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quinta-feira, maio 29, 2014

O golo. Esse bicho de sete cabeças.

Sobre um último comentário, de um leitor que muito tenho gostado de ler (aqui), "mas n deixa de ter sido decisivo... tal como um jogador de basquete pode falhar todos os lançamentos durante um jogo mas se acertar o cesto da vitória no último segundo vai ser decisivo ainda que tenha feito um jogo miserável."

Tende-se a confundir decisão com notoriedade. Isto porque no fundo, ao final de um jogo, toda gente foi decisiva para o desfecho do mesmo. Uns mais que outros. Mas analisando, nos 90 minutos, todos os lances, todos foram decisivos, todos foram importantes em algum lance. Então, é preciso perceber que dentro disso, uns tiveram mais influência positiva no rendimento da equipa, e outros tiveram menos. A única coisa que diferencia o golo (assistência) de todos os outros lances do jogo, é a notoriedade que esse tipo de situações dá. Que leva, normalmente, a que os mais desatentos digam que os jogadores foram mais decisivos, e não raras vezes a eleger aquelas individualidades como as melhores no jogo.

Pegando no exemplo do nosso leitor (que repito, muito tenho gostado de ler), mais decisivo que o jogador que acertou o último cesto, foram os outros que permitiram que a equipa se mantivesse em jogo, criando possibilidade de no final, no último cesto, estar ainda a discutir o resultado (vitória). A diferença entre o cesto dos outros colegas, e o dele, é a notoriedade. Porque sem dúvida que, para o desfecho final, ele foi o menos decisivo.

Outro exemplo bastante bom, é o da final da Liga Europa. Beto, para muitos, foi o GR mais decisivo em campo. Quando, para mim, foi precisamente o oposto. De facto, Beto fez uma defesa muito boa, e defendeu os penaltis. Esteve bem, fantástico, nos momentos que dão notoriedade. Mas, no resto do tempo, foi inseguro, não deu à equipa a tranquilidade que se espera de um GR, não esteve bem tecnicamente em algumas das suas funções específicas (saídas aos cruzamentos, largou muitas bolas que poderiam ter dado golo, não fosse demérito dos avançados do SLB). Enquanto que, houve outro GR do outro lado, que contribuiu mais, e de forma mais decisiva, para que a sua equipa estivesse sempre no jogo, naquilo que são as suas funções. Deu a tal tranquilidade e estabilidade que os jogadores da frente precisam, dentro das suas competências técnicas esteve muito bem, não errou. Pelo que, de facto, um foi mais notado, mas esteve muito longe de estar melhor que o outro.

Como último exemplo, diz-se por aí que a Espanha tem a cultura do jogar bem, e Portugal tem a cultura do golo. Eu discordo completamente disso. Espanha tem a cultura do golo. Mas do golo com sentido. Do golo nas melhores condições. Da procura dos melhores caminhos para chegar à finalização. O que precede o golo é tão importante quanto o momento de finalização. E o que precede o golo pode ser um passe, dois, ou vinte. Pode ser um desarme, um abrir da melhor linha de passe, um drible. Pode ser um ajuste posicional no momento certo, um timing de pressão perfeito, um cruzamento para a zona certa. No fundo, são todas essas acções, uma a uma. Cada uma de máxima importância, no momento em que aparece. E isso não tem nada à ver com posse, ou com transições. Tem a ver com o contexto. E eles, tentam retirar o melhor de cada contexto, elegendo a melhor acção à cada momento em que participam. Dessa forma, agindo sempre de forma adequada, estou a ser muito mais decisivo para o jogo (dentro daquilo que é a influência de cada um, em todos os lances), do que se estivesse sempre a escolher caminhos errados, ainda que num lance acabe por marcar um golo, ou fazer uma assistência.

"
Perceber o "porquê" do rendimento colectivo está muito para lá da constatação da análise ou do conhecimento pragmático. Entender o que proporciona o "resultado" é muito mais difícil que a percepção do mesmo."
Jorge D, aqui.

Poderemos ir ainda mais longe, e dizer que nenhum passe certo (entenda-se melhor passe) é menos importante que um golo. Nenhum ajuste posicional correcto é menos importante que uma assistência. A única diferença entre eles é que um da notoriedade, e o outro não aparece nas estatísticas.

