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terça-feira, junho 18, 2013

Pensamentos: Espanha, Espanha e mais Espanha

Ontem num programa da Sporttv, Nelo Vingada disse que quando se juntavam os jogadores espanhois, na equipa A, o jogo surgia de forma natural. Compreendo que o diga, porque de facto eles jogam assim com essa aparência de naturalidade, já que jogam assim TODOS os jogadores do plantel. Mas de natural acho que o estilo de jogo espanhol tem pouco, não será possível juntar naturalmente 11 jogadores e pô-los a jogar como jogo La Roja. O que nos parece natural surge após anos sucessivos de trabalho, não só nos plantéis seniores e também após uma mudança de mentalidade desde as estruturas federativas aos treinadores e jogadores.

Neste momento, mais interessante que ver os “A” jogar, interessa-me ver os sub-21 e sub-20. Isto porque os sub-21 espanhóis apresentam inúmeras características comuns ao plantel principal: futebol apoiado desde a defesa, grande dinâmica em todas as posições, excelente capacidade de jogo enquanto pressionados e ainda excelente reacção aquando da perda da bola. Se nos A isto poderá surgir de forma natural, até porque vários jogadores jogam juntos no Barcelona, onde executam de forma semelhante, nos sub-21 poder-se-á tornar mais surpreendente. De qualquer forma, também sabemos que estes jogadores da actual sub-21, que já ganharam várias competições internacionais, jogam há muito assim. E que antes deles os sub-23 olímpicos também o faziam e os ex-sub21!

Trata-se portanto de uma “filosofia” implementada desde cedo nos escalões das selecções espanholas, que permite colher frutos, independentemente dos estímulos que os jogadores recebam nos seus clubes. Independentemente de Rodrigo ou Morata jogarem em equipas preferencialmente de transição, sabem jogar o futebol apoiado da selecção e o mesmo se aplica aos seus colegas que tradicionalmente jogam em equipas com princípios e ideias diferentes da selecção.
Provavelmente não surigirão Iniestas e Xavis todas as gerações, mas não duvido que constantemente se formarão jogadores do nível de um Mata, Cazorla, Piqué ou até Fabregas. Ano após ano surgem inúmeros talentos JOVENS no campeonato espanhol, jogadores dotados de técnica elevada, que decidem bem e executam melhor. Será que no vácuo, são realmente melhores que brasileiros, portugueses ou alemães? Ou será que acima de tudo, são mais inteligentes que os demais? E se eles conseguem, será que mais ninguém conseguirá?


O futuro do futebol é o presente do futebol espanhol. Mais do que futebol de posse, de pressão, de tiki-taka, o importante é o futebol jogado com a cabeça. Joga-se em posse porque permite ganhar mais, mas não duvido que se fosse necessário mudar para melhor, que os jogadores respondessem positivamente. Quando insisto tanto no papel da formação, principalmente em Portugal, penso muito no que vejo em Espanha…

15 comentários:

Roberto Baggio disse...

Muito bem Gonçalo. Excelente leitura. Por esse motivo, Espanha continuará a ser candidata, em todos os escalões, à conquista do título.
Por isso, também, às equipas espanholas vão estar de forma consistente nos momentos de decisão das provas da UEFA (meias finais). Abraço

Gonçalo Matos disse...

Muito obrigado! E também por isto vemos que os jogadores espanhois que jogam no estrangeiro são "maestros" nas suas equipas, tais como Mata, Silva ou Cazorla. Se fizessemos um exercício de precisão de passe, duvido que houvesse diferenças entre espanhois e outras nacionalidades; o mesmo se aplicando a gincanas ou o circuitos, daqueles com cones e afins.

PP disse...

Artigo bastante actual e que deveria levar a um debate nos desportivos nacionais e nas mais altas estâncias federativas e porque não, também, da liga profissional (afinal de contas, os clubes poderiam lucrar imenso).

É actual, não só pelo futebol dos "putos" espanhóis, mas também por se enquadrar no que muito se debateu antes e após a final da Liga dos Campeões e no trabalho efectuado na Alemanha quanto ao futebol profissional, que acabou por "beber" um pouco do que se fez na Espanha.

Também a nível de selecções, a Bélgica tem sido bastante elogiada pelo crescente número de valores, que aparecem devido a um trabalho de formação cada vez mais intenso.

