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quinta-feira, fevereiro 06, 2014

Mitos, evolução, criatividade.

Poderá dizer-se que isto não é sobre futebol?! Poderá dizer-se que isto não tem aplicabilidade no treino? Principalmente percebendo-se que, treinar não é nada mais que ensinar...



"Chamemos-lhe João, tem 16 anos e, no início de época, deslumbra toda a gente com a facilidade com que marca golos. Bola cruzada da esquerda, “enche” o pé direito e golo! Bola vem da direita e torna a encher o pé direito e golo... Espera aí, pé direito?! Não pode ser... “Cruzamento da direita, tens de utilizar o pé esquerdo!”, diz sabiamente o treinador, segredando para o adjunto “se este jogador souber finalizar com o esquerdo como com o pé direito, vamos ter aqui um grande avançado”.
Começa o trabalho específico de finalização a contemplar o gesto técnico “correto”. Bolas da esquerda, o João finaliza com o pé direito, bolas da direita finaliza com o esquerdo.

Avancemos no tempo, Dezembro, o João está irreconhecível e de jogador com grande futuro começou a passar muitas vezes pelo banco de suplentes. Questiono o treinador e a resposta vem pronta: “o João é meio doido, é um irresponsável, está sempre a brincar com toda a gente, não tem futuro algum como futebolista”.

Ao fazer esta reflexão, lembrei-me que os jogadores, ao chegarem aos clubes e aos treinadores, já têm um reportório motor, muitas vezes alargado pela sua prática na rua, escola, etc., onde buscam fundamentalmente a eficácia. Os miúdos querem é fazer golos e fazem-no com a “liberdade” de ação, vão ganhando confiança e aprimorando o seu gesto pouco “eficiente”, mas cada vez mais eficaz. Estes gestos motores não são “azelhas”, eles têm um conteúdo emocional fortíssimo no jovem porque são recompensados com sucesso e com o sucesso vem a confiança para repetir e aprimorar. Recordo que, na rua, os jovens, muitas vezes, fintam pedras ao mesmo tempo que driblam os adversários, driblam e asseguram astúcia para não cair nos campos de terra empedrados, muitas vezes os pequenos têm de saber usar argumentos técnicos com outros muito mais altos e fortes do que eles. Aqui pede-se, acima de tudo, eficácia e um reportório motor alargado face à contingência. Como não há treinadores, a “eficiência” é natural e instintiva, contraditória muitas vezes com a “eficiência” biomecânica que vemos nos livros.

Os Joões chegam muitas vezes aos clubes e pedem-lhes “eficiência” no gesto. Gesto que eles desconhecem e que têm de aplicar. As conexões cerebrais são outras, a emotividade é reduzida porque não tem sucesso, a confiança começa a diminuir e, ao aumentar a eficiência no gesto, vão perdendo eficácia. No momento da decisão vai perder tempo a processar algo que antes lhe saia naturalmente através do seu instinto aguçado pelas suas práticas anteriores recheadas de emoção positiva.  O jogador perde concentração e dispersa atenção, muitas vezes, porque está “revoltado” e frustrado com algo que está a acontecer e ele próprio não consegue explicar. Fica com o rótulo de “doido” pelo treinador e responsáveis, aquele que não tem hipóteses de ser jogador..."

9 comentários:

Dennis Bergkamp disse...

Ken Robinson é top!

Muita atenção ao TED, tem imensos talks que são uteis ao treino ou aos treinadores.

Rafael Antunes disse...

Sir Ken Robinson, aquela "máquina"!!!!

Só não faz as relações quem não quer...

Luis Santos disse...

Baggio, por acaso ia-te perguntar se conhecias o blogue do Carvalhal. Estou a ver que sim. Viste o exercício dele de 2x2 para testar a reacção individual à transição defensiva? Achei piada.
Tenho muito boa impressão do Carvalhal.

Roberto Baggio disse...

Luís,

Sim. Foi um dos primeiros blogues que li. E sim, vi o seu exercício a que te referes. Também tenho boa impressão dele.

Gonçalo Matos disse...

O Mourinho dizia há uns tempos que não se podem tratar os jogadores por igual, porque cada um tem sua maneira de ser e interpreta os estimulos ao seu redor de forma diferente. Lembrei-me disto ao ler o teu texto. Muitas vezes a malta tem o pensamento pré-formatado pelo que seria o ideal do ponto de vista teórico e esquece-se que cada um tem características que fogem ao perfeito mas que são únicas. E são essas características unicas que fazem de determinados jogadores de futebol, jogadores profissionais.
Felizmente, parece-me que esta mentalidade, do ser como vem nos livros, está a perder-se.

José Jacinto disse...

