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sábado, dezembro 26, 2015

A história do jogo

Seguramente que as coisas mais faladas por aqui, e pelo Lateral Esquerdo, são aquelas que se acha que estão sob controlo do treinador. A análise é sobre a qualidade táctica das equipas dentro do jogo, sobre as regularidades e irregularidades ao nível dos comportamentos colectivos que cada equipa demonstra, sobre a forma criteriosa como o treinador escolhe os seus jogadores em função da sua ideia de jogo, sobre a forma como no treino se operacionaliza ou não a ideologia de jogo, sobre a forma que o treinador coloca a sua equipa estrategicamente para atacar e defender, sobre posicionamentos e dinâmicas posicionais, sobre a relação que cada jogador tem com aquilo que o treinador lhe tenta passar.

Porém, cada jogo tem uma história bem particular. Aquele momento específico vive de muitos imponderáveis a que muitas vezes damos menos atenção. O momento específico de cada equipa. A pressão externa ao jogo. A pressão interna do jogo. A melhor ou pior relação do treinador e da equipa com a imprensa. A maior ou menor confiança dos jogadores nas suas capacidades e no modelo de jogo (pelos resultados anteriores). As divergências entre a equipa técnica e à direcção. A forma como cada equipa encaixa na estratégia do adversário. O público. Etc, etc, etc. Estes são apenas alguns exemplos de factores que influenciam o jogo, e que, por serem os mais diversos tornam-se difíceis de descortinar dentro de cada contexto específico.

Hoje, o Manchester perde com o Stoke. Os adeptos cantam por José Mourinho, depois de toda especulação que tem havido aquando da sua saída do Chelsea. O que os adeptos se esqueceram, hoje, foi que este jogo, neste contexto particular, teve uma história. Uma história que começou com um erro individual tremendo de Depay, que ofereceu o primeiro golo ao Stoke. Esse golo caído do céu, galvaniza as bancadas da equipa da casa, galvaniza os jogadores por estarem em vantagem sobre o United, e tem o efeito exactamente oposto na formação de Van Gaal. Uma equipa já muito pressionada nos últimos tempos pelos resultados que não consegue e consequente queda na classificação, pela imprensa que especula sobre a posição do treinador, pelos próprios adeptos que idolatram um outro treinador agora livre para assumir o comando da equipa; onde os jogadores não estão muito confiantes na sua própria qualidade, onde desconfiam da qualidade das ideias tão criticadas do seu modelo de jogo, onde o treinador se mostra inflexível ainda que as coisas não corram bem nas suas ideias. Consegue-se imaginar a descrença dos jogadores ao sofrer um golo deste tipo?

Por aquelas cabeças só deviam estar a passar coisas do tipo - Não há nada que esteja ao nosso alcance para mudar isto. Já nos acontece tudo. Podemos estar aqui a correr noventa minutos que não os vamos conseguir superar. Nem dez minutos passados e sofre o segundo golo no seguimento de um lance de bola parada. E o jogo para Van Gaal acabou aqui. O colapso mental dos seus jogadores estava completo. A instabilidade e a insegurança reinam a partir daqui. Poderia estar no balneário com eles com as melhores estratégias de motivação existentes que, naquele momento específico, tendo em conta todo o contexto que o rodeia, os jogadores não lhe iriam dar uma resposta à altura do desafio que estava colocado. E isso notou-se sempre na linguagem corporal dos jogadores. Nos erros que se sucederam, na forma pouco contundente/exuberante como executaram, no tempo que demoraram a decidir cada lance pelas dúvidas todas que assombram os seus pensamentos. Seguramente que o treinador terá a sua quota parte de responsabilidade em cada momento negativo que a equipa vive, assim como tem a sua quota parte de mérito nos momentos positivos. Mas, lá dentro mandam eles e a cabeça deles. E hoje, como quase sempre, quem ganhou foram os jogadores do Stoke e quem perdeu foram os jogadores do Manchester.

José Mourinho é outro caso deste tipo de dinâmica negativa ao nível dos resultados, assim como Klopp o foi no Dortmund na época anterior, e muitos outros treinadores o são ao longo do tempo. Desde o alto rendimento ao distrital.

segunda-feira, dezembro 14, 2015

Será preciso mais do que jogar futebol.

A sorte jogará um papel fundamental no futuro das equipas portuguesas nas provas da UEFA. Com o tipo de adversário que saiu a cada uma das equipas prevê-se dificuldade máxima em todos os jogos das equipas que restam nas provas europeias. Pela diferença de argumentos individuais, bem como pela forma como as virtudes dos adversários encaixam nos defeitos das equipas portuguesas.

O Benfica defronta o Zenith. Poderá pensar-se que saiu um adversário não tão forte, tendo em conta os que estavam disponíveis no sorteio. Porém, sendo que o Zenith é muito superior do ponto de vista individual, a forma como os russos se organizam em campo é o que pode despoletar todos os erros da formação de Rui Vitória. André Villas-Boas já não quer que à sua equipa tenha a bola e seja dominante. Limita-se a esperar pelo erro, e tem jogadores muito fortes a aproveitar os espaços para contra atacar. Com o Benfica a ter bola, o Zenith pode aproveitar a falta de capacidade para defender com poucos em muito espaço, bem como a demora que a equipa tem a reorganizar-se nos momentos seguintes à perda da bola. O Zenith sente-se confortável sem construir, não o faz com qualidade, e isso aliado a alguns posicionamentos defensivos pouco agressivos e assertivos explica muito da fraquíssima prestação no campeonato Russo até então.

O Porto cai da Liga dos Campeões e vai ter um jogo do nível da prova máxima da UEFA. O Dortmund de Tuchel é uma das equipas mais encantadoras do momento, e o é a jogar predominantemente em organização ofensiva, e organização defensiva. Tem melhorado de forma gradual a transição defensiva, mas é em organização defensiva que se percebem os principais problemas. Mas, é esse precisamente o momento do jogo que a equipa de Tuchel menos joga em termos de percentagem. Sabendo do tipo de jogo que o Porto faz, preferencialmente por fora, ficará nas mãos do treinador preparar uma estratégia de pressão não para conter, mas para roubar a bola ao Porto. E é precisamente contra equipas que querem ter a bola que o Porto se sente mais desconfortável. O legado de Mourinho Villas-Boas e Vítor Pereira continua muito vivo na cultura do Porto.

O Sporting terá o desafio mais difícil da época contra este Leverkusen. Apesar de não estar a passar pelo melhor momento, se voltar aos princípios suicidas que nos habituou Schmidt poderá levar uma vitória confortável sobre o Sporting. A grande mudança do Leverkusen tem para mim a ver com a forma como deixou de pressionar, e pressionando o Sporting ficará à despida a falta de qualidade individual da equipa para discutir duelos desta natureza. A pressão asfixiante que desapareceu e o contra ataque - ataque rápido - eram as maiores armas da equipa alemã.

