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quarta-feira, junho 04, 2014

"Se fosse hoje apareciam os catedráticos a dizer que o Maradona era uma vergonha pois decide quase sempre mal"

Sobre um comentário de um artigo, que se pode encontrar aqui, isto da tomada de decisão faz realmente confusão ao mundo. Ao mundo que não tem grande relação com o futebol, claro.

"Ontem estive a rever o célebre Argentina 2 x 1 Inglaterra. Quando, aos 6 minutos da segunda parte, Maradona recebeu a bola, prestes a fazer história, lembrei-me de decisões certas e erradas, do talento colectivo acima do talento individual e de jogadores de momentos encarcerados num livro de rigores tácticos. Por instantes, receei que El Pibe lesse os meus pensamentos e desenhasse uma devolução recta de bola em vez do golo do século XX. Depois lembrei-me que aquele trajecto mágico já tinha sido percorrido inúmeras vezes, na televisão cá de casa. Então, larguei mentalmente o pause do controlo remoto e Dieguito avançou, livre, entre pernas torcidas e folhas rasgadas."



Posto isto, onde estão as más decisões?!

25 comentários:

GC disse...

O ponto é que ele enfrenta constantes 1x1 sem cobertura? Just asking...

Roberto Baggio disse...

Esse é um dos pontos, claro :)

GC disse...

Ok, e revendo o vídeo dá para perceber que não tem linhas de passe perto nem desmarcações de rutura nem nada que se pareça... Foi literalmente Maradona vs meia Inglaterra!

Aproveitar para agradecer o trabalho que é feito aqui e no LE, graças a pessoal como vocês consigo perceber minimamente o jogo. Num país onde há 3 jornais desportivos, 1500 programas de análise da jornada todas as semanas e em cada esquina um treinador de bancada, é bastante sintomático que só em blogs como estes se consiga aprender, debater e apreciar o encanto que o futebol tem. O que só dá mais valor àquilo que fazem.

Continuação deste grande trabalho. Viva o futebol!

Roberto Baggio disse...

Muito obrigado GC

DC disse...

O mais engraçado disto é que aposto que o littbarski faz este post com o intuito de mandar uma indirecta por um comentário que eu fiz sobre o Iturbe (mais concretamente sobre o que VP disse sobre o Iturbe). Como se alguma vez o Iturbe pudesse sonhar em chegar próximo deste nível. E como se tivesse alguma coisa a ver isto com o Iturbe de cabeça no chão a tentar passar em corrida por toda a gente.

Pedro disse...

Eu não acredito que o Diego decidi-se mal. Ele apenas tinha a capacidade de decidir de maneira diferente, ao contrário da maioria dos outros atletas.

Rafael Antunes disse...

Analisando isto racionalmente e by the book:

- no primeiro toque na bola ele não tem necessidade de dar aquele toque atrás porque consegue rodar directo, corre ali um risco e dá uma oportunidade de o adversário de roubar... mas é Maradona...

- 1x1 sem cobertura até à área... progressão... é Maradona que leva a bola!!!! Maradona (ou até eu...ahahahaha :D) naquelas circunstâncias passa por qualquer um!!!!!

- Antes da finta ao GR, ou mesmo depois, pode de facto fazer com que um colega fique 1x0... Mas o adversário que vem com ele está por fora e atrás... o adversário que vem em recuperação, depois de ele sentar o GR (saída muito pouco decidida, era Maradona que ali vinha!!!!) já não tem hipotese... e ele também está quase 1x0 apesar de um ângulo pior...

Como disse VP, o futebol tem de ser muito racional para se jogar bem, mas também não seria nada sem o irracional e o imponderável que está sempre presente...

Há sempre uma decisão que será a melhor, mas há várias boas decisões... Há vários caminhos para se chegar ao mesmo sitio... E nem todos são aqueles que nós treinadores concebemos...

João Mendes disse...

O que mais me impressiona no golo é a forma como festejam. Parece que acabou de fazer uma coisa absolutamente normal! E foi apenas um dos melhores golos da historia do futebol...

Daniel Martins disse...

