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sexta-feira, agosto 09, 2013

“Futebol não é nada disso, é outra coisa totalmente diferente; pratica-se aparentemente com os pés, mas joga-se essencialmente com a massa cinzenta que está dentro da cabeça”

Actualmente, e no que diz respeito aos Jogos Desportivos Colectivos em geral, alguns autores têm apontado como requisitos essenciais para o sucesso o desenvolvimento das habilidades perceptivas e cognitivas (Costa et al, 2002). Neste sentido, a variabilidade de problemas que o Jogo apresenta leva a que se torne essencial para o sucesso, uma tomada de decisão adequada para a situação/problema apresentado (Costa et al 2002). Uma tomada de decisão adequada tem, como sustentabilidade, o conhecimento que o jogador apresenta em relação ao jogo (Costa et al 2002). Isto quer dizer que, a capacidade de decidir adequadamente está dependente do conhecimento específico que determinado jogador apresenta. O conhecimento específico do jogador assume-se, então, como requisito essencial para a “qualidade das prestações” (Guilherme Oliveira, 2004:1) e é também um dos diferenciadores de qualidade entre jogadores (Costa et al 2002; Guilherme Oliveira, 2004). A partir deste conhecimento específico (conhecimento táctico), surgem os processos cognitivos de compreensão que os jogadores utilizam para dar resposta às diferentes situações que o jogo apresenta (Costa et al, 2002).
A tomada de decisão com base nas emoções não é uma excepção, é a regra (Damásio, 1994). Elas permitem-nos responder de forma não-consciente a certas situações com base no passado cultural (Damásio, 2003a). Além disso, as emoções são também a forma que o cérebro usa para nos alertar para algo de urgente e nos proporcionar um plano de acção (Goleman et al, 2002).

Ora, a capacidade de “tomar decisões rápidas e tacticamente exactas, constitui-se numa das mais importantes capacidades do atleta e determina muitas vezes os sucessos dos jogos técnico-tácticos e é frequentemente responsável pelas diferenças de desempenho individual” (Costa et al 2002:12). Os processos cognitivos funcionam, então, como mediadores entre o conhecimento táctico/especifico que o jogador apresenta sobre o jogo e entre as respostas a que os jogadores chegam para dar continuidade ao jogo (Costa et al, 2002), pelo que o conhecimento táctico/específico condiciona o entendimento e, consequentemente, a resposta do jogador em Jogo. O conhecimento específico permite então diferenciar a qualidade entre jogadores (Costa et al 2002; Guilherme Oliveira, 2004).

Sabe-se hoje que o que se passa no cérebro são operações mentais que influenciam o corpo e vice-versa (Damásio, 1994). A mente é fruto do cérebro refutando, então, o dualismo cartesiano no qual a alma (razão pura) é independente do corpo e das emoções. Daqui resultou o que Damásio (1994) intitulou de “Erro de Descartes”, pois deixou de fazer sentido separar os processos cognitivos dos afectivos na medida em que não é possível dissociar o corpo e a mente (Tomaz e Giugliano, 1997). Assim, não é possível pensar numa racionalidade pura, pois esta não pode ser desarticulada ou desmantelada da emoção (Damásio, 1994). Com tudo isto, actualmente, as emoções são vistas como uma avaliação a nível mental de determinada situação que origina respostas dirigidas, não só para o corpo mas como para o cérebro, originando um padrão distinto (Damásio, 1994). Isto vem permitir que a emoção confira determinado valor à situação e nos auxilie na nossa capacidade de elaborar planos, assim como ter responsabilidades sobre nós próprios (Damásio, 1994).

Esta ideia vem entroncar com aquilo que Goleman et al (2002) acreditam e argumentam no que se refere às emoções. Para estes autores, as emoções são “a forma do cérebro nos alertar para algo de urgente e nos proporcionar um plano de acção imediata: lutar, fugir, ficar imóvel” (Goleman et al, 2002:47).
Em suma, actualmente, reconhece-se que há uma intrincada participação da emoção, nos processos de tomada de decisão e raciocínio, e não só, tal como analisaremos seguidamente (Damásio, 1994; Goleman et al, 2002).

Um processo de aprendizagem é estimado a partir da memória e recordação dessa aprendizagem (Jensen, 2002). Nesta lógica, a única forma de se saber se o jogador aprendeu realmente, ou não, um determinado comportamento passa por verificar se demonstra ou não a recordação desse comportamento numa futura situação semelhante.
Alguns estudos demonstraram que todas as experiências carregadas de emoções (agradáveis ou desagradáveis) são mais facilmente recordadas dos que as experiências neutras, perdurando na memória e, por isso, mais acessíveis aquando de uma possível recuperação (Jensen, 2002; Goleman et al, 2002), confirmando que “as emoções recebem um tratamento preferencial no sistema de memória do nosso cérebro” (Jensen, 2002:164).

Outros estudos levaram Guilherme Oliveira (2004) a sugerir que um jogador quando opta por determinada opção ou decisão, esta foi condicionada pelo estado emocional que esteve implicado aquando da memorização dos conhecimentos requisitados para essa decisão.

Ainda relativamente à aprendizagem, Damásio refere-nos ainda que esta “tem vindo a associar emoções e pensamentos numa rede que funciona em duas direcções. Certos pensamentos evocam certas emoções e certas emoções evocam certos pensamentos” (Damásio, 2003a:88). Ou seja, uma emoção é despoletada não só por determinado acontecimento ou objecto real, mas também por uma recordação desse mesmo acontecimento (Damásio, 2003a). Daí que os planos cognitivos e emocionais estejam constantemente ligados por estas interacções.

Oliveira (2006) acredita que o jogador apenas consegue alterar o seu comportamento perante determinada situação, se primeiro o conseguir compreender e depois se perceber que tal comportamento será benéfico para ele e para a equipa.

