrás dos defesas em vez de se mostrar? e pior... não entende que está escondido?

(quem diz isto, diz outro qualquer problema do estilo)

Será que vale a pena continuar a dar cabo da cabeça a essa pessoa? Será que faz sentido exigir que essa pessoa aprenda esse comportamento?

Não estou a falar de coisas que são impossíveis de atingir. Não é uma questão de velocidade de deslocamento, ou outro tipo de coisas que.. .mesmo sendo treináveis, ou tens ou não tens.

Ao ler os posts do Baggio sobre os Picaretas dele sei perfeitamente que estas dúvidas também o assaltam. O que fazer quando há "jogadores" que estão ali mais porque os pais os obrigam do que pelo gosto de jogar? Quando eles nem na escola jogam e todo o tempo de prática é o que têm no treino e no jogo organizado?

Mesmo a top, esta dúvida continua a fazer sentido. E é outro caminho que o post pode levar. Será que a exigência na aprendizagem de coisas novas pode mexer com a confiança dos jogadores nas suas capacidades e alterar o seu rendimento?


19 comentários:

João Pedro disse...

Pode e mexe na maior parte dos casos. Um jogador jovem ao ser corrigido várias vezes e ao fim dessas vezes perceber que não tem capacidade para fazer o que o treinador manda vai-se a baixo emocialmente. O jogador vê os colegas a fazerem o que lhes é pedido e fica com o sentimento de que é o pior no mundo, que é o pior da equipa e depois até tem vergonha de ir treinar. O mesmo acontece quando se perder 20-0 ou 15-0, com que motivação é que um miúdo fica para jogar depois destes resultados ? Sentem-se humilhados
Abraço

Jose Castro disse...

Boa.noite,
também considero importante a exigência escolar para o percurso de um jovem atleta. Outro bom filme que fala acerca da exigência desportiva e também escolar é o " Coach Carter" cujo protagonista é Samuel L. Jackson. Os intervenientes são estudantes de secundário e reflete bem as dificuldades por que passam os treinadores relativamemte à exigência desportiva e também escolar. Não sei se vocês têm disponibilidade ou interesse em também exigir.aos seus atletas rendimento escolar para além do desportivo. É uma boa discussão.

Roberto Baggio disse...

Os pais já exigem isso e tiram os putos dos clubes quando têm más notas. Portanto, para mim que tenho poucos, eles já fazem esse trabalho. Para os que têm os jogadores que querem, é muito interessante de facto.

Grande texto Dennis!

Rafael Antunes disse...

Já conheço o livro...

O inato/adquirido visto de perto, no terreno... Leitura obrigatória para quem anda nestas lides!

No género recomendo,

Bounce - Mathew Syed
Talent Code - Daniel Coyle
Outliers - Malcom Gladwel

O filme que referes ainda não vi, já tá na lista... Obrigado!


P.S - Revê a parte do "a pouco tempo" para "há pouco tempo"... Para não manchar o grande post.

Abraço


Anónimo disse...

boas Dennis,

Quem como nos trabalha na formação so ira ver esses resultados no futuro, isto é se continuarmos a acompanhar os miúdos.

Todas as semanas, a minha equipa tenta enfrentar essa adversidade, ou jogando um, ou dois escalões acima, ou fazendo dois jogos seguidos em diferentes escalões, chegam a fazer duas horas de jogo num dia, fora o jogo do campeonato.

Resultado, muitas derrotas, muitos golos sofridos...mas é esse crescimento na adversidade que tento passar lhes, embora os miudos nao notem, no futuro iram ser melhores que muitos da idade deles.

A maior pena é que provavelmente nao acompanharemos essa evolução.

abraço.

IS

Dennis Bergkamp disse...

Há aqui vários graus de exigência ou de insatisfação, quero é perceber o que vai na cabeça da malta, porque na minha... muda muitas vezes.

Dou por mim, e dentro do mesmo grupo tenho "exigências" diferentes para diferentes pessoas. Há pessoas a quem reconheço capacidade para muito mais, e outros que... epa se conseguirem juntar duas letras se calhar já me dou por satisfeito.

Mas será que a exigência que os treinadores têm vai de encontro as espectativas dos jogadores (ou dos pais dos jogadores) ?

Hugo Pinheiro disse...

Boas,
Neste caso, na formacao a exigencia evidentemente que terá de ser diferente. Primeiramente convem saber as motivacoes dos miudos, o gosto que têm pelo futebol, se praticam na escola etc...ajuda los a perceber o jogo e cada explicar o porquê de cada exercicio que fazemos para que aparecam duvidas...Depois disso faz se um levantamento. Se o jogador gosta, e nao pecebe, temos de nos preocupar mais com a explicacao se nao gosta mas percebe..ai anossa exigencia pouco sentido faz pois aquele miudo nao está concentrado para a tarefa e devemos falar com ele e com os pais...ha mais desportos...finalmente se vemos que apenas é um problema de falta de qualidade, ai podemos comecar com pequenos objectivos diarios, dando feedback positivo sempre que um desses objectivos seja cumprido...assim ganharam mais confianca e percebem que afinal o objectivo final nao é tao dificil...Um abraco

Ricardo Perna disse...

