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sábado, março 29, 2014

Criar ou recrear...

JM: Como é que consegue conciliar organização e criatividade?
(VP): Procurando não cair no erro que caía no inicio da minha carreira. Nós normalmente quando acentuamos muito o que é táctico, temos tendência a robotizar, temos tendência a querer um futebol quase sem erros, um futebol mecânico. Eu já tive essa tendência, por exemplo, direccionar muito o feedback do exercício, sistematicamente parar para corrigir e não deixando que o jogo flua, é importante deixar fluir o jogo. Ás vezes estou no treino a ver uma solução, que para mim é a melhor solução, porque vem no sentido daquilo que é a minha ideia de jogo, por exemplo, quando a bola entra no corredor quero que haja a tentativa de forçar esse corredor em situações de dois contra um, através do envolvimento do lateral ou através do envolvimento do médio centro. Mas eu tenho um extremo direito que é muito melhor jogador daquilo que eu fui, mas muito melhor jogador, e muitas vezes aquilo que eu fui como jogador limita-me em termos de leitura daquilo que está acontecer, isso acontece montes de vezes, estou à espera de um movimento qualquer e o movimento sai correcto, o movimento sai correcto e a bola não entra, tenho a tentação de dizer é neste momento, tau, mas esse meu extremo direito inventa futebol, mas inventa futebol com uma qualidade acima da minha, do meu entendimento. Ele consegue descobrir soluções que eu no meu entendimento não consigo perceber, no momento não consigo perceber o que ele quer mas ele descobre, ele descobre porque ele tem muito mais qualidade do que eu algum dia tive e apesar de eu estar de fora ele é capaz de descobrir soluções… Aqui há uns anos se ele não jogava no movimento que eu pretendia, ficava chateado, porque achava que ele não estava a corresponder à dinâmica do colectivo. Agora deixo fluir, porque percebo que ele me consegue dar, a maior parte das vezes, soluções muito mais ricas do que aquelas que eu estava à espera. Eu não limito a criatividade, eu deixo criar mas tem que ser… agora, se ele me cria uma vez e perde a bola, se me cria duas vezes e perde a bola, sistematicamente colocando em causa o que é o colectivo, ai isso para mim não é criatividade. Para mim ele está a recrear, não está a criar para a equipa.
O problema é nós deixarmos que eles do ponto de vista individual consigam emprestar o mais possível ao colectivo. Por exemplo, neste momento tenho dificuldade em trabalhar a um toque ou a dois toques, faço isso, mas tenho o cuidado de não fazer muito isso, prefiro uma execução rápida, uma execução que me dê fluidez no jogo mas que permita dois, três, quatro toques, porque há jogadores que sustentam fundamentalmente o seu jogo na condução. O Cristiano Ronaldo se tivesse apanhado um treinador na formação que o limitasse sistematicamente a jogar a um, dois toques, não tinha as características que tem agora. Por isso é que é muito importante perceber que eles nos estão a dar, a criar, mas a criar para o colectivo, ou se estão a recrear é que ás vezes eles estão a recrear-se, outras vezes estão a criar e estão a criar com uma qualidade acima do nosso entendimento.
JM: Até que ponto a criatividade do jogador esbarra com a organização?
(VP): Esbarra quando é à revelia da organização. Agora se for o criar para acrescentar… Temos um determinado exercício e na nossa cabeça o exercício tem uma potencialidade enorme, mas muitas vezes colocamos o exercício a funcionar e pela falta de qualidade dos jogadores o exercício vai… nós vamos ter que ir retirando complexidade ao exercício e retirando qualidade ao exercício. Ter menos complexidade até o torna mais rico, mas muitas vezes dou por mim a olhar para o exercício e a ver é pá o exercício é de facto rico mas precisa de qualidade e quando nós treinamos jogadores sem qualidade eles vão-nos retirando qualidade ao exercício, potencialidades ao exercício.
Quando encontramos jogadores que têm boas tomadas de decisão, que conseguem ler soluções antes de receberem a bola, conseguem grandes variações de corredor, mesmo de lado, e tau variou, do tau conseguem de um movimento qualquer… Eu gosto muito desse jogador que lá tenho, porque em condução consegue perceber o quê que se está a passar do lado contrário, do lado da bola e não é rápido, é um jogador lento, mas muito rápido a pensar. Esses jogadores acrescentam, no futuro em vez de ter dois ou três jogadores desses queria ter quase a equipa toda. Eu tenho pena, mas ao mesmo tempo orgulho, a minha carreira tem sido feita a pulso, eu nunca a possibilidade de ser adjunto… à excepção do Zé, mas o Zé também estava no inicio de carreira, portanto estava a aprender como eu estava, estávamos a experimentar coisas, tínhamos ideias umas atrás das outras… mas eu nunca tive possibilidade de estar em grandes clubes, trabalhar com grandes jogadores, mas o que é facto é que os grandes jogadores nos acrescentam muito, os jogadores de qualidade acrescentam muito. Agora onde estou já vou apanhando um ou outro e vejo claramente que nos acrescentam, porque conseguem fazer-nos pensar se aquilo que andamos anos e anos a pensar é exactamente como nós pensávamos ou se há mais para alem daquilo, levanta-nos um bocadinho do véu e nós espreitamos. Estou à espera de destapar para perceber melhor o jogo do que aquilo que percebo, mas é por aí…

