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sexta-feira, janeiro 23, 2015

No Diário dos Picaretas - O problema de um coxo. Um por todos ou todos por um?

Tenho um jovem jogador com necessidades especiais. Daqueles que requer um acompanhamento mais próximo, e maior atenção por parte dos treinadores. Daqueles que deveria estar num ambiente melhor enquadrado as suas necessidades, para que a evolução dele no desporto fosse mais evidente. Mas não havendo essa possibilidade, o que fazer? Descontextualizar todo o treino em função da necessidade desse atleta? Ou manter aquilo que será melhor para a maior parte do grupo, sabendo que dessa forma prejudicarei sempre o jovem jogador? Sabendo, também, que não tenho a formação adequada para trabalhar com este jovem em particular...
A mesma questão serve, também, para atletas menos evoluídos do ponto de vista técnico num grupo com muitas das competências técnicas já adquiridas.

A solução poderia passar por colocar esse atleta, junto dos outros menos evoluídos do ponto de vista técnico, e fazer um treino para eles em função das suas dificuldades. Enquanto isso, os outros jogadores estariam a cumprir outras tarefas mais adequadas às suas competências. Mas acarreta um grande problema, a pedagogia. O que pensaria eu, criança, se fosse constantemente (não sempre, mas na maior parte dos treinos, em grande parte das tarefas) afastado da tarefa principal? Colocado numa minoria, onde se percebe que estão os menos competentes do grupo? As crianças têm essa percepção de competência, eles sabem quem é bom, quem são os melhores, quem são os piores. E afastar o grupo poderia criar ainda mais problemas do tipo: eu não passo a bola a ele porque sei que ele a vai perder. Ou, reclamar de cada vez que o colega perde uma bola por se saber que o colega não tem competências para... No fundo, estaria a promover todos os valores que não quero nunca ver num desporto colectivo. E mesmo em termos de aprendizagem, é muito menos motivador para a criança por ver os outros em tarefas divertidas ("jogos de oposição") e eles em tarefas secantes, que não têm muito a ver com o que eles foram para lá fazer: Aprender, mas a divertirem-se.

Assim que houver possibilidade, e atletas em número suficiente, vou começar a separar, mas só o aquecimento. Um pequeno exercício de 15 minutos todos os treinos, onde eles terão a possibilidade de desenvolver as suas qualidades técnicas de forma menos agressiva, tendo em conta a sua competência. Hoje, o que faço é tentar colocar o jovem com necessidades especiais em tarefas o menos complexas possível (ex: os exercícios complementares quando o número de jogadores não é adequado são sempre dele, 2x1, 3x1, 1x1, 3x2, e também é sempre o escolhido para funcionar como joker). No fundo coloca-lo em situações onde o volume de prática é superior, e com menos ruído possível. Mas se possível, em tarefas bastante semelhantes às dos colegas - jogo - para que se divirtam, e aprendam e evoluam, reforçando o gosto pela pratica da modalidade. 

Ao final do dia terá de ser sempre um por todos e nunca todos por um. 

7 comentários:

Dennis Bergkamp disse...

Este é claramente um dos maiores desafios de quem não está no topo.

No topo, neste tipo de contextos entende-se como "grupo de miudos escolhidos pelo treinador", e não "grupo de malta que aparece"

O que é muito muito diferente.

Separar por níveis é o mais "simples", mas trás problemas, para além dos problemas já levantados (avaliação de competências e haver azias por não estar nos mais fortes), trás também problemas aqueles que são de "zona cinzenta" que não crescem tanto como os mesmos de zona cinzenta que estão no grupo mais apto.

Situação difícil de gerir. Mas.. quem consegue resolver estes problemas, resolve outros com mais tranquilidade.

Roberto Baggio disse...

A quem o dizes... isto tbm depende muito da personalidade dos miúdos :) Mas é de facto um grande sarilho, como sabemos

martin vazquez disse...

permitam me uma questão paralela mas dentro deste contexto. não sentem por vezes um "conflito de interesses" entre os vossos objectivos e os dos miúdos? para mim enquanto treinador o que me move é fazer evoluir os jogadores tanto individual como colectivamente e eles, na sua maioria, apenas encaram o futebol como deporto e pratica de uma modalidade.

Roberto Baggio disse...

Martin, sim... para a grande maioria deles é só um passatempo. Não acho isso mau, se estiverem sempre focados durante o treino. Mas o que acontece é que estão-se mesmo a borrifar... mas, mais uma vez... Há que arranjar estratégias para os motivar e convencer e conquistar.

Dipeca disse...

Olá, tb sofro do problema dos "miúdos que aparecem" e do miúdo com necessidades especiais... É muito complicado em relação ao miúdo.. é marginalizado pelos outros.. Depois em relação à motivação há que arranjar mil e um estratagema: cai fora, em que o tempo de jogo é determinado pelo tempo que os de fora demoram a completar x tarefa, etc etc... Outra coisa tem a ver com os exercícios, tentar não complicar demais para o eles adquirirem conhecimento nem que seja básico, mas o exercício fluir mais... Vocês têm algum estratagema em particular?

Roberto Baggio disse...

Nenhum em particular, por depender sempre do grupo, dos indivíduos...

Dipeca disse...

Agora ando numa fase em que os torneios cai fora funcionam bem. Os de fora fazem um exercício mais simples, em x tempo.