Na minha opinião, há um misto de boas decisões com um pouco de cegueira de um extraterrestre com uma enorme confiança nas suas capacidades e que na altura disputava o jogo da sua vida. E se há jogadores que têm o direito de serem "cegos" de vez em quando, o Maradona é um deles.

Rodrigo Ferreira disse...

GC,
Ainda há minutos, antes de abrir esta página, estava a pensar como é possível que num pais onde o futebol tem tanta importância e tantos adeptos se perceba tão pouco de futebol, jornais e programas desportivos incluídos (para mim o grande aérea é um excepção).
Quero também agradecer aos autores do LE e PB por aos poucos fazerem com que eu deixe de pertencer à maioria.

Bonga disse...

Uma boa decisão não quer dizer que seja a melhor.

Acho que Maradona falha a melhor decisão 3 vezes neste lance: 2 vezes antes de entrar na área em que tem um colega a dar linha de passe viável por dentro. Principalmente na altura em que consegue fixar 2 adversários podia e devia ter soltado nesse colega, era claramente a Melhor decisão!
Depois dentro da área devia ter passado ao colega que está na área e pode fazer o golo em situação de 1x0.

A pior decisão teria sido ir para a linha, por exemplo. Maradona aproveitou deficientes coberturas do adversário para progredir mas não tomou, Definitivamente a MELHOR decisão.

martin vazquez disse...

será que na altura algum treinador falava de contenção e cobertura aos seus atletas? não me parece

jorge gaspar disse...

Mais uma vez afirmo, que o pessoal que lê este blog concorda com tudo (quase tudo), mas não percebe nada (quase nada). Se repararem bem no lance, na movimentação do Maradona e na movimentação dos adversários, apercebem-se facilmente que o Maradona não procura ir no 1x1 ou na jogada individual. São antes, os adversários que através do seu movimento corporal indicam o caminho da jogada individual ao argentino. O Maradona seguiu sempre o caminho oposto ao caminho seguido pelos adversários. Tudo o resto, é técnica, velocidade de execução e decisão, talento.
Neste lance, não há nenhum momento em que o passe faça mais sentido do que aquilo que ele fez. Quando recebe a bola, antecipa-se ao movimento do adversário, recua e ultrapassa-o, depois corre praí 20 metros sem oposição,a seguir, o jogador que lhe aparece à frente dá-lhe claramente o meio para ele prosseguir com a jogada, e no momento em que ele tem a oportunidade de fazer o passe, depressa aparece um jogador Inglês a colocar-se entre ele e esse colega, o que leva o Maradona a seguir e bem na direcção da baliza, a decisão final não precisa de explicação.
O que define o Maradona é o movimento e a velocidade de decisão e de execução aos 7/8 segundos do video. É a única coisa em todo o lance que acho realmente genial
Jorge Gaspar

Luis Santos disse...

martin vazquez, claro que não. Pensa assim: actualmente quantos falam nisso? Nas principais ligas europeias serão quantos? 20? 30? Mais do que isso não são de certeza e já estamos a falar dos melhores campeonatos

Gonçalo Matos disse...

A tomada de decisão, na minha perspectiva, depende igualmente da qualidade de um jogador.
P Baggio fez ha uns tempos uma analise a decisões do William em que isso pode ser observado. Dizia o Baggio que tendo em conta as suas caraxterísticas como jogador, jogaria de forma diferente que o William. Mas que a maior capacidade técnica do William lhe permite tomar decisões que o Baggio nem sonharia (porque tem dois troncos e 2 galochas XD ).

Da mesma forma que se fosse o A. Almeida a tentar fazer isto, seria a pior decisão da sua carreira.

Roberto Baggio disse...

hahahhahaha verdade Gonçalo XD

joao santos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
João disse...

Tambem por ca se viram coisas dessas (ressalvando as obvias e enormissimas diferenças entre os protagonistas de uma e outra(s))

https://www.youtube.com/watch?v=c2lqge8zu_8

joao santos disse...

Va lá! Toda a vossa análise está condicionada pela admiração juvenil, pelo idolo das vossas infâncias,o Maradona. E por conhecerem o resultado dessa jogada obviamente.