De uma forma geral, as emoções permitem-nos “avaliar o ambiente que nos rodeia e reagir de forma adaptativa” (Damásio, 2003a:71). Perante determinada situação, é despoletada uma emoção que faz com que actuemos de modo pré-organizado e, muitas vezes, não é necessária a avaliação consciente da situação para que a emoção seja deflagrada, pois o organismo está preparado para reagir automaticamente (Damásio, 2003a). Este automatismo permite responder mais rapidamente a uma determinada situação.

Num jogo, “quantos e quantos jogadores que, mesmo sendo mais lentos que outros, chegam primeiro à bola? Isto acontece, porque no momento da análise da situação, são mentalmente mais rápidos que os outros e nestes casos uma fracção de segundo é o suficiente para se anteciparem e chegarem primeiro.” (Faria:2007:96)

A relação entre tomada de decisão e emoções existiu desde os primórdios do homem. A evolução deu-nos, primeiro, a capacidade de produzir reacções a objectos e circunstâncias – a maquinaria da emoção – que promovessem ou ameaçassem a vida (Damásio, 2003a). Dessa forma, estamos evolutivamente programados para agir de um modo pré-organizado quando detectamos determinadas características dos estímulos no ambiente ou nos nossos corpos (Damásio, 2003a). Para tal acontecer, não é necessário o reconhecimento do estímulo (situação) para que a emoção seja deflagrada, uma vez que o organismo está preparado para reagir automaticamente (Damásio, 2003a).
Quando as emoções sentidas perante determinada situação no presente têm correspondência com situações do passado, a nossa atenção focalizará (conscientemente ou não) determinados aspectos e, dessa forma, melhoramos a análise da situação (Damásio, 2003a). Assim, as emoções estão correlacionadas com as consequências das decisões, pois fazem parte de uma antecipação da consequência das acções (Damásio, 2003a). Se determinada opção no passado teve consequências positivas, a emoção faz com que essa decisão positiva seja tomada mais rapidamente, dado que no passado essa decisão foi positiva. Da mesma forma, uma decisão errada no passado faz com que, no presente, perante circunstâncias semelhantes, o sinal emocional funcione como um alarme automático ao apontar para opções que no passado não foram correctas (Damásio, 2003a). Então, perante isto, quando um jogador toma uma decisão que se revela positiva, esta ocorrência fica marcada nas memórias como algo positivo e o contrário também se verifica, se o resultado da decisão se revelar negativo. No futuro, num cenário semelhante, o cérebro pode preparar o organismo para responder de determinada forma assente naquela que proporcionou o resultado positivo. Assim, mesmo antes do próprio raciocínio aconselhar ou não a consumar determinada decisão, “o sinal emocional já marcou opções com carga positiva ou negativa” (Damásio, 2003a:171).
Além disto, as tomadas de decisão estão relacionadas com os estados emocionais. As decisões que causam estados emocionais agradáveis passam a ser mais solicitadas e permitem-nos responder mais rapidamente (Damásio, 2000). Ao contrário, as decisões que produzem um estado emocional desagradável são menos solicitadas.

Em suma, “esta carga reduz a extensão do espaço de decisões e aumenta a probabilidade de que a nossa decisão esteja de acordo com a experiência que tivemos do passado” (Damásio, 2003a:172).
Então, antes de avaliarmos e analisarmos a situação, o nosso organismo reduz drasticamente as opções de escolha de maneira inconsciente em função de aspectos corporais, somáticos, fruto das consequências das nossas experiências anteriores (Damásio, 1994).

Excertos retirados da tese de mestrado de António Oliveira, da Faculdade de Desporto, da Universida do Porto: As Emoções como condição essencial na Aprendizagem de um “jogar”.


36 comentários:

João Tudela disse...

Tive a oportunidade de estudar estas questões este ano, na cadeira de Psicofisiologia, no âmbito da licenciatura em Educação Física e Desporto.

É incrível o quanto estes ensinamentos podem moldar a visão do Treino, caso estudados com atenção. Há aqui dois excertos que gostava de realçar:

"Alguns estudos demonstraram que todas as experiências carregadas de emoções (agradáveis ou desagradáveis) são mais facilmente recordadas dos que as experiências neutras, perdurando na memória e, por isso, mais acessíveis aquando de uma possível recuperação (Jensen, 2002; Goleman et al, 2002)"

Agora pensem naqueles treinadores que investem horas de treino naqueles exercícios padronizados, sem oposição, em que a tomada de decisão do jogador está completamente ausente, em que este não tem que analisar o contexto e escolher o melhor caminho em função deste.

"Se determinada opção no passado teve consequências positivas, a emoção faz com que essa decisão positiva seja tomada mais rapidamente, dado que no passado essa decisão foi positiva. Da mesma forma, uma decisão errada no passado faz com que, no presente, perante circunstâncias semelhantes, o sinal emocional funcione como um alarme automático ao apontar para opções que no passado não foram correctas (Damásio, 2003a)."

Daqui consegue-se retirar facilmente a importância do feedback (e atenção, feedback não deve ser confundido com instrução). O treinador tem o dever de dar enfoque a estas situações positivas e negativas, de forma a criar estes marcadores somáticos no cérebro do jogador. Isto porque, por exemplo, um jogador pode dar 3 cuecas na defesa e sair a jogar. Deu resultado, e ele certamente vai se sentir bem. Mas a tomada de decisão foi correcta? Não! Então o treinador precisa de não deixar isso passar sem falar com ele, pois corre o risco de numa situação semelhante no futuro, o jogador decidir da mesma maneira, e a probabilidade de voltar a sair certo é curta...

Parabéns, este post é de uma riqueza brutal. Aos interessados, deixo este link, que é um episódio da série "Brain Story" que dava na RTP2. Este episódio fala sobre esta questão (as emoções) e a certa altura conta com a participação do Dr. António Damásio, que fala um pouco sobre o que se escreveu neste post. Abraço a todos

https://www.youtube.com/watch?v=uZu5J472_RY

Anónimo disse...

alguém me faça um resumo sff

Roberto Baggio disse...