O Braga, do qual não conheço o adversário, poderá restar como único sobrevivente desta eliminatória, pensando que o Sion não será superior individualmente. 

quinta-feira, dezembro 10, 2015

A estratégia, o mérito, e a esquizofrenia em que o futebol ainda vive

Se o futebol,  que adora ironia, tem premiado com a vitória e consequente passagem à fase seguinte a equipa do FC Porto, ficaria nas bocas do mundo o banho táctico e a genialidade de Lopetegui na estratégia que montou para Londres. O mundo do futebol é mesmo assim. Esquizofrénico. E teima em avaliar cada acção pelo resultado dela e não pela percepção do seu sentido, ainda que cada acção dependa de inúmeros imponderáveis que raramente são equacionados. No futebol, esquizofrénico, a equação é do mais simples que há: ganhou, génio ; perdeu, fraco. O mérito que o futebol continua a atribuir à todo tipo de estratégia, sem raciocinar sobre o aumentar ou reduzir da probabilidade de correr bem ou mal, é a maior prova de que há muito pouca gente a pensar verdadeiramente o jogo. A gente, a nossa gente do futebol, confunde a possibilidade de correr bem ou mal com a probabilidade. E é por isso, e isso só, que interessa apenas o resultado final, para que não se tenha que pensar muito sobre o que se passou, ou pode passar,  em campo. 

Ontem, a estratégia vulgar e bem conhecida no mundo do futebol,  que tantas vezes foi elevada à condição de génio, foi utilizada por Lopetegui e falhou. E também Lopetegui parece confundir possibilidade com probabilidade. Havia possibilidade de correr bem, mas tal não significa que a probabilidade de ganhar fosse maior que a de perder ou empatar. O Porto entrou num 5-3-2 que nunca havia tentado antes. Lopetegui justificou a estratégia pela surpresa que iria causar no Chelsea, para parar a sua transição ofensiva, e ser o Porto a sair em transição. O que Lopetegui não pensou foi que, se o Chelsea marca primeiro, toda a estratégia trabalhada durante a semana cai. E depois? Se sofre um golo no primeiro ou segundo minuto, por mérito ou não do adversário, ficam 89 minutos (ou pelo menos 44) onde a equipa fica perdida sobre a estratégia trabalhada e sem saber como se adaptar a essa mudança que o jogo pode trazer. O que vai na cabeça de um treinador quando desenha uma estratégia que pode morrer no primeiro minuto de jogo?  Nas suas palavras, e nas palavras dos jogadores, percebeu-se o falhanço de uma estratégia por o jogo ter seguido um rumo normal - golo sofrido. Que raio de pensamento estratégico é esse? Podemos ir mais além e dizer que, Lopetegui não pensou que colocar mais gente atrás para parar a transição ofensiva do Chelsea não lhe ia nunca conferir possibilidade de sair em transição como queria, porque o Chelsea não se expõe a isso. Está muito habituado a atacar sem riscos, e como tal, num jogo desta natureza e desta importância, muito dificilmente se deixaria surpreender e meter muitos à frente da linha da bola descurando os espaços atrás. Podíamos ainda pensar que, mesmo conseguindo sair, o Porto tinha tão poucos à frente que muito dificilmente conseguiria ter êxito na transição ofensiva. E por último, dizer que, Lopetegui achou que para ganhar ao Chelsea deveria jogar como o Chelsea joga há três anos, num sistema de jogo diferente do que utiliza ou utilizou até ontem, e não como o Porto tem jogado desde que ele é o comandante da equipa. E só por aí se percebe o pouco valor da estratégia, ao submeter os seus jogadores a um tipo de jogo, a um tipo de problema, a uma necessidade de dar respostas, que não conhecem. 

O Chelsea é uma equipa permeável em organização defensiva, que deixa muito espaço à frente da linha defensiva, e que é muito pouco agressiva sobre a bola. Como se viu ontem, o Porto recebeu e enquadrou sempre com facilidade atrás da linha média, e conseguiu o primeiro desequilíbrio individual. Faltou sempre gente na frente, à frente da linha da bola,  para dar continuidade aos desequilíbrios de Brahimi e Corona, e depois criar reais possibilidades de finalizar. E por aí, por ter mais gente atrás, e ainda menos à frente do que o habitual, se percebe que a estratégia foi desenhada para não sofrer, e não para marcar como o jogo o exigia. Lopetegui esperou pelo milagre que o futebol teima em premiar, que o público geral insiste em exaltar, mas o milagre não veio e caiu. E hoje se o público crítica é porque perdeu.

segunda-feira, novembro 30, 2015

Assumir a própria identidade. Um caminho que poderá levar ao resultado.

O caminho de Rui Vitória no Benfica tem sido muito acidentado. Como se escreveu aqui, numa equipa grande, com a grande pressão mediática para a obtenção do resultado, não há tempo para treinar o treino. Ou se tem, ou não se tem. E durante demasiado tempo Rui Vitória foi tentando ser aquilo que não é - um treinador com capacidade para operacionalizar um jogo predominantemente ofensivo. Um treinador com capacidade para implementar ideias de jogo agressivas em todos os momentos do jogo, em todo o campo. Rui Vitória não está treinado para operacionalizar este tipo de jogo. Não está habituado a resolver os problemas que este tipo de jogo dá. Não tem resposta a tempo e horas para as dificuldades que os jogadores sentem. E a continuar a jogar dessa forma irá sempre tropeçar. Porém, ao ver o Benfica de hoje em Braga percebe-se a maior tranquilidade e conforto do mesmo quando a equipa não joga tão subida, a pressionar tão alto. Quando a equipa não necessita de reagir forte para recuperar, limitando-se apenas a recuperar posições. Quando a equipa não tem a responsabilidade de assumir o jogo em posse. Quando a equipa não precisa de defender com poucos. Quando não há necessidade de saber como proteger-se das perdas quando a equipa está larga e organizada para atacar. Quando a equipa está mais junta e compacta, com muito pouco espaço nas costas por defender mais perto da baliza. Quando tem muito espaço nas costas da defesa adversária. Quando não precisa de ser capaz de furar blocos compactos fechados no último terço. É esse afinal o jogo que ele jogou, treinou, e conheceu, nos seus últimos anos como treinador. Sendo esse o seu caminho, está naturalmente muito mais preparado para dar resposta aos problemas do treino, do jogo, dos jogadores. Talvez não fosse má ideia assumir-se como é, como sabe, como gosta. Poderá ser essa a chave para uma caminhada menos acidentada.

domingo, novembro 29, 2015

Miúdos atrevidos capazes de contornar a selva aleatória que é o jogo de futebol. Leroy Sane.

Qual é a melhor forma de resolver um 2x1+GR?!
A melhor forma é deixar cada um percorrer o seu caminho, para que perceba melhor de onde aparece o resultado.


Se alguém tem ensinado a Sane que neste tipo de situações o melhor é o passe, provavelmente não teríamos tido a possibilidade de apreciar a solução criativa que o jovem avançado alemão encontrou para resolver o lance. E assim é o jogo. Imprevisível. E por isso, cada acção dependerá sempre do contexto. E por depender do contexto, deverá ser este a ditar o que fazer, quando fazer, como fazer. O treino, para mim, é isto. Dotar o jogador de capacidade para perceber mais rapidamente o contexto, e com isso criar melhores condições para ter sucesso nas suas acções.

