Posse de bola no Facebook

Translate

quinta-feira, junho 13, 2013

Mind Games

Era isso que todos os adeptos do Porto pediam.
Afinal, como aqui se vê, ele também os soube fazer.

Fica um excerto da entrevista de Vítor Pereira ao DN:

Foi mais saborosa aquela vitória aos 92 minutos contra o Benfica ou o título propriamente dito?
_ Aquilo foi um momento indescritível. É um campeonato, é uma época de trabalho decidida numa fração de segundos. É uma mistura de sentimentos, uma explosão de alegria, as lágrimas até me vieram aos olhos. Não consigo descrever outro momento emocionalmente tão forte como aquele.

Como é que motivou os jogadores para o jogo?
_ Disse-lhes que bastava sermos iguais a nós próprios, manter um ritmo forte, o entusiasmo. Que recordassem as vezes que o título já tinha sido atribuído ao longo da época ao Benfica.

Estava à espera que o Benfica tivesse escorregado até àquele jogo?
_ Esperava. Até ao jogo do Benfica com o Marítimo o meu discurso era um desafio para o Benfica. Era uma motivação para eles, ultrapassar o desafio que lhes lançava em que dava sempre a sensação de que iam falhar. Naquela semana, achei que tinha de lhes entregar o título. Tinha de fazer o contrário, dar-lhes a ideia de que o título já estava ganho. E queria motivar o Estoril. Quando disse que o Estoril não teria qualquer hipótese, quis transmitir duas ideias. Uma, para os jogadores do Benfica pensarem que nós já tínhamos deixado de acreditar. E outra, para o Estoril, motivando-os no sentido de contrariar o que eu tinha dito. Contei a estratégia aos meus jogadores, disse-lhes: vamos fazer como a cobra, fazemo-nos de mortos que é para no momento certo lhes saltar em cima. Com sorte, sem sorte, ou com boa estratégia, o que é certo é que a coisa resultou.
Viu o jogo do Benfica com o Estoril?
_ Vi. O Estoril não ganhou o jogo, mas mereceu ganhá-lo.
O que é que fez a seguir? Como é que reagiu, a quem é que ligou?
_ A ninguém. Mas precisava daquilo. Sabíamos, a partir dali, que o campeonato estava nas nossas mãos.

No final do jogo com o Benfica, elogiou Jorge Jesus.
_ É verdade.
Vê-o a treinar, por exemplo, um dia, o FC Porto?
_ Possivelmente. Tem qualidade para isso.

O FC Porto perdeu jogadores importantes, Moutinho, James...
_ Isso é o ADN do clube. O de se renovar. Continua sempre uma equipa com uma hegemonia muito grande. As pessoas saem, os jogadores, os treinadores, e o clube continua com uma estrutura forte, com um grande presidente. O FC Porto não vai mudar. Há um espírito competitivo muito forte, vontade de vencer, acreditar sempre até ao fim. E essa união resulta em muitos títulos.
O jogo em Paços de Ferreira foi limpinho, limpinho, ou aceita que aquele lance não foi penálti, foi fora da área?
_ É claro, sem qualquer tipo de problema. E nós ganharíamos sempre. Depois de uma época inteira a trabalhar, tinha a certeza de que a equipa, se precisasse de fazer dois ou três golos, faria.
O FC Porto e o Benfica foram beneficiados pela arbitragem?
_ Às vezes foram, outras vezes prejudicados. Admito claramente um erro, porque também erro. Agora, erros repetidos é que não. Nestes dois anos de FC Porto, tive duas contestações mais sérias. Depois de ver erros repetidos no mesmo jogo, isso ninguém me cala, porque não devo nada a ninguém. Nunca pedi nada, não devo favor nenhum, vivo do meu trabalho. É como na minha vida: nasci num meio pobre, tive de trabalhar muito para chegar onde estou. Sou uma pessoa simples, com uma vida simples, que se apoia totalmente no trabalho e na confiança no seu trabalho, e também na fé. Talvez por isso seja tão criticado: se calhar, para ser treinador do FC Porto precisava de ter nascido em berço de ouro, ter daqueles discursos à político, mas não tenho.