Anónimo,

Além disto, as tomadas de decisão estão relacionadas com os estados emocionais. As decisões que causam estados emocionais agradáveis passam a ser mais solicitadas e permitem-nos responder mais rapidamente (Damásio, 2000). Ao contrário, as decisões que produzem um estado emocional desagradável são menos solicitadas.

Em suma, “esta carga reduz a extensão do espaço de decisões e aumenta a probabilidade de que a nossa decisão esteja de acordo com a experiência que tivemos do passado” (Damásio, 2003a:172).
Então, antes de avaliarmos e analisarmos a situação, o nosso organismo reduz drasticamente as opções de escolha de maneira inconsciente em função de aspectos corporais, somáticos, fruto das consequências das nossas experiências anteriores (Damásio, 1994).

Roberto Baggio disse...

Tudela,

Sim, relativamente ao feedback, aprendizagem isto dá uma volta ao treino incrível, sobretudo se pensarmos que há treinadores a associar comportamentos adequados a experiências negativas nos jogadores, ou a deixar reacções neutras ou até positivas em comportamentos desajustados.
Depois há a questão do treino não representar qualquer tipo de estímulo ao jogador, que vai resultar em experiências com as quais o jogador não vai poder associar no jogo, logo, poderá demorar mais tempo a dar uma resposta correcta a situações que acontecem muitas vezes no jogo, apesar de se apresentarem de diversas formas.

Finalmente, pensar nos vícios que Neymar já leva e nas emoções positivas com que viveu os seus comportamentos desajustados, altamente aplaudidos e incentivados pela sua massa de admiradores, directores, treinadores e jogadores com quem interagiu, e perceber-se a dificuldade em alterar esse tipo de padrão, com índices astronómicos de emoções positivas.

Abraço

Rafael Antunes disse...

O treinador que perceber isto, dominar e operacionalizar tem a faca e o queijo na mão.

Manuel Sérgio anda há 40 anos a falar disto... Antes do Jogador está o Homem, antes do Jogo de Futebol está o Jogo de Homens. O treinador antes de perceber de futebol, tem de perceber de Homens. É a velha máxima "Quem só percebe de futebol, nem de futebol percebe!"

Mourinho fez deste "novo" paradigma o seu cavalo de batalha no inicio da carreira como treinador principal...

Grande post!!!
Para estudar e mais importante, aplicar!!!

"Quem só teoriza não sabe, quem só pratica repete, o saber nasce da conjugação da teoria e da prática"

Cumprimentos

Signori disse...

"Além disto,as tomadas de decisão estão relacionadas com os estados emocionais.As decisões que causam estados emocionais agradáveis passam a ser mais solicitadas e permitem-nos responder mais rapidamente(Damásio, 2000).Ao contrário, as decisões que produzem um estado emocional desagradável são menos solicitada."

Bom post; daí a importância dos feedbacks, reforçar quando algo for positivo, e quando um comportamento não for o desejável, saber abordar a situação com o jogador, de forma empática, dizendo p ex, eu percebo que aches que com a capacidade de drible que tens podes ajudar mais a equipa fintando 4 ou 5, mas acho que seria importante perceberes as outras opções disponíveis e analisarmos quais as melhores opções para a equipa.
A partir daqui falar sobre os princípios do jogo, se necessário ir buscar exemplos de jogadores como Nani ou outro que passou a jogar de forma mais colectiva e mostrar vídeos acerca da evolução do jogador, ou exemplificar no treino as soluções e decisões disponíveis para o jogador perceber a vantagem/desvantagem de ambas

Acima de tudo, perceber o porquÊ do atleta ter aqueles comportamentos, compreender que vêm ou de uma necessidade de protagonismo ( e aí explicar que o sucesso colectivo ajudará ao seu sucesso indiviudal, e que as grandes equipas normalmente optam por contratar jogadores que tomam decisões mais colectivas), ou por desconhecerem os princípios de jogo. A partir daí dar o feedback da melhor forma, sabendo que berros só fazem assutar o jogador e a levarem-no a ter mais anisedade na forma como joga, associada ao medo de falhar. É preciso ir ao encontro das necessidades específicas do jogador, e a partir daí dar o melhor feedback.

Signori disse...

Acima de tudo, os comportamentos do jogador surgem porque foram adquiridos e reforçados (comonente emocional e comportamental) daquela forma, e assim o jogador automaticamente predispõe-mse a tomar certo tipo de decisões que são as menos correctas. Criticá-lo gratuitamente é o pior que se pode fazer, e preciso primeiro perceber o que leva o jogador a determinado comportamento, e depois fazer o jogador sentir que compreendemos porque age daquela forma, e que gostaríamos de ajudá-lo a descobrir outras formas de jogar, e a aprtir daí entrarmos num processo de descoberta acerca das vantagens/desvantagens das soluções disponíveis. Punir serve apenas para aumentar a ansiedade e para que o jogador aprenda a não fazer algo, mas não faz com que este aprenda porque é que não o deve fazer, ou porque deve fazer de outra forma. Terá que ser o próprio ogador, com a ajuda da equipa técnica, que descubra, através da prática e descoberta guiada,a importÂncia de outra soluções, e assim ficará esta aprendizagem associada emocionalmente, predispondo-o a novos comportamentos.

Signori disse...