"
Rendimento está longe de poder ser medido com golos e assistências. Rendimento é nada mais do que fazer o melhor em cada acção em que se esteja envolvido no jogo. E isso está muitíssimo longe de acontecer, apenas, nos momentos que dão notoriedade. O jogo tem 90 minutos, e cada acção com e sem bola é relevante para que se analise o rendimento. Nenhuma acção é mais importante do que outra. Todas devem convergir para o objectivo (aproximar a equipa da vitória). Pena que isso não apareça nas estatísticas..."
Roberto Baggio, aqui.

O golo é um momento do jogo como outro qualquer. Tem uma importância exactamente igual à todas as outras acções do jogo. É tão relevante para o desfecho do jogo como todas as acções que o antecedem, e como todas às acções que o precedem. Não é nenhum bicho de sete cabeças. Apenas é mais notado.

8 comentários:

GB Oeiras disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
GB Oeiras disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gonçalo Matos disse...

Espanha não tem cultura de posse, tem cultura de jogar futebol.
Como costumo dizer aos meus amigos, mais interessante que o resultado, interessa-me o processo.
É o mesmo quando avalio individualmente cada jogador. Não me interessam os highlights e tenho tendencia a desvaloriza-los. Interessa-me acima de tudo, perceber o que vale o jogador na maioria das situações e a maioria das minhas análises individuais têm isso em conta.
Muito se falou do Quaresma aqui há uns tempos e o gajo é um exemplo de como a notoriedade pode dar uma percepção errada da qualidade individual.
Por oposição, vejo o caso do Benzema, que é muitas vezes criticado pela ausencia de golos. Mas pelo que dá à sua equipa, para mim é dos melhores avançados do mundo, de longe.

ricnog disse...

É mais fácil para jogadores comuns ou dos antigos explicar isto através das bolas paradas. É preciso dizer lhes que a movimentação que vão fazer, vai ser importante para o golo. A notoriedade é dada a quem da a cabeçada final e tem uma excelente execução técnica. Mas os bloqueios, o abrir espaço para o jogador cabecear, é tão ou mais importante....

Pedro Marques disse...

Existe de facto alguma confusão entre ser decisivo e ganhar notoriedade... um golo no 1º minuto vale tanto como um golo no último... embora se valorize mais o marcado no último. E nisso concordo plenamente.

Agora é possível um jogador ser fraco ou fazer um mau jogo e mm assim ser decisivo... Beto é um exemplo (que deste!) mas tb o são o Kelvin o ano passado, o Kiwi numa final da taça há uns anos, ou o Di Maria na final da Liga dos campeões... (que era o contexto original). Quando se avalia o processo e n apenas o resultado nenhum destes jogadores está necessariamente acima dos seus pares mas isso n significa que objetivamente n tenham sido fundamentais para aquele resultado em particular.

Daí que por exemplo ache que o melhor ou mais decisivo jogador da final da liga europa (este conceitos não iguais para todos) até foi o Beto ainda que se analisasse com detalhe o jogo e mm que n conhecesse previamente nenhum dos GRs ia reparar na maior qualidade e segurança do Oblak. Mas as asneiras e inseguranças do Beto (embora visiveis - análise do processo) não foram relevantes nem decisivas para o resultado final. Já as mais valias, ainda que num ambiente parcialmente aleatório e numa amostra bastante reduzida (4 ou 5 penalties) foram-no. Mas aqui já entramos nas discussões semânticas típicas do melhor jogador da época, ou melhor jogador em potencial, ou do melhor jogador na equipa e contexto em particular (tipo bola de ouro) que são muito subjetivas e em que nunca haverá consensos mm entre pessoas que basicamente concordam em tudo.

Cumps

Roberto Baggio disse...

Não, não e não. Discordo de tudo o que escreveste.

O Kelvin, teve quantas acções em jogo? Quantas falhou? Os colegas do Kelvin quantas falharam? E é isso.

O Beto não foi mais decisivo que Oblak para aquele resultado em particular. Foi mais notado.

O Di Maria não foi mais decisivo que o Modric para aquele resultado em particular. Foi mais notado.