Quando acabou o jogo em Paços de Ferreira, abraçou o presidente no balneário. O que é que disseram um ao outro?
_ Sou uma pessoa grata, que gosta de agradecer a quem trabalhou, acreditou. O que me apetecia era agradecer, um a um, aos meus jogadores, à equipa técnica, ao clube, ao presidente, à administração, adeptos, claques. E às outras pessoas que ficam sempre na sombra, dos roupeiros ao departamento médico... Queria sentir a alegria no olhar das pessoas. É o que nos dá entusiasmo. Porque isto não é uma profissão fácil, é uma profissão de grande desgaste, de uma pressão constante.
E o que é que Pinto da Costa lhe disse?
_ Também me agradeceu, agradeceu o nosso trabalho.
E qual foi o melhor momento desta época?
_ Aquele golo do Kelvin, de um miúdo de uma irreverência... Além da qualidade individual, teve ali um momento de inspiração que resolveu o campeonato. Quer dizer... claro que o campeonato se decidiu em trinta jornadas. E o FC Porto não ganhou, como já li, por demérito dos outros, porque nem uma derrota teve. Só uma em dois anos! Não entendo essa forma intelectualmente desonesta, ou facciosa, de avaliar as coisas. Mas também não me desilude, porque já não me iludo. O FC Porto usa essa revolta interior para se unir e provar que é melhor.

E se não tivesse ganho este título com o FC Porto, também saía?
_ Isso era ponto assente. Partindo de mim a iniciativa. Coloquei-a há muito tempo. Não é nada do que veio nos jornais, que o clube me informara que não contava comigo. Eu é que estabeleci claramente que nem equacionaria continuar se não ganhasse o campeonato. E foi o que lhes disse há uns meses.

Seria capaz de voltar a ser adjunto?
_ Não, isso está fora de hipótese. Ser adjunto foi a decisão mais difícil da minha vida. Não nasci para ser adjunto. Gostei muito da experiência porque o André [Villas-Boas] era uma pessoa aberta, leal, e partilhámos muita coisa. Mas nasci para ser treinador principal, para fazer as coisas à minha maneira, para liderar o meu grupo, para sentir orgulho no meu trabalho. Aquele ano foi um pedido do clube e, por gratidão à minha formação - tinha lá passado cinco anos -, por sentir que era uma oportunidade de trabalhar com jogadores de grande nível, disse que sim e orgulho-me daquela época.
Sonha, algum dia, poder chegar a uma cadeira de treinador no Real Madrid ou no Manchester, por exemplo?
_ Sonho, um dia, ganhar a Liga dos Campeões. Esse é o meu objetivo e um dia vou ganhá-la.
Foi o grande balde de água fria desta época a eliminação pelo Málaga?
_ Foi, porque criámos grandes expetativas. Não estávamos preparados para aquela perda. Passados três dias estávamos a ir para a Madeira e não foi fácil, sabe-se.