E cada caso é um caso, há jogadores que mais facilmente passam a pensar colectivo, e outros não. É preciso perceber as necessidades em jogo do indivíduo, que necessidades do indivíduo é que estão menos reguladas. Há indivíduos com maior necessidade de protagonismo, por exemplo, outros que se sentem satisfeitos ao tomar decisões mais oolectivas, outros que até têm capacidade para se expressarem mais a nível individual mas que se retraem. É preciso compreender o indivíduo, porque é que certas necessidades ( que ttêm uma componente emocional forte, activando cognições e predispondo a comportamentos)se activam mais que outras, e através de um processo empático, de compreensão e validação de necessidades, fazer o jogador expressar-se genuinamente acerca do porquê de determinadas opções, compreender porque decide dessa forma, procurando não criticar ou entrar em excessivos julgamentos negativos. A partir daí mais facilmente se predispõe o indivíduo a confiar, a experimentar, e a abrir-se a novos comportamentos e formas de pensar.

Signori disse...

E estas capacidades empáticas, de criar a ligação específica com o grupo e também para o indivíduo, não é algo que se possa adquirir somente estudando. Há pessoas que têm estas capacidades mais desenvolvidas, devido a toda a sua história e evolução pessoal ,outros menos, e necessitam de efectuar um maior trabalho pessoal. Mourinho no início de carreira era exímio, agora tenho que analisar melhor, após o desgaste que estes 10 anos e a sua postura de dar o peito às balas provoca. Mas parece-me alguém com um discurso emocional articulado, e que está sensível e compreende realmente a importância destes aspectos. E no Chelsea, actualmente, sinto-o mais em paz consigo próprio, no seu ambiente, mais equilibrado. Mas ainda estamos no início. Posso dar exemplos de treinadores que têm dificuldades empáticas, um deles, apesar de não o conhecer pessoalmente, do que já vi, tem uma dificuldade em compreender os scripts sociais e decifrar e traduzir o que o outro sente. Falo de Carlos Queiroz, que já pus a hipótes de ter síndrome de Asperger, no espectro do autismo lol.
O outro é AVB, e a sua experiÊncia no Chelsea fez-me pensar que tem ainda muito trabalho pessoal pela frente, na relação com os jogadores. LEr Cole a referir que se sentia um robot, e que AVB não compreendia os feedbacks dos jogadores; o carregar os jogadores de toneladas de material acerca do adversário, sem adaptar-se ao que os jogadores transmitiam relativamente ao desagrado desta situação...era tudo muito robotizado, autístico, rígido e impessoal, roçando o autoritário, o que com jogadores com aquele estatuto foi kamikaze; a sua incompreensão acerca dos scripts específicos daquele grupo e daquele plantel, sendo incapaz de se adaptar às sensibilidades individuais e sócio grupais, parecem-me claras. A fragilidade emocional de ter saído do centro de treinos do Chelsea a chorar após ter sido despedido e ter dormido lá a última noite, parecem-me de alguém que não estava genuinamente a compreender o impacto da sua liderança no grupo, e as consequências que se aproximavam. Espero que esssa experiÊncai tenha sido um sinal de alarme que o faça enveredar e sensibilizar-se . Até agora parece-me que algo está a melhorar, mas por vezes estas situações de impacto emocional levam o indivíduo a reagir de forma ainda mais autoritária. ESpero que não seja o caso. Outro factor que me pareceu importante, foi AVB ter ido para o Chelsea sem os seus adjuntos, a sua equipa, que o podia ter sensibilizado para algumas questões. Foi um AVB mto desapoiado e solitário o que vimos em Stamford Bridge.

Rafael Antunes disse...

Signori, de facto, se perceberes muito do jogo. Se tens as tuas ideias bem elaboradas. Se tens a perfeita noção de como as queres pôr em prática. Mas depois não és capaz de compreender, guiar os Homens (em todas as suas dimensões e contradições como falaste) será mais o menos como teres um Ferrari novinho em folha apenas sem o acelerador...

Talvez seja assim, digo eu...!! disse...

Boa tarde, alerto só para o que disse o amigo João Tondela, sob alguns treinos serem sem oposição...!! o amigo pensa que entendeu perfeitamente o que Damásio quis dizer... mas no fundo ainda não entendeu nada!!!! o que Damásio quer dizer e o que o Prof. Manuel Sérgio tem vindo a defender a 40 anos só que ao contrário de Damásio é que o Prof. não consegui provocar cientificamente e Damásio sim!! é que antes do Jogador está o Homem (esse que pensa, chora, ri, salta, corre, etc,etc).... os treinos sem oposição podem ter um objectivo de controlo emocional estratégico para o próximo treino!!! e o que é isto do EMOCIONAL ( ora é a motivação, a auto-confiança, capacidade de superação,etc,etc)... resumindo o amigo tentou com a base de raciocínio de Damásio explicar que os treinos sem oposição não favorecem a tomada de decisão, reposta essa errada amigo!! como lhe disse a emoção é muito mais que a palavra emoção É TUDO!!!! pode através de uma treino devidamente priorizado no morfociclo, colocar um treino sem oposição, sendo que esse treino lhe vai dar uma carga emocional positiva que vai permitir no próximo treino melhorar a tomada de decisão!!! mas isto é aquilo que eu penso claro... no fundo vou citar uma frase de S.Agostinho... onde disse uma vez num congresso sob metodologias " amigo... AMA E FAZES O QUE QUISERES!"

Gonçalo Matos disse...

Ola!
Alguém me sabe dizer se existem experiências cientificas que demonstrem o que aqui foi postado? Algum ensaio que meça as zonas de acção do cérebro que entram em actividade em jogadores de diferentes posições sob determinado estimulo ou assim?

Sei que existem estudos sobre o papel de por exemplo o medo em ratinho e como a experiência influencia a decisao futura mas nao faço ideia se existem estudos científicos com atletas de alto rendimento

Signori disse...