Nenhum 2x1+GR é igual. Há lances em que o melhor é fixar o último defesa e o GR. Há lances em que o melhor é ir para a baliza. Há lances em que o melhor é enfrentar o 1x1. Há lances em que o melhor é soltar logo o passe. Há lances em que o melhor é rematar. Depende tudo da forma como o adversário se coloca para defender o lance, da forma como o colega está ou não orientado para receber a bola, da forma como o GR está ou não posicionado para defender a baliza. E quando o jogador percebe isso - que deve jogar de acordo com o contexto -, e se for de capacidade técnica assinalável, tornar-se-à capaz de manipular a situação de jogo em que se encontra, para uma situação mais favorável para si. Quando um jogador finge que vai rematar e passa, está a manipular o contexto. Está a enganar o adversário, levando-o a agir de acordo com determinada acção e a usar essa reacção do adversário para executar outra. Criatividade é muito isto. Perceber como contornar e/ou reduzir a brusca aleatoriedade que domina a natureza do jogo.

quinta-feira, outubro 29, 2015

Organização defensiva do melhor do mundo

O espaço entre sectores. O espaço entre jogadores. A agressividade sobre a bola. Excelência defensiva daquele que é considerado pelo universo como o melhor do mundo do ponto de vista táctico.

domingo, outubro 25, 2015

Breves, sobre o perfil de decisão



Vinha, há pouco, a conduzir a caminho de casa enquanto ouvia na Antena1 o relato do Porto vs Braga.
A determinado momento, um jogador do Porto faz um passe para a zona do penalti, onde não está ninguém, sendo que o narrador comenta:
- Mau passe do jogador x.
A resposta do comentador de serviço foi aquela que se ouve com alguma frequência:
- Não! O passe foi muito bom! Só que ninguém apareceu lá! Os avançados é que não estavam lá!

Mas se os avançados não estão lá, qual o sentido de se por lá a bola? Um grande gesto técnico, sem sentido, não é um lance bom! É um lance horrível!
Passar a bola para uma zona onde ninguém a vai receber nunca é bom, seja onde for.
Assim como fazer muitos cruzamentos não significa ter um grande caudal ofensivo.



Ao mesmo tempo que os campeonatos de futebol se andam a disputar, disputa-se também o campeonato do Mundo de Rugby. Se há coisa que me impressiona nos jogadores de rugby é a sua capacidade de fixar vários adversários, com a sua movimentação, antes de soltar a bola.
Trata-se apenas de conduzir a bola para espaços onde a acção de vários adversário seja comprometida e soltar pra zona onde ficou a vantagem.
Parece fácil, mas poucos o compreendem, no desporto rei.

sexta-feira, outubro 23, 2015

Nani de volta à Alvalade?

Caso muito sério este Matheus Pereira. Há talento em Alvalade, e muito. Que precisa obviamente de tempo para estabilizar, errar, aprender, evoluir. Para mim, o jogador jovem com mais potencial da equipa actual de Jorge Jesus. Um pouco acima de Gelson. Tem muito futebol este menino. Os golos ajudam a ter confiança, ajudam a crescer dentro das dificuldades, dão notoriedade, mas é mais uma vez no que não é tão notado que este menino dá muito que fazer aos graúdos. São as coisas que procura e a forma como as faz que o distingue. Imaginar que o Sporting tem sob sua responsabilidade Tobias, Chaby, Gauld, Iuri, Podence, Wallyson, Gelson, e Matheus. Para não falar de William, João Mário, Esgaio, Paulo Oliveira e Mané. Muito menino com potencial para entrar no onze inicial e afirmar-se em Portugal, e alguns também fora daqui. 

segunda-feira, outubro 05, 2015

Rúben Neves

Foi uma tremenda luta colocar Bernardo Silva na selecção principal. Em Portugal, o estigma da idade, da experiência ou falta dela, ainda está demasiado vincado. Competência para jogar futebol não se mede em Metro, Quilograma, muito menos em anos de vida. Sendo que na selecção principal, para a posição 6, só Tiago o supera, do que estamos a espera para colocar um Júnior a competir com os monstros? Neste momento, e tendo a idade que tem, tendo já competido e superado contextos de tremenda dificuldade ao mais alto nível, é o melhor 6 a jogar em Portugal. E em Portugal há William!

domingo, outubro 04, 2015

Uma derrota com o mesmo significado de uma vitória - Aprendizagem.

No primeiro jogo oficial da época o resultado foi o ajustado, e penalizou a nossa equipa por não termos sido competentes na criação de situações claras de golo. Entramos mal no jogo, ao permitir logo no primeiro minuto uma situação clara de golo ao adversário, dentro da área. E depois ao minuto três fomos penalizados com um auto-golo. A partir daí tomamos conta do jogo, não permitindo ao adversário mais nenhuma oportunidade, tirando-lhes a bola, a construir bem mas a criar mal. A tomada de decisão quando apenas restava uma linha por bater foi péssima. Ainda assim, conseguimos entrar na área por diversas vezes, mas sem conseguir ferir o adversário. Na segunda parte um erro de posicionamento num lance de bola parada dá o segundo golo deles, e o jogo foi mais do mesmo. Nós com bola, mas sem conseguir furar. Tivemos apenas uma ocasião clara de golo. A marcha do marcador é a que os vídeos indicam. Infelizmente o terceiro golo sofrido não tem vídeo e não nos permite tirar conclusões sobre o mesmo, mas é um lance em transição ofensiva deles, e a segunda ocasião clara de golo que criaram.

Mais - Muita qualidade na construção; Jogar 80% do tempo em que tivemos a bola no meio campo do adversário; Não permitir ao adversário a criação de lances de perigo em organização ofensiva; Agressividade defensiva.

Menos - Fraca capacidade de criação.

Mais ou menos - Gestão da transição defensiva: reacção à perda e controlo da profundidade (Primeira parte); Expulsão do capitão de equipa num lance em que compensa uma má abordagem de colega ao lance, que iria isolar um jogador adversário já depois do jogo estar empatado.

Golo sofrido ao Minuto 3. Sorte, Azar?! Competência, Incompetência?! Acontece.


Golo sofrido aos 50. Não é este o posicionamento treinado.


Golo marcado aos 58. É isto tipo de lances que procuramos criar. Colectivos. Finalização simples. Envolvimento de extremo (dentro) e lateral (também dentro).


Golo marcado aos 85. É este tipo de golos que procuramos evitar. Golos onde os jogadores conseguem encontrar uma solução individual que o colectivo não consegue. Fantástico ainda assim!


Este lance é o reflexo da incompetência da equipa na criação, ao minuto 92. Minuto que precede o terceiro golo do adversário.



Para seguir o campeonato é aqui!

quarta-feira, setembro 30, 2015

Trabalho de qualidade - Fernando Valente.