Eu não sou treinador de futebol, mas trabalho com miúdos das mesmas idades (este ano, dos 10 aos 14 anos). Se me permitem meter a foice em seara alheia, já que estas questões da exigência se colocam em todos os níveis, acho que a resposta é que não há uma resposta única.

A necessidade de melhorar e a exigência competitiva devem ser, na minha opinião, uma presença constante junto dos jovens. É uma questão de educação e preparação para o futuro. No entanto, essa exigência deve ser adequada às capacidades de cada um. De nada adianta exigir mais do que o que miúdo consegue dar, pois vão frustrar o miúdos e vão frustrar-se a vocês.

Sinceramente, os pais deveriam ser a última das preocupações, mas imagino que nestes tempos em que os pais pagam para os miúdos treinarem, tal não deve ser uma realidade, e têm de levar com os pais sempre a reclamar convosco porque todos acham que o filho é o Ronaldo ou o Messi.

Acho que os treinadores devem conhecer bem os miúdos que têm, perder tempo com cada um deles individualmente (não sei se têm esse tempo, mas seria bom que sim), perceber qual o limite de cada um deles e exigir sempre até esse limite, e ter depois a capacidade (leia-se, autorização da direção) de chegar ao pé do pai e dizer "olhe, o seu filho não vai dar mais que isto, ou continua aqui a ver a banda passar, ou muda-o de desporto", ou mesmo confrontar o pai se o miúdo claramente não mostrar nenhum desejo de jogar à bola.

Estes confrontos não são fáceis, mas se o interesse é ajudar o miúdo e a equipa, é essencial que eles, pai e jogador, saibam sempre como estão as coisas, para não se criarem ilusões...

E sim, imagino que, no vosso caso, talvez não seja fácil terem apoio da direção, já que esses miúdos pagam mensalidades e isso é importante para o clube...

Obrigado pelas conversas que me dão oportunidade de ver aqui neste espaço, são uma fonte importante de informação para mim, que sou um mero apaixonado da bola.

Miguel Pinto disse...

"Mas será que a exigência que os treinadores têm vai de encontro as espectativas dos jogadores (ou dos pais dos jogadores) ?"

Um dos cernes da questão é perceber se essa exigência poderá redundar no desinteresse por parte do jogador em aceitar as regras(treino) impostas pelo treinador ou no desinteresse deste pelo jogador por verificar que ele, na sua opinião, não irá alcançar a performance desejada.

Os treinadores fazem previsões sobre qual será a evolução dos seus jogadores muitas vezes de uma forma errada induzindo-os, e aos pais também, em erros de avaliação os quais poderão inferir negativamente no percurso do jogador.

Eles não crescem todos de igual modo e portanto os treinadores terão que estar preparados para fundamentalmente perceberem que a exigencia terá que ser colocada em doses diferentes porque os jogadores também o são.

Da mesma forma que na escola existem aqueles que entendem tudo à primeira e outros demoram mais tempo a assimilar a matéria também no futebol se passa o mesmo. Agora o treinador de jovens jogadores tem que ter cuidado para não 'menosprezar' os que denotam mais dificuldades na apreensão dos conteúdos sob pena de estar a reconhecer cedo demais o deficit de qualidade do seu jogador quando este ainda poderá não ter tido o tempo suficiente para perceber o que lhe é pedido. Se em campeonatos top nós assistimos a erros grosseiros que supostamente não deveriam acontecer...

Para finalizar quero apenas dizer o seguinte: um treinador pode ver num jogador todas as qualidades e potencialidades para atingir o TOP mas se o jogador não sentir prazer no jogo e no treino, se não tiver cuidado com aquilo que lhe poderá ser prejudicial, nem o pai nem a mãe nem ninguém o poderá ajudar nesse aspecto.

Bom post

Dennis Bergkamp disse...

IS,

Como reagem os miudos perante a adversidade?

Notas uma diferença grande no significado que os miudos atribuem aos torneios / jogos "oficiais" vs convivios / amigáveis?

Rafael,

Obrigado pela dica. Bons livrozinhos.

Recomendo também o Sacred Hoops, do Phil Jackson

Anónimo disse...

Boa tarde,

Será que me devo "preocupar", quando tenho um professor de Futebol, relativamente conhecido, que para além de professor é Treinador Profissional e colabora assiduamente com a FPF, quando me pede (aos alunos universitários) exercícios de aperfeiçoamento técnico (condução de bola, Passe-Recepção, Drible sob a manifestação de uma componente especifica de exigência física (velocidade, resistência e força)?

MUITO OBRIGADO pela vossa partilha

Roberto Baggio disse...

Anónimo,

Preocupar com o quê?!

Anónimo disse...