Tens os do António Damásio, o erro de descartes ou o sentimento de si, ou
Emotions in Sport [Hardcover]
Yuri L. Hanin (Author) que é mais específico acerca das emoções e desporto

ou para algo mais específico, de um grande investigador sobre as emoções primoridais transversais a todos os mamíferos: The archaelogy of mind de Jaak Panksepp

Signori disse...

vê este artigo: http://tonypickering.com/documents/Jones_2003.pdf

http://people.uncw.edu/hakanr/documents/zoneperformance.pdf

https://www.google.pt/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=12&cad=rja&ved=0CDgQFjABOAo&url=http%3A%2F%2Fdialnet.unirioja.es%2Fdescarga%2Farticulo%2F3967855.pdf&ei=JEMFUojGBoXE7AaBzYH4Cw&usg=AFQjCNHaXf3sVW0UNjOxa0d8UWblIDULjw&sig2=Rhxk1uBFbP2mqNvNkvHc0g&bvm=bv.50500085,d.ZWU

se fores ao google e procurares emotion and sport ou emotion regulation and sport deves encontrar algo. O tal Hanin, que tem o livro emotions in sport, tem tb bons artigos

João Tudela disse...

Caro anónimo, a partir da palavra morfociclo deduzo que seja fã da periodização táctica. Também já li Vitor Frade e afins e sei o que pensam sobre o treino sem oposição.

Eu, pessoalmente, não acredito nisso. Vocês baseiam-se nesse racional teórico para pensar o jogo e o treino, eu baseio-me noutros, como a Teoria dos Sistemas Dinâmicos, atendendo sempre àquilo que são as informações que os jogadores utilizam para agir (distância interpessoal, distância relativa para a intercepção do passe e do remate). Não digo que seja melhor ou pior do que aquilo em que o senhor acredita e pratica (até porque a Periodização Táctica tem imensos fundamentos com os quais eu concordo e me identifico). Todavia tenho outras ideias, em que o jogo provem de um sistema dinâmico de onde é impossível retirar o adversário, sob pena de falsear a informação que o jogador utiliza para agir.

Sobre aquilo que diz que eu percebi mal, ainda bem que o meu Professor de Psicofisiologia achou o contrário, caso contrário estava tramado. Respeito a sua opinião, ainda que não concorde com ela.

Com os melhores cumprimentos.

Anónimo disse...

Amigo João, deixou-se levar pela emoção, e a sua tomada de decisão (resposta) foi no minimo ignorante.... Provavelmente se treina-se primeiro a resposta do dominio e controlo da sua emoção( sem oposicao), a resposta teria sido outra( com oposicao).... primeiro sou só eu... e não voçes... Segundo insulta um Prof. que nao faz a mínima quem é... e diversos profissionais... Teórico é o amigo, pois se parasse para pensar, o seu rendimento seria outro!

João Tudela disse...

Caro anónimo,

Será o último comentário que lhe dirijo, porque certamente não era a intenção do autor do post ver a caixa de comentários transformada num "bate-boca". Qualquer comentário que me dirija a seguir, será deixado sem resposta. Terá toda a liberdade para "brilhar" no insulto (chame-me teórico, ignorante, o que quiser), sem ter posterior resposta.

Em primeiro lugar não creio que a minha resposta seja ignorante. O senhor concorda com um racional teórico em que o treino sem oposição é bem visto e tem um fundamento, eu concordo com outro em que ele não é benéfico. É uma divergência doutrinária, apenas isso.

Em segundo lugar, quando me dirigi a "vocês" (é assim que se escreve, não leva cedilha e tem um acento circunflexo) não o fiz com o intuito de ser mal educado, simplesmente quis incluir os muitos seguidores da Periodização Táctica. Mas se prefere que me dirija só a si, tudo bem, aceito isso.

Em terceito lugar, considero muito o Professor Vitor Frade (a quem já tive o privilégio e o prazer de ser apresentado) e os outros valorosos profissionais que refere, que trabalham segundo a Periodização Táctica (como Mourinho, Villas Boas, e tantos outros). Acho que em nenhum momento os insultei, nem acho que seja um insulto eu não concordar com um ponto do que o Professor refere.

Em quarto lugar, se estiver a referir-se ao meu rendimento na resposta, a minha felicidade não depende daquilo que o senhor qualifica de superior ou inferior. Se falarmos do meu rendimento enquanto jogador, estudante do jogo ou treinador, bom, aí nem Mourinho agrada a todos, quanto mais eu que não sou ninguém.

Em último lugar, se eu treinasse (é assim que se escreve, na primeira pessoa do singular do pretérito imperfeito do conjuntivo) primeiro sem oposição para depois treinar com oposição, teria alguns parcos benefícios, sem dúvida. Todavia, a escassez do tempo que tenho para treinar e o custo de oportunidade que representa essa opção faz com que eu prefira treinar aproximando o contexto de treino àquele que o jogador encontra no jogo (pelo menos no que ao capítulo de ter oposição diz respeito). São opções. Melhores ou piores, isso são convicções que cada um tem. É preciso é que as que tenhamos, sejam baseadas em alguma coisa. Se assim for, tudo bem.

Com os melhores cumprimentos.

João Tudela disse...

Errata: onde diz "terceito", deve-se ler "terceiro".

Anónimo disse...

Treinar, finalização sem oposição para controlo emocional? Do treino seguinte? Quer especificar? Quererá dizer que o controlo emocional (nomeadamente o sentimento positivo, que penso estar a realçar) vai ter efeito no treino seguinte? É que o descontrolo emocional surge exactamente da pluralidade de estímulos que um treino com oposição trás... Diria, eu, até que esse tipo de exercício vai para aquela zona que Damásio apresenta como neutra (nem positiva, nem negativa). E assim sendo, qual é o valor que tem esse tipo de exercício, ao qual não está associada qualquer tipo de emoção?
E, aceitando que as emoções acabam por se reflectir como positivas, não será maior a frustração de ter conseguido sem oposição e depois, quando se mete lá um ou dois bonecos não sair nada? Não ficará imediatamente isso associado a um sentimento negativo, forte? não será melhor associar logo uma emoção positiva, dentro daquilo que é o jogo, com as dificuldades inerentes de penetração, timming de passe, timming de desmarcação, tal como acontece no jogo? Com a finalização a surgir dependente daquilo que é o rendimento com bola (acerto na penetração, com o que referi acima) dos jogadores em questão, mais uma vez como acontece no jogo? Se jogarem "bem" criam 20 situações, se jogarem mal, criam 6?
E não será, também melhor, trabalhar essa mesma frustração de quando as coisas correm mal no jogo, e trabalhar aí o controlo emocional dos jogadores, para que exista essa tal superação? Trabalhar, com o estado de espírito do jogador, para quando, como refere Damásio, ele estiver frustrado no jogo, tendo em conta o que treinou (treinou com frustração naquele momento por não estar a conseguir criar ou finalizar), associar o estado de espírito a dificuldade que sente, e a teia de relações que surge é o FB do treinador sobre a forma de resolver o problema, assim como o fez no treino?