"Nós queremos é malta jovem". Querem treinador mais jovem do que este? A juventude está nas ideias. E nisso pode até passar de um século de vida, ele continuará a estar no auge da sua juventude e criatividade. Organização para atacar, rigor para recuperar a bola. Recuperar a bola para ficar com ela e voltar a atacar. Criar espaços, colectiva e individualmente. Trabalhar fundamentalmente não para pressionar, mas para sair da pressão. Se acham que somos fundamentalistas do futebol de ataque, e das soluções que um treinador deve dar aos jogadores, deveriam falar mais vezes com este grande treinador. Para mim, alguém que como ele procura até ao último momento tirar o Guarda-Redes do lance é inclusivamente mais jovem do que eu. Quer nada mais do que o melhor dos melhores. É uma inspiração, e é um dos melhores treinadores portugueses da actualidade.

Obrigado Mister, e que continue a contagiar Portugal com um futebol jovem nas ideias!

terça-feira, setembro 29, 2015

Momentos defensivos. Uma saída de bola muito particular - 6.

Transição defensiva - Reacção agressiva. Transição defensiva - Ficar rapidamente atrás da linha da bola. Organização defensiva - Erros de posicionamento na basculação; Pressão no campo todo; Ajustes. Organização da linha defensiva - controlo da profundidade; Um na bola três coberturas. Guarda-Redes - controlo da distância entre ele a última linha.  Transição ofensiva - Segurança.
Um pedaço da apresentação em vídeo aos jogadores.


segunda-feira, setembro 28, 2015

Os criativos e o que se espera da qualidade individual.

Quando se avalia a qualidade individual, e a criatividade de um jogador, normalmente tem-se em conta tudo aquilo que o jogador pode oferecer sozinho, como se um jogo de duelos individuais se tratasse. São poucos os que esperam que a qualidade individual se revele nas relações que se estabelecem com os outros jogadores. E essa pequena diferença, é talvez a maior diferença entre os treinadores com um futebol ofensivo marcante, e os treinadores que no momento ofensivo dependem sobretudo da inspiração individual dos seus jogadores. As palavras de Jesus no final do jogo no Bessa, assinalando que faltou qualidade individual, para muitos consideradas como tentativa de "sacudir a água do capote", são nada mais que a demonstração cabal daquilo que Jesus espera que individualmente os seus jogadores acrescentem no momento ofensivo. Para mim, o que Jesus disse foi que espera sempre que os seus jogadores criem, sozinhos, dentro da organização ofensiva que ele desenha. Um treinador que desenha um plano em organização e espera que sozinhos os seus jogadores criem estará sempre mais dependente da inspiração momentânea de cada jogador, para que a qualidade de jogo ofensiva seja elevada. E é nisso que se reflectem as escolhas que Jorge Jesus tem feito para o seu onze inicial no Sporting, assim como as fazia no Benfica. Jesus, como muitos, não percebe jogadores que não se destaquem por aparecer nos momentos de decisão com um lance mágico, e está sempre a espera que os seus jogadores tirem um coelho da cartola. Nolito, por exemplo, era segunda escolha porque sendo criativo precisa de se envolver com outros companheiros para criar. O mesmo acontece agora com André Martins, Mané, e Montero. Quando Jesus lança Montero no onze inicial, lança-o por ter aparecido no golo do jogo com o Nacional. E não sendo criticável essa opção - aproveitar o bom momento do jogador, uma fase de maior confiança -, Jesus não o faz pela mais valia que Montero pode representar para o futebol ofensivo do Sporting, mas apenas pelo lance individual. Ora, o que Montero melhor pode oferecer ao jogo é precisamente o oposto do que o que Jesus quer. É colectivo. Jesus, por exemplo, não percebeu que Montero para aparecer contra o Nacional precisou de um Mané. E que sem um Mane, a perceber aquilo que Montero quer e a envolver-se com ele, Montero não teria aparecido. É nisto que Guardiola é diferente de quase todos, porque fica irritado consigo próprio quando um jogador descobre uma solução individual que o colectivo não conseguiu. E por isso, trabalha exaustivamente formas colectivas de desmontar o adversário, para que os seus jogadores nunca tenham de resolver sozinhos. Utopia, claro. Mas só dessa forma se consegue que a equipa renda regularmente, ainda que por diversas vezes as individualidades estejam menos inspiradas. É por aí que se percebe o porquê de valorizar como ninguém jogadores cuja principal competência seja a forma de se relacionar com os colegas.  Só assim se explica que Guardiola continue a somar na regularidade e a ser campeão, ou estar mais próximos do que os outros disso.  Reside nesse pormenor a diferença notória entre o futebol ofensivo que eu gosto, e um futebol ofensivo que não considero tão bom. Desse ponto de vista - daquilo que o treinador espera em termos de produção ofensiva dos seus jogadores - Jesus não é diferente de Mourinho, Allegri, Benitez, Pellegrini, Lopetegui, ou Rui Vitória. Tem o momento ofensivo melhor trabalhado que alguns destes. Mas todos eles esperam que em algum momento do jogo os seus jogadores tenham um lance individual genial. E por isso, ainda que em diferentes níveis (porque colectivamente uns trabalham mais do que outros), estão sempre mais dependentes da inspiração individual de cada jogador, do que se valorizassem de forma constante jogadores que procuram resolver problemas relacionando-se com os outros. Todos os Jonas para render precisam de partilhar o mesmo espaço com Gaitans, assim como Aimar no seu esplendor precisou de partilhar o mesmo espaço com Saviolas. Montero, para render, para além dos movimentos ofensivos que o treinador cria, para além das linhas de passe que o treinador oferece, precisa de outros Monteros a partilhar o mesmo espaço que ele.

PS: Não concordo com a ideia de que este ano o campeão vai somar muito menos pontos que no passado. Vamos com 6 jornadas, o futebol jogado não tem sido o melhor, mas também não o foi em anos anteriores. O número de pontos conseguidos até ao momento também não está abaixo da média conseguida pelos três grandes nos últimos anos.

PS1: Por Mourinho e Allegri serem treinadores que, na minha opinião, trabalham mal do ponto de vista colectivo o momento ofensivo e não são fantásticos do ponto de vista defensivo, não é de estranhar a irregularidade pontual que demonstram. Mourinho já foi um monstro, mas perdeu-se pelo caminho. Hoje é campeão como Allegri também o é, e é derrotado como Allegri sempre foi - exclusivamente pela grande qualidade dos jogadores que treinam. Assim como Rui Vitória poderá ser campeão se tiver sempre Gaitan e Jonas. Quando estão menos inspirados, como acontece agora, nada na equipa funciona que não seja um grande remate do Matic ou do Ramires.

PS3: Já aqui há muito se fala de Pochettino, e a forma como conseguiu a roubar a bola ao Manchester City e criar é o indicador de um treinador com uma ideia ofensiva grande, e completamente diferente do que mais se vê pelo mundo do futebol. É um treinador que com maior qualidade individual, seria totalmente diferente de Pellegrini que ainda não decidiu se quer que a sua equipa tenha ou não a bola. Pena ter chegado num momento em que os Spurs fecharam a torneira das Libras.