O facto de não ter renovado contrato preocupou-o ao longo do ano?
_ Não me preocupou minimamente. Uma coisa nunca me vão tirar: a minha competência. O trajeto que fiz até aqui vai-me permitir trabalhar cá ou noutro lado qualquer. Mas nem eu admitiria, já disse, trabalhar no FC Porto sem ter resultados. Numa estrutura que vive de títulos, é preciso alimentá-la com títulos.
Gostava de ser treinador por muitos anos?
_ Vou ser treinador até quando puder, porque é a minha vida, a minha paixão. Já ouvi alguns colegas meus dizerem «trabalho mais dez anos e acabou». Para mim não dá, vou trabalhar até sentir que já não posso mais. Em toda a minha vida, só estive quatro meses sem futebol. Quando passei de jogador a treinador. E foram os quatro piores meses da minha vida, não conseguia dormir. Trabalhava de noite e de dia para me preparar para ser treinador, porque era o que queria. As ideias eram tantas que não conseguia adormecer. Foi a única vez que vivi sem futebol, e percebi que não consigo.
Alguma vez pensou chegar tão alto?
_ Acredito muito na competência e no perfecionismo. E como sou um lutador, sabia - há já uns anos - que chegaria onde cheguei. Como sei que hoje estou aqui e chegarei mais longe, ganharei uma Liga dos Campeões. Sei que vou lá chegar. Assumo isso: um dia, vou ganhar a Liga dos Campeões.
Ser treinador do FC Porto era, para Villas-Boas, a sua cadeira de sonho. E para si?
_ Uma fase do meu trajeto a que queria chegar. Podia ter feito um trajeto diferente, mas, mais ano menos ano, sabia que chegaria lá. Se gostaria de ficar muito tempo? Sim, claro, mas também sei que isso implica um desgaste muito grande, os adeptos do FC Porto são muito exigentes... E vivo perto... Se o jogo corria bem, podia estar tranquilo e sair com a minha família à vontade. Quando as coisas não correm bem... e isso desgasta. Mas gostava de criar, de implementar uma ideia de jogo. O que me apaixona, no futebol, é criar a equipa com um jogo brilhante, um jogo bonito, de grande qualidade, e isso leva o seu tempo. Mas o futebol não é feito desses projetos, o tempo é curtíssimo.

Como é que são as suas relações com Pinto da Costa?
_ Não sou de falar muito, não sou de manter essas relações no dia a dia. Falava com o presidente, às vezes, uma vez por semana.
Não almoçavam, não jantavam habitualmente?
_ Não. Apenas no dia do jogo, porque ele almoça ou lancha com a equipa. Quando acha que tem de falar... fala. As pessoas têm uma ideia de um presidente controlador. Mas ele é uma pessoa essencialmente inteligente. Aparece quando acha que tem de aparecer. Mas não é, nem de longe, nem de perto, aquela pessoa que define tudo. No FC Porto, o treinador é o treinador, o presidente é o presidente. O presidente nunca quis ser treinador. Temos de estar todos ligados, mas cada um na sua função.
No FC Porto, qualquer treinador arrisca-se mesmo a ser campeão?
_ Muita gente diz que, o ano passado, só resisti porque tinha uma estrutura por detrás de mim que me protegeu. Não há dúvida nenhuma de que quem trabalha no FC Porto sente essa estrutura... Conhe­ço-a bem. Mas, por conhecê-la, sei que não há ninguém sem resultados que resista. Não há ninguém sem competência que resista. E eu fiquei.
Também se diz que o Vítor quase não contribuiu para a construção da equipa...
_ O FC Porto jogou com as ideias de jogo do seu treinador. As opções foram tomadas por ele. É claro que faço parte de uma estrutura maior, não sou ninguém para dizer «quero o jogador A e se o jogador A não vier vou-me embora». Não posso fazer isso no FC Porto, nem em clube nenhum. Se me disserem «não há dinheiro para o jogador A», não não vou tirar do meu ordenado para o ir buscar. Mas se achar que o jogador A, B ou C não está a corresponder àquilo que é o meu jogo, esse jogador não entra.
Mesmo que o presidente ou alguém da estrutura lhe diga «ponha-o a jogar, que a gente precisa de o vender»?
_ Isso é um erro. Quem diz isso não faz a mínima ideia de como esta estrutura funciona. Defendem o treinador e a ideia do treinador até às últimas consequências. Se o treinador entende que o jogador A, B ou C não funciona, põem-se do lado dele. É isso que faz a diferença deste clube.
Lutou contra a saída do Hulk e do Falcão há duas épocas?
_ Não podia lutar.