A razão porque em Portugal não se aposta, é porque há ainda uma mentalidade retrógrada e pequena da maioria dos nossos dirigentes da tribo de futebol, quer sejam eles dos clubes, como dos organismos reguladores.

Ficamos apenas pelas etiquetas de "que somos os melhores treinadores do mundo", mas depois vamos a ver, e são apenas dois ou três que lá fora dão verdadeiro crédito nos grandes palcos, e por cá, pouco ou nada fazem de grande impacto e que deixe legado.

Na Alemanha, fizeram uma grande aposta na formação em qualidade de técnicos e deram trabalho a estes por todas as equipas de formação, desde distritais até aos clubes de maior nomeada.

Cá poderia-se fazer o mesmo. Temos uma selecção nacional A de topo mundial. Uma selecção que consegue gerar milhões de euros. Temos vários clubes em grandes competições europeias e a chegar mais longe. Ou seja, há dinheiro mais do que suficiente para financiar este tipo de projectos.

Não há é vontade de... partilhar esses milhões... ficam sempre tão bem numa conta individual numa "off-shore", não é verdade?

Grande texto Gonçalo Matos. Parabéns!

Gonçalo Matos disse...

Obrigado!

Concordo com tudo o que dizes. Não sei se tiveste oportunidade de ver a entrevista do Paulo Bento ao trio de ataque mas ele falou do que dizes.
Logo para começar, as nossas selecções não têm um centro de treino comum, o que me parece impensável numa selecção de topo. Depois não há um modelo de jogo global.. Há o 4x3x3 como disposição estática e imóvel mas isso quase sempre houve! Seria importante que se criasse um modelo que se adequasse ao nosso perfil de jogadores, que nem é assim tão diferente do jogador espanhol (tecnicista, rapudo, explosivo).

Mas o que mais confusão me faz é que os nossos jovens não sao aproveitados por clubes de 1ª divisão. Somos vice-campeões sub-20 (apesar da qualidade dos treinadores), o Sporting consegue sempre boas prestações na NextGen, o campeonato de juniores está cada vez mais competitivo...

No volei havia à uns anos uma equipa de 1ª divisão onde eram colocados os sub-21 que não jogavam com assiduidade. Acho uma ideia genial para aplicar no fut11, que beneficiaria muito o nosso futebol de formação e não só.

Edson Arantes do Nascimento disse...

Lembram-se que há dez anos atrás ou coisa assim a selecção espanhola era conhecida como La Fúria? (sinónimo de equipas que jogavam na raça, na correria, na transição)

Este é um dos melhores exemplos para o que está escrito no texto que eu posso encontrar.

E agora? Há quanto tempo deixámos, todos, de fazer referência à fúria espanhola?

Claro que deixámos... O desporto espanhol mudou. Eles agora não são furiosos. São inteligentes. Temos de compreender que eles são campeões em praticamente todas as modalidades - individuais ou colectivas.

Há aqui algo mais profundo, que se conecta com uma ideia abrangente do que é o desporto e de que forma faz sentido fazer desporto. Que foi desenvolvido a nível macro no pós-Barcelona '92.

Serão os espanhóis mais predestinados para jogar futebol, basket, ténis, andebol... Não me parece.

No canto oposto, e já que estamos a falar dos sub-21, eu colocaria como exemplo a Itália. Sinceramente é o tipo de equipas que me incomodam.

Mal orientados, sem um pingo de talento (tirando dois ou três casos), provocadores e que levam para dentro de campo um espírito contrário ao que deveria nortear uma equipa de futebol de miúdos - evoluir, jogar, aprender, desenvolver a inteligência e a capacidade dos atletas.

Fazem-me lembrar a equipa portuguesa vice-campeã do mundo em 2011: aquilo era, basicamente, um desastre em andamento.

Roberto Baggio disse...

Edson, vou ver essa final, ainda só vi os golos e tentar colocar uma análise aqui no blogue.
Abraço

Ronaldinho disse...

Excelente Gonçalo, já há muito tempo que falas da formação espanhola e não só ao nível do futebol. Ainda não tinham demonstrado esta superioridade toda e já o antevias nas nossas conversas.
A lição da Espanha não é sobre futebol (também o é mas não principalmente), a lição que a Espanha nos dá é sobre o valor da formação e de possuir objectivos, metodologias e culturas bem definidas. Não é fazer as coisas à balda e esperar que resultem, não é entregar os nossos miúdos a pessoas incompetentes só porque estas têm um passado no futebol.
E principalmente que uma boa formação vale mais que qualquer interesse financeiro imediato, terá um retorno infinitamente maior!

