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sexta-feira, janeiro 10, 2014

O traço mais importante do futebol moderno. Tomada de decisão, o contexto, e a qualidade do jogador

"Cada vez mais é aceite a importância da tomada de decisão, mesmo entre os adeptos da modalidade.

Todavia, aquele que é o traço mais importante do jogo na actualidade continua a ser de muito difícil compreensão. Naturalmente, até porque se fosse fácil surgiria como algo natural aos próprios atletas. E a verdade é que se uma percentagem avassaladora de jogadores não sabe sequer tomar uma boa decisão de forma consciente, dificilmente se pode esperar a sua compreensão da parte de quem nunca sequer pisou a relva."

" Ao contrário do que provavelmente muitos pensarão, a tomada de decisão não tem qualquer relação com sistemas tácticos, modelos de jogo, ou nomes dos adversários. Quando um jogador toma uma decisão, apenas uma coisa importa. A situação de jogo em que está envolvido. Isto é, quantos contra quantos, local e condição (enquadrado?) onde tem a bola e posicionamento dos jogadores presentes na situação. "

Isto, claro, se estivermos a falar em equipas com o mesmo nível/volume de treino, que joguem no mesmo contexto (competição), onde as diferenças técnicas e físicas não são fundamentais.
Nestes termos o contexto é que dita se a acção do jogador foi a mais adequada, por forma a aproximar a equipa do sucesso.

"Tende-se a confundir uma boa tomada de decisão com uma consequência positiva e uma má tomada de decisão com uma consequência negativa. Quando não estão directamente ligadas. Uma boa decisão faz aumentar as probabilidades de sucesso da equipa, mas pode em determinado momento, por uma má execução ter uma consequência negativa. Se com um colega preparado para se isolar decidir driblar cinco adversários e for bem sucedido e terminar com um golo fantástico, tal não significa que eu decidi bem."

Este parágrafo é fundamental para se perceber que a decisão deve ser avaliada na altura que o jogador a tomou. Não se pode por isso na maior parte das situações, avaliar a decisão pelo seu resultado final. Há obviamente situações em que avaliar a decisão pelo resultado é possível, pelo tamanho sucesso que o jogador tem no desafio das probabilidades. Mas quantos são esses, que conseguem jogar constantemente no totobola e ganhar?! Poucos, muito poucos.

"Demasiadas vezes a boa tomada de decisão, sobretudo em fases como a da construção e criação, chega até a afastar o jogador da notoriedade, porque este está apenas preocupado com o proporcionar à sua equipa uma boa situação de jogo (com menos oposição e bola mais enquadrada com a baliza). É, por exemplo o caso do post anterior. Um extremo que a um toque coloca um colega de frente apenas para a defensiva adversárias e bem enquadrado no corredor central. O passe de Ola John para Djuricic poderia ter saído mal, mas a decisão teria sido óptima. Já se tomasse a liberdade de arrancar pela linha e tirar um cruzamento, mesmo que tivesse dado golo, teria sido uma má decisão, porque as probabilidades de chegar ao golo dessa forma são incrivelmente mais reduzidas do que fazendo a bola chegar a um colega enquadrado no corredor central só com a linha defensiva adversária à sua frente."

Pensemos numa hipotética situação: Xavi está no corredor central a 20 metros da grande área, com um adversário pela frente sem cobertura. A melhor decisão, para a maioria dos jogadores, seria o 1x1. E é aqui que entra a qualidade do jogador. Xavi não tem 1x1, e não tem velocidade de deslocamento. Para ele, o melhor seria temporizar e aguardar a entrada de alguns colegas. Então, nunca se exigiria ao Xavi que naquela situação tentasse o 1x1 ali. O contexto é influenciado pela qualidade do jogador, como é natural. Contudo, no alto rendimento, estamos a falar de um universo onde a grande maioria dos jogadores tem capacidade para conduzir, passar, receber, rematar, e driblar. Logo, a maior parte dos jogadores tem as ferramentas necessárias para decidir bem, importando pouco o nome do adversário (jogador).

"Quando se fala em tomada de decisão, o nome do adversário conta zero. A menos que o adversário não seja um profissional do futebol..."

