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terça-feira, março 04, 2014

Entre Dez: Virar o Flanco

O Nuno, autor do Entre Dez, pensa o futebol como poucos. O que ele escreve sobre futebol é pensado, e argumentado com grande inteligência. Na maior parte das vezes, concordo com o que escreve. Fica aqui a minha homenagem a um dos autores que mais valem a pena ler na blogosfera.

"O que se ganha realmente quando se vira o flanco? Dirão aqueles a quem os lugares-comuns pouca comichão fazem que se ganha espaço e tempo, senão mesmo a possibilidade de progredir imediatamente no terreno de jogo. Pessoalmente, aceito que se ganhem estas três coisas; o que já tenho dificuldades em aceitar é que alguma delas seja realmente aquilo com que uma equipa que ataca mais se deve preocupar. Para que serve o espaço e o tempo? E por que é que é melhor a bola estar uns metros mais à frente? A finalidade de um lance de ataque é, a cada instante, estar mais perto da baliza adversária do que no instante anterior? É ir tendo cada vez mais espaço? Não. Pelo menos em ataque organizado, a única finalidade, em cada acção ofensiva, é desposicionar o colectivo adversário, ou seja, melhorar as condições de ataque. Isso pode ser feito com muito ou com pouco espaço, em muito ou em pouco tempo, e de muito longe ou muito perto da baliza adversária. O que é que interessa progredir constantemente, se as condições em que isso é feito não são as melhores? Nenhuma das três coisas atrás mencionadas como benefícios de se virar o flanco são, portanto, minimamente relevantes para quem desenha um ataque. Resta, pois, saber se virar o flanco não acarreta ainda desposicionar o colectivo adversário ou melhorar as condições em que se ataca, os verdadeiros objectivos da equipa que tem a bola. E aí a minha resposta é: depende. Depende do posicionamento defensivo dos adversários, depende do posicionamento dos próprios colegas, depende do que estiver a ocorrer no flanco em que está a bola, depende do que estiver a ocorrer ou que é previsível que venha a ocorrer no flanco para onde a bola irá, depende das condições que houver para fazer a variação, etc.. Enfim, depende de todas as circunstâncias.

Normalmente, pensa-se em virar o flanco quando se ataca por um dos flancos, quando esse flanco está demasiado congestionado e quando há um colega solto, no flanco contrário, a quem é possível enviar a bola. Vê-se um jogador solto do lado contrário e assume-se imediatamente que essa é uma opção melhor do que tentar progredir por onde há muita gente. Mas será que o é? Na verdade, não é só a equipa adversária que tem pouca gente do lado contrário; por norma, é também quem ataca. Trocando o flanco ao jogo não se põe a bola apenas onde há um aglomerado de adversários menor; põe-se a bola também num sítio onde há menos colegas, entregando assim o lance à capacidade de um indivíduo. É verdade que, tirando a bola do flanco congestionado, se obriga o adversário a bascular, a desarmar a sua zona de pressão e a refazê-la noutro lado; mas também se dificulta o trabalho colectivo de quem ataca. Com menos jogadores, menos possibilidades de combinação existem. Se o adversário tem de se reorganizar, quem ataca tem também de reocupar posições, tem também de perceber que espaços sobram para invadir, qual a arrumação defensiva do adversário com que pode contar, etc. Para ser sincero, não vejo numa mudança de flanco comum ganhos significativos. Tira-se a bola de um sítio congestionado, mas não se tira vantagens disso. No fundo, é apenas uma forma de reiniciar a jogada, com a agravante de obrigar quase toda a equipa a ocupar rapidamente novas posições, o que provoca maior desgaste. Nos momentos imediatamente a seguir à variação do flanco, a equipa que tem a bola fica inclusivamente com poucas soluções de passe e quaisquer movimentos de aproximação são acompanhados do movimento de basculação natural dos defesas. Na verdade, não me parece ser melhor variar o flanco do que atrasar para um central, por exemplo. Ganha-se tempo e espaço, como com a outra alternativa, e sai-se da zona de pressão sem que os jogadores envolvidos sejam forçados a correr rapidamente para o flanco oposto para dar uma opção de passe ao colega que recebeu a bola."


O texto completo pode ser encontrado aqui.

6 comentários:

DC disse...

É uma pena o Nuno escrever com tão pouca regularidade. Tem enorme qualidade e é sempre um prazer lê-lo.

Gonçalo Matos disse...

Adoro quando escrevem sobre estas "verdades absolutas" e demonstram o porquê de não serem assim tão interessantes como fazem parecer por aí. O complicado é fazer perceber que às vezes é mais interessante procurar criar superioridade numérica num flanco em que há igualdade ou inferioridade que virar para outro lado onde provavelmente o cenário será o mesmo. Mas por exemplo, quando o adversário tem menos jogadores, não será uma boa ideia obriga-lo a basculações constantes?

Baresi disse...

Não é só com menos 1.
O Benfica desta época passa a primeira parte de quase todos os jogos a faZer isso, e o expoente máximo foram os jogos com Paços de Ferreira e Vit. Setúbal fora.
É extremamente difícil manter a concentração durante 90min, e esta forma de trocar a bola desgasta as equipas adversárias fisicamente e mentalmente.
E os erros acabam por acontecer.

Jorge disse...

Acho o artigo interessante e, como o Goncalo disse, gosto de ver questionados alguns dos comportamentos "automaticos" do futebol.
O artigo insere-se na ideia geral que os jogadores devem procurar tomar as melhores decisoes para a equipa, e o raciocinio desenvolvido neste artigo tanto se aplica a mudanca de flanco, como a qualquer passe longo para um jogador que esta livre mas que poe a equipa numa situacao que e pior do que aquela em estaria com outra decisao. A mudanca de flanco e um caso comum, mas tambem vejo muito passa longo para um avancado que esta isolado mas numa situacao da qual a equipa nao consegue tirar vantagem, o mesmo se podera dizer de atrasos para os defesas ou o guarda-redes.
Tipicamente mudancas de flanco funcionam bem com equipas que facam os ajustamentos necessarios depressa e bem e contra equipas que nao o facam (por terem os processos pouco assimilados).
No exemplo do video surpreende-me que o Barcelona acabe por ser a equipa que bascule pior e acabe por perder a posse.

Anónimo disse...

Apesar de o autor de Entre Dez achar que ninguem podia ganhar do Barcelona sem ser na pura sorte, se comportando como um talibã da Catalunya, eu concordo que o que ele escreve é de uma qualidade impressionante. Aquele blog tem um acervo fantastico.
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COncordo com o que se diz tambem nesse texto. A questao de "virar o flanco" é um cliche, algumas vezes sem utilidade na practica.

No entanto, agora tenho uma duvida: O que quis dizer Guardiola com aquilo de "O futebol é começar pela esquerda e finalizar pela direita"? é um conceito conexo ao de virar o flanco?

Roberto Baggio disse...

Anónimo,

É e não é. Ou melhor, pode ser. Quando isso é a melhor opção. Quando isso melhora as condições de ataque iniciais... Atrai para um lado, ataca/finaliza pelo outro.