Tornou-se treinador do FC Porto porque estava no momento certo, na hora certa, ou mais do que isso?
_ Provocação? [risos] Por muito mais. Com toda a frontalidade! Passei sete anos na formação do FC Porto. Depois, por iniciativa própria, pedi para sair sabendo que, normalmente, quem sai, não volta. Mas quis trabalhar com seniores. E voltei! Por iniciativa própria outra vez, pedi para sair novamente e então aí é que não se volta mesmo! Só que as pessoas voltaram a convidar-me e voltei. Pensei que ia fazer um trajeto natural, segunda divisão, segunda liga, primeira liga, mas não foi assim. E confesso que, quando aceitei ser adjunto, terá sido provavelmente o momento ou a decisão mais difícil que tomei a nível profissional.
Porquê?
_ Porque passei de treinador principal, com muito orgulho e com uma carreira de que me orgulhava, para adjunto. Já tinha tudo definido com um clube da primeira liga, mas fui desviado para o meu clube do coração, para um projeto a que não pude dizer que não. Foi a única noite que não dormi por causa do futebol, achava que não tinha perfil para... ser número dois.
O risco que correu valeu a pena?
_ Sim, valeu a pena. Fundamentalmente, entendi que não podia dizer que não a um clube onde me formei, achei que aquele era o momento de retribuir. Também era uma oportunidade, não digo que não, mas foi uma decisão que me custou muito a tomar.
Vai dizer que é outra provocação. Mas diz-se que o FC Porto é um bocadinho como o Barcelona, dispensa treinadores...
_ Não me sinto ofendido, porque quem diz isso quer reconhecer a estrutura e, realmente, a estrutura do FC Porto é de top mundial, permite aos seus treinadores concentrarem-se só no seu trabalho. Mas já vi muita gente passar pelo FC Porto sem sucesso. É muito difícil chegar e, mais difícil, é corresponder ao nível do clube. Não é para qualquer um. A forma como cheguei ao FC Porto é um bocadinho atípica, saí quase do anonimato para assumir o clube num momento excecional, numa época de muitas vitórias.
E isso trouxe-lhe problemas. São conhecidos alguns...
_ Foi o não reconhecimento do trabalho de uma pessoa que esteve na sombra. As grandes expetativas criadas por nós próprios, equipa e jogadores, traduziram-se num contexto dificílimo.
Como geriu aqueles primeiros meses de tensão?
_ Com muita flexibilidade, com muita paciência, a sentir muitas vezes que as pessoas falavam de mim sem me conhecerem. Senti-me injustiçado, algumas vezes pouco treinador, no sentido de não estar a construir o que me faz vibrar no futebol, uma coisa minha, um projeto, uma ideia de jogo. Estava apenas a gerir uma herança, pesadíssima, sem margem mínima de erro.

Presumo que André Villas-Boas o quis levar para o Chelsea. Porque é que em vez desse lugar seguro decidiu assumir o risco de ficar?
_ O André não me convidou só uma vez, convidou-me insistentemente. E só uma coisa me podia desviar de um projeto no Chelsea: um convite para treinar o FC Porto. E o André acreditava sinceramente que o FC Porto me iria convidar. Não foi uma oportunidade de ocasião. Havia muitos treinadores disponíveis, mas o FC Porto optou pelo adjunto da altura. Trabalhei neste clube muito tempo, penso que acreditaram na competência. Mas a herança não foi fácil, os primeiros seis meses foram tremendos, de conflito constante, de choques de personalidade.

Está a falar disso pela segunda vez. Ficou marcado...
_ O único clube que tinha orientado tinha sido o Santa Clara. Jogadores campeões na Liga Europa, de repente tinham à frente o adjunto, o ex-Santa Clara... Houve esse não reconhecimento dos próprios jogadores, dos adeptos, da imprensa. Para mim foi também uma experiência perceber as motivações de jogadores a este nível. Uma coisa é trabalhar com jogadores do Santa Clara, em que o reconhecimento é imediato. Aqui esse reconhecimento tem de ser conquistado com muito trabalho.
Há também uma relação diferente com os jogadores?
_ Nunca fui aquele tipo de adjunto com uma relação pessoal muito forte. Sempre fui mais virado para o que domino, que é o pormenor do jogo e do treino tático, técnico. O Pedro Emanuel, o Zé Mário, provavelmente teriam uma relação mais próxima com os jogadores.
Nunca se sentiu como o special three?
_ Nunca me senti assim, porque, em termos de personalidade, sou muito diferente dos meus antecessores.

