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segunda-feira, maio 12, 2014

Contexto

"É preciso teres coragem, para defenderes um gajo que passa sem olhar, e ainda por cima a bola vai parar aos pés do adversário"

Escrevo este texto por uma discussão que tive hoje, acerca de um jogador que passou sem olhar. Nessa mesma discussão eu defendia que o jogador não tinha culpa nenhuma, bem como defendi que o maior culpado tinha sido o seu colega, que não se soube posicionar em cobertura, como é normal no modelo de jogo da sua equipa. Falo precisamente de um lance do último jogo do Barcelona contra o Elche, no corredor lateral. Os jogadores em questão eram Daniel Alves, que fez o passe sem ver e o jovem Tello.

Para iniciar devo dizer que não reconheço grande inteligência na jovem promessa do Barcelona, pelo que isso influenciou claramente na minha percepção do lance. Tendo conhecimento prévio de outras situações onde ele não escolhe "os melhores" caminhos, desde logo me deu ideia de que ele teria culpas no cartório. A situação era simples, Daniel Alves, solicitado numa variação de corredor, num lance de recepção difícil, foi prontamente apertado por dois adversários. Dessa forma, ficou sem tempo e espaço para pensar/executar. A sua primeira preocupação foi receber a bola, a segunda foi passa-la. Tello, que se encontrava perto do lance, entendeu que não deveria colocar-se em cobertura, tendo ficado na expectativa, na mesma linha que o Dani Alves, a ver o que o lance dava, e se recebia a bola numa posição melhor, para ele.

O meu amigo com quem discutia dizia, "tu lá no blogue dizes isso e aquilo, depois vens para cá defender uma jogada destas?. Ainda por cima, o adversário ficou com a bola?"A questão é aparentemente simples, e pacífica para mim. Eu no blogue defendo muita coisa. Mas essa muita coisa que eu defendo, depende do contexto. E consoante o contexto, devem-se escolher as melhores respostas, sendo que o futebol é um jogo onde as respostas são diferentes, na sua maioria. Podem ser semelhantes, mas são diferentes.
Como é óbvio, eu não defendo que um gajo deva passar sem olhar. Mas consoante a dificuldade que ele enfrenta, ele deve conseguir dar uma resposta, condizente com o que a situação lhe proporciona. E por vezes, o passar/cruzar/rematar sem olhar é a melhor solução. Daniel Alves estava apertado. Não por um, mas por dois adversários que pressionavam. Estava a receber um passe difícil, e para que a equipa não perdesse a bola encontrou uma solução, dentro modelo de jogo da sua equipa.
No Barcelona de Tata, se há coisa que existe, quando a bola entra nos corredores é a cobertura ofensiva, uma linha atrás do portador da bola, sempre que há possibilidade. E é para isso que o modelo e o treino servem. Para dar ferramentas aos jogadores que lhes permitam muitas vezes antecipar a acção. Jogando mais "rápido" que o adversário. Velocidade colectiva. Perceber que a equipa está organizada de forma tal, que perto dele terá sempre uma linha de passe aqui, ou acolá. Que se estiver apertado pode cruzar, que tem 2/3 colegas posicionados na área para finalizar. Que se a bola estiver em risco de sair, com um adversário em perseguição, pode fazer um passe atrasado que um colega está a entrar na zona do penalti.

E podemos ir mais longe. Tello, não foi muito inteligente na forma como leu o lance. Percebendo-se que o colega teria uma recepção difícil, percebendo a aproximação dos adversários, o mínimo que poderia ter feito era uma aproximação ao colega. Isto para que, mesmo não recebendo a bola, conseguisse reagir rápido em caso de perda da mesma. Se um colega está aqui e tem adversários ali, a linha de passe é aqui. Se um colega está apertado, o melhor é ficar mais perto. Se um colega tem espaço, o melhor é afastar e procurar zonas mais interessantes. Deveria ter sido esse o pensamento do jovem espanhol. Os jogadores devem ser capazes de o perceber, e daí conseguir dar resposta à situação de jogo por que passam. Há situações onde não se pode tirar os olhos da bola, por se perder o controlo da mesma, ou tempo de execução. Há situações onde se deve driblar 2,3,4 jogadores por estar constantemente a ser apertado. E por aí devemos seguir.
Há situações, e situações. É sobretudo isso. É sobretudo contexto.