O que eles nos pede é exercícios descontextualizados, analíticos - saltar barreiras contornar estacas, ou seja circuitos.
Preocupar no sentido em que ele nos pede exercícios em que trabalha cada componente isolada

martin vazquez disse...

são questões bastante pertinentes e interessantes.
acrescento outra: qual o papel dos clubes nisto? a ausência se linhas orientadoras, objectivos individuais e colectivos por idades ou escalões deixa um vazio que entrega ao treinador toda a responsabilidade nesta area

Roberto Baggio disse...

Anónimo eu percebi o tipo dos exercicios, mas não percebi qual é a preocupação...

Gonçalo Matos disse...

Dennis,

Como dizes e como outros treinadores dizem, com diferentes miudos temos de ter diferentes niveis de exigencia, tendo em conta as suas capacidades físicas, técnicas e cognitivas. Acho que não podemos exigir os mesmos comportamentos a todos eles, e temos de direccionar a nossa exigencia... É complicado, porque nem sempre os jogadores aceitam ser tratados de forma diferente.
Uma coisa que como treinador não admito, nem a eles nem a mim é que os jogadores retrocedam em aspectos que nós trabalhamos.

Pessoalmente, acho que como treinadores somos muito mais exigentes do que esperam que sejamos. Nós preocupamo-nos com o processo e não com o resultado. Jogadores e pais não ligam tanto ao processo e é no processo que nós exigimos muito. Então, muitas vezes o que satisfaz os pais e dirigentes, não nos satisfaz a nós. mas para mim isso é bom.

Na minha perspectiva, algo como exigência a mais, não existe. Sem essa exigência, não há evolução, não há a faísca que te faz saltar para o nível seguinte. Agora, eu acho que, por exemplo, quando chegas a um ponto em que os teus miudos não melhoram em organização ofensiva, se calhar mais vale tentar não perder o nivel na organização e trabalhar a transição ofensiva com maior foco, por exemplo.

Só para mandar mais um topico para a discussão, quantos de nós conseguem perceber o potencial cognitivo de um jogador só em treinos de captação? há jogadores que vêm de bons modelos e parecem espertos, mas se tu mudares algumas coisas, eles tremem. é que quanto mais exigentes somos, mais dificuldades os "burros" sentem, porque não compreendem as alterações dos contextos... Portanto, talvez muitas vezes a culpa seja nossa.

Isto está um bocado caótico, mas já é tarde e não consigo reestruturar isto... um abraço

Dennis Bergkamp disse...

Gonçalo,

Aperta ai com um post sobre Captações porque tenho umas fisgadas ;)

Ainda sobre a exigência,

Lembro-me perfeitamente de no ano passado estar num torneio que obrigava a dormir e comer num hotel. Apesar de no campo não sermos nada de especial ("organizadinhos" que é como quem diz... até sabem estar em campo mas não jogam nada de especial), dentro do hotel fomos o grupo mais civilizado que la estava.

Entre várias nacionalidades, era o unico grupo que esperava que todos estivessem prontos para começar a comer; onde havia regras acerca do que se pode ou não comer; sopa, legumes e fruta obrigatórios; dar passagem aos mais novos sempre que estivessem na fila e por ai fora.

isto... no meio de uma selva incrivel.

Mas se fosse preciso, os putos que se enchiam de ketchup e batatas fritas é que ganhavam.... e no fim, quem é que está certo?

Ricardo Perna disse...

Dennis,

Foram vocês mesmos quem disseram que, em miúdos, interessa o processo de crescimento, não os resultados. Quem está certo é quem melhor prepara os miúdos para o futuro, não é quem consegue vitórias quando eles são crianças à custa de falhas no desenvolvimento futuro.

Quem está certo será sempre quem tem valores, mesmo que isso só se reflita no futuro... e acredita que, mais cedo ou mais tarde, se reflete...

Jorge disse...

Mais um topico interessantissimo e importantissimo.
Concordo com o que tem sido aqui dito. Em qualque actividade de formacao e preciso calibrar os desafios (challenges em ingles, nao sei se a palavra adequada em portugues e desafio) de forma a criar algum nivel de descomforto, intelectual ou fisico, e motivar uma adaptacao para um nivel mais elevado.
Como numa aula de matematica, se o aluno tiver sempre perto de 100% dos exercicios certos e porque nao esta a ser desafiado. Se tiver uma percentagem elevada de erros e porque estara o nivel e demasiado elevado.
Por isso e importante colocar os alunos de em grupos de desenvolvimento mais ou menos homogeneos. O que torna dificil treinar os grupos residuais como aqui foi referido.
Tendo isso em conta, acho que a melhor forma de treinar grupos heterogeneos e atraves da divisao do grupo em sub-grupos mais homogeneos.
Uma comunicacao adequada dos objectivos individuais a cada jogador podera evitar problemas de motivacao e confianca. E preciso ter em conta se puseres os tipos que nao conseguem dar dois toques seguidos a jogar sempre com os outros eles acabam por raramente tocar na bola e nao so percebem que sao piores que os outros como nao evoluem. O que e preciso comunicar a esses jogadores e que neste momento AINDA nao conseguem fazer certas coisas tao bem como os outros e por isso vamos trabalhar nesses aspectos a parte.