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terça-feira, dezembro 17, 2013

Super valorização da estratégia

Escrevia-se por aqui: «Hoje em dia muito se fala em adaptação, e na grande importância que ela tem para o futebol. Os anteriores sucessos das equipas italianas nesse estilo, e mais recentemente com José Mourinho essa capacidade em moldar a nossa equipa ao adversário, ficou super-estimada. É um facto que quando as equipas estão bem preparadas, com conhecimento do adversário, pontos fortes e pontos fracos, caso consiga aproveitar bem as fragilidades, poderá ter uma grande margem de sucesso, em número. O grande problema que coloco é, o facto desse tipo de abordagem depender em demasia, daquilo que o adversário nos vá apresentar, naquele momento específico. Então, estamos a trabalhar sobre coisas que não podemos controlar. Não discuto a importância da vertente estratégica do jogo, mas acho, sinceramente, que a obsessão e a relevância que tem sido dada a essa vertente é absurda. Não há, para mim, melhor estratégia que depender, apenas, de nós...»

«Digo isto, porque o mais importante para uma equipa de futebol, é o desenvolver de uma identidade colectiva. E essa identidade só se desenvolverá, no caso de o treino, o feedback, e o comportamento da equipa técnica for congruente com a ideia de jogo que defende 99% das vezes, e se calhar 99% é pouco. A obsessão pela adaptação, confunde princípios, baralha as interacções criadas, e torna a equipa mais fraca. Uma equipa que se adapta de semana à semana aos adversários que defronta, nunca vai ser colectivamente forte, isto porque nunca teve, em jogo e em treino, oportunidade de estabelecer relações próprias e um elo de ligação comum, que os torna verdadeiramente únicos, aquilo a que geralmente se chama "jogar de olhos fechados".»

«O jogo, deve ser uma consequência do trabalho semanal, e o trabalho semanal deve ser consequência do jogo anterior. Trabalhar sobre os pontos fracos da equipa, mais do que sobre pontos fracos do adversário, reforçar e melhorar os pontos fortes da equipa mais do que trabalhar pontos fortes do adversário. A adaptação ao adversário deve ser, sempre, congruente com aquilo que é a nossa forma de jogar, com aquilo que nos caracteriza. Eu não posso considerar um ponto fraco do adversário, se esse mesmo ponto não se enquadrar na forma de jogar da minha equipa. Eu não posso elevar a estratégia, acima daquilo que é a minha identidade colectiva. »

O treinador do Gil Vicente estuda exaustivamente o adversário, trabalha semana após semana sobre o modelo do adversário, e sobre a estratégia a adoptar. Joga com o lado estratégico e nada mais. 
Muito pobre é esse tipo de futebol que depende exclusivamente do adversário, sem uma identidade colectiva bem vincada. Que muda semana após semana. Que quando marca primeiro está tudo bem, mas que não consegue jogar em desvantagem.

Ontem na Amoreira falhou a estratégia, e quando foi preciso o Gil Vicente sair da caixinha de 30 metros onde trabalhou a semana inteira o resultado foi a entrada de Simy, um atleta com uma envergadura física invejável e muito pouco jeito para o futebol, e chuveirinho. As intruções de João de Deus foram claras, "chuveirinho, chuveirinho" disse repetidamente o treinador gilista. Quando é preciso ter iniciativa, mostrar processos colectivos, ir atrás do resultado não existem argumentos. Isso acontece, precisamente, porque o Gil Vicente joga para não perder.

21 comentários:

DC disse...

E até se falava bem do João de Deus no início da época.
Este ano, acho que há excepção do Leonardo Jardim e do Marco Silva, há poucos destaques positivos nos treinadores em Portugal.

Pedro Ferreira disse...

Joga com as armas que tem... na minha opinião não se pode exigir a um treinador duma equipa como o Gil que aborde o jogo doutra maneira senão com uma clara propensão defensiva e de expectativa.. Claramente que num campeonato como o nosso este tipo de jogo em contenção dá os seus frutos.

Se me perguntarem se gosto deste tipo de jogo? Óbvio que não mas não condeno o João de Deus por jogar desta maneira.

Roberto Baggio disse...

Sem falar das circulações tácticas e jogadas padronizadas.