Fundamentais, são os que em cada acção aproximam a equipa do êxito, escolhendo os melhores caminhos. Di Maria não foi mais fundamental que outros. Foi mais notado.
Todos os jogadores são decisivos para qualquer resultado. Uns mais que outros. E o facto de numa acção ter estado bem, e nas outras todas mal, faz com que tenha havido colegas mais fundamentais que ele.
E é esse o caso do Di Maria, do Beto, e de muitos outros casos pares.

As asneiras do Beto não foram relevantes porque ele teve sorte! Não foi por mérito dele. Não tendo tido mérito no processo, tendo sido isso deixado ao juízo do aleatório, como pode um jogador desses ser considerado mais decisivo que outro que fez tudo que estava ao seu alcance para que a sorte não jogasse?! Isso sim é um contra senso. O processo é um todo. Não é separar uma acção e dizer, upah! este gajo foi mais decisivo porque nesta acção acertou! Se falhou nas outras todas, houve gajos mais decisivos que ele. Porque o processo é um todo! Não é uma acção. A não ser, que como o Kelvin, ele tenha tido 3,4 acções em jogo e tenha acertado 3, 4 acções naquele contexto. Isto não é complicado de perceber.

Portanto decisivos são todos. E no futebol, os mais decisivos são os que fazem mais vezes as coisas bem. Não são os que marcam o golo da vitória. Ou os que fazem uma jogada com sucesso. Embora, claro, os outros sejam mais notados.

E é por isso, e só por isso que o Messi é o melhor da história. Porque faz tudo bem, e ainda assim consegue ser notado.

Pedro Marques disse...

É uma questão de semântica relativamente ao q para ti é ser decisivo... mas um jogador pode ser decisivo por sorte... analisa-se o processo e sabe-se que foi sorte mas n deixa de ser decisivo (no sentido de decidir!). É o caso do Beto na Liga Europa e é o caso do Kelvin no campeonato. O Porto n foi campeão o ano passado por causa do Kelvin... se estivesse dependente de jogadores como ele tinha chegado à penúltima jornada na mm situação que chegou este ano... (todos concordamos que os pontos no início do campeonato valem tanto como no fim!). Mas quer se queira quer não se n fosse o Kelvin e o minuto 92 o Benfica teria sido campeão. O próprio VP admitiu que o racional n estava a funcionar e foi à procura da sorte... e foi o Kelvin q a teve. N fez dele melhor jogador (esta época ainda foi pior que a anterior)... n fez dele o melhor jogador do campeonato... mas fez dele a pessoa que decidiu o jogo (decisivo) e isso trás notoriedade que obviamente sobrevaloriza os jogadores... aos olhos da maioria dos adeptos (n aos meus e pelo tempo de jogo que teve este ano tb n aos olhos dos treinadores).

Há um outro aspeto que é o que para mim quer queiramos quer n os jogadores mais decisivos num jogo (n necessariamente os mais importantes) para o resultado final vão ser sempre os jogadores que finalizam... e os GRs (são eles o fim da cadeia ofensiva e defensiva). Numa equipa que cria uma situação de 1x0 o mérito é provavelmente muito maior dos defesas e médios por onde passou a bola do que do avançado que aparece na cara do GR. Mas naquele momento todo o trabalho coletivo de uma equipa (trabalho bem feito da equipa que está atacar e mal feito da equipa que está a defender) fica "nas mãos" do avançado e do GR. E se n houver golo... todo o mérito e qualidade de uma equipa e todos os enterros da outra é como se n tivessem acontecido porque quer queiramos quer n o resultado manteve-se igual. Isso n quer dizer q um treinador (e adepto) n deva analisar o processo e dizer que um tipo foi decisivo, foi importante, foi fundamental mas que basicamente teve sorte... e que por isso provavelmente n será a melhor solução para ter sucesso no futuro...


Cumps

Filipe disse...

estás a ser incoerente. é verdade que, por muito boa que seja a jogada, só vale de alguma coisa se o avançado a concretizar. no entanto, se não houver jogada, também não há oportunidade para o avançado. uma casa não é só o telhado ou a pintura, são também os seus pilares. resumindo, não podemos ser minimalistas e analisar apenas o resultado. caso contrário, e transportando para a nossa vida (o futebol tem muito para ensinar, em termos de filosofia), começamos a não olhar a meios para atingir os fins