Eu tenho as minhas reservas quanto ao treino sem oposição. Não digo que quem o faça não saiba o que está a fazer, ou não perceba nada de treino e do corpo humano. Digo que são diferenças, metodológicas, tal como afirmou, o Tudela.


Cumprimentos

Blessing Lumueno

Miguel Martins disse...

Boas.
Um bom texto sobre a tomada de decisão, embora direccionado para a área das emoções (enfatizado pela periodização táctica) e não tanto para a teoria dos sistemas dinâmicos (que engloba as emoções nos constrangimentos do organismo) que é mais completa, explicativa e mais suporte cientifico, pois nesta área das emoções as explicações são feitas por analogias e não por método cientifico.
Queria apenas salientar alguns aspectos: "A tomada de decisão com base nas emoções não é uma excepção, é a regra (Damásio, 1994). Elas permitem-nos responder de forma não-consciente a certas situações com base no passado cultural (Damásio, 2003a)." ou seja no desporto, devido ao curto espaço de tempo para decidir (o jogador está constantemente a decidir) a decisão não é consciente ou seja não implica que implicitamente o jogador saiba explicar os porquês da sua decisão (verbalizar o que fez e porquê), assim o conhecimento especifico faz parte dos constrangimentos do organismo mas não é factor essencial, embora depois seja dito que "O conhecimento específico permite então diferenciar a qualidade entre jogadores (Costa et al 2002; Guilherme Oliveira, 2004)" existem diversos estudos que demonstram que não há diferenças entre experts e novatos em respostas teóricas sobre o jogo (o que também explica que grandes jogadores não sejam obrigatoriamente grandes treinadores).

Miguel Martins disse...

João Tudela: Há pessoal que só quer é insultar quem fala do que eles não percebem. Quanto á PT é uma forma de periodizar dando ênfase ao factor táctico, a treinar podes operacionalizar os exercícios de acordo com uma qualquer metodologia (ou forma de entendimento) da aquisição da acção motora, e a grande diferença da TSD relativamente ás teorias cognitivas é, em minha opinião, a não separação da decisão e da acção (não há decidiu bem mas falhou na técnica, ou o inverso) e a aquisição motora ser relacionada com os constrangimentos das tarefas e não com a instrução e o feedback, por isso só cabem aqui exercícios específicos o que também é o fundamental em termos de operacionalização da PT. Deste modo a PT e a TSD não são concorrentes mas complementares, concorda?
Signori: Arranjo-te imensos estudos que comprovam a pouca importância do FB na aprendizagem e que demonstram que o foco do jogador deve estar num elemento externo (p. ex. atingir um alvo e não a forma de o fazer, ou seja focar no objectivo e não na técnica). Concordo a 100% com o teu comment das 17:23, e junto outro exemplo... José Guilherme Oliveira, quando sai da Académica diz algo deste género: apenas me foquei na parte táctica e esqueci-me que os jogadores são homens. Por isso é que muitos que sabem muito de futebol não têm sucesso e depois passam a vida a criticar quem não percebe tanto mas tem sucesso, o que também vem na sequência do debate do outro dia sobre os treinadores com valor mas que depois não têm oportunidades... se calhar focam-se demasiado num aspecto e dão zero atenção aos outros, ora X*0=0 (sendo X o conhecimento do jogo, e por muito elevado que x seja)! Não vi os artigo que sugeres mas parece-me que sejam de uma abordagem mais cognitiva á tomada de decisão... Procura algo sobre a abordagem da teoria dos sistemas dinâmicos e da abordagem ecológica da percepção e acção.

Gonçalo Matos disse...

Existem grupos de investigação científica aplicados ao futebol? Se sim, onde?

Miguel Martins disse...

Gonçalo: Em qualquer universidade...

Gonçalo Matos disse...

Obrigado pelas sugestões, Signori! Quando tiver tempo vou dar uma vista de olhos!

Gonçalo Matos disse...

Miguel,

Não fazia ideia, o meu meio não é o futebol. Achei que a investigação que se fazia neste área era feita ou por estudantes ou por individuos ligados ao treino que depois teorizassem. Não sabia que havia pessoas que se dedicavam exclusivamente à investigação científica em futebol. Sabia que existia malta das biofísicas a trabalhar com atletas de alto rendimento e etc, mas mais que isso não. Vou ver então o que andam a fazer. Obrigado!

Miguel Martins disse...

Gonçalo: Há diversos campos de estudo... desde a biologia e fisiologia, até psicologia e observação. Todos os campos de ciência podem ser aplicados ao futebol... Num artigo qualquer que de cabeça não consigo citar o Prof. Dr. Júlio Garganta diz... o que valida o futebol como objecto cientifico são as metodologias usadas para o estudar... ou seja, o futebol é um objecto da ciência desde que estudado a partir do método cientifico.

João Tudela disse...