DC,
Este ano não há realmente muito a destacar ao nível do trabalho dos treinadores.
Abraço

Roberto Baggio disse...

Pedro Ferreira,

Uma questão. No início da época anterior dirias que Estoril deveria adoptar a mesma estratégia do Gil Vicente estou correcto? Tinham acabado de subir de divisão e tudo.
Mas não. Quando o treinador quer e sabe, consegue fazer bem mais do apenas procurar não perder. E certamente que os jogadores do Estoril, assim como os do Paços de Ferreira, não teriam sido valorizados sem o modelo de qualidade. Quando o modelo tem qualidade os jogadores emergem. Quando não se joga futebol, nem parece m jogadores de futebol.
Provavelmente também dirias há tempos atrás que a melhor forma de jogar contra o Barcelona era essa. Defender, ficar expectante, esperar pelo erro. Quando o melhor seria mesmo tira lhe a bola e dominar inequivocamente.

De qualquer forma, o Gil Vicente não tem um modelo que o caracterize. Não tem uma forma d jogar que estabeleça um elo d ligação entre todos. Ao contrário do Estoril, por exemplo. Que joga, tenta jogar, faz por jogar, e os resultados no longo prazo estão aí. Ontem se fossem 3 ou 4 seria justo. Tal foi a inépcia do Gil e a grande partida do Estoril.

Abraço

Gonçalo Matos disse...

Eu pergunto-me qual a lógica de defender à entrada da área com 9 jogadores. Certo que sobrepovoamos aqueles ultimos 30 metros e garantimos, provavelmente, superioridade naquela zona. Contudo, é a submissão completa de uma equipa fazê-lo. Ficam 70 metros de campo disponíveis para o nosso adversário jogar e quando recuperamos a bola, ficamos a 70 metros do nosso objectivo.

Deixo uma questão para o ar, se o João de Deus joga assim contra o Estoril (que é superior à maioria das equipas colectivamente, mas não individualmente) será que vai jogar doutra forma contra alguém? É que contra equipas mais fortes, fecha atrás; contra do mesmo nivel, fecha-se porque os pontos são valiosos e na primeira liga não há equipas muito mais fracas que o Gil..

Anónimo disse...

Acho que Pedro Martins e Nuno Espírito Santo também são bons treinadores (têm boas equipas técnicas).

O couceiro também parece ter entrado bem.

De resto (e à excepção dos 3 grandes + Braga) tudo fraquinho. Até o RVitória (embora n tanto como os outros)

Anónimo disse...

Acho que Pedro Martins e Nuno Espírito Santo também são bons treinadores (têm boas equipas técnicas).

O couceiro também parece ter entrado bem.

De resto (e à excepção dos 3 grandes + Braga) tudo fraquinho. Até o RVitória (embora n tanto como os outros)

ricnog disse...

Costumo concordar com maior parte das coisas escritas por ca.

Hoje nao.

Nba, eles jogam 2 em 2 dias. A estratégia é o ponto forte dos treinadores, ganha quem tiver melhor estratégia para o jogo, conseguindo anular o pontos fortes e explorando os fracos. Não digo que isso saia do modelo nem dos parâmetros de jogo estabelecidos no inicio de época, nem que saia das rotinas estabelecidas.

Se o varela em cada 10 fintas procura uma com o espaço interior, a equipa terá que saber isso. Se houver um grande estudo, até sabe que a que vai fazer para o interior é quando o médio está nas suas costas oara a cobertura. Se a equa estiver sempre dependente do acaso, penso que terá muitas mais dificuldades, mesmo tendo um grande modelo de jogo!!

DC disse...

E se o Varela sair lesionado aos 5min de jogo e entrar outro que ainda não tinha jogado esta época?

António Teixeira disse...

DC,

Isso pressuponha, primeiro, que o Varela se lesiona-se. Depois, que o Porto tivesse alguém que não Licá.

Como vês, longos dias tem cem anos, logo não é difícil. xD

Gonçalo Matos disse...

Ricnog,

Saberás tão bem como eu que a maioria das equipas da NBA defende homem a homem e muitas das suas acções ofensivas focam-se em acções individuais. Muitas vezes as equipas criam, propositadamente situações de 1 para 1 entre o seu melhor jogador e marcador directo. Não acho que as equipas da NBA sejam especialmente fortes colectivamente, tirando alguns casos tipo Spurs.