PS4: O início estonteante de Paulo Sousa na Serie A é um indicador que há ideias de qualidade para o jogo e para o treino, como havia quando andava dentro de campo. É olhar para a forma como a equipa quer e procura jogar (ainda que não o consiga sempre), e percebe-se uma ideia ofensiva grande. Ainda que não concorde com algumas coisas, o essencial está lá. Quer ter a bola, quer aproveitar os espaços entre sectores, quer criar situações de finalização simples. Não se deixe é enganar com o jogo em San Siro, porque tudo correu bem. Desde o erro do Handanovic aos três minutos que dá o penalti, ao remate de fora da área de Ilicic que Handanovic defende mas a bola vai para dentro da baliza, até à expulsão de Miranda ainda na primeira parte, mas já depois do terceiro golo num bom lance individual do Marcos Alonso.

quarta-feira, setembro 23, 2015

A cada passe um passo. Passito a passito, até chegar onde queremos.

Organização ofensiva. Passe curto. Jogo apoiado. Facilitar a tarefa a quem passa e a quem recebe. Dificultar quem nos defende, tentando não lhes dar a bola de borla. Vender cara cada bola perdida, com uma reacção agressiva. Ao ataque vão todos.

domingo, setembro 20, 2015

Apresentação aos jogadores antes do jogo. Mobilidade no centro de jogo.

Um exemplo do tipo de coisas que se apresentam aos jogadores antes do jogo, ou no primeiro treino da semana. Valoriza-se e reforça-se o que é bom. Corrige-se o que não é tão bom. Discute-se de forma saudável. Coloca-se um ou outro lance que os jogadores pedem. Diverti-mo-nos a trabalhar.


No centro de jogo não há posições definidas. Há posicionamentos definidos. Uns vão, outros ficam.

segunda-feira, setembro 14, 2015

Facilitar ao máximo o último toque

A equipa técnica com quem trabalho tem como grande objectivo ofensivo facilitar a finalização aos nossos jogadores. Isso porque pensamos que dessa forma estamos aumentar as nossas probabilidades de fazer golo, pelas condições em que nos queremos colocar para finalizar o lance. É para isso que trabalhamos. Conseguir criar condições para invadir a grande área do adversário com a bola controlada. Depois, a qualidade dos jogadores fará o resto.


terça-feira, setembro 08, 2015

Uma casa não se começa a construir pelo telhado

Conversava com o Ronaldinho e dizia-lhe que já há muito tempo que não via uma equipa nossa jogar tão mal. Por vezes cedemos ao entusiasmo do momento, e da grande resposta que estes mesmos jogadores deram contra uma equipa da primeira divisão nacional no dia anterior. Mas nos esquecemos que há sempre o dia seguinte. No dia seguinte o jogo é outro, o ritmo é outro, o adversário é outro. Os jogadores são outros, porque ainda têm na cabeça e nas pernas o jogo anterior. Ainda assim, com duas semanas de trabalho, continuam a existir coisas muito positivas na forma de construir. O que se tornará regularidade, por forma a potenciar nas próximas semanas a criação. Criar uma casa onde não podemos esquecer que não se começa a construir pelo telhado.

segunda-feira, agosto 31, 2015

Ao final de quatro sessões de treino já há coisas muito positivas


Saída de bola








Transição ofensiva


Posicionamento entre sectores. Tomada de decisão.


De fora para dentro. Reacção à perda. Fixa e solta.

quarta-feira, agosto 26, 2015

Como parar Musa e Doumbia? Escolher o pior dos males.

Colectivamente, não deixar nenhum jogador enquadrar de frente para a última linha sem contenção próxima, por forma a não permitir que se explore a profundidade com tempo, espaço, e precisão. Agressividade máxima sobre a bola.

Individualmente, retirando a imprevisibilidade cada vez que eles recebiam a bola. Tratando-se de jogadores individualmente fortes deve-se assumir que eles vão passar sempre. Assumir isso é fazer com que eles sigam o caminho que lhes dá menos alternativas para dar seguimento ao lance. Escolher o pior dos males. Várias foram as vezes que se lhes deu a possibilidade de jogar no corredor central aumentando o seu leque de opções. Nesses casos é abrir declaradamente o corredor lateral e enfrentar o um contra um sem tentar o desarme. Prepara-se e espera-se pelo cruzamento.

Do oito ao oitenta. De uma primeira parte de controlo absoluto do jogo em posse, para uma segunda parte miserável do ponto de vista colectivo e individual. O jogo do Sporting reflecte-se nas duas piores exibições individuais em campo por terem sido elas a criar e finalizar o golo leonino. Esta segunda parte foi o pior período de jogo do Sporting desta época.

Numa altura em que o Sporting parecia bem alinhado em forma e em número para fechar todos os caminhos próximos da área, o CSKA não cede à tentação do cruzamento fácil, e do remate de longe, e cria uma das estratégias que mais aprecio para furar blocos cerrados. Aproveita o movimento da linha defensiva do Sporting que subia, colocando a bola no sentido contrário. Movimento muito difícil de parar.

segunda-feira, agosto 24, 2015

Situações de finalização. Critério: qualidade.

Fundamental para o que se fala aqui saber distinguir o que é a qualidade de cada lance criado. A facilidade com que se finaliza é o que define, no pormenor, a distinção que aqui se faz sobre situações de finalização e outra coisa qualquer. Embora aconteçam no mesmo espaço (Grande área) não são bem a mesma coisa. Parte-se de uma premissa errada de que todos os lances dentro da área que acabem num remate têm o mesmo valor. E sobretudo esquece-se que, a precisão do gesto técnico tem uma importância fulcral. Finalizar de cabeça não é o mesmo que finalizar com os pés; finalizar sem ângulo não é mesmo que finalizar com ângulo aberto; finalizar pressionado não é o mesmo que finalizar sem pressão; finalizar de primeira não é o mesmo que finalizar depois de controlar a bola; finalizar com oposição à frente não é o mesmo que finalizar sem ela; finalizar tendo que disputar a bola não é o mesmo que finalizar de forma limpa; etc... Que se perceba que não é pela quantidade de vezes em que a bola entra na área, em que se consegue rematar, que se criaram situações de qualidade para finalizar. E por qualidade entenda-se situações de finalização fácil. Por vezes, até nem houve finalização, mas a situação criada é de qualidade superior e permite uma finalização mais fácil do que um lance que terminou com um remate. Quando o último gesto (remate) é complexo, tem oposição entre a bola e a baliza, não tem a bola controlada, é uma disputa de bola, está demasiado distante da baliza, quando não há tempo para escolher para onde colocar o remate, a taxa de concretização é normalmente baixa - por maior que seja o volume criado. Quando o último gesto é simples a taxa de concretização é altíssima - por menor que seja o volume criado.