Miguel Martins, concordo em absoluto com o que escreveste. Nunca pretendi dizer que a PT e a TSD são concorrentes, caso assim me tenha feito entender, o erro de expressão foi meu. Conheço e já trabalhei com vários treinadores que baseiam o seu pensamento conjugando as duas coisas. Vou assim tentar explicar-me melhor:

A PT não assenta em exercícios sem oposição (nunca quis dar a entender isso e tu explicaste muito bem o que é a PT em sentido lato) mas utiliza-os na sua operacionalização (e em tantos livros dedicados a esta metodologia encontramos exemplos de exercícios sem oposição) e foi aí que peguei na TSD e na prespectiva de ver o jogo enquanto sistema, do qual o adversário faz sempre parte.

Isto porque as informações que um jogador utiliza para agir são, como disse em cima, a distância interpessoal (distância do atacante ao defesa mais próximo), a distância relativa para a intercepção do passe (ex: Quando o defesa está longe da linha de passe e próximo do portador da bola, emerge a possibilidade de um passe de sucesso) e a distância relativa para a intercepção do remate (quando o tempo que os defesas demoram a encerrar o seu espaço à linha de remate é superior ao tempo que a bola encerra o seu espaço até aos defesas, emerge um remate de sucesso - e com sucesso não quero necessariamente dizer golo). Por muito que o jogador decida consoante as suas emoções e experiências passadas (e isso é inegável), estas emoções/decisões surgem a partir da análise da situação contextual, ou seja a partir das possibilidades de acção ("affordances") que a situação apresentou.


Neste sentido, na minha óptica (e admito opiniões diferentes, claro), o que um treinador deve fazer nos seus exercícios é ampliar as informações que suportam as acções dos jogadores, convidando-os a identificar e usar as affordances emergentes, que podem levar ao sucesso na performance. Peguemos o exemplo do remate: A criação de oportunidades de acção emerge da interacção entre (pelo menos) um atacante, um defesa, uma bola e uma baliza, certo? Parecem-me estes os constrangimentos mínimos para haver uma representatividade na tarefa e possível transferibilidade entre a aprendizagem e as situações competitivas. Se tirarmos o defesa (neste caso o GR) da baliza, não estamos a treinar a tomada de decisão do jogador no momento do remate. Quanto muito, estamos a fazer um "treino técnico" (?).

Vários autores defendem (e eu concordo), que uma das maiores dificuldades no treino da tomada de decisão no futebol reside na capacidade de lidar com a incerteza e imprevisibilidade das interacções dos jogadores, caracterizadas por rápidas e inesperadas alterações na grande informação procedente dos movimentos da bola, colegas e adversários. Sendo assim, acredito que ensinar os jogadores a explorar por eles próprios as possibilidades de acção, através de exercícios representativos, poderá incrementar a comunicação da equipa, coordenação e tomada de decisão. E acho isto muito mais difícil de conseguir sem a existência da oposição, pois esta é um elemento chave no Futebol.

Espero ter conseguido explicar-me melhor! Um abraço

Gonçalo Matos disse...

Miguel,

Sim, o futebol e qualquer outra coisa são objecto da ciencia se passarem os pressupostos do método científico.

Eu pergunto isto porque sou biologo de formação e faço parte de um grupo de investigação cientifica dedicado a adaptação a ambientes heterogeneos, sendo que no meu grupo há um tema geral e depois cada pessoa com o seu projecto aborda diferentes sub-temas. Pelo que percebi a investigação cientifica que se debruça sobre o futebol é feita doutra forma, não havendo um grupo com um tema e uma serie de sub-temas, certo?
Tou a insistir tanto nisto porque considero que o futebol tem varias caracteristicas similares à ciencia e por tal far-me-ia sentido existir gente que se dedicasse exclusivamente ao estudo do jogo, do ponto de vista cientifico. por exemplo, não será dificil delinear um protocolo pra testar indices de eficácia em jogadores de alto rendimento, com situações controlo e diferentes testes.

Signori disse...

Miguel, o meu ramo é a psicologia clínica, e conheço pouco do que se faz na psicologia aplicada ao desporto, e ao futebol. Como na minha actividade clínica costumo usar uma abordagem mais integrativa, com maior enfoque na activação emocional e afectiva, na aliança terapêutica e a importância da relação terapêutica e dos processos empáticos e de validação de necessidades na construção da relação terapêutica (porque a terapia é muito isso, é a facilitação de experiencias emocionais correctivas, em que a relação terapêutica estabelecida é uma experiência desse género e facilita a predisposição para o insight cognitivo/emocional e outras experiências gratificantes, quer internas quer externas) e facilitação da activação afectiva. O poder transformativo dos afectos é imenso, e procurava aplicar isto ao futebol. Nas últimas décadas o paradigma cognitivo, ligado ao hemisfério esquerdo, e a importância fundamental da cognição na interpretação do mundo, está a ser substituído para a importância das componentes emocionais que são activadas primariamente, influenciando a activação cognitiva, e predispondo o indivíduo a determinados comportamtnos(Damásio, allan Schore, Daniel siegel, entre outros), renascendo a importÂncia das relações de vinculação precoces do indivíduo e o estabelecimento de circuitos neuronais afectivo-cognitivos desde a precocidade a partir das experiÊncias precoces mais ou menos adaptativas.Acredito, como tu referes, que em aprendizagens específicas deve-se focar no elemento externo, o que tem paralelo na terapia com intervenções mais comportamentais, tarefas de resolução de problemas, aquisição de comportamentos de mestria, etc.
A questão é que um treinador trabalha com jogadores durante meses a fio, e mais do que um simples feedback num exercício, ou tarefa aquisitiva específica, as dinâmicas relacionais que se estabelecem, o atender a necessidades manifestas do indivíduo, de uma forma validante e empática certamente que ajuda à aquisição. Tal como o sucesso numa aquisição a partir de uma estratégia mais comportamental também irá reforçar o comportamento, aumentando a confiança na capacidade do técnico o ajudar a evoluir, havendo uma marcação emocional para o jogador e que lhe aumente a predisposição ou motivação para novas aquisições.
Não é fácil gerir um plantel, principalmente com as exigências da alta competição e tudo o que a envolve. Juntar o conhecimento e as capacidades de liderança e gestão de um grupo com as características de um plantel profissional e tudo o que envolve a mediatização deste desporto, não é para todos. Mas também não é um trabalho para fazer sozinho, há que saber escolher quem queremos liderar, e muitas vezes não é dada essa hipótese, e quem queremos ao nosso lado a coadjuvar, apoiar, dar feedback, e em quem podemos confiar e apoiar. E AVB não teve isso no Chelsea. É uma aprendizagem poderosa que ele pode tirar daí, e espero que tenha reflectido sobre isso, porque sairá melhor treinador, sem dúvida. Ou pior, se tiver tirado as conclusões erradas

Signori disse...