Para o Tello, recomendo mais meinhos. 3x1, 4x2, etc. Para que perceba, caso tenha a bola, que os colegas estão estruturados de forma X. E que quando não tenha bola pense onde deve oferecer a melhor linha de passe aos colegas. Mas nada disto adianta se ele não estiver a "pensar" enquanto os realiza. 

8 comentários:

Rui Dias disse...

Em teoria concordo plenamente! Ainda assim dava jeito dar uma espreita no lance :)

Obviamente a "falta" de espaço vai condicionar o tempo que tem para soltar a bola e (sendo como descreveste), fruto do modelo a que está formatado o jogador naturalmente vai colocar da melhor forma possivel a bola...numa zona onde "sabe" que tem alguem seu.

Ainda assim (e por isso gostava de ver o video) acho que a questão ai não estará tanto no facto de dever ou nao entregar sem olhar mas sim se não entregando colocaria mais em risco a sua equipa do que entregando "á pressa" e sem critério (obviamente tem o critério do esquema táctico da equipa...que no entanto falhou").

segundo percebo a recepção do dani alves acontece junto á linha lateral. não faria sentido ceder lancamento e garantir que a equipa está bem possicionada para recuperar a bola?

cumprimentos

Anónimo disse...

http://m.abola.pt/noticia.aspx?id=477368

Roberto Baggio disse...

Rui essa era outra solução. Acarreta menos riscos. A equipa perde a bola, e organiza oara recuperar. Contudo, acho que a solução dele é boa, tendo em conta que estavam atrás do prejuízo. Não meti o lance porque não me apetece sacar, converter, e etc por causa disso.

Aza Delta disse...

"Como é óbvio, eu não defendo que um gajo deva passar sem olhar. Mas consoante a dificuldade que ele enfrenta, ele deve conseguir dar uma resposta, condizente com o que a situação lhe proporciona. E por vezes, o passar/cruzar/rematar sem olhar é a melhor solução. Daniel Alves estava apertado. Não por um, mas por dois adversários que pressionavam. Estava a receber um passe difícil, e para que a equipa não perdesse a bola encontrou uma solução, dentro modelo de jogo da sua equipa."

No início do post penso que te referiste ao Salvio e à jogada que aqui foi debatida no jogo com o alkmaar.. Na altura, apesar de compreender a crítica que fazias ao salvio disse que achava que ele merecia o benefício da dúvida pq era uma opção de último recurso (estava perto da bandeirola de canto, rodeado por 2 adversários também). e a única resposta que tive de ti foi uma boca sarcástica a dizer "o número e a cor da camisola não deixa ver mais".

Roberto Baggio disse...

Olá boa noite.
Discordo de era o último recurso por dois motivos: Foi ele que decidiu ir 1x2 não foi a circunstância que o ditou. Ele tinha a bola controlada. O primeiro jogador apertou, ele tirou o gajo da frente e o outro nunca se aproxima. Pelo que não estava apertado. Tanto que o cruzamento sai sem tocar em nenhum dos jogadores do AZ.

Como disse na altura, se acham que ele olhou, okay, porreiro. Se acham que não, naquele contexto, foi mesmo mau.

Pedro Lucas disse...

É uma questão que coloco quase sempre quando Cardozo perde a bola por demorar muito tempo a soltá-la (o que acontece muitas vezes). Normalmente à minha volta toda a gente aponta o dedo à lentidão do paraguaio. Eu sou aquele que aponta o dedo aos que não abrem linha de passe "útil" (convenhamos, que linha de passe há sempre com os centrais e com o guarda redes, basta chutar um pirolito lá para trás e eles que se orientem).

Rafael Antunes disse...

Só mais uma cavaca para a fogueira...

1º - Não sei qual é o lance...

Mas não poderia a posição do Tello estar de acordo com uma melhor abordagem do Dani Alves?

Ou seja, será que o Dani Alves não abordou o lance de forma que já não consegue dar-lhe o melhor seguimento e teve de ser "sem ver"?

Percebo a tua sugestão, o Tello não é um canterano puro, entra no Barça B, o que quer dizer que entra numa fase de recrutamento em que eles pensam que eles têm todas as condições para interpretar e adaptar-se o modelo e ao mesmo tempo trazer nuances diferentes ao jogo.

Mas mesmo assim, acho que o que não faltará a um jogador do Barça são situações como as que referes... O problema poderá não estar aí!!!

Roberto Baggio disse...

Era receber, ou despachar. Os outros bascularam muito rápido e apertaram logo