Cada treinador tem a sua forma ideal de procurar invadir a área para finalizar. Cada um escolhe o tipo de situações que quer ver criadas. E por isso uns marcam mais do que outros, ao longo do tempo. Há os que escolhem fazer a bola andar mais vezes dentro da área de qualquer forma. Há os que procuram que a bola entre dentro da área nos momentos ideais para que os jogadores tenham qualidade - tempo e espaço - para decidir o último passe e definir a finalização.  É um facto que todas as situações podem dar golo. É outro facto que umas dão muito mais vezes que outras.





Por isso, para mim, fazer um jogo e criar só uma situação para finalizar (2x0+Gr) vai ser sempre melhor do que atirar vinte bolas para dentro da área, e rematar dez vezes de fora dela. Não é por isso de estranhar, por exemplo, o rácio entre os 56 cruzamentos do Benfica contra o Arouca e a quantidade de golos marcados.

domingo, agosto 23, 2015

Baixinhos, fisicamente inaptos. Inteligentes porém!

Fomos poucos. Perdemos na velocidade. Perdemos na força. Ganhámos nos meinhos. 

Realço o lance do minuto 8:35; e o lance do minuto 10:44. Só eles sabem o porquê!



quinta-feira, agosto 20, 2015

Os cinco fantásticos

Parece que hoje acaba a saga dos cinco fantásticos da armada de Vítor Pereira. Saiu Otamendi, sairam Mangala e Fernando, saiu Danilo, agora promete sair Alex Sandro. A qualidade individual na linha defensiva portista ficará mais do que nunca equipara à dos rivais. Não sobrou um único jogador de nível mundial para apagar os fogos que o colectivo não conseguia. Perde-se qualidade defensiva, e ofensiva. Perde-se capacidade nos duelos individuais. Perde-se velocidade de reacção. Perde-se competência ao nível do posicionamento. Perde-se agressividade na primeira bola. Perde-se velocidade. Perde-se inteligência, Perde-se desequilíbrio ofensivo e capacidade para manter a bola. Perde-se competência no posicionamento. Perde-se tudo aquilo que resultava numa diferença abismal para os mais directos concorrentes. O Porto terá agora que trabalhar uma linha defensiva com remendos, como outrora outro treinador vitorioso em Portugal teve de fazer. Terá Lopetegui a competência para perceber as novas limitações e trabalhar a sua linha para não errar com bola e ser competente sem ela?

quarta-feira, agosto 19, 2015

Modelo de jogo. Hierarquização dos princípios de jogo. Jorge Jesus.

Cada treinador tem a sua forma de operacionalizar a sua ideia de jogo, e com isso de escolher os princípios que treina em primeiro lugar e mais vezes - os mais importantes -, e os que treina em segundo lugar e não tantas vezes - os menos importantes. O treinador exige mais daqui e menos dali. Pede mais foco para determinadas situações e desliga mais de outras. Passa mais feedback para a acção X e menos para a acção Y. E dentro disso vai evoluindo mais a sua organização colectiva num sentido e menos noutros. O que mais se exige aparece mais depressa, o resto vai aparecendo de forma gradual. Jorge Jesus, como treinador de grande nível que é, tem bem definido o que quer, quando quer, e como quer. Para o ataque e para a defesa. Para cada uma das onze posições em campo. Sabe do que quer abdicar, e sabe o que é realmente importante para ele. E por isso, na hora de escolher o seu plantel, de escolher o seu onze inicial, coloca os jogadores a competir dentro daquilo que é a exigência dele. E o que Jesus mais exige aos seus jogadores é a velocidade a que se cumprem os movimentos ofensivos e defensivos. É uma exigência mental primeiro, mas depois da percepção do estímulo sobretudo física. Com ele, os mais rápidos a ocupar os espaços, os mais agressivos a atacar as linhas de passe que ele quer, vão jogar mais vezes. Os mais fortes a atacar a primeira bola, os mais agressivos no 1x1 (ofensivo ou defensivo), os que jogam constantemente em alta rotação, serão quase sempre os escolhidos. As primeiras escolhas dele, assim possa escolher, estarão sempre dentro destes parâmetros. Dessa forma, Jesus vai desenvolvendo o seu jogar de qualidade onde a exigência física é fundamental para a concretização da sua ideia de jogo.

Porém, cada convicção, cada exigência, tem também o seu lado negativo. A maior exigência física, a maior agressividade, que se pede por exemplo para os dois avançados, tem estado a resultar num futebol de menor qualidade no corredor central. A ligação com o apoio frontal, na construção e sobretudo na criação, com Teo e Slimani deixa muito a desejar. Os envolvimentos ofensivos, as tentativas de tabelar, o jogar ao primeiro toque, o segurar e depois tocar ou deixar o colega levar, o entregar para o sítio certo e da forma correcta, são coisas que dificilmente passam da intenção.  Os jogadores bem o procuram, mas os lances dificilmente têm seguimento. A bola nunca chega redonda, e resulta muitas vezes na perda da mesma, e mais trabalho em transição defensiva. Quando a recepção e o passe não entram, em conjunção com uma tomada de decisão não muito acertada, torna-se difícil ter qualidade no último terço. Jesus prefere a agressividade ofensiva e defensiva de Teo e Slimani, e por isso perde qualidade na ligação com os avançados. Hierarquizar é isto. Colocar os jogadores a competir naquilo que se acha o mais importante. Assim sendo, terá de trabalhar muito mais para criar lances de finalização, e para recuperar as bolas que se perdem. Isto porque, por mais que o seu modelo permita aos seus jogadores crescerem, na qualidade técnica e na criatividade não os conseguirá melhorar em nada.

segunda-feira, agosto 17, 2015

Resumo do fim de Semana

Quando no final da época passada disse que Tuchel seria o próximo treinador do Dortmund - desconhecido para a maioria em Portugal -, afirmei que tinha qualidade para liderar aquela formação. E depois de Klopp, só um treinador com ideias de qualidade seria capaz de os manter no altíssimo nível onde estavam. Aí está. Começa a dar os primeiros sinais de qualidade numa ideia de jogo bastante diferente da do seu antecessor em todos os momentos. Menos agressividade, mais pausa. Chegará para ser campeão? Ainda é muito cedo, e ainda muito está por evoluir. Mas uma coisa é certa, aqueles médios têm todos qualidade e capacidade para elevar o nível de jogo da equipa em organização ofensiva, assim o treinador o preconize. Existe alguém melhor que o capitão do Dortmund? Não creio.

O Bayern abriu com uma vitória contundente. A ideia de jogo de Guardiola não mudou - quer ser dominante em organização ofensiva. Trocou sim os caminhos escolhidos para a equipa atacar. Sabendo que não tem a mesma qualidade no meio campo como no Barcelona, procura criar condições para os seus jogadores mais fortes do ponto de vista individual desequilibrarem nos corredores. 2x1, 1x1, 2x2. Com Vidal ganha movimentos de segunda linha para finalizar, com Douglas ganha capacidade de desequilíbrio no corredor lateral. Por falar em Douglas - será a grande revelação mundial deste ano. O Bayern não mais sentirá a ausência de Ribery, ou Robben, a não ser que estejam os dois de fora no mesmo período.