Quanto a este tema, o trabalho de yuri hanin sobre o estado de flow, género de "estar na zona", é giro, e aconselho a quem quer saber mais sobre a relação entre desporto e emoção

Signori disse...

Yuri Hanin, zone of optimal functioning theory (1980), e a partir dessa data muito se tem estudado sobre isto

Anónimo disse...

A prática diz-me que esses estudos são errados. Sobretudo se pensarmos que a predisposição para aprender, na maior parte dos indivíduos é egocêntrica. Considerando que o indivíduo só se senta para aprender, se percepcionar que aquilo é o melhor para ele, quem é que lhe diz que aquilo é o melhor para ele?
Ele não o é. E tudo isso é feedback. Caso ele se perceba que pode ter sucesso de forma X, e perceba que tem alguma coisa para aprender e só aprendendo vai ter sucesso, isso é feedback. E por feedback, não falo apenas de conversa. A gestão das emoções é muito mais ampla que isso, nomeadamente nos dois momentos que os jogadores consideram mais importantes : Convocatória / 11 inicial.
E isso é feedback, e se há estudos, científicos, que mostram a pouca importância dele na aprendizagem, eu discordo das ideias lá explanada. Porque depois, entra outro tipo de feedback e de abordagem, nomeadamente o explicar do porquê de o indivíduo ter sido excluído dos momentos importantes, e direccionar para a aprendizagem que pode guiar ao sucesso. Assim ele associa mais facilmente os comportamentos desajustados à emoção negativa. E partirá, para a aprendizagem do que lhe poderá ser benéfico.

José Silva

Miguel Martins disse...

João: Em ralação á PT até, em minha opinião, é um conceito criado para dar visibilidade a uma escola, quando já tínhamos o conceito de modelação sistémica, mas não vamos pelo caminho de discutir se é novidade ou não. Acho que sem GR ninguém faz (lol)... mas (finalização com GR) pode ser considerado uma tarefa com um mínimo de constrangimentos de contexto e com um máximo de possibilidades de acção e nesse sentido o mais fundamental, em minha opinião, é considerar o tempo dedicado a essas tarefas sem oposição, ou seja sem oposição pode acontecer em circunstâncias especiais mas 99% tem de ser com oposição porque a incerteza e imprevisibilidade vem da oposição.
Gonçalo: Existe gente que se dedica ao estudo, os Prof. Dr.s da universidades, cada um (ou em grupo) aplica a sua área de estudo ao futebol... os de fisiologia do desporto estudam fisiologia no futebol, os de psicologia estudam psicologia, os de futebol estudam questões mais directamente relacionadas com a parte táctica... depois se a investigação é mais individual ou mais por departamento é especifico de cada investigação. E isto é investigação cientifica, seguindo métodos científicos e não a dizer coisas apenas porque se lembram ou lhes parece que é assim. (logo desenvolvo que de manhã tenho pouco tempo).
Signori: Isso do Yuri Hanin, pelo menos a mim, é ensinado relacionado com a motivação (Gonçalo: teorias mais gerais também são aplicadas ao futebol por extrapolação e depois por aplicação de protocolos específicos, mas em questões tácticas é diferente e logo explico-te) e não tanto relacionado com a tomada de decisões... no entanto essa (motivação) é mais uma das caracteristicas que fazem parte dos constrangimentos do organismo na tomada de decisões. A tua visão sobre a gestão de um plantel não ser só necessário conhecimento do jogo mas também outras competências é totalmente também a minha... por isso é que alguns que "sabem da pode" (como se dizia a dias) ficam de fora, concordas? Isto partindo do principio que sabem e não apenas pensam que sabem.

João Tudela disse...

Miguel, mais uma vez, de acordo com o que escreveste!

PS - acredita que há aí treinadores a meter os avançados a bater na baliza sem gr! Metem uns cones e dizem "tem que ser para ali!" lol. Há de tudo.. já vi um que treinava organização ofensiva sem bola... agora imagina! LOL abraço

Signori disse...

claro, Miguel, e apesar de esse não ser o meu mundo, penso que o conhecimento táctico é o mais fácil de adquirir e planear. O sucesso numa competição de regularidade ou numa época desportiva passa muito pela gestão humana, dos índices de motivação, regulação emocional, resiliência e gestão de situações adversas. E mais do que uma equipa técnica, deve haver uma estrutura por trás que proteja os jogadores, e que eles sintam essa protecção, se for preciso que tenham problemas pessoais e a estrutura disponibilize mecanismos que permitam estabilizar a situação. Por isso é que no norte há os resultados que aparecem. É como na psicoterapia, as técnicas específicas são 15% do sucesso terapêutico. a relação, ou a qualidade dos sistema que se cria tem o peso maior, além das variáveis relativas ao contexto do indivíduo. Há imensos casos conhecidos no futebol em que o sucesso passou por algo mais que questões tácticas, olhem AVB vs di Matteo p ex. E cada vez mais, principalmente a alto nível, com valores individuais parecidos, e com trabalhos técnico tácticos de topo, a diferença vai-se fazendo na gestão dos índices motivacionais, emocionais

Luis disse...

Oh João Tudela,... és mesmo NABO pah!!! Lol