Grande Texto
Estaremos nós Europeus a focalizar-nos demasiado nos aspectos táctico e técnicos nas camadas jovens (escorando a criatividade) e depois em seniores vamos buscar essa mesma criatividade aos sul-americanos (onde ainda vamos a tempo de ensinar os espetos tácticos) dá que pensar!!!!!

Matic disse...

O discurso de Ken Robinson, sobre aquilo que será o processo ensino-aprendizagem, é brilhante. Muito bem inserido no blog.

A constatação transcrita é igualmente pertinente. Mas, em condições normais, não deveria passar de uma redundância. Ensinar a executar um apoio facial invertido (o tal "pino"), em contexto gímnico, por exemplo, não é o mesmo que ensinar um miúdo a rematar. Não é, isto é, se o treinador coloca o miúdo a rematar contra uma baliza sem guarda-redes, e sempre do mesmo sítio; e mais, ainda coloca alvos nas balizas, porque
no ângulo dá bónus. Aí, talvez já seja a mesma coisa. Mas sobre essa modalidade não tenho grande conhecimento. No entanto, há alguma coerência, até porque o ambiente de um ginásio gímnico também costuma ser bastante calmo, e não sofre grandes oscilações contextuais. Se eu souber fazer um apoio fácil invertido, ter uma pessoa a 34 metros, ou a 1 metro de mim, é a mesma coisa. Não sei se o é na modalidade que o João quer praticar.

Bom, isto para dizer que, em modalidades como o Futebol, nem me parece que o treinador ensine muito sob o ponto de vista da prescrição motora. Sinceramente. O treinador só guia, só constrange o contexto, porque, dessa forma, determinada informação com que os jogadores terão que lidar, emerge. A questão é que a rua, por si, já faz qualquer coisa pelo João. E o treinador teve a capacidade de estragar o trabalho da rua. Eu julgo saber porque é que a rua guiou melhor a aprendizagem do João que o seu treinador. É que a rua, disponibilizou informação contextual muito semelhante à presente no contexto do jogo, e assim sendo, o João para sobreviver nesse contexto que lhe assegura AUTONOMIA quanto às suas possibilidades de ação, adaptou-se. Engraçado, a rua sem grande preocupação é mais competente que o treinador. E eu nem gosto muito do conceito de rua. Até enjoa o facto de ser tantas vezes evocado pelos tais grandes teóricos: daqui nada o treino não serve para nada; Agora, é um facto que a rua tem sido muito mais competente que a grande maioria das pessoas que não se limitam a guiar o treino, e a guiar, no sentido em que a aprendizagem deve ser um processo de descoberta, guiado exatamente pelo treinador. Perceba-se porquê, e coloque-se isso no contexto do clube.

A propósito, o problema não está nos livros, está nos autores e nas ideias. A não ser que se tenha olho, se sinta a cena e que se seja um "autodidata"; ou o Jorge Jesus.

Pedro_7 disse...

Sempre joguei futsal e quem está aqui no blogue e me conhece sabe que não vou estar a mentir, enquanto miúdo sempre tive treinos tácticos mas o que nunca tive foi um treinador que me impedisse de ser criativo que era a minha melhor arma em campo e com ela fazia golos de muitas formas, quando cheguei a sénior, deparei-me com a impossibilidade de usar esse criativismo para ter de jogar um jogo demasiadamente táctico em termos de progressão em campo, acho que demorei bastante tempo a aperceber-me de certos erros que cometia (erros que não eram erros era eu a tentar ser criativo, e não podia porque não queriam) e tive demasiado tempo de espera até puder assumir o meu espaço como senior!

O que eu tive foi um problema igual ao deste João pura e simplesmente não me permitiam usar a minha melhor arma que era a finta e começaram a obrigar-me a jogar SEMPRE e entenda-se sempre como treinos atras de treinos a jogar a 1 2 toques e isso fez com que me tornasse um jogador pior, e durante algum tempo estive no banco e pouco utilizado não porque fosse pior que os outros mas porque não percebia o porquê de não me deixarem ser eu dentro de campo se enquanto tive nas camadas jovens foi sempre isso que estive a aprender (aprender muitas movimentações tacticas mas sem perder a minha melhor arma que foi o que tiraram assim que cheguei a senior)

Para concluir quero fazer uma pergunta, será por isso que muitas vezes um Mau jogador jovem se torna um Bom jogador senior?
Por mudarem assim tanto a maneira de se jogar um jogo entre junho e agosto ( de um escalão para o outro)

Roberto Baggio disse...

Matic, grande intervenção! Enorme! É neste tipo de coisas que se percebe quem vai para a faculdade aprender, ou quem vai para a faculdade decorar. A forma como raciocinas sobre os temas abordados no superior diz tudo.

Pedro,

Muitos jogadores se perdem pelo mesmo motivo do João, ou que tu! E muitos se ganham porque nessa transição, que é a mais difícil do futebol (júnior-sénior), encontram treinadores com competência para afinar as suas qualidades.