Por outro lado, as equipas da NBA têm modelos de jogo claramente definidos. Pensa na comparação entre Spurs (novamente) e Golden State e vês que há um modelo de jogo base.

Quanto à questão do Varela, vejo as coisas da perspectiva oposta. O Varela é que tem de encaixar no modelo de jogo (na equipa), não o contrário. Se a ideia do PF for que o extremo procure espaços interiores, então não tem sentido o Varela driblar para a linha na maioria das vezes.
Atenção que o Baggio não diz que as equipas não se devem adaptar de forma alguma ao adversário. Há pequenas nuances que se podem alterar. Ele não abdica é dos seus principios gerais em função do seu adversário (pelo menos na equipa onde ele é treinador e eu jogador).

Pedro Ferreira disse...

Baggio discordo em algumas coisas... O Marco Silva já era treinador do Estoril ainda na 2ª Liga e a grande maioria do plantel manteve-se com ele na época de estreia na 1ª Liga e globalmente a grande maioria do plantel do Estoril que transitou da 2ª para a 1ª Liga tinha individualmente bastante mais qualidade que a equipa do Gil. O Marco Silva teve mais tempo para preparar e moldar os jogadores á sua medida.

Posto isto e respondendo a tua questão não penso que a postura correcta a adoptar passe pela contenção e defesa fechada nos últimos 40 metros.

Se na próxima época, e supondo que o Gil se mantém na 1ª Liga, o João de Deus apresentar um modelo de jogo similar ao que tem agora, ou a falta dele neste caso, ai sim acho que poderemos fundamentar melhor algumas ideias.

Neste caso eu pessoalmente ainda não consigo fundamentar totalmente uma opinião em relação a qualidade da proposta de jogo dele e as ideias que tem do jogo, porque pessoalmente considero aquela equipa do Gil muito fraquinha, e que dificilmente aqueles jogadores conseguiriam interpretar nenhum fundamento de jogo sem ser o que apresentam agora.

Abraço

Roberto Baggio disse...

Ricnog,

Não percebo nada de basket. Percebo de futebol. Mas mesmo não percebendo de basket, consigo perceber que é muito menos complexo que o futebol com uma grande variedade de jogadas tipificadas e uma pequena variedade de situações diferentes.
No basket a maior parte das situações são defesa contra o ataque em igualdade numérica, e pelo espaço, com poucas possibilidades de desequilíbrios colectivos, propiciando situações de 1x1 onde o individual impera.

Isto para dizer que o futebol não é basket. E no futebol, quem não constrói uma identidade, com competição de 7 em 7 dias, e se torna apenas capaz de jogar pela estratégia cai facilmente.
Repara nos jogos do Gil Vicente, os que ganhou foi sempre com uma margem de um golo de diferença. E curiosamente, ou não, quando sofre primeiro não ganha. Ou seja. Enquanto a estratégia durar, são competentes. Mas se aos 5 minutos a estratégia for abaixo caput. E isso é francamente mau.

No futebol, como no basket, também ganha quem tem a melhor estratégia. Só que a melhor estratégia no futebol é ter a melhor identidade colectiva. As melhores regularidades, o melhor fio que liga a interacção dos jogadores. E esse fio ,só é verdadeiramente forte, se trabalhado todos os dias, se reforçado todos os dias, se melhorado todos os dias. Isso implica não mudar de dia para dia. Não alterar consoante o adversário. Aproveitar apenas o que de melhor o modelo tem para oferecer contra o adversário em questão.

Como o DC disse e bem, o que acontece quando a estratégia cai? Se o adversário mudar? Se acontecer uma surpresa? Como por exemplo um ou mais jogadores que nunca jogaram? Uma variante estratégica do adversário que nunca tinha usado? Um golo nos primeiros minutos?

Fica se refém do trabalho que se realizou naquela semana e toda sistematização em cinco minutos, por um ou outro jogador, ou pela dependência daquilo que o adversário pode apresentar , vai para o lixo.

hertz disse...