A equipa deste ano, foi mais à Vítor Pereira?
_ Sim. Implementei a ideia de jogo que tenho, um jogo de qualidade, de muita posse, domínio. Gosto de dominar os acontecimentos, controlar, de uma equipa que seja proativa, que aja e não reaja. E isso não é fácil de construir. No futebol, é assim: podemos ter uma ideia, mas os jogadores é que vão dando corpo a essa ideia, expressando o seu talento. Temos de encontrar uma forma em que a expressão do talento individual seja organizada. É quase ver um filho crescer. É o que encontro de mais similar ao que é o futebol para mim. Ver crescer uma equipa com uma qualidade de jogo cada vez maior é como ver crescer um filho, uma coisa que é nossa, que vamos modelando, mas sem lhe retirar a expressão. Isso é o que me faz andar na bola, não é o dinheiro.
Foi para isto que pediu tanta paciência?
_ A paciência é importante, mas no futebol é uma palavra que às vezes até confunde. Para expressarmos as nossas competências, temos de ter tranquilidade. A minha equipa conseguiu, apesar de todas aquelas dificuldades, ganhar a Supertaça e o campeonato no primeiro ano. E os factos dizem que depois de uma época de muito sucesso, a época seguinte será um desastre. Não foi.

Mas não acha este lado psicológico, em que o José Mourinho é especialista, importante?
_ É. Mas sou muito mais focado no que é tático, técnico, no que é futebol, porque é aquilo que domino. Se me falarem de futebol, ao pormenor, não tenho dúvida nenhuma de que dou lições às pessoas, mesmo aos que vejo na televisão que parecem catedráticos. Passo horas da minha vida, dias e noites, a refletir sobre futebol. Neste jogo de palavras, nesta relação com a imprensa que também é necessária, neste mundo que é... esta fachada social, continuo exatamente a mesma pessoa.

A sua tese de licenciatura, orientada por Vítor Frade, é sobre o Barcelona de Cruijff. Porquê?
_ O professor Vítor Frade transmitiu-me a capacidade de questionar tudo, de nunca me satisfazer com o que os outros dizem. Argumentar, contra-argumentar, descobrir e redescobrir o treino e o jogo. A partir de determinada altura comecei a questionar o que fazia - joguei sempre nas terceiras divisões, dez anos, e já não tinha paciência para um nível de treino que achava que não estava correto. Foi o professor Vítor Frade que me ajudou com as dúvidas. Na faculdade, na opção de futebol - sabia que era a minha vida - andei um ano completamente apagado, não percebia nada do que ele queria. Eram textos de economia, filosofia, de tudo, menos de futebol. Eu à espera de receita, não encontrava resposta nenhuma. Esse primeiro ano foi uma frustração. Para mim e para todos os alunos. Escrevia frases inteiras dele para tentar decifrar em casa. No segundo ano, de repente, tudo começa a encaixar. A capacidade de refletir e de trabalhar em qualquer realidade, a capacidade de colocar em causa tudo, a todo o momento.
Foi ele que o levou a escolher o tema para a tese?
_ Ajudou, mas eu adorava ver o Barcelona de Cruijff. Escrevi-lhe uma carta, para lá ir, não tive sorte. Mas observei o Barcelona... Tentei identificar o modelo de jogo da equipa. Via as cassetes, puxava atrás, vi oito vezes cada jogo, para tentar perceber claramente quais eram os princípios. E gostei muito.
Utiliza algum daqueles movimentos?
_ Treinar é descobrir e redescobrir coisas, voltar atrás, andar à frente... Adaptar. Eles têm de jogar o jogo deles, só que organizado por mim. Antigamente, as minhas equipas jogavam o meu jogo. Mas mudei a forma de ver as coisas. Andei durante muito tempo a pensar que se podia defender à italiana e que se podia jogar com aquele... Barcelona. Mas é impossível.
Como é que começa a sua carreira de treinador?
_ Com uma lesão e uma certa saturação. Daquele treino sem condições. Já estava um bocadinho cansado aos 28 anos. Lesões mal curadas, umas atrás das outras, tive uma hérnia que me obrigava a tomar muitos anti-inflamatórios e parei. Estive quatro meses... em casa. Mas foi impressionante, não conseguia dormir.