Aqui está mais uma vez o contexto. E o contexto é sobretudo influenciado por aquilo que o adversário  e os colegas nos permitem. Por exemplo, na Taça das Confederações a Espanha jogava contra a selecção do Taiti e ao fim de 15 minutos eu pensei que o Navas deveria ter entrado de início. Isto porque a selecção do Taiti jogava com a equipa muito subida dando muito espaço nas costas da defesa. Notou-se na selecção espanhola alguma dificuldade em aproveitar esse espaço porque não tinha, em campo,  jogadores para o fazer à toda largura. Nesse contexto específico o que se pedia da selecção espanhola, como se verificou depois da entrada de Navas, era uma maior aproveitamento desse espaço, independentemente do modelo de jogo que a equipa tem. E aqui, novamente, entra a qualidade do jogador, uma vez que não são todos que conseguem aproveitar esses espaços, tal é a distância que têm de percorrer e a velocidade a que o devem fazer. Mas quantas vezes se repete este contexto, num jogo contra qualquer outra equipa não amadora?! Muito poucas. Normalmente os espaços que os jogadores têm de percorrer em grande velocidade são curtos, e com muitas pernas pela frente. Pernas com semelhante capacidade física e técnica. Pedia-se, dessa forma, um futebol mais vertical, com menos passes, porque o adversário assim o permitiu. Quantas equipas mais a Espanha encontrou a defender daquela forma a profundidade, sem homens próximos entre a bola e a baliza? Nenhuma.
Daí a nossa generalização daquilo que possa ser uma boa ou má decisão, porque na maior parte do tempo o nível das equipas se defrontam é muito próximo.

"A boa tomada de decisão não depende sequer da dificuldade do jogo. O jogo pode ser extraordinariamente difícil e o nível de boas decisões mantém-se elevado, independentemente disso. Apenas, terá situações mais complicadas para resolver. Num jogo de extrema dificuldade, se calhar não foi possível enquadrar as 10 vezes que se recebeu, então entregou-se a bola novamente no lateral em todas essas vezes. A tomada de decisão continua elevadíssima. Fez sempre o que devia fazer. Não teve, porque o jogo foi de maior dificuldade, foi situações para resolver mais próximas da baliza adversária. Esteve, portanto, sempre longe da notoriedade. Mas isto porque o jogo não lhe permitiu mais."

9 comentários:

masterzen disse...



Toda este universo da tomada de decisão no futebol me parece um pouco confuso devido à criação de uma corrente onde se determina que a tomada de decisão é fonte de todas as virtudes.

Há uma corrente que se chama Percepção Decisão Execução PDE, que é para mim muito mais completa.

Antes de haver uma decisão, existe uma percepção de como diz e bem o autor da situação que envolve o jogador, o tamanho do espaço que estamos a jogar em determinada situação, o numero de jogadores da minha equipa, o numero de jogadores da equipa adversária, em que parte do campo estamos, se temos bola, se não temos bola, as zonas mais afastadas da bola.

Existem jogadores que tem uma percepção péssima dos lances em alguns dos factores que enunciei ou outros que não o fiz e que por isso ferem a capacidade de decisão da jogada, imaginemos por exemplo um contra-ataque de 4c3 muitos jogadores vêem 2c1 ou 3c2, a visão periférica e o seu treino assumem aqui muita importância.

Existem jogadores que com uma boa percepção, tomam decisões erradas porque tem ideias sobre o jogo mal assimiladas por deficiências adquiridas em contextos específicos ( por exemplo o Nelson Oliveira nos juniores do Benfica onde pegava na bola e fintar todos e marcar golo era tido como uma boa decisão para o jogador) e porque não são corrigidos pelos treinadores porque não sabem mais ou porque tem preguicite aguda mental.

Há o caso também de jogadores que tendo boas percepções dos lances e boas decisões como o artigo chama a consequência não é boa, a capacidade técnica é muito inferior a sua capacidade cognitiva.
Este facto transporta-me para uma realidade como a NBA onde os jogadores na offseason pagam a treinadores individuais para melhorarem aspectos técnicos e de leitura de jogo. No futebol este comportamento não acolhe admiradores, a técnica é trabalhada em contextos colectivos e não específicos individuais. Por exemplo no basquetebol os seguidores desta doutrina PDE ensinam numa fase inicial uma base técnica e passam de seguida para o treino cognitivo. A parte técnica é pulida em treinos individuais ou colectivos mas em grupos reduzidos de jogadores com os mesmos problemas. Ou seja a técnica é tida como a base da pirâmide mas a partir daí é treinada como se fosse depois o ponto superior da mesma.
O treino da percepção parece-me que carece muito do feedback do treinador no momento da acção e depois um reforço em video da mesma acção com o jogador. Aqui a capacidade de jogar sem bola olhando para ela e recebe-la sempre enquadrado para o jogo assume aspecto vital ( Xavi é um mestre).
O treino da decisão parece-me já muito bem esgalhado pelos treinadores do blog.
O treino da técnica assume quanto a mim uma urgência vital como aquisição de ferramentas básicas para alguns e treino da excelência para outros.