O Sporting foi o primeiro dos três grandes a entrar em campo e fez 60 minutos de qualidade. Nesse período, entrou tanta vez com a bola controlada dentro da área do Tondela, e criou tantas situações para finalizar - tirando Rui Patrício do jogo, não concedendo ocasiões de golo ao adversário - que só o desacerto na finalização, e na forma como o último passe foi feito explica o resultado sofrido. Podia ter goleado, ganhou por um golo de diferença. Futebol é mesmo isto.

O Porto mostrou-se aos seus adeptos solto e com uma velocidade de circulação de assinalar. Mostrou algumas mudanças na dinâmica dos extremos, que se espera que evolua para o modelo de jogo dar o salto qualitativo que precisa. Mostrou capacidade para criar com espaço, colectivamente. Mostrou uma grande reacção à perda. Mostrou também debilidades ao nível defensivo - linha média, e Maicon individualmente. O Guimarães jogou muito exposto e concedeu muito espaço aos Dragões. Resta saber se a equipa conseguirá criar quando os adversários estiverem mais fechados e mais organizados.

O Benfica foi quem teve mais dificuldades no jogo. Foram 70 minutos onde o jogo podia ter caído para um lado como para o outro. Valeu Júlio César. A dificuldade que demonstra em invadir a área adversária com qualidade, e a facilidade com que solicita os dois avançados em cruzamento, mostra já um retrocesso naquilo que era o processo ofensivo da equipa. Marca porém uma ideia de Rui Vitória. Ainda assim, e apesar das dificuldades, consegue criar um grande golo - em combinações -, e sair com o resultado mais volumoso da jornada. O golo do Nelson Semedo é o caminho que os grandes devem procurar para desmontar a organização dos pequenos. Os jogadores já o indicaram. Irá Rui Vitória perceber?

Serei eu o único entusiasmado para perceber se o Barcelona vai conseguir virar o Athletic? Ou já pensam todos que é missão impossível? Se há coisa que aqueles jogadores me ensinaram é que não há impossíveis para eles.

José Mourinho sofre uma derrota pesada, para um adversário directo, na segunda jornada da Premier League. Curiosamente não ficou chateado com o Staff médico, com os apanha bolas, ou com o arbitro. Mas disse que o resultado foi e enganador. São tão raras as vezes que concordo com o melhor treinador do mundo que esta é de assinalar. Mas mesmo na concordância discordámos. Mourinho diz que o resultado foi enganador porque na primeira parte o City melhor e na segunda o melhor foi o Chelsea, e sendo que o resultado estava 1-0 ao intervalo os dois golos do City na segunda parte são demasiado penalizadores face ao que o Chelsea produziu. Não só o Chelsea não foi melhor em nenhuma parte do jogo, como o Mister esqueceu de dizer que, ao intervalo se estivesse 5-0 não teria sido nenhum escândalo.

Um jogador vai mais depressa. Dois jogadores vão mais longe.

Aproximar ou fugir do colega?

O futebol para mim sempre foi um jogo de associações. Com mais ou menos jogadores, sempre pensei que a melhor forma de resolver os problemas que o adversário nos coloca do ponto de vista defensivo é procurar um colega que dê seguimento ao nosso jogo. É por essa razão que me associei ao Ronaldinho, e é por essa razão que ainda hoje comandamos juntos a mesma equipa. É por pensar que dois chegarão mais longe e em melhores condições, apesar de um poder chegar mais depressa. Eu passava-lhe a bola, e esperava por ele. Ele passava-me a bola e esperava por mim. Se eu lhe desse, e me movimentasse, sabia que iria receber. Se ele me desse, e se movimentasse, também sabia que iria receber. E assim conseguíamos ultrapassar  linhas, e superar adversários superiores do ponto de vista individual e numérico. O movimento de aproximação levará a que mais um adversário tenha possibilidade de interferir no lance. Mas estando o colega abandonado contra a bola, o relvado, o adversário, o público, a pressão, a baliza, e contra si mesmo, o melhor será procurar associar-se a ele para dividir o problema, e sobretudo para lhe dar mais uma possibilidade de o resolver. O que mais se vê em Portugal é colegas a fugirem do portador da bola com o intuito de lhe dar espaço, não sobrecarregando a zona com mais jogadores adversários. No fundo, o que se está a promover é a fuga à solução colectiva. Parece-me uma opção contraditória para o jogo em questão.
Se há coisa que Guardiola nos ensinou é que Messi só é Messi porque os colegas procuram sempre oferecer-lhe mais uma linha de passe. Mais uma alternativa para se desembaraçar do adversário. E Messi, por ser Messi, não se nega a entregar porque percebe que de seguida receberá em melhores condições para dar seguimento ou finalizar. E dessa forma, a tabelar, dois jogadores, ainda que em inferioridade, estarão sempre mais perto de criar superioridade. Deixar tudo dependente da qualidade de um só elemento será sempre muito mais difícil, por mais forte que ele seja do ponto de vista individual. Aproximar do colega para dar seguimento. Associar, dividir, retirar complexidade. Ajudar o jogador a ser melhor. E se Messi é o melhor é por perceber melhor que ninguém o valor de uma associação, por mais pequena que ela seja - apesar de todo o potencial individual que ele tem.

Grande jogada de Messi. Não. Grande jogada de Messi e mais um.

Agradeço ao Mister Fernando Valente por estes dias de partilha e reflexão, e sobretudo pelo entusiasmo contagiante com que fala de futebol. Um abraço!

terça-feira, agosto 11, 2015

Curtas sobre o início do campeonato

Lopetegui. O maior candidato ao título, por ser dos três grandes o que tem o trabalho mais fácil. Estabilidade, qualidade, o que não significa que não terá dificuldades. Significa sim que, em termos de operacionalização do seu modelo de jogo estará um passo à frente do Sporting, e dois à frente do Benfica. Os comportamentos colectivos do seu Porto são já muito vincados, e enraizados, e tem a melhor forma de defender da liga - Tem a bola; Guarda-a; Esconde-a do adversário. Se conseguir, por isso, juntar a essa forma de defender maior variabilidade na forma como ataca será imparável em Portugal. Será este o ano de afirmação de Rúben Neves? Conseguirá Evandro convencer o treinador que merece um lugar no onze? Continuará Lopetegui a apostar em demasiados jogadores sem criatividade - ao mesmo tempo - no corredor central?