Eu vejo aí 2 ou 3 momentos em que Maradona não toma a melhor decisão, aquela que probabilisticamente aproximará a mais a equipa do sucesso, logo a começar no primeiro drible quando em inferioridade a ter que rodar e numa zona onde seria perigosa uma recuperação inglesa, a acabar naquele ultimo toque a desviar do GR para o seu "lado mau", tendo depois que em esforço se posicionar para finalizar de pé esquerdo quando um simples passe no segundo anterior para o colega bastava, para dar golo.

Podemos isso sim, admitir que tendo em conta a qualidade de drible de Maradona, a primeira decisão não é má, porque sendo ele Maradona a probabilidade de sucesso daquele drible aumenta(ainda assim mesmo Maradona, é discutivel naquela circunstância), mas, mas, aqui é que está o lado giro...
Isso leva-nos a outra discussão, porque recordo no Lat.Esq. a avaliarem decisões(e a larga maioria concordava!) sem ter em conta a diferente qualidade dos executantes(argumentavam que a um nivel profissional as diferenças não são tão drasticas que justifique a diferente avaliação). Ora para mim, não se pode dissociar e isso leva-me muitas vezes a ver boas decisões, muitas vezes contrárias às padronizadas como tal.

Exemplos: Maior numero de cruzamentos com Jardel na area: boa decisão! Cristiano Ronaldo a rematar perto da entrada da area mesmo com um colega em melhor posição: às vezes, é a melhor decisão! Jogar mais vezes directo com Bale e C.Ronaldo a aproveitarem a profundidade: boa decisão!

Por isso, ler agora(não sei se as mesmas pessoas)a desculparem Maradona porque tem uma qualidade diferente, é no minimo dos minimos contraditório. E ridiculo se forem realmente os mesmos.

E por mais que procurem demonstrar que a visão do futebol actual não castra jogadores como este, recorrendo em última instância ao : "ah e tal, concordam com o que aqui está, mas não percebem nada disto", a realidade é por demais evidente. O jogador de futebol actual é demasiado condicionado pelas decisões mais padronizadas e será ainda mais no futuro. Não perceber isto é que é não perceber como funciona o cerebro humano.

Jogadas como esta ou como as de Ronaldo Nazário ou mesmo como dos últimos românticos já enfrentando sistemas defensivos modernos(Messi pré-2010 à cabeça), serão uma memória bonita. O futebol, mais bem jogado sem dúvida, mas muito menos espectacular.

Roberto Baggio disse...

"Va lá! Toda a vossa análise está condicionada pela admiração juvenil, pelo idolo das vossas infâncias,o Maradona."

Tive dois ídolos. Baggio e Del Piero.

"Eu vejo aí 2 ou 3 momentos em que Maradona não toma a melhor decisão"

Eu não vejo nenhum. Ele recebe a bola pressionado por um adversário no sentido para onde ele deveria seguir. Daí a recepção ter sido orientada para à baliza dele. Depois outro adversário de imediato aperta, e o que ele tem é tempo de garantir que fica com bola. O problema é que o adversário voltou a apertar, e ele foi novamente obrigado a driblar, desta vez para fora, e em progressão. O resto da jogada são dois 1x1 sem cobertura.
No final, à velocidade do lance, e com os 2 adversários a cobrir o mesmo (à esquerda e à direita dele), com o GR a aproximar a decisão seria entre rematar, ou tirar o GR da fente. Qual a melhor?! Se alguém me conseguir dizer... O Passe ali nunca é opção. Ele não tem tempo de ver os colegas. Portanto, na minha opinião, muito no início do lance ele tem uma decisão pior. O resto é tudo, tudo, bom.

Portanto, para mim, o lance é imaculado.

Pedro Marques disse...

A tomada de decisão é sempre subjetiva... tudo depende da análise que cada um de nós faz das probabilidades de sucesso (e do custo benefício de cada uma das decisões...). Se fosse treinador e se visse o lance em direto... teria havido um ou dois momentos em que teria gostado que ele soltasse a bola... quando passa no meio dos 2 jogadores e quando finta para fora à entrada da área. Nesta última parece-me que uma tabela funcionaria bem e n haveria o risco de perda de bola de um 1x1. Ao mm tempo as contenções e coberturas foram sempre tão más... que nunca houve uma decisão que se possa dizer que tenha sido claramente errada... tanto que a jogada decorre, tendo em conta a qualidade dele, com uma naturalidade e tranquilidade quase surreal. Em terra (tempos) de cegos quem tem um olho é rei... e o maradona tinha dois lol ;-)

Rumo Norte disse...

