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terça-feira, abril 22, 2014

Quem joga são os jogadores

A criação de rotinas de jogo, e de uma ideia comum, é o essencial para que uma equipa se candidate a lutar pelos objectivos a que se propõe. E dentro disso, os jogadores devem adaptar-se a essa ideia que o treinador transmite para que possam todos responder de forma semelhante, como equipa, ao contexto do jogo. Isso é o trabalho do treinador. Operacionalizar uma ideia de jogo. Mas depois, acabam por ser sempre os jogadores a ter de dar resposta no final. Isto é: a adaptação dos jogadores ao adversário (contexto) e a adaptação de uns aos outros. A cada treino, e a cada jogo, a relação deve-se estreitar, por forma a que nas fases decisivas, onde não se treina, o conhecimento do meu colega me permita antecipar a acção dele, antes que aconteça. A cada treino, a cada jogo, eu devo conhecer, e reconhecer os movimentos do meu colega.
Por exemplo: Veja-se a diferença de rendimento de Maxi quando Sálvio está em campo, em comparação com Markovic. Com Sálvio, Maxi não sabe muito bem onde se posicionar, não sabe quando e como a bola vai entrar, não sabe sequer se vai entrar. Com Markovic, ele sabe que pode explorar o corredor, porque a bola vai entrar na maior parte das vezes. Sabe que ele vai progredir pelo interior, para o libertar com menos oposição, sabe que o passe pode demorar, porque Marko anda sempre a procura do melhor timing, pelo que ele deve sempre aguardar. Isso acontece porque na fase fundamental, Sálvio não esteve lá. Pelo que os colegas não reconhecem a sua "linguagem", as suas acções. O mesmo se poderá dizer de Rodrigo, da direita para a esquerda quando enquadra, é para procurar o remate, ou cruzamentos ao 2ºposte. Pelo que Lima, não se tenta aproximar para tabelar, nessas situações. Quando Gaitan vem por dentro, é para tabelar, os colegas de imediato se mostram para se envolverem na jogada. Por outro lado quando é Markovic a enquadrar, os colegas afastam porque sabem que ele vai conduzir, se necessário ultrapassar a contenção, e colocar no espaço. Isso é velocidade colectiva. A adaptação dos jogadores a eles próprios. Os timings de desmarcação, de passe, de cruzamento, que zonas de finalização procurar. Mas isso, os jogadores é que têm de perceber, faz parte do trabalho deles, e depende muito pouco do treinador.

Thierry Henry em entrevista dizia, "Quando cheguei ao Arsenal, dizia a Wenger muitas vezes, queixando-me: mister, eles não passam bem a bola. Se vou para o espaço eles metem no pé, se vou para o pé eles metem no espaço. Assim não dá. Ao que Wenger me respondeu: tens a certeza que estás a fazer as perguntas certas? Já pensaste que és tu quem tem de se adaptar aos teus colegas e não o contrário? Se sabes que ele vai meter no espaço, procura o espaço, se sabes que vai tabelar, pede no pé."

3 comentários:

Rafael Antunes disse...

Cabe ao treinador pôr os jogadores em contacto com esses sub-sub princípios... Através de exercícios e dos feedback, semrpe variàveis e ao mesmo tempo padronizados... Talvez padronizados em relação aos conteúdos a trabalhar, e variàveis ao nível da estrutura e feddback (de uma forma muito simplificada, penso que percebes o que quero dizer)

Aqui é onde eu discordo do que disseste acerca da PT, que ela te obriga a padronizar o teu jogo,e por conseguinte o teu treino, ou vice versa.

Eu considero que poderá haver padronização. A ver se me explico.

Como disseste, há o padrão de Marko, o de Salvio, o de Gaitan, o de Rodrigo, Lima e por aí fora...
Ou seja, todos têm de se conhecer entre si, dentro do que são as ideias do treinador, MJ...
São micro padrões por assim dizer, mas isto não quer dizer que cada um deles (o portador da bola) decida sempre da mesma maneira, a decisão é influenciada e determinada pela Percepção/decisão/acção dos colegas... Mas estes diferentes micro padrões são todos coordenados no MJ que mais uma vez pode ser interpretado como um padrão colectivo.

A PT não te obriga a padronizar. Ela define que o MJ é o regulador de todos os comportamentos individuais e colectivos, ele pode constituir-se em padrões que vão sendo regulados à medida que a acção se desenvolve...

É um bocado o que o JJ lhes diz... eu quero isto assim e assim, mas vocês é que têm que ver... porque aquilo que ele quer pode chegar lá passando de A para B, para C, para D... Mas também o pode atingir Passando de A para C, para D, para B... Há um padrão que é A-B-C-D, mas não é rígido (padronizável) porque a ordem é emergente, é no momento, é o que o jogador vê...

É padrão e não é, ao mesmo tempo... É a cena dos fractais... O todo que está na parte que está no todo...

Roberto Baggio disse...

Rafael,

Sim, entendo.

E a minha percepção tem a ver com isto: "Ela define que o MJ é o regulador de todos os comportamentos individuais e colectivos"

E a parte que discordo é no "individuais". O MJ não pode ser regulador disso. Ou pelo menos não da maior parte dos comportamentos individuais (com bola_), na minha opinião. Isto porque não havendo situações repetidas, mas sim semelhantes, o comportamento deve emergir da percepção do contexto. E para mim, a decisão do portador da bola deve ser independente do MJ. Ou seja, okay os meus colegas se desmarcam para aqui e para ali, o adversário está ali, o mister quer que a bola entre no Lima, vou criar condições para meter lá a bola, mas o Rodrigo está melhor posicionado, e também me dá mais jeito meter, o que se faz? Confusão para o jogador. Influência ao nível "micro" na tomada de decisão. Quando isso deveria ser ele a decidir, na hora, consoante o contexto. Poderá até não se notar nos primeiros tempos, mas ao longo do tempo tenho a certeza que irá emergir o comportamento por padrão, retirando completamente a variabilidade, e criatividade que o portador da bola precisa ter. Tornando o padrão rígido, ainda que o treinador faça transmitir que há outras soluções. E com isto quero por exemplo também dizer, exercícios do tipo com o feedback do tipo no Cardozo é sempre no pé, no Rodrigo é sempre no espaço... E por aí em diante. Se assim o for, terão de ser os jogadores a descobrir. Okay, o meu colega faz isso, eu devo fazer aquilo. Não o treinador a "obrigar". Porque depois o contexto pede algo diferente, e já está na minha opinião mal padronizado.
O meu exemplo seguinte poderá ser mais elucidativo, quando Maxi tem a bola, quero que o Marko receba na linha, e que o Maxi venha dentro. Porque o extremo deles não defende e o lateral abre. Pelo que podemos aproveitar esse espaço. Como? Não sei. É para aproveitar sempre (colocando lá sempre a bola)? Não. É quando o jogo ditar que a bola lá entre... E isso é muito diferente de a bola tem de entrar no Maxi. E é disso que discordo. E isso que a periodização faz.

Não sei se fui claro

Rafael Antunes disse...

Foste claro... e percebo-te, e concordo com:
" É para aproveitar sempre (colocando lá sempre a bola)? Não. É quando o jogo ditar que a bola lá entre..."

Aquilo que não tenho a certeza é:

"E isso é muito diferente de a bola tem de entrar no Maxi. E é disso que discordo. E isso que a periodização faz"

Não sei se é a PT que manda, ou se é a interpretação individual que te manda fazer...

Tu podes seguir a PT e não padronizar o que referiste...

Abraço