Jorge Jesus. Em pouco tempo o seu Sporting já apresenta de forma vincada as ideias que o treinador procurará evoluir nos próximos tempos. É por isso, pelo dedo do treinador, um verdadeiro candidato a ganhar tudo em Portugal. Alguém viu, no Algarve, Rui Patrício na mais comum das situações em que esteve na maioria dos jogos oficias da época passada - 1x0+Gr? Dependerá no entanto da capacidade dos jogadores em assimilar tudo o mais depressa possível, para que se cometam poucos erros que possam comprometer a longa maratona pontual. Numa liga como a portuguesa, é essencial não deixar pontos contra os pequenos. Como a qualidade no Sporting não é assim tanta, terá de ser o modelo a esconder defeitos e a valorizar qualidades. Que nível atingirá Paulo Oliveira durante a época, com toda a responsabilidade que lhe está a ser entregue?  Quanto tempo resistirão Adrien e João Mário no onze? Com todos os vícios que continuam a aparecer, será João Pereira aposta durante todo o ano? Continuará Montero atrás de Slimani e Teo, ainda que por jogo estes percam bolas às dezenas? Passará Mané de um agitador que entrar no decorrer das partidas para um dos indiscutíveis no onze? Até onde chegará a chacina dos menos vistosos do ponto de vista físico?

Rui Vitória. Dos três o que tem a tarefa mais complicada, por encontrar uma equipa com comportamentos de muita qualidade trabalhados durante muito tempo. Seria mais fácil, também, se a equipa não viesse de um ciclo vitorioso. Mas as vitórias que conseguiu nos últimos tempos tornam o trabalho do treinador hercúleo, para convencer aquela malta de que tem competência - conhecimento - para os liderar. Terá para isso de vincar para onde quer ir - em termos de jogo - e exigir aos jogadores que cumpram escrupulosamente com a ordem colectiva. Com um plantel de qualidade similar ao do Sporting, não terá muitas facilidades uma vez que já foram desperdiçadas algumas semanas de trabalho, e por isso os jogadores ainda estão muito propensos ao erro. Falta à equipa assumir a identidade que o treinador lhe quer dar, para que se comece a caminhar firmemente para a maratona pontual que se avizinha. O que se precisa neste momento não é de qualidade individual que possa esconder os defeitos do treinador, é sim um treinador de qualidade que possa esconder os defeitos destes jogadores. Será Rui Vitória capaz de o fazer? Esperemos. Poderá Lisandro afirmar-se num modelo menos exigente do ponto de vista táctico? Jonas como 10 ou 9.5? Qual o papel de Pizzi?

Curiosidade para perceber se Paulo Fonseca - para mim o melhor treinador da época passada, exceptuando os grandes - conseguirá fazer uma brincadeira gira no Braga, e com esperança que o faça porque lhe reconheço competência para tal. Se o fizer, terá certamente as portas abertas para dar o salto, agora na altura certa, para outro nível competitivo.

Evoluirá Miguel Leal o seu modelo para trabalhar melhor a parte ofensivo, ou continuará no conforto que a segurança da sua organização defensiva lhe dá?

Sá Pinto de regresso a Lisboa. O que esperar?

Vítor Paneira expõe-se pela primeira vez aos tubarões da primeira divisão nacional. Mostrará qualidade de jogo suficiente para, pelo menos, se manter?

Jorge Simão assume o seu primeiro projecto, desde o início, na primeira divisão. O virá daí?

Terá o Boavista, novamente, a fortuna que lhe permitiu manter-se no ano anterior?

segunda-feira, agosto 10, 2015

O Chouriço

"Quem olha para um jogador como Jonas percebe que as coisas têm de ir num determinado sentido". Frase do treinador do Benfica há não muito tempo, ao qual gostaria de colocar uma questão: nos primeiros 45 minutos Jonas tocou na bola uma vez com qualidade, aos 9 minutos, no corredor lateral, fazendo um passe a isolar Ola John. O resto do tempo esteve na primeira bola, ou na segunda. Colocar Jonas a disputar bolas com os centrais, é esse o caminho?

O resultado. Ao final de cada jogo agarra-se tudo ao resultado para começar a onda de elogios ou de justificações para o insucesso. Como sempre fomos explicando por aqui, não é o resultado que mais nos interessa num jogo. Interessa o resultado ao longo de uma época, que num jogo deverá estar expresso na forma de comportamentos colectivos de qualidade. O jogo poderia ter ficado empatado, o Benfica poderia até ter ganho, que nada iria apagar as diferenças dos caminhos escolhidos para atacar e para defender por um e outro treinador. E é essa marca que vai fazer a diferença na regularidade. É isso que faz hoje dizer-se que o Sporting tem melhor equipa - individualmente - que o Benfica, quando há quatro meses atrás se dizia que no Sporting quase ninguém entrava no Benfica. É essa a matriz comportamental que vai permitir sacar dos jogadores um rendimento óptimo e regular (ainda que a qualidade não seja muita), ficando eles sobrevalorizados por tudo o que o treinador lhes permite.

O Benfica teve ocasiões para marcar? Sim. Mas de onde surgiram essas situações? Surgiram como consequência de que comportamento colectivo de qualidade, em organização ou transição ofensiva? Quais foram os caminhos escolhidos para atacar? Procurou-se criar superioridade ou pelo menos igualdade para finalizar? Procurou-se criar as melhores condições possíveis para que a finalização seja simples? Não.

Quando pressionados os dois treinadores optaram pelo jogo directo, e mesmo aí o Sporting aparece muito melhor preparado. Orienta-se por forma a ganhar a primeira, e cria superioridade para ficar com a segunda bola. No Benfica não só não se busca a superioridade como não existe nenhuma referência para onde jogar a primeira bola. Percebe-se assim a grande superioridade do Sporting sobre a primeira e sobretudo segunda bola.

O Sporting não fez um jogo brilhante. Também não seria de esperar que o fizesse, nesta fase da época. Foi sim capaz de abafar completamente o Benfica com comportamentos colectivos - não individuais - de qualidade. Busca pela superioridade a defender e a atacar.

Sporting em combinações; na área 2x2
Benfica em acções individuais, sempre em inferioridade
Bola parada
Procura de situações de finalização simples
Bola parada
Com 8 atrás da linha da bola, e dois passes por fora do bloco, a desorganização da equipa do Benfica. Na área inferioridade nas zonas predominantes de finalização - 2x3.
Em acções individuais, sempre em inferioridade. A bola chega ali depois de um lançamento.
Repetição do lance anterior, no seguimento de um lançamento. Inferioridade.
Potencial das situações do Sporting sempre muito maior. 3x2.
Os caminhos que se elegem. O estilo. Combinações.
Mias combinações, na área 2x2.
Na segunda parte os lances que antecedem o Chouriço.

João Mário com possibilidade de remate dentro da área.
Slimani em 1x1 dentro da área.
Teo finaliza ao primeiro poste para fora.
O tão falado Chouriço. Ou melhor, do que se fala no blogue - mais importante do que qualquer chouriço é tudo o que o precede.


Estamos no início da época, e muita coisa vai mudar entretanto. O Sporting vai crescer, por estar ainda longe da perfeição que o seu treinador exige, e também o Benfica vai crescer dentro das ideias de Rui Vitória, que ainda mal se percebe quais são. Por tudo isso, por ter sido só um jogo e não jogos, nos próximos tempos poderemos falar com mais certezas sobre as duas equipas.