Eu acho que esse hype todo em volta do João de Deus se prende com a classificação que a equipa apresentava. Nao vi muitos jogos do Gil mas já houve alguns treinadores que jogaram contra o Gil e que no final do jogo se queixaram do anti-jogo deles. Na segunda-feira vi o jogo contra o Estoril e eles pura e simplesmente não fizeram nada.

Em relaçao a ultima frase do post, lembrei-me do Zenit. Uma equipa com tantos jogadores de qualidade e a sensação que eu tenho sempre que vejo um jogo deles é que estão a jogar apenas para não perder. Equipa patética o Zenit

GBC disse...

Baggio, falam para aí do Espírito Santo, não achas que é mais um Pedro Emanuel ou Sérgio Conceição?

Abrç

ricnog disse...

Não conheço o modelo de jogo do Gil. Se não o tem, não sei.

Quando falo do varela, digo de uma equipa. Muito bem estudada, sabendo o que faz a grande maioria das vezes. Se o varela sair, vai entrar outro jogador com características diferentes das dele, que cria outros desequilíbrios. Fazemos uma época que tu não visualizas nenhum jogo da equipa adversária. Não sabes nenhuma das suas rotinas. E jogas! Depois ves rotinas, desequilíbrios etc. Das equipas adversárias e verás qual é a taxa de sucesso!

Deve haver uma visualização da equipa adversária para saber os pontos fortes. Não uma semana de intenso trabalho sobre isso, mas pelos menos soluções dadas e experimentadas durante a sessão de treinos. Isto tudo sem nunca sair do nosso modelo. Se o modelo escolhido todos acreditarem, é porque tem sucesso nao tem jeito andar alterar.

O basquetebol exige acções individuais, mas é o desporto mais desenvolvido do mundo tacticamente. H x H é a maneira de defender.......mas é o modelo de jogo deles.....já houve quem defendesse à zona!!! ;)

Roberto Baggio disse...

Um desporto que defende HxH, num espaço curto, com menos jjogadores, não concordo que seja o mais tacticamente evoluído. Aliás, vejo isso pelo tipo de treino que se faz. Na NBA e nas grandes equipas de basket, o foco principal do treino é a técnica individual e os atributos físicos. E isso diz tudo sobre ser o mais táctico ou não.

Quanto ao que referes, caríssimo, está no texto. É só ler:

《Trabalhar sobre os pontos fracos da equipa, mais do que sobre pontos fracos do adversário, reforçar e melhorar os pontos fortes da equipa mais do que trabalhar pontos fortes do adversário. A adaptação ao adversário deve ser, sempre, congruente com aquilo que é a nossa forma de jogar, com aquilo que nos caracteriza. Eu não posso considerar um ponto fraco do adversário, se esse mesmo ponto não se enquadrar na forma de jogar da minha equipa. Eu não posso elevar a estratégia, acima daquilo que é a minha identidade colectiva. 》

Portanto a crítica é a quem eleva a estratégia acima do modelo de jogo, como se percebe. É quem vive exclusivamente do que o adversário pode apresentar, como se lê:

《O treinador do Gil Vicente estuda exaustivamente o adversário, trabalha semana após semana sobre o modelo do adversário, e sobre a estratégia a adoptar. Joga com o lado estratégico e nada mais.
Muito pobre é esse tipo de futebol que depende exclusivamente do adversário, sem uma identidade colectiva bem vincada. Que muda semana após semana. Que quando marca primeiro está tudo bem, mas que não consegue jogar em desvantagem.》

ricnog disse...

Concordo. Elevar a estartegia ao modelo.

Repara que tens um contra informação. Se o treinador do Gil estuda exaustivamente as equipas, tb deve estudar a forma de marcar golos. Ou a forma como elas jogam quando estão a ganhar. Certo?

Roberto Baggio disse...

Sim sabe. Porquê?

Interior-Direito disse...

o João de Deus é isto. Quando esteve cá em baixo, foi treinador do Farense, há uns bons 3 anos, quase os salvava da descida de divisão exatamente a jogar desta maneira. fez uma recuperação exemplar na tabela com este estilo de jogo - defender, defender e contra-ataque - mas na última jornada escorregou e o Farense desceu.

Roberto Baggio disse...

GBC,
Não tenho sinceramente opinião formada sobre o Nuno. Vi muito poucas vezes o Rio Ave.

Abraço