Nunca perceberás, Ricardo...

14 comentários:

DC disse...

Nas mãos deste quem sabe se não chegava lá...

Gonçalo Matos disse...

Sabes quem era o jogador em questão, Baggio? Seria interessante, para podermos perceber ainda melhor o que o VP queria transmitir.

Já agora, quanto tempo tem a entrevista?

Roberto Baggio disse...

Olá Gonçalo,
Acho que não tem importância quem era. Ele definiu bem ou jogador em questão. E as qualidades que ele revelava no contexto onde se encontrava e isso é mais do que suficiente.

Está aí o link da entrevista, terás de ser tu a pesquisar o resto.

DC,

Tendo em conta os contextos onde ele esteve acho difícil dizer-se que poderia ser diferente com outros treinadores. Uma vez que com outros treinadores, todos desistiram dele. Daí o "nunca perceberás".
Isto tudo a minha opinião, claro.

moskow disse...

Baggio podes-me enviar o link por favor? gostava de ver a entrevista completa, e aqui no post não tou a encontrar.

Nunca consegui perceber como é que o Porto o mandou embora...quer dizer, na realidade até consigo, os adeptos mais uma vez mostraram toda a sua inteligencia e compreensão do jogo...

Fala-se muito do Marco Silva, mas verdadeiramente era o Vitor Pereira que gostava de ver no Benfica se/quando o Jesus sair.

Anónimo disse...

Estaria VP a falar de um tal de James Rodriguez?

Anónimo disse...

Estaria VP a falar de um tal de James Rodriguez?

Roberto Baggio disse...

está na primeira questão. Os links dos artigos são as partes dos textos em cor diferente

Matic disse...

A entrevista é de 2009, se não estou em erro. É agradável de se ler, e lembro-me que esta parte da entrevista chamou-me particularmente à atenção. Muito bem inserida aqui. A questão do entendimento é relevante.

Baggio, já tinha dado a dica ao Ronaldinho, aconselho a leitura de uma entrevista do Nélson Caldeira, adjunto do Jardim, ainda no momento em que estavam no Braga. É muito bom.

Um abraço,

Roberto Baggio disse...

Matic,

Assim o farei, e obrigado pela sugestão.

Abraço

Tsubasa disse...

Esta entrevista é para uma tese de mestrado de um aluno da FADEUP, é de 2006, da altura em que o VP treinava o Espinho.

Sim, 2006! Há 8 anos atrás o VP já pensava assim, já tinha esta humildade de admitir que ainda tinha muito que aprender, que ainda não percebia totalmente o Treino e o Jogo.

É um treinador soberbo, fantástico. Para mim, é o meu ídolo, a minha referência como treinador.

Cada vez me convenço mais que aquele ano fantástico do FC Porto do AVB se deveu à felicidade de juntar na mesma equipa técnica o profundo Conhecimento do Treino do VP com o carisma/ capacidade de motivação do AVB.

E é só mesmo essa a única lacuna que aponto ao VP - a incapacidade de gerar a empatia que outros treinadores conseguem com os seus jogadores.

Rafael Antunes disse...

Eu penso que esta entrevista é referente ao tempo em que ele estava no Santa Clara...

Muito boa entrevista.

De louvar a humildade revelada, sentido de aprendizagem constante.

Pedro Ferreira disse...

Baggio,

Se poderes depois partilha essa tal entrevista ao Nelson Caldeira, para também podermos ler ;)

Abraço

Rafael Antunes disse...

Tsubasa,

Eu li essa tese. Não tenho a certeza de que estamos perante a mesma entrevista.

Mas de qualquer das formas, adorei tanto uma como a outra, ou a primeira vez e a segunda vez que a li no caso de ser a mesma... :D

Edson Arantes do Nascimento disse...

Se não me engano esta entrevista foi colocada aqui no blogue na caixa de comentários... Ou aqui ou no LE. Vale muito a leitura.