É mesmo obcecado por futebol?
_ Estou sempre a pensar em futebol, sempre...

Se há jogos que lhe correm mal, revê-os para perceber os erros?
_ É claro que sim. Vejo tudo e o que é que falhou.
Quantas vezes?
_ Com a experiência que tenho, normalmente a ideia com que saio do jogo já é muito aproximada daquilo que falhou. Mas depois vou ver ao pormenor o que é que falhou e onde estivemos bem. Como sou muito exigente comigo, antigamente cometia o erro de ser obcecado pelo pormenor e muitas vezes podia fazer dez coisas boas, mas se fizesse uma mal, era nessa que eu ficava focado. Agora mudei. Não o transmito aos outros. Não estou a ver a minha equipa a evoluir pela apresentação dos erros que cometeu ou por aquilo que não fez, mas sim pelo que já fez de bom.
Fala com cada um dos jogadores?
_ Delego funções, cada um dos adjuntos tem uma. Um disseca ao pormenor o individual. Outro anda toda a semana à volta das bolas paradas. O observador está toda a semana a discutir comigo o adversário. Outro faz a ligação do balneário, a relação dos jogadores, os problemas, e transmite-me.
Mesmo os problemas pessoais?
_ Até esses. Tem mesmo uma relação muito próxima com eles.

Costuma dizer «ainda não viram nada». O que é que falta ver?
_ Muita coisa, muita coisa. Acho que tenho tanta coisa ainda para descobrir no futebol. A cada esquina descubro uma coisa nova e sei do que sou capaz. Sei a força interior que tenho, que me distingue.
Qual é a equipa que mais gosta de ver jogar, fora o FC Porto?
_ O Barcelona.
Qual é o melhor jogador do mundo? Não vale nenhum do FC Porto...
_ É difícil responder. Metade Messi, metade Cristiano Ronaldo, e um bocadinho do Iniesta.
E o melhor treinador do mundo?
_ Também uma mistura. O melhor treinador do mundo não é o melhor treinador do mundo, é o melhor projeto de futebol apresentado. O jogo do Guardiola é lindíssimo. Mas tenho de reconhecer também que o Zé Mourinho, que já ganhou em tanto lado, tem de ser mesmo diferente dos outros.
A melhor equipa portuguesa de sempre?
_ Adorei ver jogar o FC Porto do Mourinho na Taça UEFA. No segundo ano, na Liga dos Campeões, já foi muito mais racional, estratégica. Gostei também muito de ver a que ganhou a Liga dos Cam­peões, que era uma equipa maravilhosa.
E a melhor equipa estrangeira de sempre?
_ Acho que foi o Barcelona do Guardiola.
Faça o melhor onze de sempre do FC Porto.
_ Guarda-redes, lá está, uma mistura entre o Mlynarczyk e o Baía. Se disser que é o Mlynarczyk, estou a ser injusto com o Baía, se disser que é o Baía estou a ser injusto com o Mlynarczyk. Uma mistura entre os dois.
Siga, para o resto... Defesa -direito?
_ Eu gostava muito do Gabriel mas também era aí uma mistura entre o João Pinto e o Gabriel. Os dois centrais? Aquela classe do Aloísio e a agressividade de um Fernando Couto ou de um Jorge Costa. A lateral-esquerdo gostei muito de ver jogar o Branco. No meio-campo tínhamos o Deco, o Oliveira... depois aqueles trabalhadores, o Vasquinho... Nas alas, o Futre, gostava muito do Kostadinov, e o Madjer era um regalo! E na frente tivemos o «bibota» [Fernando Gomes], o Jardel também nos deu tanta coisa. Devia ser ali entre um e outro. Mas houve mais gente de grande qualidade. O Drulovic, lembrei-me agora, o Jaime Magalhães...


