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sábado, novembro 30, 2013

Regresso ao passado

QUINTA-FEIRA, JANEIRO 03, 2013, escrevia-se por aqui:

Interpretação!

«O SABER em futebol está, normalmente, relacionado com a qualidade de execução técnico-motora, ou seja, está associado ao facto de se ter a técnica necessária para se executar bem um passe, um drible, um remate, uma recepção (orientada ou não) ou um desarme.

Não raras vezes, dizemos: "Muito bem! Grande remate, este gajo sabe rematar"; "Epá, que passe fantástico"; "Grande jogador, já viram bem a forma como ele dribla?!".

Será mesmo que esse jogador acertou?
Será que um jogador que fez a escolha técnica correcta associada a uma execução eficaz SABE jogar bem? Será que SABE jogar Futebol? 
Será que por ter o domínio dos gestos técnicos do jogo é um bom jogador?
Será que ele SABE o que está a fazer?

Penso ser na última questão que reside a resposta para todas as anteriores.

Basta reflectir um pouco para perceber que um jogador pode fazer as escolhas técnicas mais acertadas, sem que com isso beneficie de alguma forma a sua equipa. Imaginemos um jogador que escolhe rematar e por acaso o remate é bem feito (acerto na execução), mas ainda assim tinha um colega livre e melhor posicionado para dar sequência ao ataque da equipa. Assim sendo, o remate deixa logo de ser uma boa opção. Isto significa que apesar de ter acertado na execução, errou no mais importante: na decisão de rematar.

Vejamos agora o caso de um jogador que é forte no desarme, tenta desarmar e por acaso consegue fazê-lo numa situação de GR+1x2. Ainda assim o desarme foi uma opção mal tomada uma vez que o risco elevado que acarreta caso seja ultrapassado não é compensado pela probabilidade de sucesso.

E por aí em diante...

Penso que o mais importante a ensinar no futebol não é o SABER fazer! É o SABER SOBRE O SABER FAZER! É esse tipo de conhecimento que vai levar a que os jogadores percebam qual a melhor opção táctica a realizar, para que posteriormente façam essa escolha corresponder à selecção da técnica adequada.
Num jogo de natureza táctica, como o de hoje, é primordial que os jogadores percebam o SABER sobre o que estão a fazer. Esse mesmo SABER vai possibilitar aos jogadores não só fazerem melhores escolhas como também perceberem, por si sós, quando estão errados, o porquê desse erro e como podem melhorar.

O futebol é um jogo imprevisível onde as situações são, normalmente, diferentes. Assim, requer que os jogadores INTERPRETEM cada situação e que SAIBAM o que fazer perante ela. Sem SABEREM o que devem fazer, facilmente percebemos que os jogadores estão perdidos: interpretam mal, fazem a escolha técnica certa para o pensamento errado e, a partir daí, tudo o que possam fazer será inadequado.

Esse conhecimento é também CATALISADOR da CRIATIVIDADE no sentido em que o processo de decisão está facilitado. Isto permite ao jogador menos tempo (do que normalmente os restantes jogadores precisam) para imaginar e criar uma jogada. Essa mesma jogada inicialmente até pode não fazer sentido nenhum aos nossos olhos por não a termos visto antecipadamente. No entanto, acaba por revelar-se cheia de intencionalidade. Essas são as tais jogadas geniais que me deixam deslumbrado com a capacidade criativa do jogador.

Vejamos o exemplo de Puyol uma vez que é um defesa-central e normalmente não se associa criatividade nem a defesas-centrais nem a comportamentos defensivos. No jogo contra o Benfica, no estádio da Luz, um dos extremos benfiquistas progredia com bola numa situação de 3x3 na zona lateral do campo. O comportamento normal de um defesa seria o de contenção, fechando os espaços na zona central, acompanhando a progressão do portador da bola, na espera que este a perdesse ou que chegassem colegas para criar superioridade numérica e então atacar o homem da bola. Puyol, curiosamente, sabendo desse comportamento e lendo a situação, deu sinal para que os seus colegas se aproximassem dele, subiu a linha da defesa, compactou do lado da bola e a atrapalhação do jogador do Benfica (que não soube ser CRIATIVO, ler e aproveitar o comportamento da defesa) foi tão clara, que acabou por perder a bola pela linha lateral. Puyol percepcionou a situação, interpretou, decidiu apertar e bascular do lado da bola, subindo a linha da defesa, deixou o extremo do Benfica "cego", sem visão para o resto do campo e este condicionado pelo comportamento inesperado de Puyol acabou por se atrapalhar e perder a bola.

Um exercício de treino não se deve esgotar no objectivo de saber fazer, nem na dinâmica colectiva que se pretende, nem na dimensão aquisitiva do mesmo. Deve, também, compreender uma dimensão teórico-prática que faça com que os jogadores aprendam e apreendam os conceitos de jogo. É necessário que percebam os princípios de acção, os princípios de jogo e que compreendam que esses princípios são nada mais do que isso mesmo: PRINCÍPIOS de um comportamento com um objectivo determinado, mas com um final indeterminável uma vez que parte dos próprios jogadores a interpretação e resolução do problema. Esse conhecimento dos princípios do jogo irá no futuro permitir melhorar muito rapidamente o rendimento do jogador.

Em suma, parece-me que o treino aos jovens deve ser repensado. Se a prática dos gestos técnicos é importante até certa idade depois disso é necessário criar estímulos que coloquem os jovens em dificuldade, que os obriguem a pensar, que os ajudem a compreender melhor o jogo de forma intuitiva e sem que deixem de se divertir com isso. Quanto mais cedo forem habituados a grandes exigências em termos interpretativos, mais depressa se tornarão jogadores de grande qualidade e mais rápido estarão aptos para responder às exigências modernas do jogo.»

3 comentários:

Gonçalo Matos disse...

Quando jogava futsal, o periodo da época em que mais evoluia como jogador era quando estava de férias. Não jogava mais à bola nas férias que durante o ano, mas era nessa altura que tinha tempo de rever o que tinha corrido mal e depois perceber o que tinha apreendido durante o ano e como poderia melhorar individualmente.

Ás vezes sinto que evoluo mais a ver alguém jogar do que estando eu em campo, pelo facto que estando fora consigo compreender mais facilmente se a decisão foi melhor ou pior, do ponto de vista do colectivo. Aprendo muito mais a ver o Xavi, o Pirlo ou o Scholes que a jogar com os meus amigos.

Acho que faz tanta falta aos miudos jogarem na rua como verem futebol de qualidade desde novos e tentarem compreender o que estão a ver. E verdadeiramente, hoje em dia, os melhores jogadores do mundo são maioritariamente aqueles que melhor compreendem o jogo.

Bernard öZilva disse...

Delofeu-Pienaar-Delofeu-Barry-Delofeu...

http://www.tvgolo.com/jogo-showfull-1385819875---40


A movimentação de Pienaar é espetacular;a forma como procura o espaço e tabela a seguir...

Uma palavra:inteligência..

(Inteligência e.. "classe"!)

Roberto Baggio disse...

Foi um lance muito bom mesmo