Que belo post Baggio, e um pedido desculpas pelo minha extensa opinião.

Cumprimentos,

MasterZen

DC disse...

Foste desenterrar um tesouro. Excelente texto. E o Miguel tem que voltar a escrever, faz falta...

Nuno Martins disse...

Baggio: Vou só comentar o teu texto porque o outra já comentei.
1) "Isto, claro, se estivermos a falar em equipas com o mesmo nível/volume de treino, que joguem no mesmo contexto (competição), onde as diferenças técnicas e físicas não são fundamentais." Como coadunas a opinião que não há diferenças entre jogadores e a opinião que o Suarez (é o unico nome utilizado no texto e devido a um post anterior) é tecnicamente de distrital? Concordo com a ideia de essas diferenças não serem as mais importantes, mas que as há... há.
2) "Nestes termos o contexto é que dita se a acção do jogador foi a mais adequada, por forma a aproximar a equipa do sucesso." Ou seja o contexto influencia!
3) "Pensemos numa hipotética situação (...) a grande maioria dos jogadores tem capacidade para conduzir, passar, receber, rematar, e driblar. Logo, a maior parte dos jogadores tem as ferramentas necessárias para decidir bem, importando pouco o nome do adversário (jogador)." Podia voltar a utilizar a citação do Suarez relativamente ás ferramentas. Tira o nome aos jogador, a questão NUNCA FOI nem será o NOME, mas as CARACTERÍSTICAS individuais. Para te mostrar que o individuo que decide com as suas CARACTERÍSTICAS tem influencia na decisão tomada vou-te exemplificar com a tarefa que no jogo de futebol menos interferência contextual tem... 1x0+gr com bola parada com apenas uma acção a ser realizada... o penalty, onde o rematador apenas tem de decidir a colocação da bola e o tipo de remate... se as características individuais (NÃO NOME) não influenciassem seria de esperar uma distribuição normal da colocação do remate (estatisticamente não significativa) no entanto a análise de séries de penaltis em campeonatos do mundo (ou seja TOP) mostra que os dextros marcam preferencialmente para a sua esquerda e os esquerdinos de forma inversa (Estatisticamente significativo, não um acaso de amostragem), esta diferença também existe em testes experimentais... ou seja, sem interferência contextual (ou mínima), com a acção técnica pré-definida e fazendo variar apenas a lateralidade do rematador existem diferenças... com maior interferência contextual mais as diferenças individuais aumentam ou diminuem o leque de acções pelas quais o jogador pode optar! Mais uma vez saliento CARACTERÍSTICAS NÃO NOME. Se der para refutar isto...

Nuno Martins disse...

4) "Aqui está mais uma vez o contexto. E o contexto é sobretudo influenciado por aquilo que o adversário e os colegas nos permitem. (...) Pedia-se, dessa forma, um futebol mais vertical, com menos passes, porque o adversário assim o permitiu. Quantas equipas mais a Espanha encontrou a defender daquela forma a profundidade, sem homens próximos entre a bola e a baliza? Nenhuma. Daí a nossa generalização daquilo que possa ser uma boa ou má decisão, porque na maior parte do tempo o nível das equipas se defrontam é muito próximo." Então se o contexto é influenciado pelos outros não é influenciado por mim com a bola? O contexto sou eu e o que me rodeia... se sou dextro e tenho a bola no pé esquerdo não tenho as mesmas possibilidades de acção que se tiver no pé direito, a minha orientação corporal... se estiver orientado atrás provavelmente enquadrar pode não ser a decisão adaptada e o passe recuado pode ser, se estiver orientado para a baliza adversária posso fazer um passe frontal. O modelo de jogo do adversário (NÃO NOME) influência a distribuição do equilíbrio numérico nas diferentes zonas do terreno, desse modo influência numericamente a evolução do centro de jogo em todas as zonas do terreno, correto? Logicamente influência o contexto em que vão decorrer as decisões dos jogadores... as situações de superioridade, igualdade ou inferioridade numérica podem desenvolver-se mais á frente ou atrás no terreno, mais junto ao corredor lateral ou junto ao corredor central. Dá para negar?
5) "Este parágrafo é fundamental para se perceber que a decisão deve ser avaliada na altura que o jogador a tomou. (...) Poucos, muito poucos." Até agora mostramos que o contexto influencia e as CARACTERISTICAS do jogador influenciam, ou seja o contexto permite X acções e o jogador consegue realizar Y acções, deste modo o jogador pode não ser capaz de realizar a teoricamente melhor decisão, mas uma outra que seja adaptada ao contexto e ás suas capacidades visando o objectivo do jogo, numa variação do centro de jogo (para não falar do golo senão lá veem os exemplos do fintar 10 vs passar ao colega isolado) há jogadores que conseguem fazer passes de 30m outros que não conseguem outros não conseguem, a melhor opção até pode ser o passe longo, mas essa acção para o jogador que não consegue é uma má opção, logo a melhor decisão para aquele jogador é aquela que teoricamente não é tão boa porque é a que ele consegue. Sendo que o inverso de tomar uma opção mais arriscada nos pés de outro jogador nos pés de outra pode ser adequada de acordo com as suas probabilidades de sucesso, dependentes das suas características.