10 comentários:

DC disse...

Adorei a entrevista, demonstrou uma grande humildade e frontalidade e essencialmente vontade de continuar a melhorar.
Espero que a experiência na Arábia seja curta porque ele tem que estar a treinar é em Espanha, Itália ou Inglaterra.

Seria muito bom ter VP contra AVB e Mourinho na Premier.

Anónimo disse...

Depois de ler esta entrevista só fico com a certeza de que Vítor Pereira nunca será um grande treinador.
"não se esqueça que para ser treinador de futebol, é preciso saber mais do que futebol, porque futebol não é só atividade física, é humana também, tudo o que é humano está no futebol. Se só sabes de futebol, ainda não chega para ser treinador de futebol»,
A frase do Manuel Sérgio já é muito conhecida, mas parece me que estas competências não se aplicam ao Vítor Pereira, tal a forma como ele assume ser absorvido pelo lado táctico. Tem imensas dificuldades do ponto de vista relacional com o grupo.

Anónimo disse...

Dificuldades que foram, por exemplo, evidenciadas no relacionamento com o Fernando, com o Maicon, com o Kelvin, com o Lucho...

Cumprimentos,
António Teixeira

SLBenfica Vencedor disse...

Parece ser um pouco frio nas relações pessoais. Sobre a competência técnica acredito que ninguém duvide.

O presidente do FCP deu a entender que para além de ganhar quer ver futebol bonito, algo que pelos vistos considera não ter visto nestes últimos dois anos.

Sinceramente, clubismos à parte, não achei o futebol do FCP muito empolgante durante os dois anos do VP. Muito mais empolgante o do AVB, embora seja importante reconhecer que este último plantel do FCP foi o mais fraco dos últimos três anos, sem Falcao (que ja tinha saído) e sem Hulk.

Roberto Baggio disse...

Boas malta, coloco a mesma questão a todos que partilham da ideia de dificuldade de relacionamento com jogadores ou o foco por excesso nas questões tácticas... Vocês acham mesmo que isso é fundamental para que o treinador tenha sucesso? Se tivessem de colocar em percentagem quais as qualidades que fazem um treinador de sucesso, poderia dar para perceber a vossa ideia.
Abraço

SLBenfica Vencedor disse...

Caro RB,

Eu acho que a componente táctica é fundamental e de longe a mais importante de todas.

O problema é que se não houver aquela GRANDE EMPATIA, aquela grande vontade de LUTAR POR UMA CAUSA COMUM, aquela vontade de deixar a pele no campo pelo treinador, pelo clube, pelos adeptos, talvez também a vontade de BRILHAR, de "FAZER BONITO"... tudo se torna demasiado endafonho, mecânico.

O FCP do VP a defender era realmente uma máquina, sofreu poucos golos, cometeu poucos erros. A atacar também era eficiente, porque também marcou muitos golos.

O problema é que quase todos, incluindo os portistas, se queixavam de ser um futebol pouco atractivo, pouco vivo, pouco vibrante... são as tais questões "estéticas", irracionais, talvez inefáveis aos mais leigos, que sentem que falta qualquer coisa mesmo que não percebam o que falta.

SLBenfica Vencedor disse...

Off topic:

Que pensam de os 90 minutos de relógio sempre a contar serem substituídos por menos tempo, mas com cronómetro a funcionar sempre que a bola pára?

Um abraço

Roberto Baggio disse...

Acho que teria de ser muito bem pensado, mas traria benefícios ao nível do Fairplay. Mas isso iria fazer também com que o tempo total de jogo das equipas fossem muito díspares, e em termos físicos traria diferenças, talvez, fundamentais de umas para outras equipas.

SLBenfica Vencedor disse...

Sim, tens razão. Alguns jogos demorariam 2horas, outros 1h15... é disso que falas, não? (De jogos com paragem constante do cronómetro, e outros não)

Roberto Baggio disse...

Exacto