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quarta-feira, janeiro 14, 2015

Capacidade de decisão: (mais) exemplos na formação

No clube onde trabalho há um juvenil incrível, daqueles que não se põe em causa se vai ser profissional, só resta saber onde. A sua qualidade é tal, que apesar de estar num plantel de nacional de juvenis, tem demasiada qualidade para o nível em que está inserido e resolve a maioria dos estímulos que enfrenta no treino com muita facilidade.

É um jogador fortíssimo em tudo o que seja gesto técnico, especialmente no drible, é criativo, é rápido, é extremamente agressivo (na ocupação dos espaços).
Este fim-de-semana tive o prazer de mais uma vez falar com ele. Estávamos a falar sobre a perceção que os jogadores devem ter das suas qualidades a partir de certa idade. Eu explicava-lhe que é importante que um jogador tenha noção das suas mais-valias e perceba o contexto do jogo, para que consiga exponenciar ao máximo as suas qualidades. Na maioria das conversas que tive com jogadores desta idade, a conversa foi um monólogo… Mas o jogador em questão respondeu-me:

“Quando estou em 1 contra 1, normalmente procuro enfrentar qualquer adversário. Mas quando apanho o Gui, aí chuto a bola para as costas dele, ele é muito mais agressivo no 1 contra 1. Não quero procurar o choque com um jogador tão poderoso fisicamente, ele ganha muitos lances com o corpo”.

É bastante interessante perceber que este jogador, fortíssimo tecnicamente ao ponto de driblar qualquer jogador do seu escalão, consegue perceber o contexto em que está inserido e em função disso, tomar decisões diferentes que o aproximem mais facilmente do sucesso da sua acção. Especialmente no drible, algo que muitas vezes está associado ao “instinto” do jogador.


Por coincidência, o irmão mais novo desse jogador é treinado por mim. É um jogador completamente diferente do mais velho. É muito frágil fisicamente, não tem drible. Foge ao contacto, evita situações de 1 contra 1. É um pouco menos criativo que o irmão e não joga na mesma posição. Curiosamente, é o jogador com melhor tomada de decisão do plantel e provavelmente do campeonato. Simplifica o jogo a cada toque, deixa sempre os colegas em boas situações e faz com que a equipa melhore, na maioria das vezes que toca na bola. Vê e faz coisas que nós, seus treinadores, não conseguimos imaginar, estando do lado de fora do treino, observando todos os detalhes do jogo.


Dois jogadores bastante diferentes, que ocupam posições diferentes, com argumentos técnicos diferentes. As suas características obrigam-nos a jogar de forma diferente, fazem com que enfrentem estímulos diferentes. Mas uma coisa os une e ajuda a que se distanciem dos restantes: tomada de decisão de níveis de topo.

5 comentários:

José Moreira disse...

Desconhecendo a idade do primeiro, pergunto: Uma vez que se revela tão evoluido e com tamanha facilidade em ultrapassar os obstaculos que lhe são apresentados no treino e em competição, não fará sentido faze-lo evoluir para um patamar acima? Isto, se é que já não foi feito, claro.

Quanto ao segundo: Não será por saber que é frágil fisicamente que o jogador aprendeu a encontrar formas mais colectivas de resolver as situações que lhe são colocadas? Isto é, por saber que perde no choque com todos, ou quase, não desenvolveu uma forma de contornar essa dificuldade?

Gonçalo Matos disse...

José,

Em relação à primeira pergunta, já está no escalão acima a treinar e a jogar. Na minha opinião, é o que faz mais sentido.

Em relação à segunda, eu acho que sim. O curioso é que jogador em questão é médio defensivo e para a sua idade, tem uma inteligencia muito acima da média num jogador daquela posição. é o nosso mini busquets

José Moreira disse...

Eu não sou, nem nunca fui ou serei, treinador, bem longe disso, mas tenho essa ideia de que se determinado jogador "brilha" intensamente em determinado escalão, deve passar para o seguinte, para que possa encontrar novas dificuldades e continue a evoluir de forma constante, em vez de estagnar onde para ele já não há dificuldade. Aliás, permanecer no mesmo escalão até pode fazer o jogador regredir por não compreender que o que faz no momento não será suficiente no futuro. Mas isto é opinião de um mero leigo.

Gonçalo Matos disse...

José, eu tenho a mesma opinião que tu. Mas não é generalizada. Lembro-me que há uns tempos o Benfica não promovia jogadores a meio do ano, porque queria ganhar campeonatos.

mas tens outra questão, se a qualidade do treinador no escalão acima for mais reduzida que a do escalão inferior, será melhor subir o jogador, po-lo a competir contra adversários melhores mas po-lo a treinar com piores estimulos?

José Moreira disse...

É uma boa questão Gonçalo. Ai teremos de perceber o que mais influencia o jogador, se o treino se o jogo. Se for o primeiro, então será mais prudente manter, se for o segundo, talvez não haja problema na subida, n sei...

Essa de não querer promover jogadores para ganhar uns troféus para adepto ver... Nem me fales!

Tb escrevo num blogue (sobre o Benfica) e sempre que falo sobre a formação insisto na ideia de que a melhor, e para mim única, forma de avaliar a qualidade da formação de um clube é pelo nr de jogadores que essa formação consegue colocar no plantel principal e não os titulos que se possam ganhar nas camadas jovens, ainda que a cultura de vitória deva fazer parte da formação do jogador.