Nuno Martins disse...

Só para terminar... o bom decisor é aquele que decide de acordo com as possibilidades contextuais e as suas próprias capacidades em função do objectivo. Não há decisões in vacuo, nem receitas...

Ronaldinho disse...

Nuno Martins, tens que ler com mais atenção! Em lado nenhum está escrito que as caracteristicas individuais do jogador que decide não influenciam, antes pelo contrario.

Roberto Baggio disse...

Masterzen,

“Há uma corrente que se chama Percepção Decisão Execução PDE, que é para mim muito mais completa.“

Esse teu inicio vai de encontro a isto, http://possedebolla.blogspot.pt/2013/04/eles-querem-desenvolver-as-suas_15.html

“Este facto transporta-me para uma realidade como a NBA onde os jogadores na offseason pagam a treinadores individuais para melhorarem aspectos técnicos e de leitura de jogo. No futebol este comportamento não acolhe admiradores, a técnica é trabalhada em contextos colectivos e não específicos individuais.“

Trabalhar a tecnica pela tecnica so e possivel, para mim, em fases muito precoces da formaçao. Tudo o resto melhora com a repetiçao dos gestos em situaçao de oposicao. Por exemplo, o contexto necessario necessario para se treinar o passe no futebol, por forma a obter melhorias significativas sao a bola, o espaço, o colega e o adversario. Nesse contexto estao as condicionantes suficientes para que se treine passe. O problema da tecnica individual e o volume de treino. A repetiçao. Repara que os jogadores com maior tecnica sao os que desde novos andaram sempre com a bola, desde o jogar na, ao driblar cadeiras em casa, ao fazer tabelas com a parede, etc. O volume a repetiçao fazem com que os jogadores melhorem muito a capacidade tecnica que vai ser usada no jogo, dede que em regime de oposiçao. Penso que o melhor para os jogadores na ore temporada sao as peladas com os amigos, se possível todos os dias, para que ai se treinem as lacunas tecnicas e dificuldades que se trazem desde novos. E mesmo ai, eles ja nao vao ter grandes melhorias, no nivel senior claro. O melhor que se podia fazer seria todos os jovens praticantes, aspirantes a profissionais, jogarem futebol o “tempo todo“. 1x1, 2x2, 3x3, 4x4, etc. Se esses treinos forem controlados, a tecnica pode emergir com condicionantes ditadas pelo treinador. O problema é que os treinadores não tem tempo para fazer este tipo de treino, a treinar 3 vezes por semana durante uma hora, como acontece nas fases inicias do desenvolvimento da relacao com a bola, assim como na fase seguinte onde se começam a introduzir princípios tácticos.

Nuno Martins disse...

Ronaldinho: Volta a ler os comentários na fase que se discutia o Di Maria, e vê se não é afirmado que apenas um ou outro podem decidir diferente! Quando se diz que 99% têm de decidir igual estas intrinsecamente a afirmar que esses 99% são semelhantes, mesmo neste post é afirmado que... quando foi fácil mostrar que até a lateralidade influência a decisão a tomar. Mas é mais fácil dizer que quem questiona e mostra contradições não lê bem ou não percebe o que lê (mesmo com um nível cultural e académico superior a 99% dos que percebem e dizem amén). No entanto fico feliz que embora agora reneguem a posição inicial defendam que afinal o contexto e as características influenciam.

masterzen disse...


Muito Obrigado pelo feedback ao comentário Baggio. A tua opinião tem ali conceitos que tornam a abordagem ao futebol naturalmente diferente de outras modalidades.
A entrevista que um leitor deixou algures numa caixa de comentários sobre o Vitor Pereira, onde este fala sobre os confrontos com o Benfica é de facto de alguém que percebe muito de futebol.

Abraço