Edson Arantes do Nascimento disse...

Baggio, não me referia especificamente à final mas a todas as equipas italianas que tenho visto. Mesmo nos clubes!

Do europeu vi apenas trinta minutos da final e a meia-final contra a Holanda - que me pareceu ter muito melhor equipa, jogadores e ideias.

Mesmo que me faça confusão aquela ideia parva holandesa de jogar sempre sempre sempre - e em qualquer circunstância - na velocidade e na profundidade.

Parece-me um erro tendo em conta o tipo de jogadores que eles formam a todo o momento: leves, inteligentes, com muito boas bases... Então porque não jogar de forma um pouco mais inteligente?

Será que eles não vêem os jogos das equipas espanholas? ehehehehehe :-P

P. S. - Gostei muito do comentário do Ronaldinho...

Roberto Baggio disse...

O Ronaldinho é o meu ídolo Edson sabe muito desta coisa. Percebe muito o jogo e mais que isso, percebe muito bem a diferença brutal do resultado imediato e passageiro do Tal legado que o Xavi fala muitas vezes que é duradouro. Ainda assim, acho que vai ser interessante analisar.
Abraço

Gonçalo Matos disse...

Edson, eu concordo contigo em absoluto! O desportista espanhol, qualquer que seja a modalidade, domina em absoluto o que não são aspectos físicos ou técnicos! é para mim essa a grande diferença entre o desporto espanhol e os restantes. Eles além de correr, saltar ou fintar, percebem os aspectos tácticos e teóricos e têm técnicos que buscam constantemente melhorar e inovar.Estão sempre à frente em termos de conhecimento.

Para mim, o desporto é também uma área científica. Há muita coisa que se pode perceber, estudar, aprofundar e melhorar. É preciso que se faça perceber aos treinadores e formadores que o conhecimento tem de evoluir constantemente, é preciso na época seguinte saber sempre mais que na anterior! pegar nas bases do que se sabe e aprofundar algo! já chega de treinadores que mandam gente ir correr pra mata!

Ronaldinho, bastava-me ver um jogo de futsal em espanha ou de basket e perceber que aquilo não poderia ser só talento individual. As equipas espanholas sabem sempre muito e os seus técnicos fazem-te perceber sempre que falam.

Gonçalo Matos disse...

Eu insisto tanto nisto da formação porque pra mim não há maneira mais eficaz de ter sucesso. A nao ser que se tenha dinheiro infinito e se compre talento aos molhos e mesmo isso não resulta sempre.

Há tantos jogadores em Portugal que seriam bem melhores se tivessem passado por melhores treinadores.. Não duvido que tivessemos uma equipa de topo de nível mundial em todos os escalões.

Há uns tempos falava com um amigo sobre a capacidade de se formar extremos em Portugal. Os extremos são provavelmente os jogadores mais habilidosos das suas equipas e são dos que tinham menos tarefas tácticas no antigamente. Pra mim isto só prova que temos talento mas não tinhamos uma formação forte. Conseguiamos aproveitar aqueles que tinham qualidade indiscutivel mas não conseguiamos fazer progredir os que não eram sobredotados de nascença.

Postiga disse...

Tenho pena de não ter encontrado o documento na integra mas há uns anos um tal de Ricardo Costa, conhecido mais por outros motivos, escrevu este artigo: http://www.record.xl.pt/opiniao/cronistas/por%20for%C3%A7a%20da%20lei/interior.aspx?content_id=712119 que foca mil e um aspectos sobre o porquê do sucesso espanhol de há década e meia para cá.Desde coisas minimalistas como por exemplo por os centrais a dormirem no mesmo quarto a cenas muito mais gerais em todo o tipo de desporto. Gostava mesmo de encontrar o artigo total até para o voltar a ler mas era muito interessante

PP disse...

Cada vez dá mais gosto de vir a este blog!

Parabéns aos autores, mas também aos participantes, que acima de tudo saem um pouco do "mainstream" de opiniões que existe à volta do futebol.

Dito isto, e entrando novamente no debate sobre a formação e o exemplo espanhol, não sei se em Espanha apostou-se muito em treinadores qualificados como fizeram na Alemanha, onde em vez de estarem nos clubes em "part-time", como a maioria está em Portugal (têm dois ou três trabalhos e só vão dar treino ao final da tarde/início da noite), estão em "full-time" e têm um vencimento por isso.