Eu já disse isto num outro contexto: há dois mecanismos de decisão, e um deles é bipolar (ou seja, serão na realidade três).

O primeiro é voluntário e racional: é o mecanismo de decisão que funciona à velocidade do pensamento; olho, vejo, penso, decido.

O segundo é intuitivo, instintivo: olho, reajo, penso, avalio (esta última é opcional, muitas vezes se diz: o que está feito, feito está, ou algo parecido - sem a consciência e a vontade de realizar auto-análise, este momento perde-se; é para isto que serve o treinador).

A bipolaridade neste mecanismo é o que acontece no "reajo":

2a) ou é uma reação intrínseca, que vem do próprio e da sua experiência "natural" (em futebol, o brinca-na-areia está aqui, reaje apenas com o prazer hedonista de quem quer ter a bola (case in point, Quaresma);

2b) ou é uma reação condicionada pelo treino, em que os instintos naturais da pessoa estão "cobertos", por assim dizer, com reações treinadas por vezes em situações muito mais difíceis; em futebol, podemos fazer isto encurtando o espaço de jogo ou treinando situações de desvantagem numérica, por exemplo (por isso equipas que jogam em campos pequenos por vezes têm vantagem sobre equipas melhores mas que não estão habituadas ao espaço mais pequeno); noutras áreas da atividade humana isto é particularmente evidente em profissões de alto risco (militares, bombeiros, emergência médica), em que cada movimento do indivíduo está treinado para fazer coisas impossiveis para o comum dos mortais, e se sobrepõe ao que seria a tendência natural.

No futebol a este nível, eu diria que o Maradona tem talvez duas ou três oportunidades para tomar uma decisão racional, pensada: quando arranca com a bola em espaço (podia ter feito um passe), e quando lhe aparecem à frente no 2x1 quando se aproxima da linha da área (drible ou tabela).

Nos outros momentos, são decisões instintivas, não controláveis senão pelo treino prévio (ele poderia ter feito o passe de retorno, mas o instinto dele seria o drible; poderia ter feito o passe para o 1x0, mas o instinto dele seria o remate).

Donde, as decisões do Maradona são todas corretas, e mesmo que ele tivesse perdido a bola nalgum desses momentos, a opção não existe.

Eu admito que para um jogador profissional o tempo e o espaço tenham um significado diferente do que têm para mim. Mas há um limite de velocidade para todos, que é o da transmissão dos impulsos neurais, e do reflexo muscular.

Literalmente, acho que há jogadores destes que prevêem o futuro; a nós cabe-nos analizar o passado, e criticar com o benefício de já saber o resultado. Não é uma crítica justa, mas é a vida.

Abraço, e obrigado pela oportunidade para mandar uns bitaites.

jorge gaspar disse...

Baggio quando te referes a decisão pior, estás a referir-te ao facto de quando recebe a bola e recua, e fica rodeado por dois jogadores, não ter passado a bola aquele jogador que aparece por pouco na imagem atrás dele, certo?

Roberto Baggio disse...

Sim. Mas não creio que ele sentisse "segurança" para executar o gesto com qualidade. Talvez tenha pensado que se passasse, iria sair em esforço e preferiu manter a bola no poder dele. Ainda assim, o objectivo ali era sempre manter a bola. E ele conseguiu, sozinho...

Anónimo disse...

Aqui há tempos, postou-se por aí o VP a dizer que em tempos, parava o treino quando um jogador tomava a decisão errada - algo análogo a isto. Mas que deixou de o fazer porque os jogadores dele são muito melhores que ele a jogar futebol e conseguem inventar caminhos que nem lhe passam pela cabeça que seriam possíveis. Penso que se aplica o discurso aqui. A prova que as decisões foram as melhores foi que resultaram em golo, que é o objectivo da jogada ofensiva.