Há pois uma profissionalização, que trás imensos benefícios quanto à qualidade da formação.

Primeiro, os treinadores são qualificados, logo com um certo selo de qualidade.

Segundo, estão apenas concentrados no futebol, podendo observar e adoptar estratégias de trabalho para evoluir ainda mais os seus jogadores.

Terceiro, os jogadores irão ter sempre mais apoio dos seus treinadores neste modelo.

Só vejo vantagens, até na empregabilidade de muitos jovens que saem de cursos superiores ligados ao desporto e que muitas vezes têm como destino o fundo de desemprego.

Portugal, poderia muito bem investir nessa área. E, não me venham dizer que não há dinheiro, pois se há área de negócio onde o dinheiro jorra feito catarata é no futebol nacional.

Mais, as associações federativas, os clubes, a tribo de futebol, tem de perceber que tais medidas não é um custo, mas sim um investimento.

Portugal, mesmo com a sua formação a cair aos pedaços (salvo raras excepções), foi o único país europeu a meter dois jogadores diferentes como bola de ouro, na última década (Figo e Ronaldo). Isto significa que temos matéria prima de grande nível. Então porque não apostar mais?

Temos também hoje em dia, dos melhores empresários de jogadores do mundo, capaz de tratar por tu todos os dirigentes dos principais clubes e dos principais campeonatos.

Sendo assim, se tivermos um bom viveiro de futebolistas, teremos com certeza canais de exportação beneficiados. Exportações essas que gerarão muitos, mas mesmo muitos euros para o futebol e sociedade portuguesa. Euros esses que pagarão facilmente o investimento feito, sobrando imenso de lucro e com a vantagem de trazer reputação e qualidade para Portugal.

Actualmente prefere-se importar jogadores, porque na fase de importação e posterior exportação (os jogadores ficam em Portugal em média dois a três anos), toda a gente ganha dinheiro com as comissões (falo dos dirigentes, dos empresários e até dos jogadores, por isso não há gente que fica triste). O problema é que a ganância de quem está à frente dos clubes, em vez de se contentar com um ou outro negócio do género por temporada, fazem isso com todas as posições do plantel, daí termos 25-40% de jogadores lusos por plantel.

Não é por falta de qualidade dos portugueses, é por questões de dinheiro.

As coisas atingiram um tal nível, que toda a gente faz isso e por tal toda a gente se encobre. Daí eu retratá-los como "tribo de futebol". Reparem que são sempre os mesmos ligados ao futebol. Podem mudar de clubes e instituições, mas os rostos são sempre os mesmos.

O Postiga, falou do Ricardo Costa, e esse é um belo exemplo como foi anulado e eliminado por todo o sistema imposto/tribo do futebol.

Podemos continuar aqui a falar da formação e de modelos de formação, mas enquanto este tipo de pessoas estiverem à frente do nosso futebol, o futebol português não passará muito além disto.

Ah! E não vão na conversa de que a culpa é da lei Bosman e cenas do género. Mesmo com a abertura do mercado EUROPEU, os dirigentes sempre tiveram a opção da aposta na prata da casa. Em vez disso apostaram no mercado SUL AMERICANO. O que é que este tem a ver com o mercado europeu/lei Bosman?

Gonçalo Matos disse...

Não conheço muito bem o modelo alemão, mas do que tenho ouvido falar parece-me muito bem estruturado!
Apostar em formar gente competente parece-me sempre bem. Não fazia ideia que havia tanta gente com contratos profissionais, foi pra mim surpreendente!

Por cá contentava-me apenas com ter treinadores com conhecimento de qualidade, mesmo que não tivessem contrato profissional! claro que se possível era muito melhor se estivessem a tempo inteiro, mas acho complicado que aconteça em clubes da distrital..

Acredito que se estejam a mudar algumas mentalidades, nomeadamente no Guimarães e Sporting e mesmo no Benfica a aposta já é outra (resta aproveitar o que de bom se tem feito)

Anónimo disse...

olá Gonçalo!

agora que se fala no Lopetegui como novo treinador para o Porto, tens um palpite se é um risco muito grande buscar alguém habituado a trabalhar com selecções? ou será que o Porto está a fazer do futuro o presente?